Clarice Dall’Agnol

Literatura

Crônicas de Viagem – Nova Zelândia: chegando ao fim

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Continuamos viagem em direção à Queenstown com uma parada encantadora em Haast, onde visitamos as incríveis Blue Lagoons. Na Nova Zelândia, a cor azul é algo totalmente inesperado, um tom que nunca vi em nenhum outro lugar, que assusta os olhos de tanta beleza.

A estrada que leva à “cidade da rainha” é belíssima, com vários trechos cruzando lagos e montanhas e dezenas de paradas, um passeio por si só, que culmina na charmosa cidade aos pés dos Remarkables. Essa cadeia de montanhas espetaculares revela a cada momento do dia, uma visão diferente, de acordo com a luz incidente e as nuvens que a circundam. Outros passeios a serem feitos sem qualquer pressa são o caminho à beira do lago Wakatipu observando as árvores frondosas e o jardim das rosas coloridas que são uma festa aos sentidos. Ficamos acampados em Kingstown, cidade vizinha, e lá fizemos o nosso primeiro barbecue versão Neozelandesa.

Em Queenstown, reverenciamos o novo ano ao som de Dire Straits, numa linda e fria noite de lua cheia.

Literatura

Mar de rosas

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imagem: Carla Lund

por Clarice Casado

Vai ali um pouquinho, e suga a essência da vida, porque isto não é para qualquer um. De uma hora para outra, podes querer te jogar embaixo de um trem. E no dia em que fizeres, todo mundo vai parar para ver. Ficar curtindo a tua morte. Testando o poder de aguentar no osso a dor alheia. Não pediste para nascer, certo? Então, porque a pressa? Não sabias que a vida seria assim contigo. Ninguém sabe, meu amigo. Só se sabe um pouquinho, ao longo da jornada. Nenhuma lição, ou conselho, ou conversinha ao pé do ouvido adianta muita coisa, não. Ao menos, nunca funcionou para ti. Se tivesse funcionado, não estarias agora parado perto da plataforma do trem, calculando a desgraça. Todos estão passando, todos esperando, todos trazendo um poema em cada pé. Todos acostumados com o que estão acostumados. A isso chamamos de rotina, né? Dela, nunca gostaste. Foi ela que te trouxe hoje aqui. Ela, e todos os teus problemas esquizofrênicos somados. Ela, e a tua infância desgraçada, e a tua adolescência desvairada, e a porcaria da tua vida adulta (que agora está prestes a se encerrar, mas ninguém sabe). A maldita da rotina, que todos os que aqui estão experimentam sem cessar, num vai e vem insano, de acorda, sai, trabalha, sente, sofre, dorme, acorda de novo. E repete, repete, repete. Numa ciranda sem fim, desenfreada e sem graça. Todos te olhando. Ninguém te olhando. Todos olhando para o nada. E para o tudo, ao mesmo tempo. Todos girando. Estás vendo? Estás sentindo? Está vindo. Vai, segue em frente. Não vale mais a pena ficar. Ela está te esperando, olha ali. Isso, enfrenta. Deixa de ser frouxo. Mergulha, vai. Isso, muito bom. Agora, acabou. Bem fundo, naquele imenso mar de rosas.

Música

Um homem livre

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por Cassiano Rodka

Em seu novo disco, Aaron Freeman exorciza seu passado e abraça a liberdade de ser um novo homem.

Depois de 25 anos como frontman do Ween, o músico se viu em um beco sem saída. Musicalmente, ele sentia que a banda não tinha mais nada de novo a dizer e seu relacionamento com o velho parceiro musical, Mickey Melchiondo, estava indo de mal a pior. Depois de um show em que mal conseguiu tocar de tão bêbado, Freeman decidiu que estava na hora de realizar algumas mudanças na sua vida. Entrou em uma clínica de reabilitação e saiu em busca de um novo caminho musical para si. Sóbrio e renovado, lançou em 2012 um álbum de covers do compositor folk Rod McKuen. O clima tranquilo e as letras reflexivas davam o tom da nova persona de Aaron Freeman. Um homem em paz consigo mesmo.

Agora, em julho de 2014, o cantor e guitarrista lança seu primeiro disco de composições próprias desde o fim do Ween. Intitulado simplesmente “Freeman”, o álbum traz doze composições que passeiam entre o folk e o rock, com letras confessionais e, é claro, uma dosezinha de psicodelia.

O disco começa em clima de desabafo, com o cantor contando sobre seus sentimentos em relação ao Ween e à sua dependência alcoólica na bela “Covert Discretion”. A faixa é basicamente voz e violão, evidenciando o tom de conversa íntima. Depois de contar os altos e baixos de uma fase difícil da sua vida, Aaron termina a canção com um mantra super especial: “Fuck you all, I got a reason to live and I’m never gonna die”. Está dado o recado! O passado está morto e enterrado, ele agora é um novo homem.

