Clarice Dall’Agnol

Literatura

História

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imagem: Alessandra Giacomin

por Isabel Dall’Agnol

Uma parte ficou para trás.
E, ainda que eu lute, relute,
aperto e desperto com falta.

Independe de mim.
E, dependendo da melodia,
balança o compasso
e me perco no espaço.

E de que adianta…
Quando nada
de mim
se arranca?

E de que adianta…
Se todo o encanto
agora espanta?

Utopia.
Fantasia.

Invenção.
Inversão…?

Desatei
em ironia.
Sussurrei
em agonia.

Se não passou
de trapaça,
por que ainda
ameaça?

Teu silêncio confirma
o que minha mente
afirma.

Não passas
de armadilha,
amontoada em
uma pilha.

Literatura

Se

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

E se eu pudesse ler melhor a alma, seriam todas as possibilidades infinitas?

E se os cheiros não me perturbassem tanto, faria eu, ainda assim, belos poemas?

E se o frio nunca fosse embora, deixaria eu de adivinhar o futuro?

E se as pessoas pudessem ser dobradas como papel, virando belos origamis, entenderíamos o sentido da existência?

E se os crepúsculos durassem o dia todo, banhando de luz e cor o cinza que nos habita, seria a vida menos real?

E se eu falasse tudo o que penso e sinto, sem ter medo de mim mesma, ou de qualquer consequência, poderia contar sempre com os mesmos companheiros?

E se as crianças nunca crescessem, seriam as cidades todas de algodão doce, chocolates e balas, como na história de João e Maria?

E se os dias começassem sempre à tarde, teríamos menos preocupações?

E se os anjos de fato estivessem sempre nos sussurrando segredos, como nas Asas do Desejo de Wim Wenders, saberia eu todas as respostas?

E se pudéssemos ver o mar toda vez que a aflição vem fazer ninho em nossa mente, deixaríamos que nos invadisse por inteiro, lavando tudo que há de mais importuno?

E se o passado nunca nos assombrasse, tal qual punhal pontiagudo, seríamos capazes de surpreender o futuro?

E se amor e a amizade não fossem infinitos enquanto durassem, como diz Vinicius, mas fossem infinitos como na matemática, poderíamos compreender melhor as razões e não-razões que nos assolam?

E se minhas indagações mais doloridas nunca tivessem resposta, saberia eu viver sem escrever?

E se eu pudesse ser feliz todos os dias, seria eu feliz todos os dias?

E se eu tivesse a solução para todos os males do espírito, todas as mazelas e dores psíquicas, provaria eu deste remédio?

E se o conteúdo das entrelinhas pudesse ser lido claramente, como os versos dos mais misteriosos poemas, teríamos coragem de encarar uns aos outros?

E se eu iniciasse este poema outra vez, deixariam os “se” que aqui ora habitam de viver no mundo das meras possibilidades?

Cinema

Christopher Lee (1922 – 2015)

por Pedro Cunha

Na última quinta-feira Alice respirou aliviada. Poderia tomar seu chá mais tranquila. A família Harker sentiu um arrepio no pescoço, mas dormiu em paz, como não conseguia há muito tempo. James Bond sentou sozinho num bar e pediu um Martini (batido, não mexido) para brindar sozinho e em silêncio. Willie Wonka talvez tenha ficado triste, mas não deixou transparecer. Obi-wan Kenobi e Anakin Skywalker sentiram uma perturbação na Força e Gandalf, fumando seu cachimbo, sentia-se verdadeiramente triste pela partida para o outro lado do mar daquele que, durante muito tempo, fora seu mentor e amigo.

O que todos esses personagens têm em comum? Todos eles, em algum momento, foram inimigos de Christopher Lee. O ator londrino morreu quinta-feira, dia 11 de junho, aos 93 anos de parada cardiorrespiratória. Sir Christopher Lee foi um ator fantástico e com uma quantidade enorme de serviços prestados às artes dramáticas. Seu currículo no IMDB conta com nada mais do que 278 trabalhos creditados entre filmes, telefilmes, séries, animações e videogames. Lee, que estava muito bem de saúde, trabalhou muito na última década e acabou tornando-se um ícone da cultura pop, em especial em função de suas atuações como o Conde Dookan na trilogia mais recente de “Star Wars” e como o mago Saruman nas trilogias “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”.

