Clarice Dall’Agnol

Literatura

O final

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imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

O final é o começo invertido.
A palavra: r-o-m-a.
De tanto desuso, mal uso, uso em vão: caducou.
Não pode mais ser proferida. Emudeceu.
Cansada. Foi se deixando amolecer.
Palavra mole vai se desintegrando, perdendo a forma e a solidez. Virando isso e aquilo também. O que você quiser que seja, ela é.
Entristeceu primeiro, depois foi perdendo os cabelos, os dentes, a cor.
Ficou pálida, esquálida, franzina.
Escorreu qual geleia por um buraco de chão.
Todos estão a sua procura.

– Cadê ela? pergunta um daqueles por cuja boca ela saía todos os dias, com hora e local marcados.
– Ela quem? diz o distraído, um dos poucos por cuja boca ela jamais saiu.
– A palavra (). Ele tenta, seus lábios se abrem como se fosse em câmera lenta. Sua língua não o obedece. Ele balbucia consoantes e vogais que não formam nada parecido com ela.

A palavra derretida, parece entalada nos cantos da boca, mas não.
Já vai longe por entre o vão da terra que a acolhe.
Quem sabe ela hiberna em silêncio, repousa latente e volta.
Um dia.
Na boca de alguém que a sentir. Primeiro em osso, depois em músculo, pele e só derradeiro em som, pela boca. Expelida, não por escolha, mas por decisão de não sufocar.

Se assim for, palavra talvez volte, reinventada.
Até lá, aqui jaz a palavra a-m-o-r: enterrada.

Literatura

Um novo ano

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imagem: Cassiano Rodka

Espero há quase duas horas.

Sentado em uma desconfortável cadeira, aguardo a vinda de uma enfermeira que parece a Bette Midler. Eu achei ela a cara da Bette Midler. A sala de espera parece ter uma mistura de pacientes, acompanhantes e crianças que não sabem bem o que estão fazendo ali. No ar, paira aquele clima tenso que parece ser uma regra em todos os hospitais.

Minha espera é coberta de angústia, talvez sem motivo, eu sei. Mas não gosto de hospitais. Sinto que as doenças estão à espreita nas sombras, aguardando minha distração para se jogarem na minha jugular. Me sinto disponível a todas elas, como se estivesse ali sentado esperando que uma me escolha.

O hospital tem um falso silêncio. Há vários barulhos ao meu redor, mas a gente se acostuma com todos e eles transformam-se em uma apreensiva trilha sonora. É uma maçaroca de vozes, choros, conversas, ruídos de aparelhos hospitalares e aquele tique-taque ameaçador do relógio…

Ouço a senhora ao meu lado comentar com uma jovem que já teve câncer duas vezes. A enfermeira que parece a Bette Midler surge na minha frente e eu me levanto. Opa! Ela sorri e diz que não é a minha vez ainda e leva, num semiabraço, uma velhinha com um andadouro.

Um jovem de boné e óculos escuros passa com uma receita na mão e (o que eu imagino que sejam) os seus remédios no bolso. Eles fazem um barulho de chocalho a cada passo, dando um ritmo fúnebre a sua caminhada. Não sei o que ele tem, mas a lenta marcha faz parecer que não seja nada bom. E eu continuo esperando.

Pode parecer bobagem, mas essa espera sempre me faz lembrar que estamos sempre aguardando pelo dia em que a nossa história acaba. Não acredito em ressurreição, portanto creio que quando tudo termina… Bem, termina de vez. Cada um de nós, da senhora com andadouro à criança que não sabe bem por que está ali, está em uma lenta caminhada em direção ao fim. Apocalíptico, eu? Talvez. Mas é verdade.

