
The unsaid

Site da escritora Clarice Dall'Agnol


O Brasil foi dominado por forças nazistas. O mundo está em guerra e o conservadorismo avança por todos os lados. Mas, no meio de uma floresta, um grupo de resistência procura virar o jogo antes que seja tarde demais. Acreditem ou não, estou falando sobre uma obra de ficção. Lançada na CCXP 2019, Rancho do Corvo Dourado é uma releitura muito bem vinda do Sítio do Picapau Amarelo.
Monteiro Lobato, o seu criador, ficou consagrado como um escritor primordial dentro da literatura infantil brasileira. Mas, ao mesmo tempo, sua figura tornou-se um tanto polêmica graças à publicação de textos racistas e, posteriormente, à descoberta de correspondências trocadas com um amigo onde ele expunha sua crença na superioridade branca e seu apoio à atuação da Ku Klux Klan no Brasil. Yep! Trevoso!
Subvertendo as ideias equivocadas de Lobato, a quadrinista Cris Camargo reuniu 12 artistas para recriarem o universo do Sítio do Picapau Amarelo. Nasceu, assim, o Rancho do Corvo Dourado, uma coletânea de histórias que reimaginam os icônicos personagens como defensores de uma fazenda que resiste à invasão nazista de um déspota no Brasil. Yep! Genial!

A atmosfera é steampunk, fazendo referências ao universo de Mad Max e Tank Girl, dentre outros clássicos pós-apocalípticos. Em uma das histórias, escrita e ilustrada por Luiza Lemos, Emília está determinada a acabar com um dos líderes racistas do país. Exibindo um belo moicano de pano, ela dirige um caminhão a toda velocidade dando tiros de pirlimpimpim nos inimigos, deixando claro que essa boneca não está pra brincadeira. Já em outra história, escrita por Felipe Morcelli e ilustrada por Juliano Sousa, Emília é um robô gigante movido a vapor construído para combater o adversário no maior estilo seriado japonês.
Alternando bom humor, aventura e terror, a HQ acerta o alvo ao trazer os personagens de Lobato para um universo fantástico que combate justamente todos os equívocos morais de seu criador. É como se eles tivessem uma chance de se redimir em nome do escritor, reinventando os seus papeis na história e encontrando um novo destino.


Conhecida por canções que flertam com a sonoridade dos anos 80, a carioca Mahmundi decidiu despir suas músicas dos sintetizadores e batidas eletrônicas em seu novo show.
Intitulado Mahmundi+, o espetáculo estreiou na programação de verão da Casa Natura em caráter experimental. A artista escolheu a cidade de São Paulo para testar esse formato mais intimista, com arranjos acústicos e mesas de bar na plateia. “Eu sempre ficava rindo de shows com mesa e aí… esse é o meu primeiro show com mesa”, confessou a cantora.
No palco, Mahmundi optou por apenas cantar, deixando o instrumental ao encargo dos músicos Victor Cupertino no violão e Filipe Coimbra na guitarra. Deixando de lado a proteção que um instrumento oferece, quase um escudo para a timidez, a compositora pegou as rédeas do espetáculo e bateu papo com os presentes como se estivesse em uma roda de amigos. O setlist englobou seus dois discos e dois EPs em arranjos simples e perfeitos para a voz de Mahmundi brilhar. Os dois músicos que a acompanharam seguraram muito bem a onda juntos, adicionando tempero às versões.
Entre uma música e outra, a cantora contou histórias sobre as origens das canções. “Tempo para Amar”, por exemplo, era originalmente um samba, composto por Carlinhos Rufino. Mahmundi curtia muito a melodia e resolveu trazer a música para o universo da sua sonoridade. “Desaguar” foi uma de suas primeiras composições e o pessoal de sua igreja não levava muita fé na música. “Gravei a canção no meu disco e hoje estou aqui tocando ela pra vocês”, disse ela zombeteiramente. A simpatia e a sinceridade de Mahmundi são cativantes. Ela não hesita em contar sobre seus momentos de incerteza e sua relação complicada com a igreja, onde a cantora soltou a voz pela primeira vez. “Se Jesus estivesse aqui, nem ele seria da igreja”, declarou.
Duas belas covers foram escolhidas para a noite: “Como Uma Onda no Mar”, de Lulu Santos, perfeita para a voz da cantora, e “Cariocas”, de Adriana Calcanhotto, que não estava prevista no setlist, mas a compositora decidiu tocar para estender o show, que ela declarou não querer que terminasse. Ninguém queria. Ou seja, o experimento deu muito certo. Recentemente, a cantora contou que o formato deve se repetir com participações de outros músicos, explicando que foi dessa ideia que surgiu o nome Mahmundi+. Então que venha mais, muito mais!