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Lee como Drácula 

A carreira de Lee começa na Inglaterra no final dos anos 1940 e ele vai encontrar destaque interpretando os monstros clássicos em filmes do diretor Terence Fisher. Ele foi o monstro de Frankenstein em “A Maldição de Frankenstein” (The Creature, 1957) e notabilizou-se como o Conde Drácula em “O Vampiro da Noite” (Dracula, 1958), tendo ainda vivido uma Múmia em “A Múmia” (The Mummy, 1959). O sucesso desses filmes, em especial de “O Vampiro da Noite”, fez com que Lee voltasse ao papel do conde sugador de sangue da Transilvânia muitas vezes nos anos seguintes.

Talvez tenha sido em função dos monstros do fim dos anos 1950 que Christopher Lee iniciou uma longa linhagem de vilões por ele vividos. “A Face de Fu Manchu” (The Fu Manchu Face, Don Sharp, 1965) deu origem a uma série de cinco filmes onde Lee interpretava o personagem-título, um soturno e enigmático supervilão oriental. Em 1973 ele participa de “Os Três Mosqueteiros” (The Three Musketeers, Richard Lester), mas é claro que não foi como um dos quatro mocinhos do filme mas sim como Rochefort, o mortal espadachim que é o arqui-inimigo de D´Artagnan. O filme também teve sequências e Lee voltou ao papel.

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Francisco Scaramanga, o Homem da Pistola de Ouro 

Em 1974 Lee viveu um dos seus vilões mais icônicos durante muito tempo. Ele foi Francisco Scaramanga, a segunda parte do título em “007 Contra o Homem da Pistola de Ouro” (The Man With the Golden Gun, Guy Hamilton). O vilão era o assassino mais mortal do mundo e deu muito trabalho para Roger Moore, sendo até hoje um dos vilões mais lembrados da série 007.

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Dr Catheter, o cientista que queria dissecar Gizmo! 

Nos anos 1980 e 1990 Lee passou pelo processo de “desimportância” pelo qual passam a maioria dos atores mais velhos, já que os papeis para eles são poucos e em geral secundários. O ator manteve o ritmo de muitos trabalhos, fazendo várias pontas, participações em seriados e em telefilmes, em geral como o vilão. Repetiu várias vezes o papel de Drácula e fez o papel do próprio Diabo em alguns filmes. Vale destacar o cientista louco que ele faz em “Gremlins 2: A Nova Geração” (Gremlins 2: The New Batch, Joe Dante, 1990).

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Saruman, O Branco: a mudança na carreira 

A virada do século trouxe uma virada também para o ator britânico. Em 2001 ele foi a escolha de Peter Jackson para viver o mago Saruman, um dos personagens mais importantes de “O Senhor dos Aneis: A Sociedade do Anel” (The Lord of the Rings: The Fellowship of The Ring, Peter Jackson, 2001), papel que repetiu com sucesso nas duas sequências, “O Senhor dos Aneis: As Duas Torres” (The Fellowship of The Ring: The Two Towers, 2002) e “O Senhor dos Aneis: O Retorno do Rei” (The Lord of The Rings: The Return of The King, 2003). Os filmes de Jackson transformaram o mundo de Tolkien em um elemento da cultura pop e Christopher Lee passou a ser figurinha carimbada em encontros e convenções. Como se não bastasse, em 2002 o ator entra para outra mitologia geek/nerd ao viver o Conde Dookan/Darth Tyrannus em “Star Wars: Episódio II – Ataque dos Clones” (Star Wars: Episode II – The Attack of The Clones, George Lucas, 2002) e “Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith” (Star Wars: Episode III – The Revenge of The Sith, George Lucas, 2005). Na carona dos filmes Lee ainda fez as vozes tanto de Saruman quanto de Dookan em inúmeros videogame, animações e outras versões dos mesmos personagens, tendo voltado a usar o cajado de Saruman para a trilogia “O Hobbit”, protagonizando uma das cenas de batalha mais legais de “O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos” (The Hobbit: The Battle of The Five Armies, Peter Jackson, 2014).

