O quadrinista Talles Rodrigues resolveu juntar duas de suas paixões: jornalismo e quadrinhos. Desse casamento, surgiu a HQ “Cortabundas”, uma graphic novel investigativa sobre um caso verídico que se passou em Fortaleza.
Durante os anos 80, um maníaco apavorou os moradores do Conjunto Prefeito José Walter, localizado na periferia da capital do Ceará. O sujeito entrava nas casas durante a noite e fazia cortes nas bundas das mulheres que estavam dormindo. Não havia estupro ou roubo, ele simplesmente cortava as nádegas das vítimas e saia correndo. O maníaco tornou-se o terror da região e despertou a curiosidade de Talles Rodrigues.
Morador do Conjunto Prefeito José Walter, o então estudante de jornalismo decidiu pesquisar a fundo essa história para usar em seu trabalho de conclusão do curso. O TCC do autor foi apresentado nesse formato mesmo, em quadrinhos. Misturando momentos autobiográficos com informações descobertas em suas pesquisas, Talles conta uma história verídica e pra lá de curiosa. Suas entrevistas com os habitantes da região e vítimas do maníaco são retratadas nas páginas do gibi, revelando, aos poucos, os mistérios dessa figura peculiar. O resultado é uma história ora divertida, ora apavorante, mas sempre envolvente, daquelas que a gente não consegue parar de ler até chegar ao fim.
Sempre que Fiona Apple lança um álbum, ela oferece não apenas uma seleção de canções, mas um manifesto. Lírico e musical.
Com “Fetch the Bolt Cutters”, a cantora mais uma vez mostra que traça seu próprio caminho, desligada de tendências e conectada às suas ideias e emoções. Indo na direção oposta do resto do mundo, ela aposta em músicas bastante cruas e analógicas, com foco no ritmo. Baterias e percussões com andamentos quebrados fazem o chão para desfilarem as belas harmonias vocais da cantora.
Fiona sabe muito bem tirar o melhor de sua voz, seja sussurrando ou berrando. A letra é quem manda. Gritos primais ecoam em “Rack of His” e “Cosmonauts”, remetendo aos berros finais de John Lennon em “Mother”. Já os versos da faixa-título são falados pela cantora, como alguém contando uma história para um(a) amigo(a). Fiona sabe inclusive usar as falhas na voz, como quando opta por deixar sua inconstância nas notas que ela estende em “I Want You to Love Me”. Há uma verdade naquela tentativa de manter a nota soando. Há beleza na fragilidade daquele simples momento inexato.
O piano, que antigamente dominava as suas canções, aparece de vez em quando para dar umas pinceladas precisas no arranjo. Com exceção das duas primeiras faixas, “I Want You to Love Me” e “Shameika”, o resto do disco não é guiado pelas teclas, mas por voz e percussão, culminando na genial “Relay”. Aqui, a compositora cria uma faixa atmosférica e extremamente rítmica, onde os instrumentos de corda surgem apenas para colorir a conversa melodiosa de Fiona com a percussão.
O baixo acústico de Sebastian Steinberg ganha destaque em várias faixas, em especial em “Fetch the Bolt Cutters”, trazendo ares de “Walk on the Wildside” do Lou Reed para a faixa-título. Em “Heavy Balloon”, um baixo mais agudo (quase uma guitarra) sussurra no ouvido direito enquanto um mais grave marca o groove no esquerdo. (Aqui é um bom momento para eu sugerir: escute esse álbum com fones.)
A produção é caseira, mas tem uma mixagem impecável. Sons do cotidiano surgem nas faixas, como o cachorro da cantora latindo na faixa-título. Podemos ouvir ruídos de gravação ao final de “Cosmonauts” e um suspiro de quem já está cansada de repetir takes no início de “For Her”. Em época de quarentena, essa ambiência caseira faz muito sentido. Provavelmente não foi intencional, mas funciona perfeitamente neste momento de reclusão. Além de aproximar o ouvinte, pois podemos sentir que estamos ao lado de Fiona enquanto ela grava.
Há uma perspicácia nas escolhas musicais da compositora que faz as melodias e harmonias serem intrigantes. Elas ficam na cabeça mesmo sem ser óbvias. Despertam uma necessidade de escutar as faixas de novo e de novo, como se estivéssemos despindo várias camadas, cada vez mais adentrando naquele universo particular de Fiona.