“Adoráveis Mulheres” é um romance de Louisa May Allcot publicado em 1868 que retrata a vida de uma família de classe média nos EUA durante o período da Guerra de Secessão. A história sempre teve um apelo muito grande: a versão de Greta Gerwig é a quinta feita apenas por Hollywood. A anterior (1994) tinha Winona Ryder no papel de Jo March. As anteriores são de 1978, 1949, 1933 e 1917 (!!). O livro também aparece como influência na cultura pop, por exemplo, na tetralogia napolitana da italiana Elena Ferrante.

Se essa história já foi contada tantas vezes, faz sentido contá-la mais uma? Foi a pergunta que me fiz antes de entrar no cinema. A pergunta foi respondida muito, mas muito rapidamente. O filme de Gerwig é maravilhoso. Um filme de época muito bonito. O diretor de fotografia francês Yorick Le Saux usa e abusa dos interiores quentes para nos passar uma sensação de conforto e aconchego enquanto as cenas externas têm uma luminosidade deslumbrante. A trilha sonora de Alexander Desplat lhe rendeu a sua décima primeira indicação ao Oscar (ganhou em 2015 por “Grande Hotel Budapeste” e em 2018 por “A Forma da Água”) e vibra junto com o filme.


O elenco tem atuações seguras de atrizes que estão sempre ótimas. É chover no molhado elogiar Laura Dern (Marmee March), Meryl Streep (Aunt March) ou Emma Watson (Meg March). No meio dessas estrelas todas, a atuação de Florence Pugh (Amy March) se destaca, lhe rendendo uma indicação a Melhor Atriz Coadjuvante. E, bom, não há como falar desse filme sem falar de Saoirse Ronan. A nova-iorquina de 25 anos chega à sua quarta indicação pela sua energética Jo March. O filme todo gira em torno dela e ela assume essa responsabilidade tranquilamente. Se o filme funciona (e funciona!), é por causa de Saoirse. Ela faz a gente torcer por ela mesmo quando Jo é teimosa feito uma mula, e nos faz sentir o que ela está sentindo através de um olhar ou uma torcida de boca.

Se o filme todo funciona e se as atuações (em especial de Ronan) se destacam, não podemos deixar de falar do trabalho de Greta Gerwig. A diretora sabia, desde o início, qual história queria contar e como queria fazê-lo. Ela nos conduz pela saga das irmãs March com idas e vindas (inclusive temporais) que não nos confundem, mas nos fazem entender e empatizar com as personagens. Ao escolher um caminho não condescendente (não há legendas avisando em que período temporal estamos), Greta não ofende a inteligência do público e faz com que tenhamos a sensação deliciosa de ir descobrindo as coisas por nós mesmos.

A não indicação de Gerwig a Melhor Direção escancara, mais uma vez, o problema de representatividade que vem incomodando Hollywood e em cima do qual devemos bater sempre que tivermos oportunidade. Além da direção de Greta Gerwig ser muito boa (chega a ser ridículo querer comparar com a do indicado Todd Hayes, por exemplo), ela é mais um trabalho feminino excelente que ficou de fora das indicações. Greta foi tratada como a representante das mulheres enquanto os trabalhos de Céline Sciamma (“Retrato de Uma Jovem em Chamas”) ou Kasi Lemmons (“Harriet”) não ficam atrás de vários dos indicados e poderiam (e deveriam) ter chamado mais atenção nas premiações.
Enfim, veja “Adoráveis Mulheres”, que é daqueles filmes de sairmos do cinema de coração quentinho e um sorriso no rosto. Um filme de fazer a gente se sentir bem em tempos que tanto tentam nos fazer nos sentir mal.

