Clarice Dall’Agnol

Música

Monks: Punk na era do iê-iê-iê

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Uma das últimas aquisições que fiz em 2014 foi uma edição em vinil do “Black Monk Time”, único disco do Monks. O álbum, lançado em 1966, é uma pérola perdida no tempo.

A história do Monks já é curiosa por si. A banda surgiu da reunião de cinco soldados norte-americanos que prestavam serviço militar em uma base em Frankfurt na Alemanha. Nenhum deles estava interessado em servir e, assim que tinham tempo livre, eles se reuniam para tocar rock.

 

 

Fugindo do estilo pop que dominava as rádios da época, a banda decidiu experimentar com o seu som até que ele tivesse uma cara própria – Beatles e Beach Boys eram referências do que eles NÃO queriam fazer. Focando as canções mais no ritmo do que na melodia, o grupo acabou criando um som distinto, que já catava algumas pedras que só surgiriam décadas mais tarde, como a repetitividade da música eletrônica e a simplicidade agressiva do punk.

Batidas tribais, riffs de guitarra hipnóticos, baixo distorcido, teclados nervosos e um vocal falado entrecortado por frases repetidas à exaustão. Não era nada convencional para a época, portanto não é de surpreender que o público nunca tenha entendido direito o que eles estavam fazendo. Para completar, os músicos se apresentavam vestidos de monges, com cortes de cabelo estilo franciscano (sim, tigela com um buraco no meio da cabeça) e cordas penduradas no pescoço. E, é claro, tinha David Day tocando um banjo elétrico. Os shows tinham um clima caótico e barulhento, com espaço para improviso e experimentações.

 

Em 1967, a banda chegou a lançar dois singles um pouco mais convencionais (que estão incluídos como bônus no vinil), mas ainda assim eram muito à frente de seu tempo para as rádios. Sem ninguém entender nada, a banda acabou decidindo se separar.

Com o passar do tempo, o disco foi redescoberto e passou a ser citado como influência por músicos como Jack White, Iggy Pop e Jello Biafra, impulsionando um novo interesse na banda. Em 1999, 33 anos depois de lançarem “Black Monk Time”, o grupo fez o seu primeiro show nos Estados Unidos. A apresentação foi gravada e virou o ótimo CD “Let’s Start a Beat! Live from Cavestomp!”.

Desde então, o Monks fez mais alguns shows esporádicos, mas, com a morte de alguns dos integrantes, incluindo o guitarrista e vocalista Gary Burger em março de 2014, a louca e breve carreira da banda parece ter chegado ao fim. Mas a música produzida por eles permanece.

Literatura

To love

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

As long as we still remain side by side
For years and years I would dare say
To me there is nothing else that could die
Within me you have never been away

Though rocks and nails we found in our path
A long road we had to share to be there
Roots helped us to build our common nest
Our true will was ripen as a pear

During these years we have all matured
The promises and dreams grew back alive
Our feelings and reasons were so pure
We know that endlessly we need to fight

For love, my love, can be both good and bad
Nothing is only what it seems and lasts.

Literatura

O quartinho

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

A inspiração é, para mim, um quartinho. Quando entro nele, o mundo lá fora desaparece. E eu fico fechado no cubículo, flutuando no espaço, deixando as palavras fluírem. Posso passar meses no quartinho esculpindo histórias. Tempo não é problema, palavra errada é. Gosto da história, mas gosto mais ainda da roupa que ela usa. Um conto decotado é irresistível. Não é começo-meio-fim, é um redemoinho que te põe dentro da história de tal maneira que parar de ler significa ser catapultado a uma realidade a qual o leitor não mais pertence. A maneira que as palavras se ordenam para contar uma história faz toda a diferença. Eu sou aquela professorinha que organiza a fila, mas minha ordem independe de tamanho, tem a ver com fluência. Se for instigante que Joãozinho seja o primeiro e Fernandão o próximo de cabeça para baixo, assim será feita a fila. Sinto que é meu dever criar o redemoinho. Evitar a fila em ordem de tamanho, experimentar diferentes roupas em diferentes histórias. Deixar que sejam inspiradoras, ridículas, adoradas ou execradas. Desde que sejam redemoinhos. Que te suguem, te façam girar, te cuspam e te deixem zonzo. No fim do texto, tu talvez não saibas qual foi a história. Mas ela permanece contigo.