Sobre o título, a cantora revelou que veio de uma cena da série “The Fall” onde a atriz Gillian Anderson, interpretando uma policial, pede que “tragam os alicates” para abrir uma porta trancada. “É sobre não ter medo de falar”, esclareceu sobre o tema do disco. Escancarando o seu silêncio, Fiona Apple compôs uma obra onde a tríade soberana da música – melodia, harmonia e ritmo – mostra a sua força de forma crua e arrebatadora.
Tive um companheiro que sempre dizia o quanto “O brilho eterno de uma mente sem lembranças” era um filme incrível. Eu não gostava. Mas, naquele movimento de ~me aproximar das coisas que meu amor gosta~, revi. Não bateu. Desisti e esse sempre foi um ponto de desacordo – e tudo bem.
Dez anos depois, o filme já esquecido, fui morar dois meses em outro país. Eram férias, estava bem instalada, vivia numa vibe absolutamente tranquila em que meu maior problema era decidir o que eu iria conhecer no dia: eu só não queria que aquele tempo acabasse. No ano seguinte, quando minha sobrinha compartilhou o mesmo desejo em relação ao seu intercâmbio, eu, já mais calejada, disse que era bom justamente porque tinha fim.
Na minha viagem, era porque eu não precisava me sustentar que eu estava tranquila, afinal eram férias – e o dinheiro para isso já estava reservado. Pelo mesmo motivo eu tinha tempo, e não precisava me preocupar em descobrir os lugares correndo como normalmente se faz em uma viagem. Eu sabia ser provisório, então não me incomodava com a casa ser longe do centro ou com o roupeiro pequeno – inclusive, tudo bem em quase sempre usar as mesmas roupas que somavam os 10kg de bagagem que levei. No calor do momento tudo parecia incrível e, por isso, eu queria que fosse infinito.
O fim trazia realidade praquela idealização – aff, realidade, quem te convidou pra brincar? Aí que, este ano, me deparei novamente com essa dura realidade de aceitar que as coisas têm um fim, pois sabia que o meu perfeito mês de janeiro terminaria e deixaria um coração despedaçado. A crônica da morte anunciada começou em dezembro: coloquei todos os escudos possíveis, afiei as pontas das espadas, criei um abismo de distância do mundo e decidi que não iria me jogar naquele mês perfeito para não sofrer depois. Eu sou ridícula né, mas quem nunca?
Aí, sei lá de onde (inconsciente, corre aqui), decidi rever o incompreensível filme. Continuei não gostando. Só que dessa vez eu ouvi um diálogo, um único diálogo, que fez valer a pena:
– Então é isso Joel. Vai acabar em breve.
– Eu sei.
– E o que fazemos?
– Desfrutamos*.
Guardei os escudos e as espadas (não consegui jogar fora, um dia ainda terei essa coragem). Encurtei as distâncias, me entreguei e tive um mês realmente incrível. Doeu quando acabou, com certeza. Mas vivi. Então percebi que o fim não precisa ser algo ruim, desastroso, uma conclusão. Ele pode ser convite. Convite pra entrega, pra reflexão, pra mudança.
Em tempos de pandemia, teletrabalho, ansiedade e isolamento estamos lidando com frequência com o “é o que dá pra fazer no momento”. Há muitas coisas provisórias e isso é angustiante. Mas, definitivamente, estamos vivendo o fim do mundo como o conhecemos. Só que dessa vez ninguém avisou, não deu tempo de desfrutar antes de se trancafiar em casa. Não rolou fazer um estoque de abraços, dar um beijo na vó ou ir ao cinema – e sei lá quando vamos poder fazer isso de novo. E é absolutamente frustrante perder isso tudo assim, sem aviso. Ou melhor, ignorando os avisos da ciência.
Nós não sabemos como sair do contexto atual. Não sabemos como vamos voltar e nem pra onde voltar depois de tanto tempo em casa. Porém, como todo fim, ele é convite. Pra quê? Talvez pra questionar as formas de nos relacionarmos. Aprendemos que uma ligação de vídeo pode ser algo absurdamente próximo, mas que abraços são realmente insubstituíveis. Percebemos que algumas organizações sociais não funcionam (ou funcionam para instituições ou pessoas específicas), e talvez seja o momento de fazer essa crítica e mudar as coisas. A necropolítica está escancarada e a minha questão é: como vamos viver depois disso?