A enfermeira que parece a Bette Midler para na minha frente. Agora sim, é a minha vez. Eu a sigo, nervoso, numa marcha vagarosa parecida com a do cara de boné. Sinto um medo de sei-lá-o-quê, aquela incerteza do que vem pela frente. Escuto a maçaroca de sons, mais indefinida do que nunca. Com exceção do tique-taque do relógio…

“É aquela ali”, me diz a Bette Midler batendo a sua unha comprida contra uma janela de vidro.

E eu a vejo pela primeira vez.

Inquieta, mexendo as mãozinhas. Sua cabecinha pequenina tem pouquíssimos cabelos, os primeiros habitantes daquela carequinha lunar. O narizinho é tão minúsculo que mal aparece em seu rostinho. A boquinha, meio torta e babada, se movimenta como se já quisesse manifestar as suas primeiras ideias. Ela é linda. Não, sério! Ela é a coisa mais linda que eu já vi na vida. Eu olho incessantemente para ela e posso jurar que ela olha para mim.

E a minha vida recomeça.

Cinema

Quem vimos em 2015

por Pedro Cunha

Em geral eu faço uma lista de melhores filmes no final do ano. Mas 2015 foi um ano diferente. Quando comecei a organizar minha lista saltou aos olhos que 2015 não foi um ano normal na cultura pop. Resolvi, então, fazer uma lista diferente. Não vou enunciar os filmes de 2015, mas sim os grandes personagens do ano, sem ordem específica. Vamos lá?

 

Ana Muylaert e Regina Casé

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Ana Muylaert e Regina Case, merecedoras dos prêmios que receberam

Num momento em que o Brasil discute cada vez mais as contradições de suas relações sociais Ana Muylaert, diretora, roteirista e produtora nos apresenta “Que Horas Ela Volta?”, o melhor filme brasileiro do ano e um longa sensível e humano sobre um país em transformação, que com poucos personagens consegue nos mostrar diferentes facetas de nós mesmos. Os conflitos entre a empregada e a patroa, entre a filha da empregada e a empregada, entre a filha da empregada e a patroa conseguem traçar um painel dinâmico das novas (e das antigas) relações sociais no Brasil do século XXI.  “Que Horas Ela Volta?” foi filme brasileiro indicado para concorrer ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, mas infelizmente acabou ficando no meio do caminho da complicada corrida por essa estatueta. Se você ainda não viu o filme, não perca. A Val de Regina Casé ao nascer tornou-se uma das personagens mais marcantes do cinema brasileiro. Regina Casé, aliás, apresenta o “Esquenta”, programa dominical voltado para as classes populares e de certa forma ridicularizado por uma pretensa ~elite cultural~ que não vê nada além dos quadros musicais de funk e pagode no programa. O “Esquenta”, das vezes que assisti, foi um programa militante e combativo. Vi um quadro sobre possibilidades de penteados e cortes de cabelos para moças negras. No mesmo programa vi um coletivo de mulheres que se organizava na periferia para protegerem-se e denunciarem violência doméstica. Bem ao contrário do costumeiro comentário de “alienação” que costuma ser vinculado ao programa. A apresentadora e atriz recebeu diversas premiações pelo papel, todas elas merecidas. A polêmica protagonizada por Casé no final de 2015 expõe, mais uma vez, as contradições nossas e do nosso Brasil.

 

Katniss Everdeen

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Jennifer Lawrence é Katniss Everdeen, “O Tordo”, em “Jogos Vorazes – A Esperança Parte II: O Final”