Literatura

Microgramática Concisa de Poemês

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Vai ver que foi porque meus pais me deram um nome de escritora. Será? Nasci predestinada a escrever? Ninguém escolhe ser escritor. O ofício de escrever é que nos elege. Esta sina é fogo. Parece leve. Parece uma tarefa simples. Não é. É dolorosa, na maior parte das vezes. Mais doída ainda quando é poesia. De tanto escrever, formulei umas regras básicas do poemês, umas “normas”, ou simplesmente constatações sobre o ofício de “poemar”. Aqui, seguem elas:

Falo em poemês várias coisas que sufoco. Acho que é isto. Tanto que me sinto aliviada toda vez que escrevo. O poemês é língua que cura os males da alma. Ah, que poético…

Constatação minha: no poemês, digo o que não consigo e o que não posso dizer. Funciona como nos sonhos: sonhamos com o que queremos, mas que não podemos fazer, muitas vezes.

O poemês só é compreendido por quem conhece bem o poeta. Sei disso, porque compreendo o poemês de alguns poetas com quem me relaciono. E as pessoas que me conhecem bem me contam que me imaginam falando o poema em voz alta, e sabem exatamente o que estou querendo dizer. Será?

Não adianta tentar traduzir poemês. Tarefa inútil. Poemês não tem tradução. Língua estranha. Ou o sujeito entende, ou não. Me irrita quem pede explicação para meus poemas. Ato de amor é dizer que adorou a poesia, e pronto.

O poemês não tem regras gramaticais rígidas. Esta é a parte boa, diriam os que não gostam de gramática. Esta é a parte especial, diriam os poetas. As regras do poemês vão sendo criadas à medida em que nascem os poemas.

É possível ensinar poemês. Ou melhor: é possível conduzir um aprendiz de poemês, com uma mão bem levinha. E muito carinho. Nada de pressão. Nada de imposição. Já guiei alguns aprendizes dessa bela linguagem. E já fui conduzida também. Prazeres indescritíveis. O verdadeiro poeta nasce sabendo poemês. A vida só aprimora o que a natureza lhe dá de presente.

Mesmo que eu tente, sei que meu poemês nunca ficará enferrujado. Posso até parar por um tempo, posso tentar fugir dos meus versos, mas não há solução: eles me perseguem, constantemente, em todos os momentos, em todos os lugares. A voz interna do poeta é o alimento do poemês. Para sempre.

Música

Os melhores de 2014

melhoresde2014

Discos acústicos, riffs pesados, experimentalismos e eletrocumbia. Para mim, esse foi o melhor de 2014!

Andy Cairns – 53 Minutes Under Byker
O vocalista e guitarrista do Therapy? mostra o seu lado acústico da maneira mais punk possível. Sem orquestra, percussão ou arranjos pop, Andy Cairns decidiu apresentar suas canções com apenas voz e violão, gravando ao vivo, sem overdubs. O disco inclui músicas de sua banda e faixas inéditas, e soa como se o músico estivesse tocando no quarto pruns amigos. Bom demais!

Afghan Whigs – Do to the Beast
O tipo do discaço de rock que não vai tocar nas rádios, mas deveria. Peso com groove, com belos riffs de guitarra e aquela voz rasgada do Greg Dulli que só ele! As músicas são muito bem arranjadas e a produção é impecável. Estiveram em São Paulo neste ano, mas cancelaram Porto Alegre por falta de público… :(((((

Pixies – Indie Cindy
Muitos torceram o nariz, mas eu achei o novo álbum do Pixies um belo dum disco. Sem se apegar demais ao passado, a banda deu uma renovada no seu som, mostrando diferentes maneiras de se cozinhar um bom hit indie.

Triggerfinger – By Absence of the Sun
Uma das melhores bandas de rock a surgirem nos últimos tempos, o Triggerfinger tem em “By Absence of the Sun” provavelmente o seu melhor disco. Com referências noventistas e contemporâneas, o trio constrói músicas enérgicas e contagiantes, com destaque para “Perfect Match”, certamente um dos singles do ano!

