Clarice Dall’Agnol

Literatura

O mar em mim

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imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

Meus pés tocam a água.
Por mais que eu tente,
Nunca estou preparada pra temperatura que me espera.
O tempo me faz a acostumar.
Imagino meu sangue fluindo mais rápido
em contato com a água fria,
reagindo a minha ação de andar até a beira do mar
de deixar a água me tocar.

A areia me sorve dedo a dedo.
Fico assim afundando,
Perco a noção do tempo.
Gosto de brincar daquilo que me prende.
Mais água me encontrando,
Mais do que sou em contato com a água.
Sinto a pressão sufocando os limites destes dois pedaços de pele, sangue e osso
Que me compõe.

Não enxergo mais meus pés,
mas ainda os sinto.
O pulsar do meu coração latente em minhas veias
Não sabia que era possível:
Coração nos pés
Pesados sob os grânulos de milhares de anos.
O mar a me engolir
Como faz com tantas outras coisas.

Areia e mar – e sua sinfonia
A água empurra, a areia cobre, ambos sugam
Sugam, cobre, empurra,
Empurra, cobre, sugam.
Eu penso em deixar a brincadeira séria
Esquecê-los aqui,
Assim como as coisas são esquecidas.
Os pássaros que voam acima de mim,
Muito acima
Me fazem lembrar que não há essa opção.

Cinema

Carol

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por Pedro Cunha

Durante a minha graduação eu tive excelentes professores. Uma das mais queridas foi a professora Elizabeth Torresini. Além de trabalhar os conteúdos programáticos a professora “Bete”, como carinhosamente a chamávamos, tinha toda uma preocupação com a maneira como esses conteúdos poderiam ser trabalhados em sala de aula nos ensinos Médio e Fundamental. Um assunto que frequentemente era tratado por ela era a utilização de filmes em sala de aula. Os filmes em aula são sempre um recurso sedutor, mas há cuidados a se tomar. Lembrei de minha professora por causa de uma frase que ela repetiu algumas vezes: “Um filme histórico sempre diz muito sobre uma época: sobre a época na qual ele foi feito”. O que ela queria dizer com isso? Que “Spartacus” (Stanley Kubrick, 1960) e “Gladiador” (Gladiator, Ridley Scott, 2000) são filmes sobre Roma, mas as muitas diferenças entre os dois filmes falam muito sobre a Guerra Fria no final dos anos 1950 e sobre o final da “Pax Americana” dos anos 1990.

Por que me lembrei disso? Porque vi “Carol” (Todd Heynes, 2015). “Carol” é um filme que se passa nos anos 1950, mas que diz muito sobre a sociedade na qual vivemos e sobre discussões que são extremamente atuais. O roteiro parte de situações extremamente simples: Carol (Cate Blanchet), uma senhora da alta sociedade, conhece Therese (Rooney Mara) casualmente na loja onde esta é vendedora. Há uma atração nitidamente mútua entre as duas, mesmo que nada tenha sido dito. As luvas esquecidas por Carol são a desculpa para que Therese a procure, e a partir daí as duas iniciam um relacionamento que passa por amizade, cumplicidade, admiração, curiosidade e, finalmente, romance. Carol é uma mulher madura que depois de muito tempo descobriu o que não quer: não quer continuar casada e não quer exercer o papel de esposa. Não tem nenum problema em ser mãe e acha que esse papel não se condiciona ao de esposa, conseguindo separar perfeitamente as duas coisas. Já Therese é uma jovem que não sabe o que quer: ela se interessa por música, gosta de fotografia e tem um turbilhão dentro da própria cabeça, na dúvida se deveria ou não se resignar com as oportunidades que a vida e o namorado lhe apresentam de ter uma vida “normal”. É nos entremeios dessas dúvidas e certezas que essas duas mulheres se conhecem e acabam se envolvendo.

A vida de Carol e Therese poderia ser muito mais simples, mas nos anos 1950 as coisas não eram tão fáceis. Carol encontra-se saindo de um casamento, e isso pode ser qualquer coisa, menos simples. Ainda mais quando há (e há) uma criança envolvida. O (ex)marido de Carol, Harge (Kyle Chandler), não entende a situação, sente-se injustiçado e acha que tem direito ao casamento e à família, que seriam sua propriedade. Da mesma forma o namorado de Therese não entende as dúvidas e angústias dela e sente-se legitimamente injustiçado quando ela tenta largá-lo, já que ele teria conseguido um emprego e pago uma viagem para ela, o que a deixaria em débito com ele e na obrigação de cumprir o protocolo, casando-se com ele e dando a ele a família tradicional que ele gostaria de ter.

