Clarice Dall’Agnol

Literatura

Essencialmente

essencialmente_p2
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Ao meu querido diário de adolescência,
que está me proporcionando este mergulho.

Para a Claudia Petlik Fischer,
que está me ajudando a encontrar vários caminhos.

Despe-te
(Mostra-te):
aos poucos retorna ao teu estado anterior.
Anteriormente desenhado,
esculpido à mão livre,
alinhavado pela tua essência.
Vive de novo.
Esclarece.
Desgarra, questiona, soluciona –
Mergulha: sente o impacto dos ossos e da alma
chocando-se forte contra o passado.
Desvenda(-te).
Caminha fora da linha,
Dobra o infinito.
Desdobra-te em não-segredos.
Recebe os anjos e todas as cores do teu ser.
Deixa-te invadir, provoca o esperado.
Recebe-te, enfim, em pequenas e profundas porções.

Música

Franz Ferdinand + Sparks = FFS

FFS.jpg

Uma parceria inusitada e muito bem vinda, o FFS é um supergrupo formado por duas ótimas bandas. A primeira é o conjunto escocês Franz Ferdinand, que tornou-se um dos grandes expoentes do rock alternativo dos anos 2000. A segunda é a dupla de irmãos Sparks, que vem experimentando com os mais diferentes gêneros musicais há mais de 30 anos.

O casamento não poderia ter sido mais perfeito para os dois lados. O Franz Ferdinand ganhou um toque mais experimental em arranjos mais ousados do que se esperaria deles, e o Sparks, por sua vez, ganhou um toque pop, mais acessível para o grande público. Ao mesmo tempo, o resultado final não soa completamente estranho para os fãs de qualquer uma das bandas.

O disco inicia com os dois primeiros singles lançados pelo grupo, “Johnny Delusional” e “Call Girl”, ótimos exemplos de como o som das bandas se complementa bem através de seus contrastes. A voz grave e cavernosa de Alex Kapranos é um bom contraponto para o vocal agudo e dramático de Russel Mael; as guitarras simples de Nick McCarthy constroem um bom palco para brilharem os pianos bem arranjados de Ron Mael; e a cozinha certeira de Bob Hardy e Paul Thomson garante o toque dançante.

A maneira que o som das músicas pula do território de uma banda para outra é bem interessante. Por exemplo, a faixa “The Man Without a Tan” começa com uma batida e um baixo super Franz Ferdinand, mas a voz que entra cantando é a do vocalista do Sparks, o que leva a faixa para o terreno deles, especialmente quando os teclados de Ron tomam conta da música. Fica claro que as músicas não seriam as mesmas se não tivessem o toque de cada uma das bandas. E quem ganha com isso somos nós.

Os músicos já declararam que este é apenas o início de uma parceria duradoura, portanto podemos esperar novidades do supergrupo futuramente. Então não percam tempo e embarquem nessa jornada musical que certamente vai valer a pena.

Literatura

Sociedade dos antissociais

Sociedade dos antissociais_P2.jpg
imagem: Cassiano Rodka

Nossa organização começou de forma secreta. Parecia algo necessário, então alguém fez acontecer. Não sabemos exatamente de quem foi a iniciativa, mas também ninguém quis perguntar. O certo é que temos agora um grupo organizado e nossa voz será ouvida – caso algum dia quisermos falar.

Cansamos de ser repudiados pela massa comunicativa. Não almejamos ser expansivos ou carismáticos, nem queremos ser convidados para todos os seus eventos sociais. Estaremos presentes em casamentos e enterros, viajaremos no dia do seu chá de fraldas e estaremos doentes na noite de sua formatura. Não leve a mal, é a nossa natureza.

A verdade é que não compreendemos esse desespero pelo contato social constante. Apoiamos imensuravelmente as práticas solitárias, da literatura à masturbação. Se dependesse de nós, as salas de cinema teriam divisórias entre as cadeiras e as tele-entregas seriam feitas por robôs. Disponibilizamos um espaço para que os membros tragam esse tipo de proposta para tonar o mundo um pouco menos invasivo. Temos um local bem estruturado onde fazemos nossos encontros anuais. Dizem que é bem legal. Não sei, nunca fui.