Freeman – Freeman
Em seu segundo álbum após deixar o Ween, Aaron Freeman espanta alguns fantasmas do passado e abraça um novo futuro. Com uma boa banda de apoio, o guitarrista apresenta composições confessionais que falam sobre renovação. Difícil escutar o disco e não levar para a casa o mantra: “Fuck you all! I got a reason to live. And I’m never gonna die!”.

Le Butcherettes – Cry Is for the Flies
Sob o comando da doidona Teri Gender Bender, a banda Le Butcherettes faz um punk feminista com poucos acordes e muita atitude. Em “Cry for the Flies”, a vocalista explora bastante o som do teclado, fazendo uma barulheira com teclas distorcidas e batidas estouradas. Música para se jogar nas paredes!

Blondie – Ghosts of Download
O novo disco do Bondie traz a banda em uma incursão eletrolatina. O inusitado casamento do new wave com a cumbia resulta em um disco festivo e divertido, com participações da banda colombiana Systema Solar e da cantora Beth Ditto do Gossip. O álbum inclui um segundo CD com regravações de vários hits do Blondie, celebrando os 40 anos da banda. As versões são quase idênticas às originais, eu realmente não entendi… Mas o primeiro CD é tri!

Mexican Dubwiser – Electric City
O DJ mexicano lança seu segundo disco e mergulha ainda mais fundo na sua peculiar mescla de eletrônico e hip hop com cumbia e ritmos latinos. O single Bad Behavior, que é uma ótima música para as pistas, ganhou também uma ótima versão soul. Bom para dançar do começo ao fim!

Magnus – Where Neon Goes to Die
Depois de 11 anos sem lançar material inédito, o duo eletrônico finalmente retornou à ativa com um disco cheio de referências oitentistas, mas sendo ao mesmo tempo atual e relevante. Continua sendo uma das bandas eletrônicas mais bacanas que tem por aí, pois a dupla se mantém experimentando com novas misturas sem o menor medo de se arriscar.

Keziah Jones – Captain Rugged
O guitarrista nigeriano – que muitos consideram o novo Jimi Hendrix – apresenta uma nova seleção de músicas compostas dentro do gênero que ele criou e chama de blufunk. Refletindo a modernidade da África contemporânea, o disco mergulha em referências futuristas e tribalistas, criando uma sonoridade espacial e orgânica. Esteve no Brasil neste ano e foi um showzaço!

John Zorn – The Last Judgment
Joey Baron na bateria, Trevor Dunn no baixo, John Medeski nos teclados e Mike Patton no vocal. Não tinha muito como dar errado, né? O quarteto dá vida a esse que é o sétimo disco do projeto Moonchild do compositor avant-garde John Zorn. Possivelmente o mais acessível dos 7 álbuns do grupo, “The Last Judgment” explora um lado mais silencioso e emocional, criando agradáveis momentos de paz por entre a barulheira típica do quarteto. Noise-rock da melhor qualidade!

Tētēma – Geocidal
Entrando na lista nos últimos minutos do segundo tempo está o recém lançado projeto do pianista Anthony Pateras com o vocalista Mike Patton. A proposta de Geocidal é derrubar as barreiras que separam um lugar de outro, eliminar características culturais e deixar que tudo seja uma coisa só. O resultado é um disco com referências musicais diversas, bem climático e imersivo. Tudo soa muito orgânico, o que me chamou atenção em uma época em que os discos são tão dependentes de tecnologia digital. Há bastante espaço para elementos eletrônicos, mas é tudo muito vivo e fluido. Vale a viagem!

Faith No More – Motherfucker
Sim, é um single. Mas é o novo single do Faith No More!! Curta, climática e misteriosa, “Motherfucker” funciona realmente como um teaser para o novo álbum da banda. Com apenas 4 notas no piano e uma batida com andamento de marcha, a música é quase uma vinheta minimalista. Os vocais são declamados pelo tecladista Roddy Bottum, que depois ganha a companhia sempre bem vinda da voz de Mike Patton caprichando no refrão. A guitarra vai surgindo de canto e toma conta da música no final, mas quando parece que o bicho vai pegar, ela termina. Sim, um verdadeiro teaser! E fica aquele gostinho de quero mais… Motherfuckers!…

Literatura

Correspondências parte 11

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

João,

“Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender a viver é que é o viver, mesmo.”