No último mês de fevereiro o quadrinista escocês Grant Morrison completou 60 anos de loucura e psicodelia. O escocês careca que divide opiniões e continua produzindo num volume muito grande tem um monte de material sendo (re)publicado no Brasil e eu resolvi listar cinco trabalhos bacanas do Morrison para conhecer melhor o autor. São os cinco melhores? Acho difícil classificar dessa forma, mas são cinco obras que tem a marca de Grant Morrison, sem uma ordem específica.
1) Homem-Animal
No início dos anos 80 a DC através de Karen Berger (Que se tornaria a cabeça por trás do selo Vertigo) foi até o Reino Unido prospectar entre os jovens talentos da então pujante cena dos quadrinhos britânicos. Alguns autores foram contratados e receberam títulos de terceira linha da DC como uma espécie de “teste”. Se não vendesse, tudo bem, não era nada que afetaria a editora. Nesse modelo, Alan Moore escreveu seu “Monstro do Pântano” e Neil Gaiman reinventou o “Sandman”. Grant Morrison escolheu Buddy Baker, o Homem-Animal. Um herói sem identidade secreta, casado e com dois filhos. Morrison usou e abusou da metalinguagem no seu primeiro arco de histórias, “O Evangelho Segundo o Coiote”, onde um coiote antropomorfizado rebela-se contra seu Criador (Deus/O Artista) pela eterna perseguição na qual ele está fadado a fracassar. Sim, a referência é essa mesma que vocês pensou. No segundo arco “A Origem das Espécies”, o Homem-Animal milita pela… causa animal. Tráfico de animais, vegetarianismo e outros temas relacionados estão presentes. Outros heróis com poderes “animais”, como Vixen e Delfim, também aparecem aqui. O arco também conta a origem dos poderes do Homem-Animal, relacionando-a com os misteriosos Alienígenas Amarelos. O terceiro arco, “Deus Ex Machina”, que encerra a passagem de Morrison pelo título, é uma pequena obra-prima recheada de metalinguagem e quebra da quarta parede, com direito ao Homem-Animal encarando o leitor e falando diretamente com ele. Depressão, abuso de drogas, inconformidade e tragédias pessoas estão presentes e compartilhar a jornada de Buddy Baker nos faz admirar a tremenda humanidade imprimida por Morrison no personagem.
2) Os Novos X-Men
Depoi da saída de Chris Claremont, que foi o roteirista-chefe dos X-Men durante muito tempo, a revista perdeu o rumo. Paralelamente a isso, de carona no sucesso da animação, os mutantes da Marvel se tornaram personagens extremamente populares, o que deixou a casa das ideias com um problemão: o que fazer com personagens amados pelo público mas maltratados por dez anos de roteiros de quadrinhos? A Marvel entregou o título principal dos mutantes para Morrison, relançando-o como “Novos X-Men”. O escocês contou aqui com a parceria de seu desenuista de confiança, Frank Quitely, e recebeu carta branca. Os primeiros dois arcos de Morrison, “E de Extinção” e “Rebelião no Instituto Xavier” foram o que de melhor foi escrito sobre os Mutantes em muito, mas muito tempo. Infelizmente Quitely não deu conta de entregar a revista mensalmente e depois de alguns atrasos acabou trocado nos desenhos. A ausência de Quitely e as brigas de Morrison com a Marvel fizeram com que o final de sua passagem fosse bem menos interessante que o início, infelizmente. Ainda assim o escocês conseguiu organizar algumas coisas no mundo dos Mutantes: ressaltou uma vez mais o estigma de minoria perseguida do qual Stan Lee tanto gostava e transformou a Rainha Branca, antiga vilã da série, em heroína. Emma Frost, aliás, foi uma sacada sensacional de Morrison para fazer o próprio Scott Summers evoluir e sair do beco sem saída que era o relacionamento que mantinha desde sempre com Jean Grey. Além de reinventar Emma Frost Morrison ainda foi responsável pela criação de personagens que se tornaram importantes como Quentin Quire e Cassandra Xavier.