Fazer parte de uma sociedade é algo novo para nós, portanto ainda temos muito a aprender. Raramente fazemos reuniões, pois ninguém aparece mesmo. As decisões são usualmente tomadas por e-mail ou por WhatsApp. Mas, de vez em quando, é necessário entrarmos em contato de forma mais pessoal. Aí usamos o Skype.

Os membros acabam se conhecendo mais por se encontrar por acaso na rua. Nos reconhecemos pela falta total de contato visual ou pelo desdém externado pelos extrovertidos. Às vezes, escuto um dizendo: “Esse aí é um antipático de carteirinha”. Quando olho de soslaio para ver quem é, percebo que é mesmo um sócio – ou antissócio, como preferimos chamar. Aí nos cumprimentamos com nossa saudação secreta: cabeça baixa e olhar isento. Depois seguimos cada um para o seu lado antes que aquilo vire um bate-papo.

Nosso dia há de chegar. Quando marcharmos pela rua, será só em pensamento. Quando levantarmos nossa voz, o mundo escutará um sussurro. Em nosso manifesto taciturno, só almejamos uma coisa: nada. Isso mesmo: NADA!

Apenas ignorem nosso grito e vão plantar batatas.

Literatura

O sempre é hoje, e ponto(.)

o-sempre-e-hoje-e-ponto_p2
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

OK, ok, mais um para a Marcella Marx…!

Foi o que eu ouvi da minha grande amiga Marcella Marx, a Maria, sabem, leitores? A Maria poética e “mariavilhosa” aqui do PáginaDois… Daquela cabeça ali, meus queridos, só saem coisinhas muito especiais. Ela não sabe ser “comum”, “normal”, “superficial” e esses adjetivos todos que cabem (infelizmente) a muitos que nos rodeiam ao longo da vida. Eu dei a sorte de ter uma guria como a Maria comigo, há mais de quinze anos já. Privilégio, né? Só quem a conhece sabe do que estou falando.

Mas a mesma mulher assertiva e decidida que me disse “O sempre é hoje, e ponto!” há alguns anos veio me dizer “Friend, você deveria fazer mais poesia, gosto de você poeta…”. Maria darling, eu concordo contigo, acho que é legal fazer poesia e tal, e que eu sei que consigo fazê-la e disso me orgulho (porque tenho aquele lado exibido que conheces bem!), naqueles momentos de super transe em que, com ou sem vodca, café ou pão de queijo, me baixa um santo bravo do Pessoa, do Quintana, da Sylvia Plath (ou do Manoel de Barros, ah, grande Manoel…!), e aí eu me ponho a rascunhar versos, e depois paro, e os deixo de molho alguns dias, e volto, e volto, e volto, e leio, e releio, umas mil vezes, até achar que posso mandar para o Cassi editar, ilustrar e publicar. E ainda assim, mesmo depois de enviados, eu refaço outras mil vezes e mando outras quinhentas erratas para o coitado do meu irmão, meu paciente co-editor…!

A poesia me vem nesses transes, e eu os adoro, porém – sim, aqui vem o porém, leitores – o que eu amo fazer mesmo, confesso, são as crônicas! Eu, menina e adolescente tímida que fui, sempre observei muito mais do que falei, e creio que isso me fez ver o mundo daquele jeito que só cronista vê, e faz o pequeno virar grande, como se mágica fosse. Hoje eu sei que foi o Rubem Braga (com sua crônica sobre a menininha negra que comemora o aniversário com um mini bolo e velinha num restaurante simples com seus pais) que me fez virar cronista. Lembro-me de ler o texto pela primeira vez com minha mãe, Beatriz, excelente professora de português, que me ensinou a escrever bem, e um dia me levou para ouvir meu mestre José Saramago. No tocante texto de Rubem, a singela festa de aniversário da menina vira um profundo festival de delicadeza, carinho, gestos amorosos e permanência.

