Clarice Dall’Agnol

Música

Jaga Jazzist – Starfire

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O octeto norueguês Jaga Jazzist é certamente um dos melhores grupos de nu jazz da atualidade. Com 20 anos de carreira, 5 discos de estúdio e 1 ao vivo, a banda criou um som só seu, uma mistura do jazz com a música eletrônica, com influências de trilhas sonoras, música clássica e post-rock. Recentemente, lançaram seu mais novo álbum, “Starfire”, que é possivelmente seu melhor trabalho.

Depois de explorar um som com uma pegada mais ao vivo no álbum “One-Armed Bandit” e de fazer alguns shows com a orquestra Britten Sinfonia, a banda reaparece em 2015 com um disco que voltar a explorar as possibilidades da gravação em estúdio, mas mantém a naturalidade e a fluidez de uma jam, resultando em um electrojazz experimental de primeira.

O disco é fruto da mudança de ares do principal compositor da banda, Lars Horntveth, que se mudou de Oslo para Los Angeles. Inspirado pelas paisagens e pelo céu aberto da cidade, o músico deu início ao que se tornaria o álbum “Starfire”. A faixa-título abre caminho com uma batida dançante quebrada e um dedilhado de guitarra dramático a la Radiohead. Aos poucos, surgem os instrumento de sopro e sintetizadores, direcionando a música para um território zen – até ser interrompido por um interlúdio pesado que fica em algum lugar entre o hard rock e o acid house. A faixa depois engata em um ritmo mais dançante, meio Daft Punk, para depois entrar um momento calmo que mais uma vez é interrompido pelo peso. As músicas do disco são todas longas, entre 6 e 14 minutos, mas a diversidade do arranjo de cada composição faz com que elas não pareçam tão grandes.

A segunda música, “Big City Music”, segue a linha eletrônica, com muitos sintetizadores e uma bateria ao vivo, sendo cortada por umas inesperadas paradinhas acústicas. A faixa seguinte, “Shinkansen”, conta com a participação do músico Leon Dewan tocando um Swarmatron, instrumento inventando pelo seu pai e que ele segue produzindo artesanalmente. A música é uma descansadinha em meio a batidas mais dançantes, mais calma e etérea, mas não menos experimental. Em “Oban”, a banda retorna a um ambiente mais típico, com uma batida quebrada e uma orquestra de sons cinematográficos que culminam em um um belo dueto de sintetizadores estourados com instrumentos de orquestra. Lindo demais!

“Prungen” fecha o álbum com chave de ouro, com suas escalas orientais e ruídos climáticos. O som tranquilo dos sopros divide as atenções com o dos sintetizadores distorcidos, mostrando mais uma vez o talento da banda em misturar sonoridades aparentemente concorrentes.

“Starfire” é um disco inspirado, conectado à contemporaneidade sem ser escravo dela. As músicas são verdadeiros convites a um voo musical, elas oferecem uma leveza sonora que facilita o embarque nessa viagem cósmica que é o som do Jaga Jazzist.

Literatura

Literatura em movimento 1 – Novos autores brasileiros

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

O outono chegou, com aquelas obviedades que lhe são peculiares, mas que eu amo: tempo mais fresco, luminosidade diferente, crepúsculos de tirar o fôlego e a proximidade da segunda melhor estação do ano, o inverno.

Todo ano o outono me representa muita vontade de sentar e escrever. Este ano, eu continuo tendo muita vontade, mas pouco tempo. A “vida real” anda me consumindo muito, e, assim, não me tem sobrado muito tempo para falar aos meus leitores. O que me deixa bastante triste.

O que me deixa feliz, por outro lado, é que neste ano meu querido outono veio também com muito boa literatura (não feita por mim, infelizmente…!). Decidida a pelo menos duplicar minha quantidade de leituras regulares, comecei com tudo: descobri o autor Raphael Montes, um carioca de vinte e seis anos que é a grande promessa da literatura brasileira de sua geração e destes tempos horrorosos que estamos vivendo, no qual as pessoas andam pensando que postagens frívolas e fúteis nas redes sociais são literatura. Dá-me pena.