Trabalho, cronogramas, rotina. Quando passamos nossos dias no automático, esquecemos o porquê de fazer tudo isso. Existe um propósito para cada um de nós? Se sim, eu estou no caminho certo? Essas indagações assombram Max, o personagem principal de Simultâneo, segunda HQ do quadrinista Rafael Torres.
Com dificuldades para dormir, Max acaba experimentando um remédio para o sono. A droga acaba mexendo com a percepção do personagem, que passa a ter visões estranhas e começa a questionar suas escolhas e o que vê ao seu redor. A partir daí, Max inicia uma atribulada jornada de autodescoberta, mesclando seus devaneios com a realidade.

O roteiro é misterioso e, ao mesmo tempo, leve, com diálogos naturais e personagens cativantes. O traço de Rafael Torres é interessante, pois parece ir direto dos rascunhos para o processo de coloração, sem aperfeiçoar os desenhos com tinta. A paleta de cores traz bonitas combinações de tons pastéis e as texturas lembram giz de cera, dando um toque bem artesanal às páginas.
Simultâneo é uma boa leitura para todos que já se sentiram perdidos neste mundo. É um convite a uma jornada em busca de uma nova percepção do que é estar vivo.



Como folhas secas, vocês serão esmagados. Um a um, lentamente, por pés cansados e cheios de chinfra. Cansa. A caminhada cansa. O sapato desgasta, mas não a esperança. Senhora teimosa ela, cotovelos sempre na janela. Ela aguarda para ver a banda passar. Alguma banda há de passar. Vai cair. Ele vai cair. Como folha seca. O som do sapato sobre a folha seca. Que som, meus amigos, que som!
Que ventania foi essa? Parecia que ia levar tudo. Levou foi nada! O vento parou de soprar. Piano, pianinho. Deu lugar a uma chuva mansa que, em São Paulo, passa em 15 minutos e olha ali o sol. O sol trouxe você. Ou você era o próprio sol. O verão se instalou no meu relógio, iluminou cada segundo. E olha nós descendo a rua na grande parada. A banda tocando e a gente pisando nas folhas secas. O som das folhas se esfarelando, que música! Deixem os sapatos cantarem, meus amigos!
Mas não esqueçam que as estações mudam. Na dança da mudança, não emudeçam. Sigam cantando. O tempo passa, como a banda. O calor dá lugar ao frio, as folhas voltam a crescer e o copo, mais uma vez, vazio. A parada não para. O coro aumenta. A bandeira agita. O outono retorna. Faz a folha cair novamente. Seja o outono. De novo e de novo.
Deixa o Ano Novo ser um novo ano. Deixa mover, deixa seguir, deixa mudar. Deixa o sapato cantar.