3) We3
Um gato, um cachorro e um coelho. Mecanicamente “melhorados”, esses animais seriam as armas do futuro para o exército americano. Seriam. Porque aparentemente, alguma coisa deu errado. Morrison consegue, num texto maravilhoso, nos passar a percepção dos animais a respeito do que está acontecendo. A ideia dele não é a de bichos antropomorfizados, mas de bichos-bicho mesmo. Até falar eles falam, mas expressam apenas os sentimentos e instintos que possuem. Se a ideia é boa, a parceria com Frank Quitely ajudou a transformar We3 numa obra de arte. Morrison se esforçou em criar um texto enxuto que é complementado e ganha cadência na narrativa dos desenhos de Quitely, que se esforça para que vejamos as coisas da mesma maneira que os bichos as percebem. A Panini recentemente relançou We3 no Brasil e se você ainda não leu, sugiro fortemente que o faça.
(É até difícil escolher entre as artes de Quitely para We3)
4) Batman
Grant Morrison foi “dono” do Batman por quase oito anos na DC. Morrison é, ao contrário de Alan Moore, um eterno fã dos quadrinhos de herói. O exercício que ele se propôs, ao assumir o morcegão, foi que TUDO que havia sido publicado em setenta anos de Batman era cânone. E, lisérgico como ele só, mergulhou de cabeça nas aventuras psicodélicas do Batman dos anos 50. Se você quiser entender um pouco em especial o início da fase Morrison, a Panini publicou por aqui o “Arquivo de Casos Inexplicáveis”, uma coletânea de histórias daquela época que incluem o Batman Zebra, o Batman do Planeta Zur En Arrh, o Batminho e outras maluquices e preciosidades (das quais o Morrison usou e abusou, em especial nos arcos “Batman e Filho” e “Batman RIP”.
Além das psicodelias, Morrison resgatou uma história obscura dos anos 70 que estava relegada a um elseworld, onde Bruce Wayne teve um filho com Tália Al Ghul, filha de um dos seus maiores inimigos. A partir do momento em que TUDO era cânone, essa história também passou a ser. E Grant Morrison criou Damian Wayne. Um menino de dez anos criado pela liga dos assassinos para ser nada além de uma máquina de matar. E um pentelho CHATO PRA CARAMBA. Damian é tão insuportavelmente chato que acaba se tornando um personagem maravilhoso. De longe, a maior contribuição de Morrison para a mitologia do morcegão foi trazer essa história de volta e fixar Damian nas histórias. Não por acaso o menino se tornou um dos preferidos dos leitores até hoje. A Panini recentemente republicou o encadernado de capa laranja “Batman e Robin”, que tem provavelmente os melhores arcos da passagem de Morrison pelo título. O interessante é que esses arcos NÃO TEM Bruce Wayne. O Batman é Dick Grayson, o primeiro pupilo de Bruce, tentando se adaptar ao papel depois da “morte” de Bruce. E o Robin é Damian Wayne, tentando canalizar toda sua fúria e disciplina para fazer coisas boas (ou o que ele acha que são coisas boas). Mais uma vez, a arte de Quitely torna tudo mais interessante e casa perfeitamente com a narrativa do escocês. Além de Damian fixado como Robin, fica dessas histórias também um novo vilão que poderia fazer parte da mitologia do Batman desde sempre, o Professor Porko.
5) Grandes Astros: Superman
O que o Superman faria se soubesse que ia morrer? A resposta para esse pergunta rendeu uma série em 12 edições que se tornou seminal na mitologia do Homem de Aço. “Grandes Astros: Superman” é uma declaração de amor aos quadrinhos, aos super-heróis e a ele, que representa tudo isso: Clark Kent, o menino de Kansas, o homem de Krypton.
Morrison coloca o Superman para realizar doze grandes tarefas, nos moldes dos trabalhos de Hércules, para tornar o mundo melhor sem ele. Nesse caminho o Escoteirão revisita inúmeras passagens clássicas de toda a história do Homem de Aço. Mesmo os inimigos mais estranhos lá da Era de Prata, como o Sr. Mxyzptlk e Bizarro, são contemplados. O arco de Superman no Planeta Bizarro e o seu encontro com Zibarro, o Bizarro que não pensa ao contrário, é lindo (apesar de meio trabalhoso de ler). Há um carinho muito grande com os coadjuvantes do Superman como Lana Lang, Jimmy Olsen e, principalmente, Lois Lane (que simplesmente se recusa a acreditar quando Clark revela que ele é o Superman. Como é que ela, a maior repórter investigativa do mundo, nunca tinha se dado conta??).
