Clarice Dall’Agnol

Literatura

Ponto e vírgula

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“A gente gostava das palavras quando elas perturbavam
o sentido normal das ideias.
Porque a gente também sabia que só os absurdos
enriquecem a poesia.”
(Manoel de Barros em Menino do Mato)

Para
Espera
Respira
Observa:
nem todas as pausas do mundo
cabem neste espaço entre o que se sabe
e o que a mente se põe a criar.
Descansa as angústias,
deixa que as próximas marés levem o que restou de ti.
Não subestimes o que é incerto: é o que te empurra, te faz vibrar.
Vive com o que não sabes, de modo que isso te auxilie a saber.
Desconstrói os paradigmas: o poeta só é poeta quando vive fora da curva.
Não te curva: que todos os teus descompassos sirvam como alento.
Que todos os erros sirvam como acerto,
e que todas as certezas se traduzam nas incertezas que te farão entender o sentido de tudo.
Nas entrelinhas estão as respostas, e ainda assim elas conseguem se fantasiar de perguntas.
Sente o ritmo do teu pensamento, e conduz-te ao que te faz sentir mais confortável.
Nem todos os destinos são os mais óbvios, nada pode ser controlado,
e é justo nisso que reside a delícia de ser.

Literatura

Meu castelo tem um soldado

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Meu castelo tem um soldado.
Um sujeito franzino, mas determinado.
Com sua espada trêmula em riste, ele mostra sua firmeza.
Não há dúvida, não há certeza.

Finge que está sempre preparado.
Sabe que, por seu caminho, não passará nada.
Ele está certo e, ao mesmo tempo, errado.
No limbo do acaso, ele está no centro.

Um soldado defende o meu castelo.
“Apenas um?”, você pergunta.
Um. Mas não apenas.

Existe um fogo em seus olhos que queima sem piedade.
Uma teimosia em ficar vivo e me manter também assim.
É um escudo de estanho e lealdade.
Não há exército que possa se aproximar de mim.

Quebra lanças.
Engole balas.
Mastiga tacapes.
Dá nó em maças.
Segura flechas.
Palita os dentes.
Acaba a guerra.
Estanca o sangue.

Meu soldado sempre vencerá.
Até o dia em que chegar o fim.
Para ele ou para mim.

Música

Legião Urbana celebra 30 anos em São Paulo

Praia de Rondinha, idos de 1986.

Três crianças brincam num balanço de dois lugares. Duas meninas entoam empolgadamente a letra de “Eduardo e Mônica”. Elas sabem cantar a música de cor e isso fascina a terceira criança, um menino. Ele admira a capacidade das irmãs de guardar cada detalhe daquela história sobre os encontros e desencontros de um casal ímpar. Ele pensa consigo que um dia ele também vai conseguir narrar cada capítulo dessa história. Esse gurizinho era eu.

Legião Urbana foi uma das primeiras bands de rock que eu escutei e curti. Foi trilha da minha infância e da minha adolescência. As canções, até hoje, me transportam àquela época leve e tranquila ao lado das minhas irmãs. A gente ouvia as músicas, cantava junto e ficava feliz cada vez que o pai trazia um novo K7 ou vinil da banda. O pai, aliás, foi quem nos apresentou aos punks de Brasília. O cara sabe das coisas!

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imagem: Cassiano Rodka

Quando minha irmã, a Clarice Casado aqui do P2, me convidou para assistir o show de comemoração dos 30 anos do primeiro disco do Legião em São Paulo, foi meio impossível resistir o convite. A outra mana, Camila, topou em seguida a ideia e, assim, o trio do balanço de dois lugares estava junto novamente.

A experiência foi mágica e nostálgica. Apesar de não ter Renato Russo nos vocais, a sua presença se fez perceptível nas letras e no carinho que as pessoas têm pelas suas canções.

O show foi dividido em duas partes. Na primeira, a banda toca o seu disco de estreia de cabo a rabo. Assim, o show inicia com o pontapé da clássica “Será”. No vocal, o ator e cantor André Frateschi. Sem nunca tentar emular a voz e os trejeitos de Renato Russo, Frateschi é uma escolha acertada e segura muito bem todas as canções. Além dele, os remanescentes da banda também se revezam no microfone.

