Clarice Dall’Agnol

Literatura

Vertigem

imagem: Cassiano Rodka

“Sê razoável, Ariadne!…/Tu tens orelhas pequenas, tu tens minhas orelhas: aceita uma palavra sensata!/Não é preciso começar nos odiando se nos devemos amar?/Eu sou teu labirinto…”
(F. Nietzche, “Lamentação de Ariadne”, em Elegia de Dioniso, citado no livro “Estética da Ginga”, de Paola Berenstein Jacques)⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Perco-me⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de mim,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em ti,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Contornos indecifráveis,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sussurros inconfundíveis,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Melodias indizíveis,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Mergulhos sem precedentes.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Busca do que,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em realidade,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sei ser em mim,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Completude.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não há caminho certo,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E nem caminho ideal.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Em teu fio condutor,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que tece meu percurso,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
embriago-me⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de todos os detalhes,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e a cada encontro,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
retorno ao estado anterior,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
arquitetural,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em êxtase,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
plena:⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Vertiginosamente tua.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ao encontro de múltiplas saídas,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que se parecem idênticas,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
resolutas,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
intensas,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
compassadas -⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Labirinto conduzindo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
à mais pura essência minha,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
desconstruída e⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
reconstruída,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Porque⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
é assim que hoje reino,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
alada,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em altitude de cruzeiro. 

Literatura

Desafio P2 nov/2020: Criar um texto a partir de uma imagem

Durante o mês de novembro de 2020, a equipe do PáginaDois se propôs o desafio de criar a partir de uma imagem enviada por um dos nossos ilustradores. O resultado vocês podem conferir na tag #desafiopagina2 no Instagram.

Fechando o desafio, Cassiano Rodka criou uma ilustração para ser reinterpretada pelo nosso fotógrafo José Calimero. Deem uma olhada aí no resultado! 

ilustração: Cassiano Rodka
foto: José Calimero
Literatura

O mundo de Davi

imagem: Isabel Dall’Agnol

Davi não entendia bem o que estava acontecendo, mas também não era bobo. 

O mundo havia parado. Ele sabia disso. Os seus pais quase não saíam mais de casa. Quando ousavam colocar o pé na rua, disfarçavam-se. Como se as pessoas não fossem reconhecer a sua mãe ou o seu pai atrás daquelas máscaras. Os adultos têm cada uma…

A TV, tantas vezes proibida no passado, agora era a sua maior companhia. Seus pais chegavam a insistir para ele ir para a frente do aparelho. Mas ela tinha se tornado chata. Resolveu fazer com o aparato o mesmo que haviam feito com o mundo: colocou no “pause”. 

Na varanda, com os olhinhos curiosos da infância, ele capturou a presença de blocos de montar. Contemplando cada pecinha, decidiu reinventar o mundo. O telhado serviria agora de base, as janelas seriam colocadas de ponta-cabeça, as pontes virariam pistas de skate. Tudo ganhava uma nova função. 

Foi tomado de súbito por uma imensa alegria. Abriu um daqueles sorrisos gostosos em que a graça a gente nem sabe onde está. “Eureca”, ele teria gritado se soubesse o que isso significa. Mas epifania é coisa de adulto, então Davi só seguiu brincando. 

O mundo continuou o mesmo. Mas o seu. Não o de Davi. 


Texto inspirado em uma foto de Isabel Dall’Agnol como parte do Desafio de Novembro do P2. 