Mais uma vez a arte de Frank Quitely casa divinamente com o trabalho de Morrison. Ele desenha o Superman um pouco maior do que os outros personagens, dando a ele a figura mítica/divina que ele é nessa história. E a diferença de quando ele desenha Clark Kent é nítida na postura, nos ombros, nos detalhes. O trabalho de Morrison é sempre melhor quando acompanhado da arte de Quitely.
Talvez a cena mais emblemática de Grandes Astros Superman aconteça ainda no primeiro número, quando Superman salva a adolescente que estava prestes a se matar. Ele poderia ter simplesmente tirado a menina de cima do prédio. Poderia ter esperado ela pular. Poderia ter perdido muito menos tempo do que “perdeu” ali. Mas não. Ali ele mostrou que o que faz ele ser o Superman não são os seus poderes quase infinitos, mas sim a empatia. O maior poder do Superman é a compaixão.
Se Seinfeld era a série de TV sobre nada, O Homem Que Passeia é seu equivalente no mundo dos Quadrinhos. Em suas páginas, o japonês Jiro Taniguchi nos apresenta sua visão de mundo, encontrando poesia em meio à banalidade do cotidiano.
A revista traz vários passeios de um homem pela sua cidade, observando o que há ao seu redor e pensando sobre a vida. Diferente da maioria dos roteiros, que partem de uma premissa e têm um objetivo final, as histórias de Taniguchi apostam na beleza do acaso. Curiosamente, as narrativas são contadas com poucos diálogos e muitos momentos de silêncio. Os desenhos em preto e branco falam por si só, nos convidando a dividir os sentimentos que arrebatam o personagem principal.
A falta de um roteiro definido é o que transforma as histórias em verdadeiros passeios. A sensação de estar vagando pelas ruas sem saber o que virá pela frente é vívida. Os acontecimentos de cada capítulo são pequenas surpresas do dia a dia, não são grandes plot twists embasbacantes. Estamos tão acostumados a esperar inúmeras reviravoltas em uma ficção que esquecemos a beleza que existe nas sutilezas da vida real.
As histórias de O Homem Que Passeia são um respiro. Sem deadlines, sem objetivos, apenas a liberdade de colocar o pé no mundo e deixar a vida acontecer.
Maria menina, mulher Maria, Maria mãe, Maria Maria, Maria Má, Maria, a Mari, Maria aquela, essa Maria, Maria boazinha, MARIA, ma-ri-ah, um doce de maria, Maria zangão, Maria sem e com razão, Maria que tropeça, Maria que levanta e se sacode, Maria com ele, ela com Maria, Maria ontem, hoje, e no futuro: Maria.
Uma escritora em busca de inspiração retorna a sua cidade-natal e descobre que sua própria história foi apagada. Ninguém parece aceitar a sua existência e Cris procura descobrir o que levou seus amigos e parentes a negarem sua existência.
Através de uma história de suspense, o roteirista Daniel Esteves (de São Paulo dos Mortos) traz várias questões sobre a ambígua relação que temos com o nosso local de nascença. Muitas vezes nos sentimos distantes de nossa origem e temos vontade de nos afastar. Voltar à cidade-natal parece ser um retrocesso. Mas ao mesmo tempo, mantemos uma eterna ligação com os locais frequentados e os amigos que ainda vivem lá.
Acompanhando a jornada de Cris, podemos dividir com ela o sentimento confuso de reencontrar pessoas do passado e estar novamente em locais que já tiveram um grande significado para nós. Isso nos traz muitos questionamentos: o que a gente deve carregar conosco? O que deve ficar para trás? O quanto essa vida remota ainda faz parte do que somos?
O interessante é que Daniel Esteves amarra essas questões existenciais em uma narrativa misteriosa, transformando a viagem de Cris ao seu passado em uma aventura digna de Sherlock Holmes. A protagonista percebe que muitos moradores não lembram dela e algumas parecem não querer nem chegar perto. O que deveria ser uma viagem para desbloquear sua escrita se torna um enigma a ser desvendado. Quem está ao seu lado? Quem tornou-se um inimigo? E por que diabos quase ninguém lembra de sua presença na cidade?
Uma das primeiras bandas paulistas que conheci quando me mudei de Porto Alegre para São Paulo foi a Trupe Chá de Boldo. Um grupo de 13 músicos disposto a compor canções animadas e bem latino-americanas, sem medo algum de soar pop ou brega. É como se Tom Zé e Sidney Magal tivessem feito uma jam com a Blitz em plena Avenida Paulista no domingo. Em frente ao MASP, é claro. Existem bandas que são muito ligadas à sua cidade e o seu som nem traduz muito bem quando tocado em outras regiões. E, pra mim, a Trupe é assim: a CARA de São Paulo.