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Conde Dookan, o aprendiz do Imperador 

A aura de cult de Christopher Lee ainda aumentaria em função dos vários trabalhos dele com o badalado diretor Tim Burton. Lee fez o burgomestre em “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça” (Sleepy Hollow, Tim Burton, 1999) e o pai de Willie Wonka na refilmagem de Burton de “A Fantástica Fábrica de Chocolates” (Charlie and The Chocolate Factory, 2005). Sim, ele é aquele dentista tenebroso, provando que ainda sabe fazer o papel de vilão ou monstro. Ainda com Burton ele fez vozes em “A Noiva Cadáver” (Corpse Bride, 2005) e do dragão Jaguadarte, o inimigo de Alice na versão de Burton do clássico de Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, 2010).

Sir Christopher Lee (sim, ele recebeu o título de nobreza no Reino Unido) além de ator também se interessava por música, em especial pelo Heavy Metal. O site Whiplash disponibilizou toda a produção musical de Lee aqui.

Por essas e por outras que eu não consigo ficar triste com a morte de Christopher Lee. O cara morreu aos 93 anos, bem de saúde. Viveu uma vida plena, trabalhando até o final. Teve sucesso em sua profissão e ficou conhecido e respeitado fazendo aquilo que gostava. Não, eu não vou ficar triste. Afinal, como eu li na internet dia desses, Christopher Lee não morreu. Ele viveu. E como!

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Literatura

Aurora

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imagem: Alessandra Giacomin

por Isabel Dall’Agnol

Dos primeiros passos,
em que minhas
memórias são tuas,
quero que em ti
perpetuem.

Daqueles que sombreiam,
dos quais ergui em moldura,
espero que sigam sempre
nossos.

Daqueles que estão escondidos,
que fazem em mim segredo,
levo a herança e faço desenhos.

Daqueles que enfeitaram,
e me costuraram em pintura,
recolho e abrigo.

Daqueles que partem,
e já me desmancham o peito
em saudade,
declaro que serão sempre meus.

Daqueles que virão,
e serão tão meus quanto teus,
peço que desfrutes.
És o eterno inventor
do meu ser.

 

Música

Mac McCaughan lança seu primeiro disco solo

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O vocalista e guitarrista do Superchunk lançou recentemente seu primeiro disco solo. “Non-Believers” é uma aventura do músico por uma época em que o rock tornou-se mais introspectivo e mais reflexivo em suas letras.

Conhecido como pós-punk ou new wave, o gênero ganhou muitos adeptos no início dos anos 80. As guitarras barulhentas do punk davam lugar ao som celestial dos sintetizadores e às batidas retas das baterias eletrônicas. As letras eram um reflexo do que se passava na cabeça dos jovens da época, mostrando uma insatisfação com o mundo e uma disconexão com a realidade em que viviam.

Bem diferente do som indie-punk do Superchunk, as faixas do novo disco são cheias de camadas, com a presença de sintetizadores e guitarras mais delicadas do que se esperaria de Mac McCaughan.

O primeiro single, “Lost Again”, tem claros ecos de Joy Division, tanto na timbragem do baixo quanto na melodia do refrão. Já faixas como “Only Do” e “Our Way Free” pegam carona no som mais alegre do New Order. “Real Darkness” tem guitarras com delay, lembrando as canções do The Cure. É um festival de referências do início dos anos 80, mas, apesar da sonoridade das faixas lembrar bandas do período, o disco soa atual e autoral. A faixa que mais se aproxima do Superchunk é “Box Batteries”, com um riff sujo e uma melodia indie pop.

Inspirado em um gênero que ele escutava quando jovem, Mac acabou escrevendo letras pessoais, explorando as experiências dele nesse período de transição entre ser um adolescente perdidão e um adulto responsável.

Uma audição gostosa e diferente dos trabalhos usuais do músico, “Non-Believers” foi um acerto e é um bom início para uma carreira solo de Mac McCaughan.