2015 marcou o final da saga “Jogos Vorazes”, que levou legiões de adolescentes aos cinemas nos últimos anos e portanto merece, com justiça, que sua personagem principal figure na lista. O último filme da série, “Jogos Vorazes – A Esperança Parte II: O Final” (The Hunger Games: Mockinjay part 2” (eu adoro esse título em português, enfim) é na verdade a segunda metade do filme anterior e apesar de trazer muito mais tramas políticas do que a ação desenfreada que marcou os dois filmes da série ainda assim sustenta bem o ritmo e termina de maneira bacana a série. “Jogos Vorazes” ajudou a tornar Jennifer Lawrence uma das estrelas mais rentáveis de Hollywood e se a série pode lá não ser muito original, pelo menos serviu para derrubar vários paradigmas: estamos falando de uma série de ação para adultos jovens estrelada por uma mulher. Cujo vilão, no final das contas, também é uma mulher (a manipuladora Presidente Coin, vivida pela sempre talentosa Julianne Moore). E ao contrário das previsões mais céticas a série arrebentou o box office e arrecadou muito dinheiro, mostrando para o mundo que sim, séries jovens de ação podem ser estreladas por mulheres sem que isso afete o seu potencial financeiro. “Jogos Vorazes – A Esperança Parte II: O Final” também nos brinda com o último trabalho do talentoso e saudoso Philip Seymour Hoffman, mesmo que parte de sua participação tenha sido feita via computação gráfica.

 

Shonda Rhimes

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Shonda Rhimes, o rosto por trás de Grey´s Anatomy e How to Get Away With Murder

Se há algo que está crescendo na indústria do entretenimento são as séries. Antes um desprestigiado produto de segunda classe, hoje elas são onde está muito do melhor produzido em termos de arte cinematográfica, e não há exagero nessa frase. Séries como “House of Cards”, “Breaking Bad”, “True Detective” ou “Game of Thrones” atraem estrelas de primeira grandeza para seus elencos e arrancam elogios da crítica em produções de luxo com repercussão mundial.

Nesse universo das séries, poucas pessoas são tão respeitadas hoje como Shonda Rhimes. Ela é uma das produtoras mais poderosas dos EUA e responsável por “Grey’s Anatomy”, um dos maiores ibopes das televisões dos EUA, desde 2005. Shonda hoje também responde por outras séries, sempre bem sucedidas, como “Scandal” e a elogiadíssima “How To Get Away With Murder”. Shonda hoje é a “Rainha Midas” da televisão norte-americana. HTGAWM, como os fãs chamam, é uma série que conquistou os primeiros lugares do ibope tendo a “ousadia” de colocar como protagonista uma mulher negra, a professora Annalise Keating. A oscarizada Viola Davis vive a personagem que rompe paradigmas: ela não só é protagonista, mas também é uma mulher negra vivendo uma renomada professora de uma prestigiada universidade, e não um daqueles papeis de serviçais nos quais estamos tão acostumados a ver os atores negros representarem. O sucesso de How To Get Away With Murder colocou Shonda Rhimes naquele seleto grupo de produtores cujos projetos são garantia de lucratividade, não importa o quanto custem.

 

Jessica Jones

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Krysten Ritter é Jessica Jones, detetive particular.

A heroína criada por Brian Michael Bendis na despretensiosa série “Alias”, do (infelizmente) extinto selo Marvel Max, onde a editora publicava quadrinhos mais adultos, ganhou as telas numa das tantas séries produzidas pelo serviço de streaming Netflix. “Jessica Jones”, apesar de se passar no mesmo universo cinematográfico da editora (e há citações ao Hulk, ao Homem de Ferro e ao Capitão América, por exemplo), explora um contexto completamente diferente. O dia a dia de Hell’s Kitchen, um bairro de Nova Iorque atormentado por problemas mais comuns. A série de Jones conversa mais com a outra (também elogiada) série do Netflix que passa-se no mesmo universo, “Demolidor”, com quem inclusive “divide” um personagem. Jessica Jones é a protagonista vivida por Krysten Ritter e é uma mulher independente que bebe, fala palavrão e faz sexo casual. O seriado nos brinda com uma seleção, aliás, de mulheres fortes e independentes, ainda que bastante diferente umas das outras. Além de Jessica, sua irmã adotiva Trish Walker (Rachel Taylor) ou a inescrupulosa advogada Jeri Hogarth (Carrie-Ann Moss, a Trinity de Matrix) nos mostram aquela palavrinha mágica que tanto apareceu na mídia em 2015: diversidade. O vilão da série, Killgrave (o sempre excelente David Tennant), rouba a cena e se torna aquele “vilão que amamos odiar” de 2015. Jessica Jones tem uma protagonista sensacional. Um elenco de apoio ótimo. Um vilão maravilhoso. E como se tudo isso não bastasse, a trama é fantástica. Como alguém já escreveu, “não é uma série sobre heróis: é uma série sobre abuso”. Se você ainda não viu Jessica Jones corre lá no Netflix e comece. Mas vai ser difícil de parar antes do último episódio…

