Clarice Dall’Agnol

Literatura

Desordem

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imagem: Alessandra Giacomin

por Isabel Dall’Agnol

Começa, acaba
e começa de novo.
Vai e vem tão rápido,
que já perdi.

Não vejo.
Não toco.
Não posso.

Outra hora.
Quero agora.
Espera já.

Tempo, tempo, tempo…
Corro contra o vento e
planejo desatenta.
Ou estaria eu atenta
ao relento?

Tenho sede,
pelo menos.
Esquece.
Tudo isso.

Já não parte
ao início.
Só embarca
em precipício.

Literatura

Acalanto

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imagem: Cassiano Rodka

Para o Vito, alimento dos meus escritos desde 1999.

Se eu tivesse todas as respostas, filho, seria para ti que as daria primeiro. E também para a Angelina, por certo.

Não as tenho, porém, pois elas não existem de modo absoluto (ao menos não em um só formato).

Existem algumas poucas certezas e inúmeras dúvidas, dependendo que como este mundo resolve nos encarar.

Algumas respostas (as melhores) estão nos olhares que trocamos, e nas músicas que ouvimos, e nos livros que lemos, e nos filmes que assistimos, e nas histórias que tecemos e escutamos ao longo da vida.

As respostas, ao contrário do que se pensa, nem sempre aliviam e resolvem tudo. Muitas vezes, elas podem ser o alimento das angústias, e essas últimas não existem sem razão. Existem para provocar revoluções internas, e para nos fazer amadurecer e viver mais completos. Existem para nos tornar mais fortes, mais autênticos, mais sábios e mais confiantes.

Quisera eu saber o que te responder, sempre. Quisera eu ser a dona das verdades, a detentora de todos os saberes e das soluções mágicas. Não sou. Levei quatro décadas para concluir que sobre minha vida, acontecimentos, e também sobre os que me cercam não tenho controle algum. Podemos pressentir algumas coisas e planejar outras, mas prever e acertar o futuro é humanamente impossível.

O que eu tenho, enfim, é apenas uma pequena sabedoria acumulada nos muitos anos que ouvi pessoas e suas histórias. Sobre angústias, e amores, e desilusões, e incertezas, e certezas, também. Apenas algumas certezas.

Assim, a melhor lição que posso te dar é, meu filho, que vivas o hoje, intensa e plenamente. Sempre. O depois, virá, digamos, apenas depois.

Literatura

Epílogo

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imagem: Alessandra Giacomin

por Isabel Dall’Agnol

O ponto de partida
deu um nó na chegada.
Tudo o que era
se desfez.

Mãos calaram-se.
Calor deserto.
Um vazio transbordou
o peito.

As palavras correram.
A ternura gastou-se.
O laço desistiu.

O amor derramou-se
em engano.
Nada mais vaga
em nosso leito.

Tuas manchas
escaparam.
Nem te reconheço
no espelho.

Minhas lágrimas secaram.
O apego envelheceu.
A saudade escureceu.

Se te encontro
em gotas de cristal,
amanhã acordo e esqueço.

Não te vejo,
porque já não existes.
Teu esqueleto vive,
enquanto tua alma adormece.

O segredo
parece mentira.
O nunca
teme o teu retrato.

Tua realidade desconhecida
desbotou a fotografia.

Literatura

O silêncio

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imagem: Cassiano Rodka

Eu tenho um respeito enorme pelo silêncio. Só o interrompo quando é realmente necessário. Corto finamente seu tecido com algumas poucas palavras, depois deixo ele preencher novamente o espaço ao redor.

Quando tatuo a sua pele, é para que ele ganhe uma voz. A única coisa pior do que uma tatuagem que perde a cor é aquela que perde o seu significado. Se seu grito tem significância, quebre o silêncio. Se seu berro tem importância, estraçalhe o silêncio. Não se preocupe, ele sempre se recupera. E o silêncio que ressurge após um rugido cheio de intenção é sempre mais macio e reconfortante.

No aparente vazio do silêncio, acontece um bocado de conexões. A mente brinca de ligar os pontos com os pensamentos, costura ideias e esculpe conceitos. Escute o silêncio. Ele fala baixinho, mas diz muito.

Eu falo pouco, mas não menos do que eu gostaria. Só não consigo jogar palavras ao vento como se apedrejasse o silêncio. Sirenes, despertadores, vocês me cansam. Bêbados ao meio-dia, pessoas que falam pelos cotovelos, vocês não sabem o que estão fazendo. Silêncio, um beijão para você.

