Clarice Dall’Agnol

Literatura

Avulsa

Avulsa
imagem: José Calimero
 
“Depois da bengalada que dei nele, meu ódio perdeu o nome e o formato de Cosmim. Aí, de um golpe, comecei a amá-lo.”
O amor dos homens avulsos, Victor Heringer.  
 
O amor apareceu assim, no susto de uma voz aguda e grave.
Foi demais.
Foi recusado pelos mesmos motivos que foi amado.
Foi desconhecido que se tornou conhecimento.
Foi menos amor, 
E mais desespero.
Música

John Zorn & New Masada Quartet no SESC Jazz

John Zorn SESC Jazz

O saxofonista nova-iorquino John Zorn retornou ao Brasil para apresentar a nova formação de um dos seus mais conhecidos projetos, o Masada. Mesclando free jazz com música judaica, o compositor criou um extenso repertório de canções que ele vem apresentando ao vivo em diferentes formatos. O novo quarteto conta com Zorn no saxofone, Kenny Wollesen na bateria, Julian Lage na guitarra e Jorge Roeder no baixo. A grande novidade é mesmo a troca do trompete pela guitarra, o que deu um toque novo aos arranjos. A inclusão de dois integrantes jovens nos instrumentos de cordas também chama a atenção e pode ter dado um gás na performance.

Com três datas no SESC Pompeia, o músico mostrou a sinergia de sua nova banda em uma hora de show com canções pinçadas de seu enorme catálogo. Se ele fosse tocar tudo que já compôs para o Masada, precisaria de uma residência de uma semana na casa. Apesar de ser um pouco mais curto do que poderia ser, o show te deixa em transe com o som extraído da conexão dos integrantes da banda. Zorn, além de tocar saxofone, serve de maestro para o grupo. É um show à parte assistir seus gestos apontando para os outos músicos, dando o ritmo e as pausas necessárias para deixar cada canção impecável.

Conhecido por ser um tanto fechado, John Zorn surpreendentemente demonstrou muito bom humor no palco, mandando até “beijinhos” em bom português para agradecer o público presente. Acredito que tanto o espaço bacana do Teatro do SESC Pompeia como a plateia atenta e empolgada tenham garantido esse entusiasmo.

John Zorn & New Masada Quartet no SESC Jazz 2019
imagem: Cassiano Rodka
Cinema

Coringa (Todd Phillips, 2019)

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                Na semana passada Martin Scorsese deu uma declaração polêmica sobre filmes de herói (especificamente sobre filmes da Marvel, mas ele falava de filmes de herói em geral). Numa segunda entrevista Scorsese reforçou o ponto e chegou a dizer que os proprietários de cinema deveriam ter algum compromisso em restringir o número de salas destinado a esses filmes, reservando espaço para “filmes que são narrativas” (as declarações do diretor de “Taxi Driver”, “Touro Indomável”, “Os Bons Companheiros”, “Casino” e “O Rei da Comédia”, entre outros, você encontra AQUI e AQUI ). Eu entendi o que o Scorsese quer dizer e até certo ponto eu concordo com ele. Os filmes de heróis são, nesse momento, o veio de ouro do cinema. Desde os anos 1930, pelo menos, o cinema se equilibra na dicotomia entre “Arte” e “Indústria do Entretenimento”. Só em 2019 dois filmes da Marvel (“Capitã Marvel” e “Vingadores: Ultimato”) arrecadaram mais de um bilhão de dólares, tendo o segundo deles se tornado a maior bilheteria da história do cinema. O apelo de Scorsese por mais diversidade nas salas de cinema é um diagnóstico de uma transformação que vem acontecendo a bastante tempo e da qual, ironicamente, ele tomou parte: no final dos anos 1970 foram filmes como “Tubarão”, “Guerra nas Estrelas” e “O Poderoso Chefão” que criaram o modelo blockbuster de ocupação dos cinemas do qual os filmes da Marvel são o filhote mais bem acabado.