“Poxa, mas por que você escreve crônica”? Um dia eu ouvi essa linda frase, seguida de um “crônica não é atemporal!”. Não? Sério? Esse cara não sabia do que ele estava falando, obviamente! E o Verissimo? E o próprio Rubem Braga? E o louco do Nélson Rodrigues? E a minha misteriosa xará, a Lispector? E a Cecília Meirelles, que, pouca gente sabe, mas também era cronista? Ora, faça-me o favor, meu querido! A crônica é um dos instrumentos mais poderosos da literatura: não só registra um momento, sob a ótica delicada do observador cuidadoso, como torna aquele momento imortal, atemporal, mas isso para mim é tão óbvio, que toda vez que lembro desse comentário imbecil, tenho vontade de voltar no tempo e jogar um livro do Rubem Braga na cara deste indivíduo! O cara que faz boa crônica tem uma capacidade tão gigantesca de tocar o leitor, e com ele interagir, que é difícil traduzir em palavras (mesmo para o melhor dos cronistas!). Eu escrevo há doze anos para sites literários, e sempre recebi comentários muito emocionados de leitores, que se diziam identificados com as situações que eu relatava, aquelas situações aparentemente pequeninas, que têm significados gigantões. Com a crônica eu aprendi a ver melhor, aprendi a tirar de mim angústias, aprendi a homenagear com palavras pessoas conhecidas e desconhecidas. Com a crônica eu aprendi a ser escritora. Aprendi que a vida tem um zilhão de “pequenas felicidades certas” (como um dia escreveu Cecília Meirelles em uma de suas crônicas) que não sabemos apreciar. Assim, cabe ao cronista vir e nos sacudir dizendo, “Meu amigo, dá uma olhadinha ao teu redor, pode ser interessante também!”.

Minha primeira crônica (publicada em dois diferentes veículos on-line em 2003) se intitulava “A valsa das aleluias”, e ali eu contava um pouco sobre um grupo muito querido de quatro estudantes, as minhas primeiras alunas de língua inglesa. A prova de que a crônica é imortal é que até hoje, passados 12 anos da época que escrevi o texto, minhas alunas, hoje mulheres feitas, lembram-se dessa bela homenagem que a elas ofereci.

Assim, minha querida Mary, peço-te licença (tu, a poeta mais perfeita que conheço!) para usar a tua frase para resumir a essência de uma boa crônica: “o sempre é hoje, e ponto”.

Literatura

Astronauta

astronauta_p2
imagem: Carla Lund

por Marcella Marx

Acordei com o mesmo silêncio com o qual fui dormir. A escuridão da noite, persiste nessa manhã de lua. A gravidade me falta, assim como ao chão faltam meus pés. Meus pensamentos são minha âncora – o que de mais pesado possuo, o que me faz fincar. Sou pequenino corpo, concreta forma, peixe nadando no ar. Que o silêncio conserve as vozes dentro de mim enquanto minha nave cavalga de volta ao meu lar.

Literatura

Poema para ti

Poema para ti_P2.jpg
imagem: Alessandra Giacomin

por Isabel Dall’Agnol

Escavo memórias.
Reviro fotos.
Corro os dedos
na minha tatuagem.
Procuro-te,
em vão.

Tua ausência dói
no peito.
Inútil, gasto o tempo
entre papéis e melodias.
Sufoco lágrimas.
Prendo a atenção
no meu viver.

Quero a tua pele quente
sobre a minha.
Quero as tuas mãos
na minha boca.
Quero o teu sopro
na minha nuca.

Quero caminhar ao teu lado.
Quero a tua voz,
narrando histórias.
Quero os teus abraços e beijos.

Quero respirar o teu cheiro de bambu.
Quero assistir aos teus lábios,
enquanto me tocas.
Quero cada centímetro do teu corpo.

Quero a luz da tua câmara,
pousando na minha pele.
Quero o meu violão,
soando para ti.