Acredito que, como Riobaldo, nosso ofício requer estarmos dispostos a vender nossa alma a ele, ou ao menos, a fazer com ele o pacto.
Seu amigo vai indo bem, se equilibrando como pode (uma vez que minha sombrinha
caiu precipício abaixo). A vida sem Ana não é. Todas as vezes em que me
sento em frente à máquina, meus dedos correm pelas teclas e vejo meu
indicador parar na letra “A”. Lá ele se demora, até eu me levantar
esgotado e ir até a janela fumar um charuto. É um alívio ver que a vida
continua apesar de minha inércia. Os homens andam apressados carregando
suas pastas pretas, as mulheres correm da chuva erguendo a baia das
saias, os cachorros reviram as latas de lixo, tudo caminha lá fora de
mim. Aqui dentro meu EU preenche-me de tal maneira que não consigo
escutar os OUTROS. Quero viver o perigo que me espera e por ele anseio a
cada dia.

Escrever-te estas cartas é o que resta de minha literatura por hora.

Aguardo teus comentários a respeito do capítulo final como aguardo ao sol ceder à lua depois de mais um dia escaldante.

Nos encontramos…

Vinícius.

Literatura

A artista e a arte

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Sempre que tem uma exposição pronta, a artista sente-se totalmente despreparada. De seu mundo de tintas e cores, ela aterrisa em um território cinzento e alienígena. Mas o que ela pode fazer? Ela pinta um sorriso na cara e vai.

Fechar com uma galeria é sempre estranho, pois ela se sente cafetina e puta em um só coração. Alguns pedem que ela explique o trabalho, mas ela é artista e não tradutora. Ela não quer dizer nada com os seus quadros, ela quer que você o diga.

Durante a organização do evento, o que mais ocorre é desorganização. Ela roi as unhas, sofre por antecipação, quer que tudo dê certo – mas nada tudo certo dá.

No dia da estreia, ela passeia em meio às obras, tão inovadoras para os outros, tão velhas ideias para ela. Não que não se orgulhe de todas, mas sua cabeça já está pintando com outras tintas. Para a artista, o que é de hoje já expirou.

Enquanto seus quadros estão pendurados na parede, encontra-se ela também exposta. Sua visão emoldurada passa a ser analisada por outros olhos, que, por sua vez, terão sua própria visão. E quando encaram um quadro é como se estivessem olhando diretamente nos olhos dela. Mas cada um enxerga alguém diferente no rosto da artista. Ela é um gênio da arte, mas é também uma velha pretensiosa. É uma artista sem igual, mas parece que mal sabe desenhar. É um colosso e um lixo. As opiniões diferem tanto que se anulam. Para a artista, ela apenas é.

A beleza de sua arte surge na criação. O que é feito da obra depois já não é sua responsabilidade. E não importa que venham 800 pessoas ou 16 (a galeria discorda), ela mostra o que sente que tem que mostrar. Ela mesma assume que não entende essa vontade de abrir a cabeça e deixar as ideias derramarem-se pelo chão, de pendurá-las de uma maneira específica pelas paredes, de esperar que as pessoas encontrem algo entre um salgadinho e outro, entre uma tacinha de champanhe e dois beijinhos. Talvez seja essa a maneira dela dançar, de se despir na frente dos outros, de abrir os braços e deixar que joguem-lhe ovos ou encham-lhe de beijos. Toda obra é uma forma de nudez.

Quando o evento acaba, ela sente-se um tanto aliviada. Veste sua timidez, recolhe sua voz e retorna para o seu mundo.

Literatura

Contrassenso

contrassenso
imagem: Carla Lund

por Isabel Dall’Agnol

Prendo segredos
e libero desejos.

Prefiro exilar
e renego a solidão.

Agarro existência
e desperto utopia.

Visto vaidade
e descalço nua.

Sou de esquerda
e me formei em direita.

Pretendo o mundo
e me encosto no porto.

Vou no pelo,
detesto pelo.
Não te leio,
escrevo.
Sugo essência,
disparo alma.
Ando com medo,
corro risco.
Reluto ao amor,
venero a paixão.

Amarro,
solto.

Esqueço.
Desmereço.
Aborreço.

Desfruto.
Luto.
Escuto.

Mergulho em paradoxo.
Acredite no que digo…
Troco tudo em instantes.