Em 2019, eu escutei muita música brasileira. E não é por acaso: uma avalanche de bons artistas tomou conta da cena atual. Minhas caixas de som transbordaram letras cantadas em português, batuques afrobrasileiros e arranjos que não devem nada aos gringos. Me chamou atenção também que a maioria dos artistas da minha lista são mulheres, negras e com letras politizadas. Então senta aí e escuta o que elas têm para dizer.
Francisco, el Hombre – RASGACABEZA
Disco do ano tranquilamente! Em seu segundo álbum de estúdio, a banda enfiou o pé no acelerador e tacou gasolina nas composições. As canções são uma mescla de punk com funk brasileiro com eletrônico anos 90 com música latina. Sim, tudo isso junto! As letras são verdadeiras convocações à reação diante do conservadorismo que tem tomado conta do Brasil e do mundo. Os shows, enérgicos e catárticos, só deixam mais claro a atitude política da banda, unindo corações e mentes que se sentem sozinhas em um mundo cada dia mais cinza.
Jamie Saft – You Don’t Know the Life
O pianista nova-iorquino Jamie Saft junta forças novamente com o baixista Steve Swallow e o baterista Bobby Previte para mostrar como se faz um bom jazz contemporâneo. Parceiros de longa data do músico, o trio gravou junto pela primeira vez em 2014 no disco New Standard, e mais recentemente, em 2017, compuseram o excelente Loneliness Road, com a presença de Iggy Pop nos vocais. Nesse novo disco, quem brilha é o órgão Hammond de Jamie Saft, que costura as canções com seu som deliciosamente psicodélico.
Duda Beat – Sinto Muito
Em seu disco de estreia, Duda Beat se mostrou soberana no gênero que ela mesma definiu como “sofrência pop”. A pernambucana trouxe as letras sofridas do cancioneiro brega para o mundo da música pop, adicionando batidas dançantes e atualizando o discurso. Nas canções de Duda Beat, o amor é sempre efêmero, refletindo as relações atuais nesta era da informação rápida. Os instrumentais casam o pop com a música nordestina, trazendo referências de maracatu, frevo e baião. O resultado é colorido e melancólico ao mesmo tempo, em uma espécie de trip hop brasileiro com sabor oitentista.
MC Tha – Rito de Passá
A capa do álbum já dá a dica: MC Tha veste uma saia longa branca e um véu vermelho coberto por um boné e um par de óculos escuros. O rito de iniciação da cantora no mundo da música une batuques de umbanda com funk brasileiro. As letras mostram uma mulher guerreira, determinada em contar sua história do seu jeito, preparada para se reinventar sempre que for preciso. A cantora que dividia atenção com Jaloo no dueto de Céu Azul parece ter encontrado a sua própria trilha. Então abram os caminhos que ela vai passar.
Xênia França – Xenia
Em seu primeiro álbum, a cantora baiana traz uma elegante mistura de jazz com batidas africanas. Suas letras falam sobre raça e preconceito, colorindo os arranjos sofisticados com alertas sócio-políticos. Dona de uma presença de palco incrível – talvez herança de sua antiga carreira de modelo –, Xênia faz as canções do álbum brilharem ainda mais ao vivo, muito bem acompanhada de uma seleção impecável de bons músicos. O disco foi indicado para o Grammy Latino na categoria Melhor Álbum Pop Contemporâneo, e a faixa “Para Que Me Chamas?” na categoria Melhor Canção em Língua Portuguesa. Ninguém segura essa mulher!
Mahmundi – Para Dias Ruins
O quarto álbum da cantora carioca Mahmundi foi feito como um remédio para uma época em que as pessoas perderam um pouco do tato umas com as outras. Segundo a compositora, a internet e os celulares acabaram afastando as pessoas e criaram uma dificuldade em qualquer comunicação que não seja digital. As letras propõem um amor mais tátil e um autoconhecimento que ajude a encarar momentos de solidão e depressão. Tudo isso embrulhado num pacote de sonoridades oitentistas com sabor de verão. Assim fica fácil encarar os dias de chuva.
Mulamba – Mulamba
Um sexteto de mulheres pronto para encarar machos escrotos e dar um microfone a quem não tem voz. As letras são diretas, chamando os machistas na chincha e convocando as mulheres a tomar seu lugar de protagonista em um mundo tão centrado na figura masculina. O instrumental mistura a agressividade das guitarras roqueiras à delicadeza de um violoncelo e à força de percussões tribais. Além das canções politizadas, há espaço também para baladas belíssimas, que contrapõem os momentos mais duros do disco com uma delicadeza singular.
Mike Patton & Jean-Claude Vannier – Corpse Flower
Uma dupla dessas… não tinha como dar errado! O mestre das mil vozes se une ao arranjador de ninguém menos que Serge Gainsbourg e o resultado é um disco muito peculiar, que faz uma ponte entre o experimental e a chanson. Os arranjos são ao mesmo tempo elegantes e esquisitões, uma marca do maestro francês. Sob a batuta de Jean-Claude Vannier, Patton baixou o espírito de Gainsbourg, declamando muitas das letras em vez de cantá-las. O discurso é bem humorado, com palavrões e muito deboche, invocando o sarcasmo típico do compositor francês. É impossível não sentir sua presença no disco. E é bom demais ver que seu espírito segue vivo nessas canções.
Imani Coppola – The Protagonist
Em seu novo álbum, a multi-instrumentalista Imani Coppola apresenta diversas faces de sua persona musical. Iniciando com o country antirracista de Blackteria, a compositora deixa claro que vai falar sobre temas polêmicos em tom de deboche e clima de diversão. Baladas acústicas, faixas punk e músicas pop falam sobre racismo, feminismo e o caótico estado atual do mundo. Imani tocou todos os instrumentos e cuidou da produção sozinha, pois queria que o disco fosse a sua cara, expondo suas qualidades e seus defeitos. As letras e a atitude vieram de uma frustração com o mundo. A cantora decidiu tomar as rédeas de sua vida e inspirar as pessoas a também virarem protagonistas na transformação da sociedade. Simbora!
Harry Nilsson – Losst and Founnd
O compositor americano preferido de John Lennon está de volta nesse disco póstumo. Há décadas, sabe-se da existência das gravações que comporiam esse que seria seu último álbum. Depois da morte de Nilsson, o projeto foi engavetado e ninguém se atrevia a terminar sua produção. Neste ano, os filhos do músico decidiram finalizar o disco. A gente nunca sabe bem o que esperar de um álbum póstumo, mas as melodias e harmonias de Nilsson não decepcionam e as canções só ressaltam a excelência do compositor.