                Mas por que começar por aqui? Porque fiquei pensando nessa fala do Scorsese ontem ao sair do cinema tendo assistido mais um “filme de herói”. Ou, enfim, mais ou menos. “Coringa” (Joker, Todd Phillips, 2019) é um filme sobre um personagem da DC. Há outros personagens que aparecem no longa, mas de forma alguma ele está “encaixado” no confuso universo cinematográfico dos heróis DC/Warner (ainda bem). Quando o filme foi anunciado com direção e roteiro de Todd Phillips, ninguém sabia direito o que esperar dele. Phillips, lembre-se, tem como destaque no seu currículo “Se Beber Não Case” (The Hangover, 2009). Quando o excelente Joaquin Phoenix (“Ela”, “Vício Inerente”) aceitou o papel, todo mundo ergueu a sobrancelha. Esse mesmo papel tornou Jack Nicholson milionário e rendeu um Oscar póstumo a Heath Ledger (com dois excelentes trabalhos completamente diferentes), mas rendeu um rotundo fracasso ao bom Jared Leto. Alguns ainda dizem que o melhor Coringa de todos é interpretado por Mark Hamill (ele mesmo, o Luke Skywalker), que faz a voz do personagem na série de jogos de videogame “Arkham” e no seriado animado do Batman dos anos 90. Aceitar, portanto, um papel como esse é ter muito mais chance de se queimar do que de conseguir fazer algo bom. E para bagunçar um pouco mais o coreto, o prestigiadíssimo Festival de Veneza premiou “Coringa” com o Grande Prêmio do Júri. Diferente do Oscar, Veneza é um festival que prestigia a qualidade artística e tem uma curadoria feita por cineastas e especialistas. Essa mistura improvável de Joaquin Phoenix, Todd Phillips e premiação em Veneza me deixou como o personagem de Leonardo de Caprio em “Django Livre”: “Cavalheiros, vocês tinham a minha curiosidade, agora têm a minha atenção.”

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Cesar Romero, Jack Nicholson, Heath Ledger e Jared Leto já foram o Coringa na telona.

                “Coringa” é um BAITA filme de estudo de personagem. Todos nós sabemos onde aquilo vai chegar, já que conhecemos o personagem. A história que Phillips pretende contar, no entanto é outra: como a sociedade consegue destruir um homem ao ponto dele perder completamente a moralidade, a noção de certo e errado. Apesar de conseguirmos pinçar uma ou outra referência aos quadrinhos, como “A Piada Mortal”, de Alan Moore, o que nos é apresentado aqui é outra história: Gotham City é uma cidade suja em todos os sentidos: além da pobreza, da desigualdade e da corrupção há uma greve de lixeiros que faz com que sintamos um clima sufocante. Ironicamente a cidade (e o tom do filme) lembram muito a Nova Iorque de “Taxi Driver”, numa escolha corretíssima do diretor. A cidade, em si, é personagem do filme. Ela é egoísta, doente e tóxica também. Conforme aprendemos na primeira cena, Gotham City é extremamente agressiva, em contraponto a Arthur Fleck (Phoenix), um homem frágil, física e psiquicamente, e que tenta levar a vida como palhaço, fazendo as pessoas rirem. Não há muitos motivos para rir em Gotham. O trabalho de Joaquin Phoenix é notável. Podemos perceber que, na medida em que o personagem vai sendo vilipendiado, ele vai se quebrando não só mentalmente, mas fisicamente também, tornando-se cada vez mais torto e alquebrado. O ator levou seu trabalho para uma direção diferente dos Coringas anteriores no cinema e fez uma interpretação muito física, com as linhas do rosto carregadas e um trabalho sensacional em um detalhe que torna-se fundamental: a risada. Uma risada que não significa alegria, mas ansiedade, desespero, agonia e várias outras coisas. Que termina, muitas vezes, num engasgo de dor. Se o filme não fosse bom (e é), valeria só para ver Joaquin Phoenix. Numa outra alusão indireta a Taxi Driver, temos Robert De Niro como Murray Franklin, o apresentador de talk show que era o ídolo de Fleck e com quem ele fantasiava entrevistas, ensaiando desde a entrada no estúdio até a maneira de sentar na poltrona.

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Tentar rir numa sociedade absurdamente opressora pode levar a lugares sombrios.