A gente tem uma parceria, eu e o silêncio. Às vezes ele toma conta do ambiente, outras vezes, sou eu. Ele é um bom amigo e sempre me deixa passar na frente quando eu tenho uma boa risada, uma nova canção ou uma opinião que possa mudar o mundo.

Eu não grito sem motivo, nem silencio o meu intento.

Dou voz ao silêncio. E escuto quem eu sou.

Cinema

Que Horas Ela Volta?

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por Pedro Cunha

Faz uma semana que assisti “Que Horas Ela Volta” (Anna Muylaert, 2015) e só hoje tomei coragem para sentar e escrever sobre o filme. O problema não é com o elogiadíssimo longa brasileiro, que semana passada foi escolhido para ser o representante brasileiro na (longa) corrida pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Os problemas, que fique claro, são comigo mesmo, com a classe média à qual pertenço e com as contradições e idiossincrasias da nação da qual fazemos parte.

“Que Horas Ela Volta” é a afirmação madura de Anna Muylaert. A paulistana que assina o roteiro e a direção do filme já é razoavelmente conhecida pelos seus trabalhos anteriores, como os roteiros de “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” (2006), “Desmundo” (2002) e “Xingu” (2012), além de ter dirigido (e também roteirizado) o excelente “Durval Discos” (2002). A realizadora tem ainda créditos de direção e roteiro em séries e especiais televisivos como “As Canalhas” e “Um Menino Muito Maluquinho”. A cineasta consegue com esse novo trabalho um feito raro no Brasil: sucesso de crítica e público. “Que Horas Ela Volta” está na sétima semana em cartaz e, feito raro (raríssimo em se tratando de filmes nacionais), ocupa hoje mais salas do que quando de seu lançamento. Em 27 de agosto, quando entrou em cartaz, o filme ocupava 97 salas. Hoje está em cartaz em 158 cinemas, um sinal claro de que o público tem assistido o filme, gostado e indicado: o famoso “boca a boca”. A taxa de ocupação do filme é a segunda no Brasil, hoje, com 500 ingressos vendidos por dia por sala. O campeão é o norte-americano Maze Runner – Prova de Fogo, com 680 ingressos por dia/sala (o longa americano está em cartaz em 961 salas pelo país).

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Val e os outros empregados na cozinha, espaço permitido para eles 

O reconhecimento do público e a vem sendo acompanhado de premiações expressivas em festivais importantes, como Berlin e Sundance, onde Anna Muylaert, Regina Casé, Camila Márdila e o próprio filme vem sendo bem recebidos e lembrados na hora das premiações. A escolha do filme para representar o Brasil na longa corrida pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira veio coroar todas essas premiações. Vencer em tal categoria? Complicado. Até porque depende muito mais da distribuição do filme nos EUA e da safra dos outros países do que do filme em si, enfim.

“Que Horas Ela Volta” conta a história de Val, uma retirante nordestina que trabalha como empregada doméstica em uma casa de família de classe alta em São Paulo. O primeiro ato do filme não tem pressa nenhuma e transcorre com o objetivo de nos apresentar a personagem. Muylaert mostra Val nas suas atividades cotidianas: lavando louça, estendendo roupa, passeando com a cachorra, regando o jardim. Ao mesmo tempo também vamos entendendo a sua interação com a família para a qual ela trabalha. Dona Bárbara (Karine Telles) é a dona da casa. O trabalho com moda toma muito do tempo dela, que é casada com Carlos (Lourenço Mutarelli). Carlos é o herdeiro de uma grande fortuna que nunca conseguiu fazer nada da própria vida. Artista frustrado, ele é acordado todos os dias as 11h por Val e passa os dias, ao que parece, fazendo nada. E aí temos Fabinho (Michel Joelsas), o filho adolescente do casal, que se prepara para o vestibular fumando maconha, tomando banho de piscina e saindo com os amigos. Além deles desfilam pelo filme um rol de jardineiros, eletricistas, arrumadeiras e outros empregados subalternos com quem Val divide as tarefas da casa da família. A diretora opta por nos mostrar tudo sempre do ponto de vista da personagem de Regina Casé, e o resultado disso não poderia ser mais feliz. Conhecemos a cozinha, o pátio e o quartinho de empregada, mas não conseguimos ver dentro dos quartos da família. A sala de jantar é apenas vislumbrada, e sempre emoldurada pela porta da cozinha. Há lugares definidos para todas as pessoas na casa, por mais que Val (e nenhum outro empregado) nunca seja maltratada ou se sinta oprimida. Pelo contrário, todos na família parecem gostar dela, embora o único que demonstre afeto seja Fabinho. Em função da agenda atribulada da mãe ele foi praticamente criado pela empregada e é ao colo dela que ele recorre nos seus momentos de insegurança e carência, já que a mãe, ocupada, nunca tem tempo para o filho e fica desconfortável diante das necessidades emocionais dele.