 

Imperator Furiosa

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Não mexe com a moça…

Trinta anos. Foi o tempo que George Miller levou para trazer o quarto filme da saga Mad Max depois de “Mad Max: Além da Cúpula do Trovão” (Mad Max Beyond Thunderdome, 1985). O projeto de “Mad Max: Estrada da Fúria” (Mad Max: Fury Road, 2015) estava pronto a mais de quinze anos, mas Miller teve que passar por porcos falantes e pinguins sapateadores antes de voltar ao outback australiano e reviver as lendas do futuro pós-apocalíptico que fascinou a todos nós nos anos 80.

Quando ficou claro que a produção ia de fato ocorrer, todos ficamos ansiosos para ver se Tom Hardy ia conseguir vestir as botas (e o casaco sem manga) de Mel Gibson. Se ele seria o mesmo Max ou um personagem diferente. Se o filme seria um reboot ou uma continuação da franquia. Todas essas perguntas se mostraram desinteressantes depois da estreia do filme, porque fomos atropelados por Imperator Furiosa. A personagem de Charlize Theron rouba o filme com propriedade. Ela atira melhor que Max. Ela dirige melhor que Max. Ela briga melhor que Max. Aliás, ela faz todas essas coisas melhor do que qualquer outro personagem do filme. E faz tudo isso, literalmente, com um braço só. O melhor de tudo, é que ela faz isso num fantástico e vibrante filme de ação, que consta em quase todas as listas de melhores filmes do ano que foram publicadas. “Mad Max: Estrada da Fúria” criou bordões instantâneos, levou multidões vibrantes às salas escuras e criou uma das personagens mais badasses da história do cinema.

 

Rey

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Esse é o rosto da nova geração de Star Wars 

Há muito que se dizer sobre “Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força” (Star Wars – Episode VII: The Force Awakens, JJ Abrams, 2015) e eu direi (logo!!). Mas esse texto não é sobre isso, é sobre a fantástica personagem de Daisy Ridley. Ridley é uma atriz britânica iniciante cuja primeira aparição na TV data de 2013. Não tem nenhum trabalho significativo creditado a ela antes de Star Wars, o que faz com que ela não seja diferente do que eram Mark Hamill ou Harrison Ford antes do Episódio IV. Ainda assim sua personagem Rey passa com maestria pelo filme. Rey é a ponte de embarque para algo importantíssimo no mundo de Star Wars: novos fãs. É através dela que rola aquela identificação necessária para embarcar naquela jornada toda, de quem não entende direito o que está acontecendo e cresce durante o filme. Rey é independente. Rey se vira, no seu planeta. Ela não precisa de ninguém. Ela sabe pilotar uma nave. Ela não precisa que o Finn a salve (de fato, ela o salva mais de uma vez). A emblemática cena da corrida de mãos dadas ajuda a definir a personalidade da menina para nós, ressaltando que ela é a heroína, e não a “donzela em apuros”. Quando eu era criança, nós brincávamos de Guerra nas Estrelas. Eu gostava de ser Han Solo. Meu primo era Luke Skywalker. Nós nos identificávamos com esses personagens. As crianças hoje saem do cinema querendo ser a Rey. E isso é muito, mas muito positivo.
(Sim, eu escolhi apenas mulheres para ilustrar esse texto. Eu poderia dizer que eu fiz isso porque 2015 foi um ano no qual muito se discutiu sobre feminismo e representatividade feminina. Eu poderia dizer que essa é uma escolha política, também. Eu poderia simplesmente dizer que não há nada de mais nessa escolha e que realmente foram as personagens mais importantes do ano, independente de qualquer coisa. E sim, todas essas respostas estão corretas.)