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Apesar de conter alguns clássicos do repertório da banda, como “Ainda É Cedo” e “Geração Coca-Cola”, o álbum tem várias canções menos conhecidas do grande público, o que deixava parte da plateia meio em suspensão durante alguns momentos. O disco “Legião Urbana” é um disco cru, de canções punk com pitadas de U2 e Smiths. Em “O Reggae”, Dado faz uma citação de “The Guns of Brixton” do The Clash, uma das grandes influências do grupo. Fica claro que a primeira parte do show é para os mais fãs e a segunda é para todos. A bela “Por Enquanto” fecha o set cantada com vontade pela plateia. “Estamos indo de volta pra casa”. Na verdade, ainda não. Um áudio de Renato Russo falando sobre o Legião Urbana faz a costura entre o primeiro e o segundo ato do concerto.

A segunda parte do espetáculo traz a banda interpretando alguns de seus grandes sucessos ao lado de algumas participações especiais. A primeira delas é o produtor Liminha, que toca guitarra em “Tempo Perdido”. Dois cantores independentes, escolhidos por Dado e Bonfá através de um concurso, ganham a oportunidade de subir ao palco para cantar uma música que eles mesmos escolheram. Fabiano Vênkoff interpreta “Conexão Amazônica” e Marina Franco manda “Dezesseis”, uma música que Renato Russo não chegou a ter a chance de cantar ao vivo. Seguindo as participações, o músico cearense Jonnata Doll assume os vocais de “1965 (Duas Tribos)”. Para cantar “Monte Castelo”, Dado Villa-Lobos chama ao palco o hermano Rodrigo Amarante, que mandou uma belíssima interpretação da música. Amarante capitaneou ainda mais dois clássicos, “Quase Sem Querer” e “Índios”. A clássica “Pais e Filhos” foi tocada pela banda junto com seus filhos, Nicolau Villa-Lobos na guitarra e João Pedro Bonfá nas baquetas. Emocionante!

O set fecha com a belíssima “Perfeição”, com direito a citação de “Lithium” do Nirvana. Mas claro que ainda há um bis esperando atrás da cortina. O grupo retorna ao palco para cantar um dos grandes êxitos da banda, um épico de 9 minutos, sem refrão, com essencialmente dois acordes e muitas mudanças de andamento. Tinha tudo para dar errado, mas as rádios tiveram que engolir o sucesso de “Faroeste Caboclo” e aqui no Espaço das Américas a música mostra que continua tão forte quanto na época de seu lançamento.

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Para encerrar a noite, a banda toca o hino “Que País É Este”, entoada por todos num clima de “a coisa continua foda”. É impossível não perceber que as letras políticas de Renato Russo ainda têm relevância e infelizmente continuam refletindo o nosso país. Mudaram as estações. E nada mudou.

Em Porto Alegre, o show vai rolar na sexta-feira do dia 11 de dezembro no Pepsi on Stage. Nós recomendamos!

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Literatura

Com quantas memórias se tece uma vida?

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Para a Clarice adolescente, que de certa forma ainda em mim habita.

Há quem pense que o passado tem lugar exatamente lá: no passado. Deve ali restar, e nunca mais ser tocado. Ser lembrado, assim, meio que por alto, quando se vê alguém que não se via há muito, quando se sente um cheiro ou se prove qualquer coisa que te recorde algo longínquo; quando se vê fotos, ou se lê um livro, ou um poema, ou se ouve uma canção que um dia abalou suas estruturas.

Eu era assim. Era uma dessas pessoas. “Ah, passou. Deixa lá”. Sou conhecida por ter uma memória péssima. Na minha família todos brincam comigo, dizem que sou desmemoriada. De fato, não lembro nunca de detalhes minuciosos de fatos. Tenho, porém, uma memória impressionante para aquelas coisas que enumerei no primeiro parágrafo deste texto. Um aroma, uma poesia ou uma música podem me jogar no tempo de tal modo a me abalar, por exemplo. Creio que posso dizer que tenho uma memória sensorial fora dos padrões. E talvez seja por isso que me sinto bem escrevendo. O escritor sem os sentidos muito apurados: ah, quanto desperdício…

Leitores queridos, pois essa pequena introdução serviu para contar-lhes que a Clarice que conhecem, uma cética quanto ao valor dos fatos passados, é hoje outra. Há alguns meses, tive o imenso prazer de ter contato, após mais de vinte e cinco anos, com meus diários de adolescência. Estavam na casa onde cresci, em Porto Alegre, assim como grande parte das minhas melhores memórias de vida. Trouxe-os para a minha casa em São Paulo.