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Heynes conta sua história com a delicadeza que ela merece. Não há pressa no ritmo do filme, que toma o tempo necessário para que a trama se desenvolva. O trabalho do diretor tem um casamento extremamente feliz com as escolhas da fotografia do filme. Os tons escolhidos e a luminosidade optaram por reproduzir e homenagear fotógrafos e pintores conhecidos por retratarem a melancolia e a solidão nos Estados Unidos, notadamente Hopper. O andamento e a fotografia juntam-se a uma feliz escolha de trilha sonora e o conjunto é ao mesmo tempo elegante, bonito e triste, assim como a história que Heynes decidiu contar. O segundo ato, em especial, é lindo: é o momento em que o filme lembra outros road movies, tendo como paisagens as estradas, delis e moteis norte-americanos. Impossível não lembrar de “Thelma e Louise” (Thelma & Louise, Ridley Scott, 1991).

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“Carol” recebeu cinco indicações ao Oscar. Foi justamente indicado por Melhor Trilha Sonora e Melhor Figurino, numa reconstituição de época lindíssima e caprichada, do jeito que a Academia gosta. O filme também foi indicado a Melhor Roteiro Adaptado, já que o filme origina-se do livro “O Preço do Sal”, de Patricia Highsmith. Nas indicações de atuação, a produtora fez uma aposta mais segura e lançou as duas protagonistas do filme em categorias diferentes, com sucesso: Cate Blanchet foi indicada a Melhor Atriz e Rooney Mara recebeu a indicação para Melhor Atriz Coadjuvante. As atuações de ambas são sensacionais, mas Mara não é coadjuvante no filme. Por mais que o título do filme seja “Carol”, a personagem principal, sem dúvida, é Therese. Seria mais justo se as indicações estivessem invertidas ou se ambas as atrizes estivessem concorrendo na categoria de Melhor Atriz, mas a produtora optou pelo caminho mais seguro de lançar Blanchet, mais experiente e já ganhadora do Oscar (por “Blue Jasmine”) na categoria Melhor Atriz e Mara, jovem e novata, em Melhor Atriz Coadjuvante, para não dividirem os votos e para permitir inclusive o voto casado nas duas. Em termos de marketing, a estratégia mostrou-se exitosa, já que as duas alcançaram a indicação.

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Falando em indicações, temos de falar também das que não aconteceram. É um tanto incompreensível que um excelente e caprichado filme como “Carol”, com cinco indicações, não tenha logrado êxito nas duas principais categorias, Melhor Filme e Melhor Diretor. Fica menos compreensível ainda quando lembramos que o regulamento da Academia permite indicar até dez filmes para Melhor Filme e que esse ano temos apenas oito. Incompreensível. Mas plenamente explicável.

Carol é um filme sobre mulheres. Protagonizado por mulheres. A Academia e seu público votante é majoritariamente masculina. 76% dos votantes são homens. A idade média dos votantes é superior a 70 anos. O que esperar, portanto, de um colégio eleitoral masculino e veterano? Pois é, nada muito diferente disso. “Carol” foi esnobado por ser um filme que mostra mulheres e, também, por ser um filme que mostra a misoginia. Os personagens masculinos do filme (notadamente o marido de Carol e o namorado de Therese) têm suas relações com suas cônjuges baseadas não em amor ou cumplicidade, mas sim em posse e obrigações. Quando contrariados, reagem de forma violenta. O que importa para eles não é o que elas sentem, mas sim o fato de que devem manter o status quo e a sua situação de poder. Para o marido de Carol isso significa manter o casamento, mesmo que a esposa não tenha o menor interesse em continuar vivendo com ele e isso a torne infeliz. Para o namorado de Therese, isso significa que ela deve casar com ele e ser sua esposa, pouco importando se ela tem alguma dúvida a respeito. Não espanta, por tanto, se o bando de homens velhos da Academia não entendeu e não sentiu a mensagem do filme, apesar de ter reconhecido o seu primor técnico. Ou escolheu nem tentar, enfim.

“Carol”, como “A Garota Dinamarquesa” (The Danish Girl, Tom Hooper, 2015), como “Straight Outta Compton – A História do NWA” (Straight Outta Compton, F. Gary Grey, 2015), como “Creed – Nascido Para Lutar” (Creed, Ryan Coogler, 2015) reascendem a discussão que desde o ano passado tem tomado conta de Hollywood: ou o Oscar torna-se mais representativo, levando os negros e as mulheres bem mais a sério, ou o Oscar vai perder sua importância. E sim, a Academia tem acolhido essas críticas, como podemos perceber pelas recentes mudanças anunciadas no público votante do Oscar. Se as mudanças vão dar resultado ou não, só o tempo vai dizer.