Raphael está sendo muito lido no Brasil e agora também tendo suas obras traduzidas no exterior. Bravo! Recebeu aval até de Scott Turow, conhecido autor de best-sellers nos Estados Unidos há décadas. A prosa de Raphael Montes é enquadrada como policial/mistério. Eu a vejo muito além disso, ou seja, de meras tramas sobre crimes e suas soluções. O autor foi capaz de traçar um perfil psicológico do protagonista de seu “Dias Perfeitos” com imensa e peculiar maestria, compondo uma estrutura narrativa de dar inveja aos grandes autores da literatura universal. Sempre atento a detalhes estilísticos e referências culturais perspicazes, e mergulhando fundo na alma de seus personagens, é capaz de magnetizar leitores de todas as faixas etárias. Em minha família, o lemos eu, meu marido, meu filho e meus irmãos. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente na feira do livro do Colégio Miguel de Cervantes em São Paulo, em final de abril deste ano. Acompanhada de meu irmão Cassiano, que comigo edita o PáginaDois, com Raphael trocamos algumas ideias sobre literatura e o mercado editorial no Brasil. Foi uma excelente experiência! O jovem autor foi extremamente receptivo e simpático. Isso após dar uma palestra aos adolescentes do Ensino Médio da escola, dentre eles meu filho Vito, que adorou o livro, bem como a maioria da plateia composta por seus colegas, que “bombardearam” Raphael, muito entusiasmados e curiosos, com perguntas muito bem colocadas e pertinentes. Bonito e emocionante ver jovens tão interessados assim em um livro, em dias como estes, repito, de tanta valorização de informações inúteis e sem nenhum valor cultural.

Três de meus conterrâneos, os gaúchos Michel Laub, Altair Martins e Luisa Gleiser, também me cativaram nos últimos tempos. Os dois primeiros já conhecia e deles já havia lido algumas obras, mas especialmente “A maçã envenenada”, de Laub, e “Enquanto água”, de Altair me fizeram ter certeza de que valem muito a pena ser lidos. A jovem Luisa Gleiser, foi uma gratíssima surpresa para mim: hoje com apenas 23 anos, recebeu aos 19 o Prêmio SESC de Literatura em 2010, por seu genial “Contos de Mentira”, que me pescou pelo criativo título, e me prendeu pela novidade e exclusividade de sua prosa .

Michel Laub é um autor da minha geração, e sobre ela escreve com domínio e maestria. Fala de situações que vivi e experimentei, e conta bastante também da minha amada Porto Alegre nas décadas de 80 e 90 do século passado, que me traz lembranças mais que especiais. Ler Laub é como assistir um filme da minha infância e da minha adolescência narrado por um velho amigo. Nada pode trazer mais conforto. Já Altair Martins surpreende a cada linha em seus magníficos contos, que têm como elemento unificador a força poética da água. É de tirar o fôlego e umedecer os olhos do início ao fim. Luisa Gleiser, por vez, com toda sua juventude e capacidade inovativa única, deixou-me boquiaberta: usando uma prosa de ritmo rápido, mas leve e sem nenhuma pretensão em ser forçadamente intelectual, consegue falar de modo profundo de sentimentos, sem ser óbvia e aguada. Bravo, guria!

Assim, queridos leitores, mais que recomendo todos esses jovens autores, que além de tudo foram vencedores de prêmios literários no Brasil e em outros países. Vamos tentar ler muito além da “literatura” das redes sociais, começando hoje mesmo, por que não?

Aguardem a próxima parte deste relato de experiências literárias, em breve!

Obrigada pela leitura!

Literatura

Olvido

 

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imagem: Alessandra Giacomin

 

por Isabel Dall’Agnol

Existência que não
se perde.
Acomoda-se.

Detalhes, amados,
pregados na mente.
Cadeado de xadrez.

Retrato imaginado,
queria atravessá-lo.
Em ti durar…

Caminho com
o instante.
Já nem tenho
tanta pressa.

Agarro em
outros.

Já fez tanta parte,
que até acredito.
E vivo.

Haverá tempo para
apagar.
Tempo perdido.
Aliviado
em esquecimento.