De início, tive um certo medo de começar a lê-los. O que eu iria exatamente encontrar? Eram quatro cadernos de capa dura, com fatos relatados de meus doze aos dezoito anos. Os dois primeiros me mostraram uma Clarice pré-adolescente, que eu até apresentei à minha filha Angelina, que disse, “Mamãe, você poderia ter sido uma amiga minha!”. Ali, histórias bem contadas, com toques de humor e muita inocência. Um mundo “pré-conflitos internos”. Confortável, maravilhoso…!

Quando mergulhei nos diários da adolescência propriamente dita (dos quinze aos dezessete), pude ver claramente a menina começando a perceber o mundo de forma diferente, sob os olhos da mulher em formação. Nos primeiros trechos, tive a sensação de que aquela era uma “outra eu”. Tive a nítida sensação de estar lendo os segredos de outra pessoa…! Isto fez com que eu parasse um pouco a leitura por alguns dias. Aquele gatilho de memória acionado não estava me deixando confortável: aquela Clarice adolescente assustou-me pela maturidade precoce, pelas reflexões detalhadas e muitas vezes angustiadas, pelas peculiares visões de mundo formando-se, pouco a pouco, decorrentes de minhas intensas leituras, de meus escritos, de meus relacionamentos com familiares e amigos, e de minhas experiências juvenis.

Após alguns dias refletindo sobre o passado, me permiti voltar à leitura. Devagar, com muita paciência, fui deixando-me envolver em doses homeopáticas pelas aventuras da jovem Clarice, por minhas dores e meus amores, minhas felicidades e minhas decepções. Pude ver nascer e morrer o primeiro amor, e pude também ver que nenhuma dor é tão profunda que não se cure pela expectativa das novas experiências. Pude experimentar de novo pela primeira vez uma boa cerveja (inesquecível!), e pude reler com olhos juvenis Mario Quintana, Mario de Andrade e Rubem Fonseca, e curtir com ouvidos virgens as bandas de música que eu amava. Pude ir de novo a festinhas do colégio, e conversar com meus amigos, cantar e dançar ao som da banda de garagem dos meus parceiros da adolescência. Pude ouvir os segredos e angústias das minhas amigas, e dividir com elas os meus. Tive medos e várias incertezas de novo. Ri alto de muitas das histórias que ali contei, com riqueza de detalhes. Conheci pessoas que não conhecia, lembrei-me de fatos que não lembrava, amei de novo com intensidade minha família, ouvi as histórias do meu pai e senti o apoio da minha mãe. Senti o cheiro da ceia de Natal na casa dos meus avós maternos, tive por mais uma vez as bençãos da minha avó paterna. Revivi churrascos gostosos em família, viagens com os amigos e verões inesquecíveis. Passei pela ansiedade da expectativa do Vestibular e toda sua preparação. Tive de novo as dúvidas emocionais e vocacionais da época. As resolvi, em parte. Questionei muitíssimo a vida, as pessoas, os relacionamentos, os comportamentos, as atitudes de todos e do mundo que me cercava. Naquele complexo microcosmos da Clarice adolescente, encontrei muitas das respostas que eu ainda não tinha sobre mim. Desde aquela época até hoje, mudei em vários aspectos, claro. Tenho a certeza, porém, que a minha essência ali está, guardadinha naquelas linhas (e entrelinhas), e quando eu precisar, posso recorrer ao meu “eu jovem” para amparar, de algum modo, meu “eu atual”.

Pudéramos todos termos colocado por escrito nossas impressões sobre a vida em algum momento. Acreditem, leitores, minha viagem foi excepcional. Nunca imaginei que essa leitura pudesse causar um impacto tão grande sobre mim e minha vida atual, mas, bom, de fato causou. Dali ainda poderei extrair muito boas crônicas, poemas, e até contos. Para uma escritora, esses diários são um verdadeiro tesouro da memória: alimento riquíssimo para a criatividade.

Posso seguramente dizer que experimentei, enfim, em toda sua plenitude, por alguns maravilhosos dias, as dores e delícias de ser quem eu era antes de tornar-me quem hoje sou.

E, posso dizer também, sem dúvidas, que sou extremamente apaixonada por quem me tornei.

Literatura

Sobre o despedir

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imagem: Carla Lund

por Marcella Marx

Despedir é também despir-se daquilo que foi, do que partiu e do que permaneceu intacto – talvez porque tenha ficado perto demais dos olhos do querer ou longe do alcance das mãos do pensar.