A nova fase fez bem ao músico, que conseguiu se reinventar, sem deixar de lado o seu passado musical. Ecos de Ween são inevitáveis, como o próprio Freeman declarou, e estão claramente presentes no ótimo single “The English and Western Stallion” e na orientalesca “El Shaddai”, que remete a faixas como “Buckingham Green” e “I Can’t Put My Finger on it”.

O compositor também citou Paul McCartney como influência: “Se ele conseguiu acabar com os Beatles e seguir uma carreira solo, por que eu não conseguiria fazer o mesmo com o Ween?”. Talvez a faixa que mais lembre o começo da carreira de Paul seja “Delicate Green”, mas creio que os discos solo de outros integrantes dos Beatles também tenham servido de inspiração para Freeman, bem como os próprios lançamentos dos Beatles. Impossível não pensar em “While My Guitar Gently Weeps” escutando a balada “(For a While) I Couldn’t Play My Guitar Like a Man”. Já “More Than the World” é puro John Lennon na época do “Imagine”, com uma letra pessoal e frágil e um arranjo simples e direto.

A audição de “Freeman” é excelente do início ao fim. Posso dizer que não há uma faixa sequer que eu desgoste. Se este é o novo Aaron Freeman, estamos muito bem servidos e sobreviveremos a um mundo sem Ween.

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Música

Fé renovada

por Cassiano Rodka

Depois de 17 anos sem gravar material inédito, o Faith No More apresentou este mês duas novas canções que devem fazer parte do novo álbum da banda. Sim, NOVO ÁLBUM!!

No final de maio, os fãs do Faith No More foram surpreendidos por um post no então recém criado Twitter da banda. Uma selfie do vocalista Mike Patton acompanhava uma declaração: “A turnê de reunião foi divertida, mas agora está na hora de pormos a criatividade para funcionar”. Estava decretada a volta oficial do Faith No More.

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Com dois shows marcados para julho, a expectativa era grande. Como se suspeitava, o grupo apresentou duas músicas inéditas… vestidos de padre! A primeira, “Leader of Men” (ou “Superhero”, ambos títulos não oficiais), traz ares orientais no teclado e na guitarra, acompanhados de um baixo de ritmo cavalgante. A canção parece ser uma sequência natural do som do último disco da banda, “Album of the Year” (de 1997), e é um bom exemplo do que pode vir por aí.

A segunda novidade, “Motherfucker”, é ainda mais surpreendente, pois conta com o tecladista Roddy Bottum nos vocais e um instrumental hip hop pra lá de minimalista. Bottum, aliás, parece ter bastante mão nas novas canções, já que ambas são bem calçadas nos seus pianos cinematográficos. A repetição da frase “Get the motherfucker on the phone” durante a música garante que a melodia se instale na sua cabeça logo após a primeira audição. (Tão avisados, hein?)

Além das duas novas canções, voltaram a tocar “Matador”, faixa inédita que apareceu no setlist de três shows da banda em 2011, sem ser ser anunciada ao público como uma novidade. O mistério logo causou alvoroço na internet e o grupo desconversava sempre que se perguntava sobre a música, deixando em dúvida se seria uma novidade, uma velha faixa inédita ou mesmo uma cover. Em retrospecto, fica claro que os músicos já estavam compondo novas faixas e decidiram experimentar uma delas ao vivo para ver a reação dos fãs. “Matador” é uma música grandiosa que remete ao som do álbum “Angel Dust”, com teclados climáticos e um vocal inspiradíssimo de Mike Patton. Enquanto o novo álbum não vem, o negócio é assistir esses vídeos no YouTube. Em loop!

May the dead live!!

Literatura

Presença

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Estamos nas paredes, misturados ao concreto dos tijolos, dentro da terra, presos às raízes das jabuticabeiras, em pedaços de giz de cera, embrenhados no rejunte das tábuas corridas, os cavaleiros, os reis e rainhas, os dragões de sete cabeças somos nós, ao rangido das cadeiras e ao seu desconforto, pertencemos, a frase entalhada na madeira começou a ser escrita por nós, há muitos e muitos anos, estamos uns nos outros.

Literatura

Musicando

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imagem: Carla Lund

por Isabel Dall’Agnol

Brinco com cordas.
Agito harmonias.
Mergulho em tons.
Deito na melodia.

Visto-me de memórias.
Entrego receios.
Guardo segredos.
Coleciono sentidos.

Armo uma peça.
Invento cenários.
Crio personagens.
Tricoto dizeres.

Inspiro sonhos.
Derramo lágrimas.
Aqueço amores.
Sossego angústias.

Alivio no teu leito.
Perco as horas.
Descanso o pensamento.
Encontro o motor.