Clarice Dall’Agnol

Piras

Lembrança

Lembro perfeitamente quando li pela primeira vez. Eu estava dormindo durante uma festa de família –dormindo cedo nos rolê desde sempre, vê se pode – e estava acontecendo um alvoroço no pátio. Meu primo, um ano mais velho, estava em pé lendo um livro, enquanto adultos o enalteciam e sorriam de orgulho. Eu, leonina que sou, não suportei não estar nos holofotes: tirei o livro das mãos dele e li. Assim, escrotona mesmo.

A Brunna professora de hoje consegue olhar pra essa cena e dizer que não aprendeu a ler naquele momento, e que provavelmente a convivência quase diária com alguém em outro estágio de desenvolvimento teve influência maior do que o ciúmes. Mas o que marcou não foi o processo; mas, sim, o incômodo, o sentimento. Lembro também de como achei estúpida aquela história de dobrar o papel higiênico que minha colega da pré-escola me mostrou (acho que essa é a lembrança mais antiga). Não fazia sentido – e ainda não faz. Amassa, limpa e deu; tudo certo. Que frescura.

Lembro de perceber estar amando, tão bem quanto a dor do coração partido pela primeira vez (e pela segunda, terceira, quarta…). É engraçado que, apesar da lembrança ter essa conexão direta com o sentimento, tem coisas que me digo: “não esquece dessa merda que tu passou”. Acho que volta e meia o cérebro dá uma bugada e faz a gente esquecer do que foi difícil DEMAIS, porque viver com isso tão a flor da pele seria apenas too much. Já li algo parecido em relação ao parto: uma dor que, depois de algum tempo, se esquece; se não, as pessoas não teriam mais bebês – então, evolutivamente falando, esquecer garante a propagação da espécie. Faz sentido. Mas não deixa de ser curioso.

Afinal vivemos num (não) lugar entre passado, presente e futuro, equilibrando o bittersweet da lembrança de algo incrível que não teremos mais com o pânico daquilo que queríamos esquecer. E seguimos tentando entender quais as coisas temos que colocar um post it para marcar a página da nossa história e quais temos que deixar ir pelo ralo para podermos seguir em frente.

Quadrinhos

Angola Janga, de Marcelo D’Salete

Hoje é Dia Nacional da Consciência Negra. Nesta mesma data, em 1695, morreu o grande líder de resistência à escravidão, Zumbi. A partir de um trabalho de pesquisa de 10 anos, o quadrinista Marcelo D’Salete criou a HQ “Angola Janga”.

O termo significa “pequena Angola”, um pedaço do reino africano dentro da América do Sul que ficou conhecido nos livros de história por “Palmares”.

Formado em Pernambuco no fim do século XVI por fugitivos da escravidão, o local se tornou o berço da resistência e a dor de cabeça dos militares holandeses e das forças coloniais portuguesas. Para os escravizados, era um oásis de liberdade.

No traço de Marcelo D’Salete, a história ganha vida e figuras imprescindíveis da nossa história, como Zumbi, Antônio Soares, Ganga Zumba e Ganga Zona dividem espaço com personagens fictícios que expõem um pouco do que era viver na condição de escravo e mostram a importância de um espaço de resistência.

A HQ foi ganhadora de vários prêmios em 2018, incluindo o Jabuti, Grampo de Ouro e HQ Mix.

Leitura fun-da-men-tal!

Literatura

Arpoador

Ilustração: Cassiano Rodka

Para minha amada xará Clarice, e para o tão especial Igor, que, sem dúvidas, sabem fazer o melhor amor.

Peróla
Pedra
Concha
Ar
(Vista do mar escondida)
Vento cálido
Planta
Rega
Nutre
(Nutrem-se)
Alimenta
(Alimentam-se)
Melodias francesas
Leveza no ar
(Nos olhares)
Brisa do Corcovado
Que invade vocês
De mansinho
Não é gota –
É oceano.
Partilham
Compartilham
Engolem-(se)
Multicores
Multiespaços
Multiamores
(Respeito):
O Mundo de vocês, visto de cima
(E de perto, pela poeta de mesmo nome),
É aquele mundo ideal.