                “Coringa” é um filme que fala das agonias e urgências dos nossos dias. É um filme que investiga até onde a falta de empatia pode empurrar as pessoas. É um filme que toca numa série de outras questões (sem nunca se aprofundar, é verdade), como a questão da (falta de) controle sobre armas, sobre sistema público de saúde, sobre doenças psiquiátricas e como a sociedade não sabe lidar com elas. Muita gente criticou o filme não pela obra em si, mas por ele ser, de certa forma, o “porta voz” dos anseios dos incels e pelo que ele poderia incitar. O bom filme de Todd Phillips não pode, nem deve carregar essa culpa. Historicamente a arte é apropriada por discursos: Charles Manson usou músicas dos Beatles quando matou Sharon Tate. Os meninos de Columbine se inspiraram no visual de “Matrix”. Querer dizer que “Coringa” pode levar a tiroteios é confundir, mais uma vez, consequência com causa. O fato de muita gente se enxergar nas soluções encontradas pelo Coringa (que é um vilão, vale lembrar) diz muito sobre a sociedade de hoje e muito pouco sobre o filme que, repito, é muito bom.

                 “Coringa” consegue, a partir da matéria-prima de “filme de herói”, ser um pouco mais. Foge das narrativas surradas da jornada do herói e nos traz angústias e reflexões sobre o mundo no qual vivemos. Não era isso que o Scorsese queria? Pois então.

Cinema

Bacurau (Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019)

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A placa que abre o filme pode ser lida de diferentes formas.

               É difícil ir ver “Bacurau” sem uma enorme expectativa. É o terceiro filme de Kléber Mendonça Filho, e os dois anteriores (“O Som ao Redor”, 2012 e “Aquarius”, 2016) além de excelentes críticas também são retratos e análises acurados das mudanças e contradições do Brasil no início do século XXI. Se não bastasse, Bacurau foi extremamente bem recebido no Festival de Cannes, um dos mais prestigiados do mundo. O longa foi indicado à Palma de Ouro e recebeu o Prêmio do Juri no balneário francês. Se tudo isso não bastasse, o zumzumzum em cima do filme e da postura combativa e engajada do cineasta pernambucano também contribuíram para que a estreia de Bacurau fosse das mais aguardadas da temporada. Foi feito barulho também em função da definição, na semana passada, do candidato brasileiro ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. “Bacurau”, que era um dos mais cotados, foi preterido por “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Karim Ainouz. Não por acaso as salas de cinema estiveram cheias na primeira semana do longa e ele permanece firme e forte em várias sessões, inclusive em alguns mega-cinemas de shopping centers.

                O que dizer sobre o filme? Bom, acho que o melhor a dizer é que ele entrega. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (que foi o diretor de fotografia de “O Som Ao Redor” e “Aquarius” e assina a direção de Bacurau junto com KMF) constroem com muita calma uma trama que coloca a pequena vila de Bacurau, no interior de Pernambuco, como protagonista. Num futuro (não muito) distante, o Brasil passa por agravamentos das tensões sociais e políticas que já desgastam o país ainda hoje. O roteiro de Dornelles e Mendonça acerta ao escapar da armadilha de explicar didaticamente como está o Brasil e como chegou até ali. Nós temos pistas que vem por uma manchete de jornal, uma notícia na TV, um comentário de algum personagem. Além disso, o contexto geral é menos importante em Bacurau, um vilarejo esquecido pelo tempo e curiosamente deletado dos mapas eletrônicos, também. “Bacurau” é uma grande alegoria sobre o Brasil e o mundo hoje. O filme fala sobre banalização da violência, sobre o culto às armas, sobre desigualdades sociais, sobre racismo e sobre fundamentalismo religioso, sobre a seca e sobre políticos populistas sem falar diretamente sobre nada disso. Nesse sentido “Bacurau” é ainda melhor que os filmes anteriores de Kléber Mendonça Filho, que por vezes soavam um tanto panfletários por fazerem uma crítica social mais direta.

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“Bacurau” não tem protagonista: a cidade inteira é o personagem principal.

 A fotografia e a montagem contribuem para que “Bacurau” seja, em grande parte, um filme de suspense cuja tensão vai crescendo organicamente desde o início até o final apoteótico. Algumas análises mais apressadas falam em referências a Tarantino, mas acho essa comparação preguiçosa. Ao contrário do que os Millenials pensam, não foi Tarantino quem inventou a violência no cinema. As referências, para mim, são Sam Peckinpah, na questão da ação, e Gláuber Rocha, na ambientação. “Bacurau” é um thriller de suspense que se transforma lentamente num faroeste na caatinga, onde o meio (as casas, as plantas, o céu, a água) também desempenham papeis importantes.