É ir retirando, ao seu tempo, ou com a urgência do tempo, as camadas mais externas e ir cavando, até alcançar a mais profunda. E assim, leve pela ausência do que antes compunha e pesando a enorme falta das lembranças, caminhar carne exposta em direção à possibilidade de novamente se despir.

Música

We Care a Lot – 30 anos do debut do Faith No More

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O primeiro disco de uma banda é sempre um passo importante na sua carreira. É o momento em que o grupo se apresenta ao mundo e mostra ao que veio. Ao lançar o álbum “We Care a Lot” em 1985, o Faith No More já deixava claro que sua intenção não era agradar facilmente o público, mas, sim, desafiar os paladares musicais.

Gravado no estúdio do produtor Matt Wallace (que, basicamente, era o porão da casa onde morava com seus pais), o disco trazia uma mistura de punk, rap, funk, metal e industrial. O som era cru, mas com arranjos bem acabados e uma comunicação musical muito forte entre os integrantes – um instrumento complementa muito bem o outro, dá para entender que há uma conexão imprescindível entre eles. As letras eram despretensiosas e debochadas, ora cantadas, ora declamadas em rap. Já na faixa-título, a banda tirava um sarro com uma tendência da época: artistas escrevendo músicas engajadas.

Algumas coisas chamavam atenção logo na primeira ouvida, como a inclusão de teclados climáticos, que davam um toque cinematográfico às músicas do Faith No More. A simples adição de um tecladista em uma banda de rock pesado já era algo fora dos padrões naquela época. Segundo o baixista Bill Gould, isso foi feito para trazer dramaticidade e criar ambiência para as músicas. E o tecladista Roddy Bottum sempre soube fazer isso muito bem, criando pérolas do repertório da banda, como as faixas “Why Do You Bother” e “As the Worm Turns”.

Outro destaque é a conexão entre baixo e bateria. Os ritmos africanos trazidos por Mike Bordin são complementados pelo baixo econômico de Bill Gould e o resultado é surpreendente. O riff de baixo de “We Care a Lot”, por exemplo, foi construído com apenas UMA nota. É o ritmo e o casamento com a batida que fazem ele funcionar tão bem. Muitas das músicas surgiram de jams entre essa duplinha mais o tecladista Roddy Bottum. Curiosamente (para uma banda de rock), a guitarra e o vocal eram as últimas preocupações. O que nos leva a Jim Martin e Chuck Mosley, dois integrantes originais que foram imprescindíveis para a formação do som do Faith No More, mas que foram eventualmente chutados por desavenças musicais e/ou pessoais.

O guitarrista Jim Martin inseriu uma boa dose de heavy metal nas canções, mas ainda não há solos de guitarra nas faixas, algo que mudaria completamente nas próximas gravações. Tenho a impressão de que os outros integrantes seguraram um pouco a onda metal de Jim nesse primeiro álbum. Mas não impediram ele de incluir no disco uma singela balada acústica e instrumental tocada apenas por ele e intitulada simplesmente “Jim.” Um baita guitarrista e uma figuraça (usava óculos gigantescos vermelhos, cabelos e barba compridos – o rosto dele era um mistério…), Martin é nostalgicamente lembrado até hoje pelos fãs, mas sua saída foi inevitável e definitivamente abriu portas para o Faith No More experimentar com novas possibilidades sonoras.

O álbum ainda contava com o vocalista Chuck Mosley, que ainda gravaria mais um disco com a banda e depois seria substituído por Mike Patton. Apesar de não ser um cantor muito versátil (a comparação com a voz de Patton chega a ser desleal), Chuck foi quem introduziu a ideia de mesclar vocais cantados com rap. Segundo ele, a ideia foi mais uma necessidade mesmo, pois ele não conseguia criar melodias para algumas partes mais malucas das canções, então “falar” por cima de certas bases parecia funcionar melhor. Para quem está acostumado com Patton nos vocais, escutar Mosley pela primeira vez pode ser um choque, mas o cara tem definitivamente uma grande importância na criação do som do Faith No More. É só ouvir “Mark Bowen” e ter certeza. E, para os seus críticos mais incisivos, Chuck manda logo um recadinho na faixa “Greed”: “Saia de sua mente, pois ele é pequena demais! E tem muita coisa rolando por aí!”.

O baixista Bill Gould anunciou que, em comemoração aos 30 anos do disco, a banda lançará uma edição especial com faixas extras e fotos inéditas em 2016. É uma merecida atenção especial para um álbum que foi o primeiro e acertado passo de uma das bandas mais interessantes de todos os tempos.

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