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Fabinho busca no colo de Val o acolhimento que sua mãe nunca lhe deu 

O segundo ato tem início com a chegada de Jéssica (Camila Márdila), a filha de Val. Sem se encontrarem a mais de dez anos e sem se falarem a mais de três, mãe e filha tem uma relação para resgatar. A chegada de Jéssica muda a dinâmica da relação de Val com a família gerando conflitos e questionamentos bem interessantes. A menina fica claramente incomodada com a divisão que existe entre empregados e patrões e com a hierarquia (nem sempre) tácita colocada nos papeis. As brigas de Jéssica não são com a família, porém. É contra a mãe que ela se insurge num misto de raiva pela ausência que marcou a relação de ambas e frustração por achar que a mãe não enxerga as humilhações que ela a vê sofrer. Val, por outro lado, recrimina Jéssica por ela “não saber o seu lugar”. Como a filha da empregada, ela deveria ficar satisfeita e agradecida de ter um teto e de dormir num colchão no chão do minúsculo e abafado quartinho de empregada, enquanto a casa dispunha de um quarto de hóspedes que ficava vazio. As tensões desse momento do filme são um pouco prejudicadas em função do tom da personagem Dona Bárbara, que se torna um pouco caricata demais nesse momento. Se a personagem fosse um tanto mais sutil talvez os conflitos gerassem um questionamento ainda maior. No momento em que ela se apresenta como vilã fica muito fácil de “assumir um lado” na história.

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Jéssica e Val, percepções e posições diferentes (e um belíssimo plano construido por Muylaert) 

Se o filme dá uma caída no segundo ato, volta a emocionar no terceiro, o ato final. A resolução dos conflitos é bem conduzida pelo roteiro e pela direção e o filme termina nos dando um verdadeiro banho de humanidade.

Still ' The Second Mother ' - ' Que Horas Ela Volta '
Val servindo Bárbara, a patroa: a personagem de Karine Telles, mesmo que por vezes caricato, representa muita gente que conhecemos.

A dinâmica apresentada por Muylaert pode ser lida de diversas maneiras. A relação de Val com a família representa o Brasil tradicional, onde os pobres “sabem o seu lugar” e reproduzem a eterna lógica da sociedade pacífica e do povo ordeiro que convive em harmonia com uma elite benevolente e benfeitora. Jéssica representa, de certa forma, as mudanças pelas quais o Brasil passou nos últimos 20 anos: é uma nova classe média do interior do nordeste que não tem receio de questionar a ordem das coisas e cuja simples presença, em determinados momentos, é uma afronta. A troca de olhares entre a família dos patrões quando Jéssica, a filha da empregada doméstica, diz que está em São Paulo para prestar vestibular na prestigiosa FAU, é um silêncio que diz muita coisa.

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A sala de jantar pelo único ângulo permitido a nós: enquadrada pela porta da cozinha. 

Outra leitura possível é enxergar na família dos patrões não personagens, mas arquétipos das relações patrão/empregado que se reproduzem no Brasil, de certa forma, desde o tempo da Casa Grande e da Senzala. Carlos, o pai, tem uma relação paternal de propriedade com os empregados. Seu carinho é verdadeiro, mas junto com ele há também a certeza de que aquelas pessoas são bens e pertencem a ele, para qualquer tipo de usufruto. Fabinho é o menino que mamou na ama de leite, que brincou com os escravos e que os enxerga quase como iguais. Se ele busca o colo de Val para aliviar as suas tensões e inseguranças, a condescendência com que ele trata Jéssica mostra o quão inferior, na verdade, ele a considera, quando na verdade ela tem muito mais maturidade, visão de mundo e vivência do que ele. Dona Bárbara encarna o patrão rígido, o próprio Senhor de Engenho. Os empregados tem uma vida boa com ela, desde que saibam o seu lugar. Se Fabinho sequer percebe e Carlos acha graça quando Jéssica questiona a hierarquia velada da casa, Bárbara é quem se sente ameaçada e é quem se coloca no papel de “pôr as coisas nos seus devidos lugares”. A cena na qual ela manda limpar a piscina depois de um mergulho de Jéssica, usando a desculpa que teria visto um rato, é bastante emblemática. A piscina, aliás, é um símbolo importante da segregação no filme. Tradicionalmente a piscina é, no Brasil, símbolo de status social. No filme não é diferente. Não é a toa que logo que Jéssica chega uma das primeiras coisas que Val quer mostrar para ela é a piscina. Vendo o olhar da menina, ela logo a reprime: “Nem mesmo olhe para essa piscina! Não pense nisso!”. Parte do amadurecimento de Val passa, também, pela piscina, numa das cenas mais emocionantes do cinema nacional.