Com quatro álbuns na bagagem, o grupo desenvolveu uma sonoridade ao mesmo tempo pop e experimental, com letras poéticas e políticas. O ambiente urbano, o ativismo político e a celebração da sexualidade permeiam as canções da Trupe. A sensual “Na Garrafa” virou a “Smells Like Teen Spirit” da banda, tornando-se o clímax dos shows, quando a vocalista Júlia Valiengo faz um dueto com o percussionista Guto Nogueira, culminando em abraços lascivos em meio a crescente sonoridade da música.
foto: Cassiano Rodka
Mas o clima atual do país fez a banda voltar o foco para a sua veia política. Assim, foram surgindo as canções que compõem o recém-lançado EP Viva Lina, que celebra a obra e a personalidade da arquiteta Lina Bo Bardi. A italiana naturalizada no Brasil ficou conhecida por suas construções modernistas inspiradas na cultura popular, com áreas abertas que só se completariam com a presença das pessoas. Duas de suas principais obras serviriam de palco para a Trupe Chá de Boldo: o MASP e o SESC Pompeia.
A primeira apresentação que assisti da Trupe foi em um show de graça no vão do MASP. Nesta data, eles estrearam algumas das músicas que fariam parte do recente EP. Uma delas foi “Vão Livre”, que fala sobre a importância daquele espaço onde a banda estava se apresentando, pois se tornou uma área de resistência. O refrão uniu as pessoas presentes em um só desejo: “ele não / enquanto houver o vão / o canto é esse lugar / cantando ele não”. Quase dois anos depois, a mesma canção foi entoada no show de lançamento de Viva Lina e o efeito foi ainda maior, com o público bradando o refrão como um mantra catártico e necessário.
Já que as novas músicas foram inauguradas na principal construção de Lina Bo Bardi, o MASP, o lançamento do EP não poderia ficar para trás. O show de estreia do disco foi realizado no Teatro do SESC Pompeia, outra obra marcante da arquiteta, um espaço moderno com áreas amplas prontas para serem preenchidas por pessoas com fome de cultura.
O show começou com a mesma canção que abre o EP, uma regravação de “À Lina”, faixa que encerrava o álbum de estreia da banda, “Bárbaro” de 2010. A música foi a primeira homenagem que a Trupe fez à arquiteta, mostrando que a ligação com ela existe desde o início da carreira. A partir daí, o grupo percorreu todos os seus álbuns, pincelando especialmente as faixas com teor político. Do EP, a marchinha “Parque do Bixiga” soou em defesa da área tombada que Silvio Santos reivindica como sua propriedade. O entorno do Teatro Oficina, outra obra de Lina, é patrimônio público, mas o apresentador de TV tem intenções de transformar o parque em construções que deem lucro, e a Trupe manda o recado: “Ô Silvio, assim fica difícil / Nenhuma pipa sobe mais / Onde só cresce edifício / Deixa pra lá esse negócio / De topa tudo por dinheiro / Muito melhor que um milhão / É gozar Bela Vista o ano inteiro”.
O show contou ainda com canções que devem fazer parte de um novo álbum. Em setembro de 2019, a Trupe se desafiou a fazer quatro apresentações bem distintas durante uma temporada no Centro da Terra. A cada segunda-feira, o grupo realizava um show com temática diferente. A última apresentação contou apenas com músicas inéditas, algo arriscado para uma banda fazer. Mas, curiosamente, foi a noite mais cheia. Nela pudemos escutar em primeira mão as faixas que foram incluídas no EP Viva Lina, além de canções que devem ser gravadas em 2020. Foi como estar em um ensaio, vendo as músicas tomarem forma. Muitas delas foram tocadas no show de lançamento do EP, em roupagem mais definitiva. É o caso de “Onça Ouça”, que era cantada originalmente pelo guitarrista Gustavo Cabelo, compositor da música. Atualmente ela é cantada pela vocalista e o arranjo ficou mais funk, de deixar o Prince orgulhoso. Outra novidade é a divertida “Bacurau”, que cita várias palavras que têm algo em comum, mas não vou estragar a brincadeira e contar o que é, escutem ela abaixo e descubram.