Cinema

Mad Max: A Estrada da Fúria

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por Pedro Cunha

É difícil começar a escrever sobre “Mad Max: Estrada da Fúria” (Mad Max: Fury Road, George Miller, 2015) sem usar superlativos, exclamações ou qualquer um dos vários bordões do filme. Por sinal, não consegui. Aliás, nem resisti, e decidi começar pelo título mesmo para me livrar logo e poder entregar meu texto, brilhante e cromado (ops!).

George Miller é um diretor australiano de 67 anos que apareceu no final dos anos 70 com “Mad Max” (1979). O filme lançou um jovem Mel Gibson ao estrelato e deu início a uma das franquias de ação mais importantes dos anos 80, que seguiu com “Mad Max 2: A Caçada Continua” (Mad Max 2: The Road Warrior, 1981) e “Mad Max Além da Cúpula do Trovão” (Mad Max Beyond Thunderdome, 1985). A trilogia Mad Max nos apresenta um dos ícones dos anos 80, o anti-heroi Max Rockatansky, o policial rodoviário que se torna o anti-herói das estradas após perder o parceiro, a mulher, o filho, o cachorro e tudo mais que tinha para os bárbaros da estrada num mundo pós-apocalíptico onde uma guerra nuclear destruiu as estruturas políticas, sociais e governamentais e criou um mundo onde os mais fortes sobrevivem matando e saqueando em busca de gasolina.

Mad Max foi mais do que “mais uma” franquia de ação nos anos 80. O visual pós-apocalíptico da franquia de George Miller definiu em grande parte o que hoje vemos como a identidade visual dos anos 80. Os cabelos, ombreiras, couro e adereços dos filmes podem ser vistos como uma versão “alta costura” de tudo que hoje consideramos como característico dos anos 80.

George Miller ainda dirigiu dois bons filmes, o divertido “As Bruxas de Eastwick” (The Witches of Eastwick, 1987) e o tristíssimo “O Óleo de Lorenzo” (Lorenzo´s Oil, 1992). Depois disso a carreira do cineasta ficou marcada pelas suas incursões no mundo animal: Miller produziu o premiado “Babe, Um Porquinho Atrapalhado” (Babe, Chris Noonan, 1995) e produziu e dirigiu a nem tão badalada sequência “Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade” (Babe – Pig in Town, 1998). Também foram dirigidas por Miller as animações “Happy Feet: O Pinguim” (Happy Feet, 2006) e “Happy Feet 2: O Pinguim” (2011) (Sim, ambos os filmes tem o mesmo subtítulo em português.).

Um quarto filme da franquia Mad Max é esperado há bastante tempo. Desde 2003 há debates nos fóruns do IMDB sobre Mad Max 4 e há registros já de 2007 onde o título “Mad Max: Fury Road” aparece. Colin Gibson, o designer responsável por todos os sensacionais carros do filme, já afirmou em entrevistas que Miller apareceu para ele com os primeiros storyboards ainda em 2000… Talvez essa segunda década do século XXI, onde reboots, franquias e refilmagens tem sido tão lucrativos, tenha despertado o interesse dos estúdios em investir nesse projeto, do qual Miller já cuidava há bastante tempo. O interessante é que a franquia, o personagem e todos os copyrights de Mad Max não pertencem a estúdio nenhum, e sim ao próprio George Miller, que em função disso tem liberdade total para cuidar dos personagens como ele, o criador, acha que devem ser cuidados e não se sujeitar a caprichos dos estúdios. Duas decisões importantes foram tomadas já no período de produção do filme: a primeira situa “Fury Road” não como uma seqüência nem como um reboot de Mad Max. Nas palavras do próprio diretor, ele decidiu revisitar aquele universo, o que podemos comprovar pelas inúmeras referências aos filmes anteriores. A segunda dizia respeito ao casting do papel-título. Desapontando fanboys e causando a ira dos haters, Mel Gibson não voltou a encarnar Max Rockatansky. O astro australiano, amigo de Miller, teria dito a ele que não tinha o menor interesse em voltar a vestir o casaco de couro de uma manga de Max e que queria dedicar-se às suas próprias produções. Essas duas decisões (não ser nem sequência nem reboot e estar “livre” de Mel Gibson) contribuíram para que George Miller conseguisse fazer o filme como queria. E que filme.