Falar desse filme sem falar da atuação maravilhosa de Regina Casé seria um crime. A apresentadora do “Esquenta!” nos entrega uma personagem humana e real. O filme todo gira em torno dela e a atriz consegue levar isso com tranquilidade fazendo um trabalho que vai instantaneamente para a galeria dos grandes personagens do cinema brasileiro. Quem não se emociona com a cena de Val na piscina deve procurar ajuda profissional, enfim. Muita gente sai do cinema se lembrando da “sua” própria Val, daquela pessoa que trabalhou junto na sua casa e que foi parte da sua formação pessoal.

Se você está em dúvida, se você tem receio com filmes nacionais, se você tem um só filme para assistir essa semana, vá ver “Que Horas Ela Volta”. Emocione-se com a Val e vamos torcer para que o sucesso nas premiações faça mais gente ver (e pensar a respeito de) esse filme humano, doce e ao mesmo tempo de engajamento social. Quer mais um motivo para assistir? Esse é um filme roteirizado, dirigido e protagonizado por mulheres. Isso não é raro só no cinema nacional, mas no cinema em si. Certamente não por falta de vontade ou talento, mas sim em função das escassas oportunidades oferecidas a elas. Aproveite e prestigie, então!

Literatura

PáginaDezAnos!

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imagem: Cassiano Rodka

Ao Cassi, meu grande companheiro nesta amorosa e artística empreitada!
A todos os colaboradores passados e presentes, por toparem unir-se a nós pelo mais puro amor à arte.
Aos meus leitores mais fiéis, de quem recebo comentários valiosos há tempos. Obrigada por tudo:
trocas, ideias, elogios, incentivo e carinho, sempre! Sem vocês, não faria sentido escrever.

Leitores queridos!

E então nosso PáginaDois completa dez anos! Sim, esta é uma data essencialmente especial, e é claro que eu não poderia deixá-la passar em branco.

Lembro-me bem do dia em que meu mano Cassi veio me propor unirmos nossos “trapinhos literários” (ou teria sido que eu quem sugeriu?). Bom, não importa mais. O que interessa é que decidimos nos unir para publicar nossos textos na Internet, por conta própria, e este foi um grande passo. Eu já vinha de dois anos de participações em jornais e revistas online, como a Carta Maior (a quem sou imensamente agradecida até hoje), o Recanto das Letras, o Concurso e Carreira. Foi nesses veículos que aprendi que os leitores são a alma mais que maravilhosa do nosso “negócio”…! Eles é que fazem tudo ter razão de ser. Foi ali que surgiram meus primeiros leitores de carteirinha, pessoas incríveis que semanalmente me enviavam suas opiniões e comentários. Com os leitores, tudo mudou: passei de escritora solitária, que dividia textos apenas com meu pai, para escritora da Internet, “dando a cara à tapa”, sem o menor pudor, revelando-me em crônicas e contos.

A partir dessa fantástica experiência inicial, surgiu minha vontade de continuar publicando, para um pequeno grupo, sempre fiel. Foi assim que, após muitas ideias trocadas com o Cassi, nasceu o PáginaDois, em 1o de outubro de 2005! Na época, eu estava grávida da Angelina, e um dos primeiros textos meus publicados no P2 foi sobre ela, ainda no útero. Angelina nasceu em 15 de novembro de 2005, um mês e meio mais nova que o site, portanto. Nossa pequena “madrinha”, sem dúvidas!

O Cassi, formado em jornalismo e muito mais antenado em tecnologia que eu, foi o responsável pela parte técnica do site: layout, design etc. Eu entrei só com as ideias mesmo. Em 2010, o site passou por uma reformulação técnica e de design, pelas mãos da Flávia Hocevar, amiga do Cassi desde o tempo da escola, e do Tiago Salomon. Ficou lindo demais!