O palco do Teatro do SESC Pompeia foi perfeito para uma banda grande como a Trupe. Como o espaço é como uma arena, o grupo pôde passear pelo palco. Não só os vocalistas, mas também os metais do grupo, que andavam para o centro do tablado durante os solos. O setlist foi muito bem pensado e a banda estava afiadíssima, resultando num show irretocável. Mesmo a decisão de não incluir o hit “Na Garrafa” foi muito assertiva. A mensagem era clara: hoje é dia de celebrar a cultura e de gritar em coro ELE NÃO.
O elenco e o diretor de “Parasita” festejam suas quatro vitórias na noite.
O Oscar é uma festa de celebração e divulgação da indústria cinematográfica norte-americana. Ele surgiu com essa concepção e nunca deixou de ser isso. Nos EUA, os prêmios técnicos são os das guildas/sindicatos: SAG, DGA, PGA, Critics Choice. Em termos artísticos, festivais europeus como Veneza, Cannes e Berlim (e até o norte-americano Sundance) são mais considerados. Ainda assim, todo ano nós participamos do circo. Assistimos os filmes, opinamos, torcemos, criticamos e admiramos os vestidos, nos emocionamos com os discursos, rimos das gafes, reclamamos das injustiças.
Brie Larson (Capitã Marvel) e Gal Gadot (Mulher-Maravilha) homenageiam uma das primeiras heroínas bad ass do cinema, Sigourney Weaver (Tenente Ripley).
A noite de ontem, no entanto, foi um tanto diferente. A Academia tem sido constantemente criticada pela falta de representatividade. Mais uma vez, não tivemos mulheres, nem pessoas negras na categoria de direção. E, novamente, a única pessoa negra nas categorias de atuação, entre vinte indicados, era uma mulher fazendo o papel de escrava. Mas, sejamos justos, a Academia tem lutado contra isso. Se faltou representatividade entre os indicados (e as mudanças aí tendem a ser mais lentas porque dependem dos votos de toda a Academia), dentre os apresentadores e shows, onde a diretoria da Academia tem ingerência, houve uma festa bem plural. A condução da cerimônia sem um host fixo funcionou, apesar de ter sido confusa algumas vezes. Houve momentos em que alguém introduziu alguém que introduziu alguém e, em outros instantes, apresentadores falaram sem ser introduzidos. O número de abertura ficou com a talentosíssima Janelle Monáe, que referenciou alguns filmes da temporada, como “Um Lindo Dia na Vizinhança” (A Beautiful Day in the Neighborhood, Marielle Haller) e os esnobados pela premiação “Nós” (Us, Jordan Peele) e “Midsommar” (Midsommar, Ari Aster). Aliás, a Academia, em algum momento, tem que parar de esnobar as EXCELENTES produções de terror que andam aparecendo.
A sempre elegante e ativista Natalie Portman usou uma capa com nomes de mulheres esnobadas pelo Oscar de Melhor Direção, como Greta Gerwig e Lulu Wong.
Os números musicais foram extremamente genéricos, inclusive o de Elton John, que venceu a categoria Melhor Canção. Dentre os concorrentes, quem mostrou mais força na música foi Cynthia Erivo, cantando “Stand Up”, tema de “Harriet”. O In Memoriam teve Billie Eilish com uma versão meio meh de Yesterday. O mais interessante da noite, em termos musicais, foi um clipe-homenagem a trilhas clássicas de filmes. E o que ninguém entendeu foi, no final dessa homenagem, aparecer um desnecessário Eminem no palco para cantar “Lose Yorself”, que ganhou o Oscar de Melhor Canção… em 2003. A explicação foi que, na época, o cantor não pôde se apresentar por causa do excesso de palavrões na música, e que se estaria fazendo justiça. Mas não houve essa explicação na hora e todo mundo ficou com cara de ????.
Scorsese aproveitou a apresentação do Eminem para fechar longamente os olhos…
Nas categorias de atuação, como vem ocorrendo nos últimos anos, não houve espaço para surpresas. Brad Pitt enfim levou seu Oscar (por Ator Coadjuvante em “Era Uma Vez… Em Hollywood”) e Laura Dern (Atriz Coadjuvante em “História de um Casamento”) emocionou a todos com seu discurso fazendo referência aos pais, Bruce Dern e Diane Ladd. Joaquim Phoenix (Melhor Ator por “Coringa”) fez um discurso um pouco confuso e longo onde referenciou o falecido irmão River, falou da cultura do cancelamento e de veganismo. Renée Zellweger fechou a conta (ela ganhou TODOS os prêmios da temporada por sua Judy Garland em “Judy”) e fez um discurso que ninguém entendeu direito (o que, no caso dela, não é novidade).