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Voltando à minha querida professora, “Carol” é um filme que vale a pena ser visto porque propõe discussões extremamente atuais, sobre a posição da mulher na sociedade, sua autonomia, sobre machismo e sobre misoginia. Sobre como a sociedade ainda hoje sufoca a mulher em uma infinidade de deveres: deve ser comportada, deve ser família, deve ser esposa, deve ser mãe, deve ser discreta, deve ser submissa, deve ser obediente deve se colocar em segundo, terceiro, quarto, quinto, décimo plano. E é perturbador e triste perceber o quão pouco mudou desde os anos 1950, já que essas questões permanecem atuais.

Literatura

Para as ostras

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Que são tantas, neste oceano gigante da vida.

Das conchas,
faz-te produto:
areia, pedras e sal.
cristaliza-te nos sonhos,
permeia-te na noite,
preenche o vazio de quem sozinho navega,
enterra as tristezas,
e permite que ressurjas:
das conchas renasces,
bela como noite nublada,
mistério do que foi,
imensidão do que virá:
incerta como o vai e vem do mar,
infinita como a vida.

Cinema

David Bowie no Cinema

por Pedro Cunha

Resta muito pouco a ser dito sobre David Bowie. E ainda assim há muito a dizer sobre ele. O britânico falecido semana passada com certeza revolucionou a música e se tornou, durante quatro décadas, uma referência vanguardista em termos de moda e estilo. Como não poderia deixar de ser, Bowie também se interessou pela sétima arte, e ela por ele. Claro que eu não vou falar das trilhas sonoras com a participação dele. O IMDb tem 456 créditos dele em trilhas sonoras, para vocês terem uma ideia. A atemporalidade do artista fica clara quando vemos que um dos primeiros trabalhos de Bowie utilizados no cinema foi a canção “Fame”, no filme “Teenage Pajama Party (Jim Buckley) em 1977. Mais de 400 créditos depois, em 2014 Bowie está presente no ótimo “Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo” (Foxcatcher, Bennet Miller), com a canção… Fame. Só em 2015 ele tem 21 créditos como trilha sonora entre trabalhos de TV e cinema.

Créditos finais de “Dogville”, de Lars von Trier

Bowie como ator não foi convencional, como não o foi em nada que fez na vida. Dentre as dezenas de oportunidades que teve (e apenas imaginemos quantos convites ele não recebeu…) escolheu pouca para atuar. Todas diferentes entre si, e todas em papeis bem longe do convencional. Bowie foi Andy Wharol. Foi Nikola Tesla. Foi Pôncio Pilatos. Foi o Rei-Duende. Foi o seu próprio Ziggy Stardust. E em todos eles, foi muito Bowie. Vamos homenagear o eterno camaleão com uma pequena seleção de algumas de suas participações cinematográficas mais interessantes.

O Homem que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth, Nicolas Roeg, 1976)

O primeiro papel de Bowie no cinema não poderia ser outro, visto que a exploração espacial e a possibilidade de vida alienígena estavam bastante presentes com ele na profícua década de 1970. Apesar do filme ser dirigido por Nicolas Roeg é muito difícil não pensar que Bowie foi a força criadora por trás do longa, uma vez que percebemos suas reflexões e argumentações por toda a obra.

Thomas Jerome Newton (Bowie) é um alienígena humanoide que veio a Terra para tentar salvar o seu planeta, que está sofrendo com a falta de água. Para conseguir construir a nave que o levará de volta ao seu planeta ele funda uma companhia de tecnologia para arrecadar dinheiro através de patentes. No decorrer de sua jornada Thomas depara-se com o que a humanidade tem de melhor e de pior, o que nos leva a questionar como alguém não humano pode ser, muitas vezes, o mais humano dentre todos.

Enfim, “O Homem Que Caiu Na Terra” é uma ficção científica típica dos anos 70, onde o fascínio pela exploração espacial e a paranoia da Guerra Fria se misturavam nas telas dos cinemas.

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O alien de Bowie

A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ, Martin Scorsese, 1988)

O sempre pretensioso (e nem sempre isso é ruim) Martin Scorsese viva um dos seus auges criativos (um pouco antes, em 1980, havia feito um retorno triunfal com “Touro Indomável” (Raging Bull) e logo depois, em 1990, faria o excelente “Os Bons Companheiros” (The Goofellas) conta a sua versão da “história mais famosa do mundo”. Willen Dafoe é Jesus Cristo e Harvey Keitel vive Judas Iscariotes. Bowie encarnou Pôncio Pilatos, o responsável pela prisão de Jesus. A cena onde os dois dialogam coloca Pilatos na posição de um burocrata que enxerga naquele carpinteiro uma ameaça ao poder de Roma, que ele representa, mas que ao mesmo tempo não tem certeza se consegue não acreditar nas palavras tão sinceras daquele homem tão simples. Há boatos que antes de Bowie aceitar Sting teria recusado o papel de Pilatos. Sabe-se lá porque Scorsese queria um músico como o político, enfim.