Quero o reflexo do teu sabor
nos meus olhos.
Quero gastar todas as minhas palavras,
em um poema para ti.

Literatura

Em branco

Foto: Vanilson Coimbra

Mais um para Mario Quintana, e também para a Angelina.

Às vezes o mundo se esquece que precisa mudar as estações,
e eu acabo também por não mudar as minhas…
Mas tenho sorte porque a minha folha em branco é diferente das dos outros escritores:
tem um brilhinho nos olhos sem igual, e nessas horas me fala,
Clarice, vamos, não te acanha, guria… Eu sou o meio para deixares teu legado para o mundo, então, deixa de frescuras e te põe logo a escrever!

Literatura

Literatura em movimento 2 – O genial Saramago

Literatura em movimento Saramago_P2.jpg
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Olá, leitores queridos!

Seguindo neste relato das minhas aventuras literárias de 2015, estou revisitando meu mestre José Saramago. Nada pode me deixar mais feliz e completa intelectualmente. Comecei o ano lendo seu segundo livro, “Manual de Pintura e Caligrafia”, onde o autor disseca a arte tal como faria o melhor dos estudantes de medicina de primeiro ano em suas aulas de anatomia.

Ano passado eu havia mergulhado, emocionada, em “Da estátua à pedra e Discursos de Estocolmo”, uma reunião sensacional de palestras proferidas por Saramago discorrendo sobre sua obra e seu processo criativo, incluindo os discursos pelo autor proferidos quando da entrega de seu prêmio Nobel de Literatura em 1998. Esse eu já li reli várias vezes ao longo do ano. Como escritora, é refrescante e inspirador buscar na fonte o que moveu meu maior ídolo literário a criar seus universos únicos, críticos, contundentes e irônicos, e ao mesmo tempo, tão cheios de poesia.

Estou também a reler alguns dos clássicos de Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira” (livro que mudou minha vida, meu modo de ver o mundo e minha trajetória como escritora) e “O evangelho segundo Jesus Cristo” (genial livro que foi censurado e intensamente criticado em Portugal, escrito pós-Nobel, e que foi um dos motivos para que o ateu e comunista José se mudasse e se “exilasse” até sua morte na ilha espanhola de Lanzarote).

Determinada a dissecar meu autor preferido, na minha bolsa está morando também “As intermitências da morte”, instigante romance onde o mote principal é a morte, que simplesmente “entra em greve”, se é que o mestre me permitiria assim descrevê-lo! Sem igual…

E minha maior supresa do ano até agora foi “José e Pilar – conversas inéditas”, escrito pelo cineasta português Miguel Gonçalves Mendes, e com prefácio genial de Valter Hugo Mãe. O livro é uma reunião de entrevistas feitas com José Saramago e sua esposa, a jornalista espanhola Pilar Del Río. Essas entrevistas foram usadas como base para o filme de Miguel, “José e Pilar”, lançado em 2010, ano da morte de Saramago. Comprei o livro sem expectativas maiores. Só curiosidade de fã. Aliás, o adquiri em uma das ótimas feiras de descontos que faz periodicamente a Livraria da Vila, a minha preferida em São Paulo. O que o livro teve de barato, tem de magnífico. É de uma honestidade e de um lirismo de emocionar até o mais duro dos mortais. Ali, Pilar e José encantam ao falar de relacionamentos humanos, de amor, de trabalho, de morte, de filhos, de religião, de política, de cultura, de literatura, de filosofia: falam da vida, dos assuntos que nos movem e nos motivam a estar aqui. Visões complexas e ao mesmo tempo singelas de dois habitantes do planeta Terra, como eles mesmo dizem. Seres humanos que, como nós, querem viver e desfrutar da existência ao máximo. Tirar da vida o seu sumo até o finalzinho. Com a consciência de que talvez nada fique além de nossas lembranças, e de cada legado pessoal, de cada ação ou ideia no mundo lançadas.

E por hoje era isto. Meu objetivo é seguir com estes relatos ao longo do ano, veremos se sou capaz…!