Renée Zellweger, Joaquin Phoenix, Laura Dern e Brad Pitt confirmaram seus favoritismos.
Na medida em que a cerimônia se aproximava do final, algumas confirmações: “O Irlandês”, apesar das suas dez indicações, voltou para casa com as mãos abanando. “1917”, de Sam Mendes, confirmou o prêmio de Melhor Fotografia que todos esperavam e levou também Mixagem de Som e Efeitos Especiais, conforme o previsto de brilhar nas categorias técnicas. Esperava-se, a partir daí, um passeio de “1917” e Sam Mendes até o final da noite. Quando “Ford vs Ferrari” levou Montagem, uma centelha de dúvida apareceu em todos. Tradicionalmente, Montagem e Melhor Filme casam na cerimônia. Como “Ford vs Ferrari” não levaria Melhor Filme, a dúvida apareceu… será que eles vão MESMO fazer isso?
Taika Waititi, que é 1/2 maori: “Esse é para todas as crianças indígenas do mundo que querem fazer arte, dançar e escrever histórias. Nós somos os contadores de história originais e podemos fazer isso aqui também!”
“Jojo Rabbit” deu o prêmio de Roteiro Adaptado para Taika Waititi (que fez um discurso bonito) e em seguida “Parasita” levou Roteiro Original. Nesse momento, as sobrancelhas se ergueram: Será? Que “Parasita” levaria Filme Estrangeiro, todo mundo já sabia. Mas também todos esperavam (e lamentavam) que esse seria o único prêmio dos sul-coreanos na noite. O próprio Bong Joon-Ho, depois de ganhar o prêmio de Roteiro Original, brincou que já estava bom para a noite e que iria relaxar e beber. Mas a bebida do diretor deve ter esquentado…
Bong Joon-Ho recebeu o prêmio de Melhor Direção de Spike Lee, cujo terno homenageava Kobe Bryant.
Quando ele foi anunciado como “Melhor Diretor”, todo mundo se emocionou. Inclusive o próprio. O discurso foi maravilhoso e incluiu uma homenagem a Martin Scorsese, que foi aplaudido de pé pelo teatro. O coreano também agradeceu a Quentin Tarantino, que se declara fã de Bong há mais de dez anos e colocou dois filmes do diretor na sua lista de preferidos de todos os tempos (Tarantino é um dos maiores entusiastas e conhecedores do cinema produzido fora de Hollywood). Quando Jane Fonda subiu no palco com seu “casaco de ser presa” para apresentar a última estatueta da noite, “Melhor Filme”, havia uma torcida no ar: parecia que TODOS queriam que “Parasita” vencesse. E deu certo. Pela primeira vez, em 92 anos, a Academia premiou um filme não falado em inglês. A repercussão, até agora, é unânime. Todo mundo batendo palmas para a Academia pela escolha (com exceção, é claro, dos rednecks furiosos com esses amarelos que sequer fazem seus discursos de agradecimento em inglês).
“Quando eu era um jovem estudante de cinema, havia um ditado que eu gravei fundo no meu coração: ‘quanto mais pessoal, mais criativo’. Essa citação é do nosso grande Martin Scorsese. Na faculdade, estudei os filmes do Scorsese. Só ser indicado com ele já era uma enorme honra. Nunca pensei que pudesse ganhar. Quando ninguém aqui nos EUA conhecia meus filmes, Quentin sempre os colocava em suas listas. Ele está aqui. Muito obrigado, Quentin, eu te amo! Se a Academia permitisse, eu faria um Massacre da Serra Elétrica e dividia essa estatueta em cinco partes e compartilhava com todos vocês. Vou beber até amanhecer.” O discurso de Bong Joon-Ho certamente nos representa.
A cerimônia se encerrou, quase 2h da manhã para nós, com aquele gostinho de que valeu a pena esperar. Que a Academia siga nesse caminho e que continue prestando atenção nas suas falhas e faltas, tentando sempre melhorar.