Literatura

Ritmo da chuva

imagem: Isabel Dall’Agnol

O céu chora.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Chora.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E limpa⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
a minha sujeira.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sim, estou imunda.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Rasgada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Coberta de poeira.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E cheia de destroços ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
por recolher. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sinto os pingos.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Com eles ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
se vai a minha lama.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O imundo,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que me corrói.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E engole. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O úmido desabafa ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
o meu ego impuro.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E varre ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
essa escória. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Suja.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Suja.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Essa borra ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
é o meu resto.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Resto que a chuva ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
lança. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E, assim,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
segue a dança.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Chove.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Lança.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Escorrega ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
esta besteira.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O molhado me envolve⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
por inteiro.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sacrifica a minha pele ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e a alma imundas. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E o ritmo segue.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ordenado.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Puro.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É alívio.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Os meus olhos ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
cerram.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Os lábios ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
recebem a água.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E as mãos te balançam, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
chuva.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Estou livre.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É alívio, afinal.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A luz rompe ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
nossa festa escura.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E o sol… ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Arde lento ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
nesse corpo inútil.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Seca. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Desabafa.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Mostra.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não tenho ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
saída. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E, na poça,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
o meu reflexo ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
se encontra.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Outra vez sujo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Outra vez imundo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Outra vez quebrado.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O balé da chuva⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
foge.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É trânsito. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É ilusão. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Nada escapa ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
esse breu. 

Literatura

A derrocada (Uma tragédia no país das palmeiras)

imagem: José Calimero

A hora consome⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
enquanto o dia falece⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em lugares sem glórias⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
os jornais vendem⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
um mundo perdido⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e nós os compramos⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
no alívio de um grito⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que plana sobre a multidão surda⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
a caminhar, harmoniosa,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
nas manhãs de todas as semanas⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
enquanto há no olhar ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
uma esperança odiosa⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de que todos esperam⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
o nunca para se rebelar⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
mas é apenas uma fração⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
do tempo em vão⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em que se pensa por além⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
do próprio pão⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e, assim se vive encarcerado⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
na liberdade de um sonho grego⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
já há muito abortado⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e nos sorrisos já não há alegria⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
mas, sim, uma espécie de nostalgia⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em sentir algo que deveras⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
esta vida⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
não propicia

Literatura

Carta à felicidade

imagem: Cassiano Rodka

Vó, qual é a cor⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
do sangue negro?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Desculpa vó,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
naquele tempo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
eu não entendia⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
quando a senhora dizia:⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Casem com um⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
homem branco⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que é para ir limpando⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
o sangue⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Vó, não entendia que sofrias⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
não sabia das tuas cicatrizes⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
tuas feridas ainda abertas⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em carne viva⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Por isso te provocava:⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O sangue tem outra cor?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
sangue é tudo vermelho vó⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
tem vergonha da tua cor?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Eu perguntava e sorria,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
a vó cabisbaixa⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
envergonhada,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
não respondia⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
as palavras lhe fugiam.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Vó, desculpa a demora⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em aprender⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
foram anos sem saber⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
como te dizer⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Talvez vó, porque⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
a minha pele⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
é mais clara que a tua⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
meus cabelos se parecem⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
com os teus⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
mas me chamam⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
por outros nomes.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não me chamam⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de macaca,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
negra da senzala,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
escrava…⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Houve um tempo vó,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que até me chamaram⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
cabelo de Bombril⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
hoje não,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
hoje sou exótica,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que é um jeito de dizerem⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que não sou igual a eles⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sabe vó,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
ainda assim⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
fazem perguntas cínicas:⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Como você faz⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
para o teu cabelo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
ficar assim⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Como você penteia⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
o teu cabelo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Tua boca é natural?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Vó, naquele tempo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
eu não entendia⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Achava ofensivo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
quando a senhora dizia⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que o pai não era negro⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
era moreno clarinho⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que quando menino⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
era bem loirinho⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
tinha um cabelo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
bem lisinho⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e uma mulher da mão ruim⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
cortou e encrespou o cabelo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Vó, o pai adora tua explicação⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
lembra?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
fica todo orgulhoso,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
não é negro,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
é moreno clarinho
que lhe presenteou
com uma neta
quase branca
Eu olhava para
a pele escura do meu pai
tão parecida com a tua
e não entendia.
Como deve ter sido
difícil vó,
sentir que tua cor
era ruim
que teu cabelo
era feio
Vó, como queria
ter soltado
teus cabelos
eles viviam presos,
esticados
feito o arame liso,
das cercas
que usam para
prender o gado
Queria ter dito
o quanto teus cabelos
eram bonitos
mas eu não sabia vó
não tinha como dizer
porque eu também
sentia vergonha
dos meus.
Aqueles coques
doíam vó
eu também queria
soltar meus cabelos
na infância
eu não podia
o volume do cabelo
ofendia
Vó, minha pele
nasceu clarinha
mas os meus cabelos
gritavam quem eu era
e de onde eu vinha
Mesmo com óleo
de mamona
banha de galinha
Andiroba e
todos os emolientes
meu cabelo
gritava de
onde eu vinha
Meu cabelo
rebelde
sarará
duro
de negro
ofendia!
Vó,
hoje consigo entender
o sofrimento
do racismo
de todo dia.
Vó,
hoje eu sei que
a senhora não entendia,
só sofria
Sofria vó
com o racismo
de todo dia
todo dia
todo dia.