Música

Ornette Coleman (1930 – 2015)

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Lembro perfeitamente da primeira vez em que escutei o som muito peculiar do Ornette Coleman. Eu era adolescente e estava descobrindo o jazz através dos discos do meu pai. Um belo dia, resolvi ouvir um álbum do tal do músico. Na época, eu curtia Chet Baker, Ella Fitzgerald e John Coltrane, um jazz mais melódico e tradicional. Quando pus o disco para rodar, eu fui pego completamente de surpresa: um saxofone barulhento berrava as linhas melódicas, o ritmo da música variava muito e os músicos pareciam se desencontrar propositalmente, cada um tocando algo muito seu para depois se reencontrarem numa linha melódica final. O saxofone de Coleman conversava com o ouvinte, não era exatamente algo harmônico, era mais como se ele estivesse contando uma história. As notas, muitas vezes, eram dissonantes. Tinha uma certa atitude roqueira naquele som. E eu curti demais.

Desde então, mergulhei na rica discografia do músico e me deparei com alguns álbuns que considero clássicos subversivos do jazz. Com a recente perda do músico, resolvi sentar e fazer uma lista dos discos dele que considero essenciais.

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O álbum mais representativo do som do saxofonista é o seu terceiro, “The Shape of Jazz to Come”, de 1959. Nele, percebemos várias características que seriam recorrentes na obra de Coleman, como a falta de um pianista, a quebra de ritmos, a dissonância e as melodias “faladas”. O músico deixava claro que estava à procura de um novo som.

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O novo som que o saxofonista buscava ganhou nome com o lançamento de “Free Jazz” em 1961. Um novo subgênero do jazz estava criado. Em um improviso de quase 40 minutos, o músico mostra as diversas nuances de uma nova forma de fazer música, um improviso coletivo, livre de ritmos, livre de escalas. O álbum foi controverso na época, mas hoje é considerado um marco do jazz.

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Um experimento interessante veio com o disco “Science Fiction”, de 1972, que mesclava o free jazz com sons espaciais. Nele, Coleman criava uma versão futurista de seu som, resultando em canções com tom cinematográfico e com o pé no avant-garde. Uma novidade foi a inclusão dos vocais da cantora indiana Asha Puthli em duas faixas, fato até então inédito no catálogo do músico. A faixa-título também ganhou voz através de um texto declamado pelo poeta nova-iorquino David Henderson enquanto o choro de um bebê (e de vários saxofones) soa ao fundo.

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A partir do final dos anos 70, o saxofonista montou uma banda chamada Prime Time com quem compôs vários discos de jazz-funk. O grupo incluía guitarras e baixo elétrico, aproximando o jazz de Coleman do rock. A estreia do grupo em disco foi no ótimo “Dancing in Your Head”, onde os músicos tocavam dentro de uma nova teoria criada por Ornette Coleman que ele chamava de harmolodics. A ideia era cada integrante da banda trazer suas influências musicais e acrescentar aos improvisos sem preocupação com os ritmos e melodias que os outros estavam tocando. O resultado é surpreendentemente coeso e Coleman creditava isso a uma consciência coletiva do grupo.

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Nos anos 80, o músico fez várias parcerias e focou num som um pouco mais acessível. Dessa época, eu gosto muito do disco “Virgin Beauty”, de 1988, gravado com o Prime Time e com participação do guitarrista do Grateful Dead, Jerry Garcia. As músicas possuem baterias eletrônicas, deixando o som mais reto, e os arranjos exploram bastante a sonoridade do funk, resultando em músicas mais dançantes.

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O último lançamento oficial de Coleman foi o disco ao vivo “Sound Grammar”, de 2006. Gravado com seu novo quarteto, que incluía seu filho Denardo na bateria e dois baixistas, Greg Cohen e Tony Falanga, o disco apresentou material inédito do músico após dez anos sem novidades. O álbum garantiu a Ornette Coleman o Pulitzer Prize de música em 2007, sendo ele o segundo de apenas dois jazzistas a ganharem o prêmio (o primeiro sendo Wynton Marsalis em 1997).

Ornette Coleman foi um inovador e sempre acreditou que a união entre os músicos é o que fazia a magia acontecer. Como declarou em uma entrevista: “Eu não quero que eles me sigam. Quero que sigam a si próprios, mas que estejam comigo.”