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Tom Hardy é o novo Max: dia difícil 

O roteiro de “Mad Max: Fury Road” talvez possa ser escrito em quatro ou cinco páginas. E isso, no caso, não é ruim. O filme promete, desde o primeiro trailer, ação. E o que ele entrega é ação desenfreada, adrenalina no limite o tempo todo. São pouquíssimos os diálogos e cada personagem fala o mínimo possível. O mais incrível é que isso não torna o filme raso ou incompreensível (aprenda Michael Bay, APRENDA!!). Somos guiados pelo mundo louco pós-apocalíptico do outback australiano sem explicações, e ainda assim compreendemos tudo. Roteiro e direção foram extremamente felizes nesse sentido. Não precisamos de longos diálogos descritivos auxiliares para entender, por exemplo, o culto a Immortan Joe e a insana religião que ele lidera. O que nos interessa disso é mostrado, não descrito, como o bom cinema sabe fazer. A diferença é que é mostrado num ritmo frenético. Miller desafia o cânone do cinema de ação do século XXI, onde as cenas são desaceleradas para que os mínimos detalhes e gotas de sangue possam ser vistos. Não há built cam em “Mad Max: Estrada da Fúria”. Bem pelo contrário: Miller acelera algumas cenas, coisa que ele já fazia nos filmes anteriores da série, para colocar ainda mais velocidade na ação do filme. O diretor também optou por utilizar o mínimo possível de computação gráfica na produção. As perseguições de carro são, em sua grande maioria, reais e não filmadas com modelos. Com exceção da cena da tempestade de areia, não se enxerga os efeitos especiais como protagonistas, só adicionados como pós-produção nas explosões e outras coisas do gênero. O diretor e o seu parceiro, o designer de produção Colin Gibson, afirmaram em entrevistas que já tinham conseguido tudo o que podiam com a computação gráfica com porcos falantes que mexiam os lábios e pinguins que sapateavam. Agora era a hora de inovar voltando ao básico.

O design de produção do filme é muito caprichado. Cada um dos carros é uma obra de arte. Mais uma vez podemos perceber aqui o esmero de Miller. Já existem imagens desses veículos desde 2012 circulando por aí. Nenhum deles foi feito as pressas e todos eles são 100% funcionais. Carcaças misturadas, carros em cima de chassis de carros maiores, peças reutilizadas com funções diferentes… tudo que está em cena é justificado, no cenário pós-apocalíptico de Mad Max. O próprio Gibson justifica o porquê dos carros retrôs: não há eletrônica nesse mundo, e tudo que dependesse eletrônica tornou-se inútil. A mecânica precisa ser simples: um carro precisa poder ser arrumado com uma chave inglesa e algumas tiras de borracha, nas palavras do designer. O clássico Interceptor V-8 de Max dá as caras já no início do filme e simbolicamente, durante o filme, tem também seu ritual de passagem. Cada carro tem uma história e um nome, e eles são fantásticos, como “Gigahorse”, “Peacemaker”, “Prince Valiant” ou o insano “Doof Wagon”, o caminhão-motivador que conta com tambores e um homem cego e desfigurado que toca uma guitarra que lança chamas suspenso por cabos (sim, você leu direito. E isso é tão absurdamente legal quanto parece.). Tudo é sujo e enferrujado e nada é inteiro. Por incrível que pareça, podemos perceber um capricho enorme nessa pilha de sucata enferrujada.

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Charlize Theron sem um braço dirige e atira melhor do que eu, você e o Tom Hardy 