O nome “PáginaDois” foi difícil de encontrar… A ideia foi do Cassi, e eu sugeri que o “D” do “Dois” fosse maiúsculo, para dar a noção de que era algo feito “a dois” mesmo. Mas logo esse “dois” passou a ser pouco, e tivemos a ideia de reunir alguns amigos que também gostavam de arte e o faziam por puro amor, como nós: foi aí que entraram a minha querida e inigualável amiga Marcella Marx, a poeta mais sensacional que conheço, com quem troco textos, angústias, paixões e desatinos desde a época da faculdade de Letras. Tivemos também a colaboração da Giuliana Giavarina, grande amiga do Cassi desde a época do colégio, da Melissa de Menezes, também amiga do Cassi, e da minha aluna e amiga Bianca Rosolem, guria muito especial cujas agitações internas nos renderam os mais belos poemas e textos por um longo tempo. Destaco com carinho uma das melhores “aquisições” para o P2, a minha priminha Isabel Dall’Agnol, que me chegou meio insegura, com alguns textos lindos, porém ainda sem forma, que foram a cada dia sendo trabalhados, lidos e relidos por nós duas, numa dança sem igual das letras, que resultou pouco a pouco numa poeta sensível e madura, que os leitores conhecem bem hoje em dia.

O Cassi teve também a brilhante ideia de expandir as temáticas do site, criando, assim, as colunas de música e de cinema. Por ali, passaram o grande Fabiano Liporoni, o querido “Fabilipo”, que escrevia sobre música e cinema, e muito me ensinou sobre a sétima arte; o Moisés Westphalen, também colunista de cinema, o Carlos Bêla e a Lalai Santos, da música. Hoje temos o prazer de ter conosco o genial Pedro Cunha, historiador e professor, aficcionado e entendedor de filmes, que a cada mês nos presenteia com análises super inteligentes e sensíveis, sem nenhum traço da chatice de boa parte dos críticos de cinema. Por algum tempo tivemos também a “participação especial” do psiquiatra e escritor Jairo Bouer, grande figura, que nos honrou por com suas crônicas super divertidas e cheias de inteligência!

E é claro que não poderia deixar de falar de nossos incríveis ilustradores! O Cassi, que desenha tri bem desde a a infância, tomou a frente das “ilustras”, como carinhosamente as chamamos, no início da nossa trajetória. Com o tempo e o aumento do número de escritores e colunas, ele chamou algumas amigas para ajudá-lo nessa bela tarefa. Assim, tivemos a
Anelise Schutz, a Luísa Hervé e a Thiana Sehn, que muito honraram os escritores e leitores com sua imensa criatividade. Quero ressaltar especialmente a participação da minha amiga Ana Nitzan, artista plástica renomada, que nos presenteou com suas ilustrações únicas e cheias de personalidade por longos cinco anos. Também esteve conosco por algum tempo minha amada prima e afilhada Lívia Dall’Agnol, que participava com suas lindas fotografias. Hoje em dia, temos as colaborações da artista plástica Carla Scheidt Lund, com seus magníficos desenhos e aquarelas, e, mais recentemente, da fotógrafa Alessandra Giacomin, com suas belíssimas imagens.

Ainda, por último, mas não menos importante, quero falar do Pagininha, nosso “baby”, que durou alguns anos, e infelizmente terminou no ano passado. A seção infantil do P2 iniciou estrelada pelas mãos mágicas do escritor Marcelo Maluf, que foi meu colega na oficina de criação literária do renomado escritor Marcelino Freire. O Marcelo hoje tem diversos livros infantis publicados, e acaba de lançar mais um para o público adulto. Logo depois, juntou-se a ele minha amiga Juliana Torres Junqueira, a Ju, que trouxe à coluna ainda mais encantamento para pequenos e grandes!

Assim, leitores, com essa “colchinha de retalhos” artística, para a qual cada um contribuiu um pouco com seu amor pelas letras, música, cinema, artes plásticas e fotografia, nasceu, cresceu e amadureceu bem lindo e criativo o nosso amado PáginaDois, que só é o que é hoje porque nossos queridos leitores estão sempre presentes, nos prestigiando com seus elogios, comentários e ideias. Vida longa ao P2, é que desejamos, com muita inspiração e trabalho! Desse modo, agora só me resta pedir que “leiam, curtam, compartilhem”, sempre! Obrigada, leitores!

Literatura

O infinito

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imagem: Carla Lund

por Marcella Marx

Ao meu avô Vasco, herói.

O infinito como eu o imaginava era água transbordando, era o som da palavra – n ã o. Era aquele azul céu de dia sem nuvem, era a criança ao olhar para seus avós e neles reconhecer sua fortaleza.
Mas o infinito é chuva que cessa e recomeça, pra poder novamente cessar,
é o sim que sempre espera o não e dele absorve toda a sua amplitude. É a ausência de céu (como eu o imaginava – claro) para que das nuvens possa surgir o sol (mesmo que apenas como um raio) e assim marcar a passagem dos avós.