Das melhores sensações do mundo: entrar numa sala de cinema sem ter a menor ideia do que vai acontecer. Fui assistir “Parasita” assim. Sabia que o filme estava sendo bastante elogiado. Sabia que o filme tinha ganhado a Palma de Ouro em Cannes e sido ovacionado lá. Sabia que o diretor, Bong Joon Ho, já havia feito coisas interessantes como “Okja” (2017), lançado pela Netflix. Mais que isso, não sabia.
“Parasita” conta a história de duas famílias. Num primeiro momento, nos apresenta os Kim: um casal, um filho e uma filha que sobrevivem como podem num bairro pobre de Seul. O apartamento, claustrofóbico e sujo, fica abaixo da linha da calçada, o que faz com que os Kim não tenham iluminação, tenham constantes problemas com bêbados urinando na sua janela e tenham um banheiro ergonomicamente muito difícil de ser usado. Os Kim se viram: andam pela casa caçando o wi-fi da vizinhança e fazem (mal) sub-trabalhos para sobreviver, como dobrar caixas de pizza ou coisas assim.

Os acasos do roteiro acabam levando Ki-woo Kim (Woo-sik Choi) a trabalhar para os Park: assim como os Kim, uma família de coreanos com um casal, um filho e uma filha. Mas as semelhanças terminam por aí. Os Park são imensamente ricos. O patriarca Dong-ik Park (Sun-kyun Lee) é um magnata da indústria de inovação (não fica claro exatamente no que, e não é necessário que fique). Sua esposa tem a responsabilidade de cuidar dos dois filhos e da casa. Aliás, que casa! Uma obra-prima da arquitetura moderna, a casa é ampla, iluminada e com grandes espaços verdes. Cada móvel, cada objeto de decoração dá a impressão de ser muito, muito caro.

O filme se apresenta, num primeiro momento, como uma comédia farsesca. Os Kim começam paulatinamente a montar estratégias para substituir os empregados da casa dos Park, mesmo que oficialmente não tenham as qualificações necessárias para tanto. O diretor e roteirista Bong Joon-ho consegue construir os personagens de ambas as famílias sem a fácil dicotomia entre “pobres bonzinhos” e “ricos malvados”. Os Kim, por quem temos simpatia, têm defeitos: são trambiqueiros, golpistas e muitas vezes mal-humorados. Já os Park, a quem seria muito fácil odiar, são muito fáceis de se gostar, principalmente a matriarca Park Yeon-kyo (Yeo-jeong Jo), sempre preocupada com os filhos. O diretor se diverte construindo esses personagens e confundindo nossos sentimentos. Ainda assim, os problemas sociais da Coreia do Sul (e do mundo, né não?) ficam bem aparentes, principalmente nos contrastes entre as casas das duas famílias. O diretor também reforça esses aspectos ao mostrar a casa dos Park sempre de ângulos abertos e a casa dos Kim em closes, aproximando as pessoas e nos dando uma sensação claustrofóbica.
A partir daí, o filme passa por uma virada (que eu evidentemente não vou detalhar) em que muda de gênero (mais de uma vez) e vai nos surpreendendo até o seu clímax. Não quero detalhar o final para não estragar a surpresa de ninguém, mas digo: veja “Parasita”. De preferência sabendo o mínimo possível. E como é bom ver um filme que não é franquia, não é sequência, não é baseado num best-seller ou numa série de livros infanto-juvenis para variar, de vez em quando!!