Tudo isso poderia dar errado se os protagonistas não conseguissem encantar. E isso, felizmente, não acontece. Tom Hardy e Charlize Theron, dois atores reconhecidamente talentosos, mandam bem demais como Max Rockatansky e Imperator Furiosa. Ainda há quem reclame que o Max de Tom Hardy fala pouco e quase que só grunhe o filme inteiro. Para quem acha que isso é ruim eu recomendo assistir novamente os primeiros filmes da série, em especial o segundo, para perceberem que é o personagem que fala pouco. O Max de Hardy é, na verdade, a escada para Furiosa. Ela é a personagem principal do filme e, sinceramente, não vejo problema algum nisso. Theron, que já ganhou Oscar (pelo sensacional “Monster: Desejo Assassino” (Monster, Patty Jenkins, 2003) e não precisa provar nada para ninguém assume o papel de uma mulher durona, uma das poucas pessoas com a honra de poder dirigir a “War Rig”, o caminhão de guerra da tribo de Immortan Joe. O filme trata, basicamente, da busca de Furiosa por redenção, tentando libertar as “esposas parideiras” com as quais Immortan Joe buscava por uma “descendência pura”. As mulheres, ali, ou eram tratadas como gado, divididas entre as “reprodutoras” e as “fornecedoras de leite”. Numa sociedade que brutalmente oprimia as mulheres, Furiosa teve que se masculinizar ao extremo para ser respeitada. Furiosa tem os cabelos curtos e usa calças e coturnos, como os homens. A única “maquiagem” que ela usa é uma mancha de graxa no rosto. O próprio título que ela usa, “Imperator”, é um título masculino que não sabemos como ela conquistou. Num mundo de homens Furiosa tem que ser melhor, mais rápida, mais agressiva e mais inteligente do que eles para buscar a redenção sabe-se lá por quais pecados, libertando as esposas de Immortan Joe. Max aparece no meio do caminho e poderia ter sido um inimigo. A contingência os torna aliados enquanto os objetivos de ambos convergirem, e a tensão e desconfiança constante entre eles está lá a todo momento. O terceiro personagem que se junta nessa improvável cruzada é Nux, vivido pelo irreconhecível Nicholas Hoult (O Fera nos dois últimos filmes da franquia dos X-Men). Nux é um meia-vida, um kamicrazy, um dos guerreiros de Immortan Joe cujo objetivo é morrer gloriosamente para chegar ao Valhalla brilhante e cromado e desfrutar de uma McRefeição com Acqua-Cola. Para aqueles como Nux, morrer na estrada a serviço de Immortan Joe não só é o destino como é a glória maior que poderia ocorrer. Nux falha três vezes, sendo a última delas aos olhos do próprio Immortan Joe, que chama-o de “medíocre”. Tendo fracassado no intento de imolar-se pelo chefe, a vida de Nux ressignifica ao encontrar um acolhimento quase que materno entre as noivas em fuga de Immortan Joe. Ajudar àquelas que lhe deram carinho e colo como ele nunca havia recebido torna-se então o novo objetivo do kamicrazy fracassado, e ele se empenha na nova missão.

Hoult, Hardy e Theron seguram o filme tranquilamente enquanto os inimigos são caricatos. O próprio Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne, que viveu o antagonista Toecutter no primeiro Mad Max) é a suprema caricatura do vilão, assim como seu filho “perfeito”, Rictus Erectus, e os seus parceiros/irmãos, “People Eater”, o governante de Gas Town, e “Bullet Farmer”, o dono da Bullet Farm. A falta de profundidade dos vilões do filme acaba não tendo importância em função da velocidade, da ação constante e de tudo aquilo que fica subentendido.

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Immortan Joe e seu filho, Rictus Erectus: acredite, ele arranca a tampa de um motor com os braços! 

“Mad Max: Estrada da Fúria” será, com certeza, esnobado na temporada de premiações. Filmes de ação tem poucas chances, mas o filme merecia indicações em Efeitos Visuais, Cabelo/Maquiagem, Design de Produção e sim, nas categorias de Diretor e Filme também. Dificilmente o filme seja lembrado em qualquer uma das categorias não-técnicas, infelizmente. É difícil não se apaixonar por um filme que mistura cultura pop, mitologia nórdica e referências aos anos 80 enquanto carros explodem em cenas belíssimas no meio do deserto. Se você ainda não viu, corra. E cuidado para não se empolgar e acabar levando multa de trânsito na volta para casa!

PS: O filme me empolgou tanto que vou escrever um segundo texto, me embranhando um pouco mais na trama, em alguns significados e em toda a discussão sobre “feminismo” que sucedeu o lançamento do filme. Aguarde!