Literatura

Saudade

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imagem: Alessandra Giacomin

por Isabel Dall’Agnol

Sinto falta do calor.
E do úmido da tua pele,
se confundindo com a minha.

Vontade de quando
o mundo dançava
a melodia dos nossos passos.

Queria poder olhar
nos teus olhos.
E deitar no teu tom.

Segurar tuas palmas.
Despedir o tempo.
Agasalhar-me
na tua sombra.

Sinto falta de brincar
com o teu jeito.
Gastar palavras.
Divagar fantasia.

Tenho medo de
esquecer com o tempo.
Perder cada detalhe,
que costurei na estampa.

Não quero que
escorras da memória.
Que te derrames em vazio.

Sinto falta de partilhar
o horizonte.
Anoitecer no teu ombro.
Despertar no teu corpo.

Música

Os melhores de 2015

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O ano de 2015 não ofereceu uma enxurraaada de bons discos, mas, como sempre, há aqueles que fazem a vida valer a pena. (Dramático, mas verdadeiro!) Aqui vão os meus preferidos, em ordem de lançamento. Aproveito para desejar um ótimo Ano Novo a todos os leitores desta coluna!

Therapy? – Disquiet
Depois de lançar dois discos de composições roqueiras mais complexas e introspectivas, o Therapy? resolveu buscar o clima punk juvenil que caracterizava a banda no passado para criar as músicas de “Disquiet”. Com arranjos mais crus e riffs pesados, a banda revisita a sua época áurea, mas sem grandes saudosismos, criando belos novos clássicos, como os singles “Still Hurts” e “Deathstimate”.

Faith No More – Sol Invictus
Após uma volta aos palcos que mostrou que a banda ainda tinha muito vigor para tocar, era mais do que justo o Faith No More entrar em estúdio e pôr a criatividade para funcionar em novas composições. O resultado surpreendeu mesmo os mais ávidos fãs e “Sol Invictus” provou-se uma bela adição à discografia dos caras. Com canções bem construídas e letras bem humoradas que falam de zumbis e ressurreição, o grupo deixou claro que está de volta ao mundo dos vivos.

Mac McCaughan – Non-Believers
Em seu primeiro disco solo, o vocalista do Superchunks dá um mergulho no gênero que o fez gostar de música quando adolescente: o new wave. Utilizando muitos sintetizadores e batidas eletrônicas, o músico explora um outro lado de sua personalidade musical e nos apresenta composições com um sabor do passado mas com o pé firme no presente.

Jaga Jazzist – Starfire
Os noruegueses do Jaga Jazzist direcionaram a sua jornada nu-jazz por um caminho mais eletrônico e acertaram em cheio em “Starfire”. O namoro do grupo com a eletrônica no passado era sempre muito experimental e aleatório. No novo disco, a banda parece ter focado mais na construção das batidas e nos arranjos, resultando em composições mais consistentes. Nada disso atrapalhou o gosto da banda pelo improviso, resultando num belo casamento entre a estruturação e o puramente orgânico.

FFS – FFS
A união de duas belas bandas só poderia dar em um discaço! Com mais de 40 anos de estrada, os americanos do Sparks juntaram forças com os escoceses do Franz Ferdinand para criar o supergrupo FFS. O estilo dos dois grupos casou muito bem, o Franz ganhou um toque mais experimental e o Sparks, por sua vez, ganhou um sabor pop, dando vida à músicas que trazem um pouco de cada banda, mas com algo de novo para os fãs de cada uma delas.