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Pôncio Pilatos de Bowie

Basquiat – Traços de Uma Vida (Basquiat, Julian Schnabel, 1996)

No início dos anos 1980 um morador de rua em Nova Iorque decide que vai tornar-se famoso a partir de sua arte. Assim começa a meteórica ascensão de Jean-Michel Basquiat, apresentada no filme de Julian Schnabel. A busca pela fama a todo custo, no final, sempre cobra seu preço. E se vamos falar sobre fama e celebridades, ninguém melhor do que Andy Warhol, o homem que preconizou a era das subcelebridades meteóricas, para fazer a reflexão. Bowie vive Warhol num papel que impressionou pela semelhança física que ele conseguiu atingir.

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Andy Warhol de Bowie

O Grande Truque (The Prestige, Chris Nolan, 2006)

Depois de todo o retorno de “Batman Begins” (2005), Christofer Nolan volta àquele que se tornaria um de seus principais temas: a obsessão. Um mágico (Hugh Jackman) passa a vida correndo atrás do grande truque de outro ilusionista, vivido por Christian Bale. A antiga amizade entre eles tornou-se, com o tempo, uma profunda rivalidade. Bowie vive um personagem real, o cientista Nikola Tesla. Tesla desenvolveu pesquisas com eletricidade no século XIX, mas sua obra só teve a reconhecida importância recentemente, em virtude de seu caráter visionário.

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Nikola Tesla de Bowie

Labirinto: A Magia do Tempo (Labyrinth, Jim Henson, 1986)

“Labirinto” não poderia ficar de fora, não é? Sim, eu sou uma criança dos anos 80. “Labirinto” é uma produção de George Lucas e Jim Henson, com Bowie se juntando a eles no chamado “time criativo”. O Rei dos Duendes (Bowie) sequestra um bebê e a irmã dele (Jennifer Connelly) tem treze horas para atravessar um labirinto e salvá-lo. O filme usa os animatronics geniais de Henson (que é o pai dos Muppets) e tem uma riqueza visual marcante dos anos 80. As influências vão do País das Maravilhas de Alice até a arte geométrica de M.C. Escher.

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O Rei Duende de Bowie

No Brasil “Labirinto” ficou ainda mais famoso por ter sido escancaradamente plagiado em “Super Xuxa Contra o Baixo Astral” (Anna Penido e David Sonnenschein, 1988). Para conferir as semelhanças entre os longas (e também outros filmes de fantasia da época como “A Lenda” e “A História Sem Fim”) dê uma olhada aqui.

Literatura

Os sons do silêncio em três movimentos

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“Hello darkness, my old friend,
I’ve come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence.”

(The Sound of Silence, Simon&Garfunkel)

I

Escuta:
é o silêncio,
contando todas as tuas verdades.

II

Escuta:
é o silêncio,
confessando todos os teus segredos.

III

Escuta:
é o silêncio,
confessando todas as tuas verdades,
e contando todos os teus segredos…

Música

O último espetáculo de David Bowie

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David Bowie nunca foi o mesmo. Passou a sua vida se redescobrindo. Compreendeu desde cedo que definir-se é limitar-se. A cada novo disco, uma nova face, um novo som, um novo caminho – para ele e para nós. Sem gênero, sem uma direção já percorrida. Eliminou as barreiras que separam o pop do experimental, ignorou toda e qualquer rotulação. Somos todos seres mutantes, mas sempre caímos na arapuca de nos autodefinirmos. Ele abraçou essas mudanças, aceitou essa eterna reinvenção.

David Bowie não foi apenas um músico. Ele extrapolou os limites da arte e uniu moda, teatro, cinema e literatura. Sim, porque Bowie era, acima de tudo, um grande contador de histórias. Um observador da alma humana que revelava nossos segredos e relatava nossas angústias. Seus personagens não morrem com ele. Esses ficam. Major Tom, Ziggy Stardust, Nathan Adler, eles continuarão a protagonizar as suas histórias e a inspirar novas gerações.

David Bowie parte deixando uma trilha sonora que, como bem disse minha irmã Clarice, é o seu epitáfio. Seu último álbum, “Blackstar”, lançado dias antes de sua morte encerra tão perfeitamente sua carreira que chega a dar arrepios. Há pouco, o produtor do disco, Tony Visconti, confirmou que ele foi criado conscientemente como um adeus a seus fãs. Seu último single, “Lazarus”, inicia com Bowie cantando “Look up here, I’m in Heaven!” e o videoclipe mostra o artista em uma cama de hospital de onde ele sai tremendo e entra em um armário de madeira, como um poético caixão. Se a morte de Ziggy Stardust era apenas uma encenação, a morte de David Bowie é um verdadeiro espetáculo. Uma despedida fenomenal. Uma vida que foi a sua própria obra de arte, do início ao fim. E nós aplaudimos.