Clarice Dall’Agnol

Literatura

Ainda dá tempo

imagem: Cassiano Rodka

Chegou o tempo ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de falar sobre o tempo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
repensar o tempo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
renovar o tempo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ah, o tempo… ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
sopra feito vento⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
ora dor, ora acalento. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não volta, nem adianta, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
se passa nesse momento. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Para Gil tempo é rei ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Caetano clama “um dos deuses mais lindos”⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
“Tic-tac, o tempo vai passando”⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Outro ano que se vai⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
enquanto um novo já está vindo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Mais três dias de diário⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
para a pausa de dez segundos⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
contados ao contrário⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em todo canto do mundo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
00:00 no relógio⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sete ondas se formam no mar⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e o céu em fogos sorri⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Entre cores e mandingas⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
gira o ano em um triz⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Essa é a mágica de renovar⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de zerar o que não tem fim⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Na vitrola Beth está a gingar⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
“ainda é tempo pra ser feliz”. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀


O texto de hoje é da convidada Lívia Ricciotti. Leia mais da escritora no Instagram @aponteimeulapis

Literatura

Lemniscata

imagem: Cassiano Rodka

o infinito tem um nome⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
isento de exclamações:⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
te quero de todas as formas⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
sem que nenhuma tenhas.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
desenhada em vastos segredos,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
pedaços teus inabalados.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
no que te tenho hoje, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
não sei se é real.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
mas é único.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
único em minha essência, porém ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
cindido em dois.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
nego qualquer forma de rebeldia, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
mas sei que algo pulsa,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de fato. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Literatura

Maternar

Filho,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É quando nos ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
acomodamos,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em ninho.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Quando os nossos⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
dedos enroscam.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Quando nos enlaçamos, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
perpetuando em cordão. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Quando teus olhos fecham⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e a tua boca sorri, até o teu⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
adormecer.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E te vejo:⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Leve.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Livre.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E te percebo ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
feliz. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Que a paz ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
me esgota.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E eu me sinto⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
completa. 

Piras

Amigo secreto

Quem nunca tirou o sorteio do amigo secreto e pensou “PUTA MERDA”? Sabe quando cê tira aquela pessoa com intimidade nenhuma? Tipo quando você recém entrou no amigo secreto da família do mozão e tira aquela tia que você confunde com uma outra nada a ver e que só encontra no Natal. Ou então amigo secreto da empresa. Sabe aquele colega que faz piadinhas escrotas e que você tá feliz de o ano estar acabando e não precisar mais ver a cara dele por alguns meses? Foi esse que você tirou. Aí cê acaba dando um presente genérico que é pra não dar um livro bem problematizador como indireta no estilo passivo-agressivo.

Talvez pior que comprar o presente é ter que fazer o joguinho das características. A tia, cê sequer sabe o nome, como é que vai dizer algo? “A minha amiga secreta sempre me recebeu bem, é uma pessoa bem legal e… tá de vermelho!” Do colega, você puxa qualquer história estranha do fundo da sua mente, tipo:

– O meu amigo secreto uma vez roubou todos os post-its da empresa, hahaha.

Ou fala algo genérico:

– O meu amigo secreto ama tomar café. 😀

Ou vai pra estratégia passiva-agressiva de novo porque (né?) sempre é válida:

– O meu amigo secreto é super focado no trabalho quando não tá mandando piada gordofóbica, machista ou racista, kkkk.

Isso quando não vem aquela sugestão cretina de dar características ao contrário ou “se meu amigo fosse um animal…” Pare, apenas pare.

E o drama de qualquer pessoa que trabalha muitas horas e faz 300 mil coisas, em especial profes em final de ano tipo eu, quando alguém diz “vamos dar presentes feitos com as próprias mãos?” MANO. Eu amo fazer presentes, mas assim, pra fazer um presente real oficial, com intenção e ser algo realmente massa, a gente tem que estar MUITO inspirada. E inspiração tem um pouco dessa coisa de simplesmente vir a ideia, mas tem muito de sentar a bunda na cadeira e pensar sobre a pessoa, o presente, a mensagem, aaaaaaah!

Mas também tem aquele momento em que você tira o amigo secreto e fica AINNNN *-* Em que você quer fazer um presente e quer comprar um presente e quer dar sua vida inteirinha pra aquela pessoa perfeita pela qual você tem tanto carinho e que merece o mundo todinho. ❤ Tem também aquele gostinho de parar pra pensar na pessoa, na importância dela na sua vida, tipo o que a gente faz nos aniversários, sabe? E quando cê ganha um presente massa, que foi pensado com todo o cuidado do mundo, dá vontade de esmagar a pessoa pra sempre. Só que, pra essa troca entre pessoas que se querem bem, será que precisa mesmo do amigo secreto? Fica aí o questionamento.

Podem me julgar e chamar de Grinch por ter um pouco de ranço desse role de amigo secreto de Natal. Me incomoda essa quase que OBRIGATORIEDADE de termos que fazer um amigo secreto, parece que o ano não acaba se isso não acontecer. Hoje me dou o direito de participar de sorteios apenas se estou muito a fim e se tenho condições de exercer reciprocidade. Quando não dá, falo bem a real e não garanto que eu vá conseguir fazer um presente, não. E como qualquer ser humano cheio de contradições, eu AMO participar de alguns sorteios. Mas sigo defendendo com unhas e dentes a ideia de que tradição tá aí pra ser questionada e que presente pra gente querida podemos dar o ano inteiro.

  • PS: a foto mostra uma coletânea de poemas que fiz para a querida Clarice no Natal do amigo secreto do PáginaDois em 2018, uma prova de que eu não sou tão azeda assim, não, tá?