John Grant – Grey Tickles, Black Pressure
Em seu terceiro disco, John Grant vem mais eclético do que nunca. O músico americano radicado na Islândia mescla o folk dos seus primeiros anos à música eletrônica noventista que caracterizou seu segundo disco e adiciona elementos de funk, fifties e arranjos orquestrados. Assim, “Snug Slacks” lembra a fase áurea do Prince enquanto “Down Here” mescla o folk de Leonard Cohen a boas pitadas de jazz. O humor das letras do compositor continua ácido e a instrumentação está primorosa, garantindo ao músico o posto de um dos melhores compositores dos últimos tempos.

Música

Discos de Natal

Nada mais chato que canções de Natal, não é verdade? Mas, como tudo na vida, há exceções. Para quem quer entrar no clima natalino, mas sem sofrer nas mãos de coisas malignas como Simone, eu recomendo aqui alguns dos melhores álbuns de Natal que eu conheço.

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Scott Weiland – The Most Wonderful Time of the Year
O eterno vocalista do Stone Temple Pilots deixou o mundo agora no final de 2015. Nada mais justo que prestar homenagem à essa grande figura e ainda garantir um clima natalino roqueiro à sua noite. O disco, na verdade, tem bastante orquestra e não muitas guitarras, mas há espaço para toques jazzísticos e reggae que resultam em boas versões para clássicos como “Winter Wonderland” e “Silent Night” – em uma impagável versão reggae com gingado latino. A voz de Weiland, por vezes, soa meio debochada nas baladas, mas não deixa de ser divertido escutar ele murmurando “I’ll Be Home for Christmas” em uma voz de quem está bêbado num bar e definitivamente não estará “home for Christmas”. Uma boa companhia para a noite!

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John Zorn – A Dreamers Christmas
Para quem prefere um clima jazzístico, o álbum “A Dreamers Christmas” é a pedida. John Zorn desafia a sua banda The Dreamers a interpretar alguns clássicos natalinos e o resultado é bom demais. Com um timaço que inclui Trevor Dunn no baixo, Joey Baron na bateria, Marc Ribot na guitarra, Jamie Saft nos teclados, Cyro Baptista na percussão e Kenny Wollesen no vibrafone, o trabalho fica fácil. O disco é quase todo instrumental, mas fecha com a sempre brilhante participação de Mike Patton dominando “The Christmas Song”. Ótima trilha para manter o clima sem muita cantoria, lalalás e hohohos.

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Die Roten Rosen ‎- Wir Warten Auf’s Christkind
Agora, se a ideia é dar um nó nas barbas do bom velhinho, o álbum ideal é este da banda punk alemã Die Toten Hosen. Assumindo o pseudônimo de Die Roten Rosen (“As Rosas Vermelhas”), os músicos mandam versões pesadas e cheias de referências à cocaína, dando um significado completamente diferente para o que seria um “White Christmas”. A versão deles para “Jingle Bells” é ótima, e a interpretação de “White Christmas”, certamente a melhor do mundo. Nã-nã-não! Sem spoilers! Ouça!

E um feliz Natal a todos vocês!

Literatura

Nós

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Meu grão junto ao teu grão junto ao meu grão junto ao teu
Nossa soma espalha
Qual raiz em solo

Teu suor junto ao meu suor junto ao teu suor junto ao meu
Nossa soma alaga
Qual seiva em tronco

Minha mão junto a tua mão junto a minha mão junto a tua
Nossa soma completa
Qual botão em espera

Teu olhar junto ao meu olhar junto ao teu olhar junto ao meu
Nossa soma amplia
Qual flor em perfume

Minha voz junto a tua voz junto a minha voz junto a tua
Nossa soma ecoa
Qual fruto em vontade

Meu eu junto ao teu eu junto ao meu eu junto ao teu
Nossa soma dilata
Qual tempo em finitude