O texto de hoje é da convidada Joziane Ferreira.

Literatura

Arrebentar

imagem: Cassiano Rodka

Os desenhos, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
nítidos nas paredes,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
me pelam.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sinto-me ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
pequena.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Desorientada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Acostumada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Parada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Trancada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O ar encosta a⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
minha boca.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Os olhos grudam⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
as cores.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E minha pele ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
arrepia.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A notícia inunda a⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
moldura.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O anel desprende-se⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
a borbulhar. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não posso mais ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
disfarçar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E nem segurar. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A parede, agora,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
me define. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Mostra o meu⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
andar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O norte ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
é estar. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sinto medo,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
mas excito a⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
alma há muito ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
adormecida.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Era preciso ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
acordar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Já não posso⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
escapar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Fica tudo a⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
desabar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Na moldura,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
pintada ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em minha frente. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Nas cores, que⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
refletem neste⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
olhar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ou nos meus ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
olhos, que ali⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
deitam-se…⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Porque são ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
parte desse desenhar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Parte em desatar ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
o arco que me veste. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E este fundo ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
quer se aventurar.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Derramar-se.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Deslaçar-se.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Despertar-se.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Despir-se dessa⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
argola apertada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Tuas tranças ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
carregaram-me⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
a este existir.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A este assistir.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A este sentir. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A este viver. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Caminhamos,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
juntos.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Descobrimos,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
juntos.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Amamos, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
juntos.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Estou fora⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
da bolha; ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
finalmente.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Tu me arrancas⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de lá.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Agarras⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
meus braços⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e puxa.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Modela o ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
meu eixo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Esculpe a⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
minha alma.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Dança no meu⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
corpo.

Avança o meu
desejo.
Sem medo.

És pássaro
a comigo
sobrevoar.
Porque, sim,
me deste
asas. 

E, de repente,
passado estás. 
Atrás do tempo, 
em tempo.
Lembrança.
Estás em si…
Sustenido. 
Perdido.

Mas…
Sigo assistindo 
aquela ampola.
E, agora, me cobre
a sua sombra.
E a visito.
De quando em
quando.
Entro.
Saio.
Viajo.
Estado.

Mas os 
pássaros 
giram, 
a lembrar.
Sou parte 
tua.
És parte 
minha. 
Partimos.
Voamos.
Separados
estamos.


Texto inspirado em uma ilustração de Cassiano Rodka como parte do Desafio de Novembro do P2. 

Literatura

Quando a lua sangra

imagem: Isabel Dall’Agnol

meu corpo perde o prumo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
entre o pulso e o impulso⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
flutuo em minha própria armadura de fios transparentes⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
repelindo e atraindo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
sombra e luz⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
luz e sombra⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
na meia lua do meu peito sangrando⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
por ser de tantos⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e de ninguém⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
lua cheia de desencontros⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
ela gira e gira em torno do meu texto⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
eu perco o eixo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e o contexto⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
expandindo e contraindo o mar em mim⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
minguando até a última gota da palavra⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
no céu⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
da palavra⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
na terra⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
da palavra sangrando lua 


Texto inspirado em uma foto de Isabel Dall’Agnol como parte do Desafio de Novembro do P2.