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Sônia Braga como Domingas, a médica.

Os personagens que nos são apresentados são arquétipos: a médica, o professor, a mãe-de-santo, o guerrilheiro. O micro-universo de Bacurau e de seus personagens é uma vila no interior de Pernambuco, mas poderia estar em diferentes lugares do Brasil. É urgente destacar a participação de Sônia Braga como Domingas, a médica de Bacurau. A atriz que já havia trabalhado com o diretor em “Aquarius” mostra em “Bacurau” que aos 69 anos está no auge do seu talento e de sua potência. Boa parte do elenco de apoio de “Bacurau” é formada pela população de Parelhas, Rio Grande do Norte, onde o filme foi gravado. É um detalhe que ajuda a dar a crueza local para o longa. Com exceção de Sônia Braga, os atores do longa (Barbara Colen, Thomaz Aquino, Karine Teles, Wilson Rabello, Udo Kier…) são rostos pouco conhecidos, apesar de bastante experientes.

Eu sai da sessão de “Bacurau” me sentindo mal. Com o estômago revirado. Quer dizer que o filme é ruim? Pelo contrário. “Bacurau” é sensacional. Sem sombra de dúvida é o melhor filme de Kléber Mendonça Filho até agora. O que dói é ver toda aquela violência, aquela crueza, aquela desumanização e perceber o quanto o filme é pertinente, o quanto é atual, o quanto ele é necessário. “Bacurau” nos mostra o que nos tornamos, e não é um retrato bonito de se ver. O que faz, acredito com que seja mais necessário ainda. Não deixa de ser de certa forma um alento e um alerta o fato de que a salvação de Bacurau seja planejada e executada a partir do museu da cidade. A nossa história, a nossa memória, são o caminho para que possamos continuar sendo quem somos e resistirmos.

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Na comunidade de Barras, município de Parelhas, interior do RN, o elenco e a equipe de “Bacurau” comemoraram o fim das filmagens, em 2018.
Música

Mr. Bungle retorna à fúria da adolescência

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Depois de 20 anos na inativa, o Mr. Bungle anunciou que estará de volta!

Mas calma que o retorno não é definitivo. Serão apenas três shows em fevereiro de 2020 tocando… as músicas da primeira demo da banda! O anúncio pegou todos de surpresa, pois a maior probabilidade seria um show que celebrasse os 20 anos de seu derradeiro álbum, o belíssimo California. Mas os músicos resolveram ir fundo no seu passado e resgatar as oito canções de The Raging Wrath of the Easter Bunny, uma fita cassete lançada em 1986 quando os integrantes ainda eram adolescentes.

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Diferente do resto da carreira da banda, esse primeiro registro não trazia a enorme gama de gêneros musicais que marcou o som do Mr. Bungle. As faixas de The Raging Wrath of the Easter Bunny são puro DEATH METAL. Sonoramente, é quase outra banda. Mas algumas características do grupo já davam as caras em algumas faixas. Um exemplo é “Hypocrites”, que mescla death metal com ska e funk, e traz duas músicas incidentais, “La Cucaracha” e “Peter Gunn”. As inserções também evidenciam um pouco do humor debochado do grupo, fato que também pode ser notado nos títulos de algumas músicas, como “Anarchy Up Your Anus”, “Spreading the Thighs of Death” e “Raping Your Mind”.

Mas certamente a faixa que mais se distancia do thrash e indica o caminho que a banda tomaria nas próximas demos é “Evil Satan”, que chegou a ser regravada na fita “Bowel of Chiley” e seguiu sendo tocada ao vivo durante essa fase pré-contrato com a Warner Brothers. Um funk rock bem californiano com direito a naipe de metais e um kazoo, tornando-se uma ilha de deboche no meio daquele mar de metal.

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Essa formação original da banda contava com apenas três dos membros que aparecem nos discos posteriores: Mike Patton, Trey Spruance e Trevor Dunn. O baterista era Jed Watts, que abandonou a música desde então. Para reproduzir essas músicas ao vivo, o trio convidou dois de seus ídolos da época: Dave Lombardo (Slayer) na bateria e Scott Ian (Anthrax, S.O.D.) na guitarra. A presença dos músicos na nova formação só deixa o evento mais interessante ainda. Segundo Spruance, eles foram muito da inspiração para a composição dessas músicas. Então ter os dois músicos tocando junto com o Mr, Bungle é mais do que justo, é um ciclo se fechando.

