Clarice Dall’Agnol

Literatura

Bruno

Foto: Isabel Dall’Agnol

Eu não me orgulho de tudo o que passamos juntos.

Mas, com certeza, me orgulho de cada batalha vencida.

É um complexo nexo que nos une, entre o que fomos, o que somos e o que sempre seremos; com a certeza de que tudo vencemos.

E, a este ponto, aprendi a respeitar todos aqueles dias em que não gosto de ti, e sinto que realmente te odeio, que desejo o divórcio, e fantasio, mesmo que por segundos, a tua morte – meio menos oneroso de te ver sumir da minha frente, ainda que tão egoísta –, pois tamanha é a raiva que me fazes sentir.

Eu respeito, sim, esses dias – quase os admiro! Porque é através deles, e tão somente deles, que se torna tão possível e um tanto inerente, por ti, me apaixonar mais uma vez. E, em ti, coabitar eternamente.

Literatura

Reticências

Foto: Vanilson Coimbra

Para Matilde Campilho, que ama a poesia e marinheiros. E para Ana Cristina Cesar, que escreveu o que se passa por trás dos olhos das meninas sérias.

Tantas as coincidências: os fenícios, o Cabo da Boa Esperança, e o veleiro nos versos de Matilde, e era apenas uma quarta-feira qualquer, e nunca tenho vontade de parar de falar por escrito… Contato físico, de pele, de olhar… (E há tantos mistérios e sussurros naqueles deliciosos três pontinhos…). Nada de implicar com as reticências: às vezes, elas dizem muito, sem dizer nada… E eu gosto de fazer poemas, de mimos, e de vodca com suco de laranja (já contei?). Mais vodca do que suco. Aqueles mares do Sul não têm local de abrigo. Aprendo fácil. Águas traiçoeiras, revoltas, geladas. Eu sou quente, e úmida. Preguiçosa. E não sei fazer rimas. Só sei que floresço a cada dia mais, e quero que tudo sempre acabe em poesia, e corpos bem quentinhos. Ao som de jazz e blues. E hoje: hoje eu fiz em prosa (porque adoro desafios)…

Literatura

Em POA

Passar o finde em Porto Alegre
é sempre dar uma voltinha no passado.

As ruas, os bares, os sons,
é tudo muito familiar.

Distante, mas presente.

As noites são pequenas,
mas imensas.

Como sombras que se agigantam
e distorcem as proporções.

É uma comunicação
com um eu passado.

Um calçar de sapatos
de números menores.

Um reacender
de luzes interiores.

E uma temporada extra
de uma nova/velha vida.

Música

Rita Lee – Flerte Fatal e Rita e Roberto

Comprei mais dois discos da Rita Lee para a minha coleção rumo ao sonho da discografia completa. O primeiro é a nova edição de Flerte Fatal, de 1987, que traz os hits Bwana e Pega Rapaz. O vinil vem na cor laranja translúcido, lindíssimo! E inclui encarte com letras, para a gente poder cantar a divertida versão em português de Blue Moon e a hilária faixa que brinca com a antiga busca de Xuxa por um namorado, Xuxuzinho. Ainda tem participação do mutante Sérgio Dias em quatro faixas: Bwana, Músico-Problema, Para com Isso e Blue Moon.

O segundo LP é Rita e Roberto, de 1985, que traz os clássicos Vírus do Amor, Vítima e Gloria F. Os encartes incluem um pôster muito bacana do casalzão, fotos das gravações e letras das músicas. O vinil é roxo translúcido, bem bonitão! O disco tem participação de dois paralamas: Herbert Vianna contribuiu com um solo de guitarra em Gloria F, que também tem backings dele e da Paula Toller; e o baterista João Barone aparece em Vítima, Molambo Souvenir e a debochada Não Titia (um recado para todos que insistiam que a magreza de Rita era fruto de uma doença). O mutante Sérgio Dias retorna em Vítima, Não Titia e Nave Maria, uma composição de Roberto e Caetano Veloso.

Escutar a voz da Rita atualmente tem um sabor diferente, quase mágico, como se ela estivesse vindo de um lugar distante para deixar claro que as ideias dela ainda vão soar nas mais variadas vitrolas Brasil afora. 

Música

Chico Buarque de Hollanda – Os Primeiros Anos

Chico Buarque de Hollanda – Os Primeiros Anos é um box da Polysom que traz 4 LPs lançados pelo cantor entre 1966 e 1968. Inclui o clássico primeiro disco, Chico Buarque de Hollanda, que é um dos meus preferidos dele, e cuja capa até virou meme. Ele traz marcos da carreira do compositor, como A Banda e Pedro Pedreiro, além de algumas menos conhecidas – mas muito amadas por este que vos escreve –, como Juca e Meu Refrão.

O segundo LP é Chico Buarque de Hollanda Volume 2, o segundo disco do músico, em que destacam-se a carnavalesca Noite dos Mascarados e o samba Quem Te Viu, Quem Te Vê. Mas tem também as minhas preferidinhas Fica e Morena dos Olhos d’Água.

O terceiro LP é Chico Buarque de Hollanda Volume 3 – cês percebem que ele não era muito criativo com os títulos, né? Mas quem se importa com isso quando temos faixas clássicas como Roda Viva e Retrato em Branco e Preto, escrita com Tom Jobim?

O quarto disco chama-se Chico Buarque de Hollanda… na Itália! Tcharãm! Mudou um pouco o título. Essa raridade foi lançada no país da pizza quando Chico estava de “férias forçadas” por lá e traz gravações em italiano de hits do cantor, como o compacto raro Bom Dia, que virou Far Niente, e Madalena Foi pro Mar, na versão Masdalena é Andata Via.

Esse box é um verdadeiro baú do tesouro repleto de joias musicais de valor inestimável e traz para a nossa casa um pouco da história da nossa música.

Literatura

Mulher em curva

Ilustração: Fabiana Pamplona

Para minha querida e nova amiga Fabiana Pamplona,
que parece me conhecer há anos já,
e traçou com maestria sua mulher curvada.

Bailarina dos Pampas,
Que seja o que seja,
Nos acordes dos labirintos,
Soprada pelos mais criativos ventos,
Sugada em todos os cantinhos,
Em todos os ares,
Nos bares,
Nos crepúsculos de mel e baunilha,
Aroma de lavanda,
Em todas as noites de asilo,
Nos ninhos que teceu,
Gota a gota,
Cabelos fulvos, cheios e soltos,
Olhos fixos,
Reflexos em azul
(mas me disseste que eram roxos),
Todas as melodias que brotam,
Do mar,
Das ruas,
Dos violões,
(sou toda cores, versos e sons).
Guardiã dos teus sorrisos