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Datas:

7 de fevereiro – Fonda Theatre, Los Angeles
8 de fevereiro – Warfield Theatre, São Francisco
10 de fevereiro – Brooklyn Steel, Nova York
Piras

Dos fracassos

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imagem: Cassiano Rodka

Esses tempos tive a oportunidade de participar de um evento bem bacana chamado FuckUp Nights. Ele faz parte de um movimento mundial de encontros para compartilhar fracassos, na ideia de que fracassos são uma merda, mas ensinam muito. Aí, conversando com algumas pessoas sobre o evento, ouvi mais de uma vez: “Mas tu vai falar sobre o quê? Tu não tem fracassos”. q? Fui até olhar no dicionário: “falta de êxito; malogro, derrota”. Se fosse só por isso, eu poderia falar de tantos jogos de handebol que perdi e como eles me ensinaram AFU para poder ganhar tantos outros. Mas eu não tô aqui pra ficar me justificando e, sim, pra pensar o que é o fracasso, de onde vem, do que se alimenta.

Então vamos pensar nesse sentido da derrota. Em que momentos veio aquele sentimento de derrota? Não passar numa seleção, perder emprego, investir tudo num projeto e ele não deslanchar, receber um fora da pessoa amada… Poxa, a vida é cheia de fracassos, em diferentes níveis e com inúmeras possibilidades de aprendizagem. Mas, sem dúvida, sem fracassos não tem como. Estou num momento mais de boas e tem várias coisas massa acontecendo, mas já passei por outros mais foda também. Inclusive, teve alguns em que eu me senti fracassada real: sem rumo, perdida, como se tudo que eu tivesse feito não servisse pra nada e eu estava aqui, na merda, sem saber como sair dela e desesperada, só me afundando mais. Aí vem a novidade, mores: se você não passou por isso, vai passar. BRACE YOURSELF. Sabe o que é louco? Aquela blogueira que você acompanha que tá sempre pleníssima também vai. E o milionário daquela empresa incrível que você tanto admira também. E tá tudo bem. Faz parte.

Talvez o que justifique essa impressão de que o fracasso não acontece seja o nocivo discurso do sucesso. Do “seja bem sucedidx”. “VENÇA”. Esse discurso fala de final, e não de processo. De meta. E, por mais que seja uma obviedade, é importante lembrar que essa meta implica em fracassar muitas e muitas e muitas vezes. Quem vê só o sucesso não vê o corre todo; aí fica bem fácil se pegar pensando que tem uma cambada de gente que parece bem-sucedida, super sabendo o que está fazendo e só ahazando no rolê; enquanto nós, reles mortais, estamos aqui tentando fazer o básico do básico pra manter a sanidade mental e conseguir pagar os boletos. Só que não é bem assim. E eu escrevo sobre isso também porque me obrigo a ler o meu próprio discurso – sim, eu também acredito na falácia da existência sem fracassos de vez em quando. Aí me forço a lembrar da imprevisibilidade da vida, da nossa mutabilidade e da resiliência.

Talvez seja esse tal de retorno de Saturno que esteja me fazendo pensar tanto sobre fracasso, sucesso, rumos da vida, existência e sei lá mais o quê; afinal, fazer 30 anos tem se mostrado um questionamento absurdo de tudo que se fez e de pra onde se quer seguir. A gente até pode reclamar muito, buscar justificativa na merda ou até bancar a invejosa autocentrada questionando o universo de “por que essa coisa incrivelmente maravilhosa que aconteceu com a vizinha não pode acontecer comigo?” – quem nunca? Mas, até agora, isso não tem se mostrado muito útil não; afinal, trajetórias não são comparáveis, fracassos não são evitáveis e não existe sucesso, artigo definido.

O que tem se mostrado realmente interessante e proveitoso é analisar a trajetória, pensar nos aprendizados que tive e como cheguei até aqui. É exercitar a escuta, tanto de mim quanto de outrxs que topam compartilhar suas experiências também – inclusive as que não saíram como previsto. É aceitar a inevitabilidade dos fracassos e, afinal, exercitar uma concepção epistemológica de aprendizagem: ela acontece na interação e ela é constante. Ufa, ainda bem.