Clarice Dall’Agnol

Literatura

Mudanças

Foto: Chris Lawton

Nos últimos meses, vi minha vida mudar completamente. Troquei de bairro, comecei um novo trabalho e adotei dois gatos. Pode não parecer muito, mas bastaram essas três ações para que nada mais fosse igual no meu dia a dia. 

Mudar-se de endereço é criar uma nova rotina. Passamos a frequentar ambientes diferentes: comemos em outros restaurantes, adotamos um novo supermercado de estimação, andamos por ruas que não conhecíamos, respiramos um ar diferenciado, com novos cheiros, e nos acostumamos a escutar barulhos distintos. Os objetos da casa são rearranjados, outros são comprados, é essencialmente um novo lar. Isso nos faz criar novos hábitos, nos movimentamos pela casa de outra forma, reaprendemos a utilizar o nosso espaço e aproveitamos a nossa vida doméstica de novas maneiras. Especialmente em São Paulo. Aqui, um novo bairro é como uma nova cidade, com diferentes habitantes e costumes peculiares de cada região. 

Começar um novo emprego também é uma quebra de rotina. Os horários têm que ser adaptados: a hora do banho, do almoço, de acordar. Sem falar na vida durante o trabalho, com novos chefes e toda uma equipe de pessoas diferentes entrando no nosso cotidiano. Às vezes, damos sorte. No meu trabalho no MIS Experience, acabei fazendo novos amigos e aprendendo muito. Passo mais tempo lá do que em casa, portanto essa conexão é muito importante – são uma nova família. 

Adotar animais de estimação comprovadamente muda você. Sim, você – não só a sua rotina, mas o seu jeito de enxergar a vida. O companheirismo, as diabruras, a lealdade, a teimosia e a sinceridade dos felinos nos fazem pensar em como a vida pode ser mais simples. A alegria deles está em momentos que consideramos básicos, e isso nos reprograma a enxergar novamente a beleza desses pequenos prazeres. Quando saímos do trabalho, não voltamos apenas para a casa, retornamos para eles. 

Eu sempre adorei mudanças. Compreendi desde cedo que elas fazem parte do viver. Adaptar-se a elas é essencial, seja as que vêm porque queremos ou as que chegam sem convite. Eu acredito que o segredo da felicidade está em aprender a lidar com um trem que se descarrilha constantemente. Eu gosto de olhar ao redor e ver que tudo mudou. Porque, quando tudo em volta está diferente, você é outro também. Percebo isso não só quando me olho no espelho, mas quando me pego cantando uma nova canção, usando uma gíria que não era minha, apreciando algo que nunca havia reparado antes. Nós colhemos pedaços do comportamento e do pensamento das pessoas ao redor que admiramos e damos vida uma árvore de referências que constrói um novo eu. Estar vivo é reinventar-se. E semear a mudança nos outros também. 

Literatura

O prazer da tristeza

Foto: Kilarov Zaneit

“Eu amei o filme! Chorei horrores!”, disse você depois de assistir àquele filme que mexeu muito com as suas emoções. “Essa música me deixa muito triste. É uma das minhas preferidas!”, revelou também você quando tocou aquela canção melancólica que está sempre nas suas playlists. 

Não é curioso que a tristeza, através da arte, pode nos dar prazer? Nós nunca celebramos um momento de choro no nosso dia a dia. Raramente damos destaque nas redes sociais a situações tristes que passamos. Ninguém quer viver a tristeza na realidade. Mas buscamos senti-la na arte. Às vezes, o intuito é sublinhar algo que estamos sentindo. Já em outras, é apenas um passeio pela melancolia, com hora para acabar. Talvez porque, na arte, tenhamos certo controle sobre a tristeza. Sabemos quando a faixa acaba. Ou o tempo médio do filme. Mas, na vida real, não temos controle sobre o fim da tristeza. Tampouco seu início. 

Fazemos isso não só com a tristeza, mas com outras emoções. Quando assistimos a um filme de terror, queremos provocar medo em nós mesmos. Mas, mais uma vez, com hora para iniciar, e absoluto controle sobre o seu fim. Quer parar de ver? Clic. O poder de controlar nossas emoções nos fascina. Justamente porque não conseguimos fazer isso no mundo real. Mas por que instigar a tristeza ou o medo? 

Porque as emoções nos fazem sentir vivos. 

Aquela sensação de aperto no peito quando choramos nos faz humanos. O coração batendo forte de medo nos recorda que estamos vivos. Sentir qualquer emoção é melhor do que não sentir nada. Provocamos as emoções porque queremos despertar a vida. Queremos que o sangue corra, que o coração pulse, que a pele se arrepie, que os dedos se contorçam, que os olhos despejem a tristeza, e que a vida – sem dó ou moderação – nos preencha por inteiro. 

Literatura

A satisfação

Foto: Elyas Pasban

Você acorda e olha os e-mails. Posta a primeira foto na rede social para dar “bom dia” e deixar claro que está tudo bem com a sua vida. Dá uma vasculhada em jobs na outra rede e já deixa um post mostrando o que você fez de eficaz na sua vida profissional naquela semana. Nota que já tem várias mensagens no celular e vai respondendo uma por uma. E o dia segue, com atualizações constantes sobre onde você está, com quem e o que você acha sobre o que está acontecendo naquele exato momento. 

A quem você está dando satisfação? 

Desde o surgimento da internet, nós deixamos de ficar sós. A possibilidade de conexão com outro ser humano está sempre a uma tecla de distância. A solidão saiu de moda. O silêncio, ninguém nem lembra o que era. O celular está constantemente à mão, o que significa que você está permanentemente à disposição dos outros. Se você coloca o telefone no bolso, você inclui o seu chefe, a sua mãe, os seus amigos e toda a galera do telemarketing na calça. É muita gente para o pobre jeans surrado! 

Não poderia ter um resultado diferente: uma era de ansiedade, com pessoas continuamente  preocupadas em deixar tudo no lugar o tempo inteiro. É como um barulho ininterrupto, que corta o silêncio e lembra você que existe algo que ainda não foi feito para você ficar plenamente satisfeito. 

Mas você está tendo alguma satisfação?

Até na hora de relaxar, há cobranças: você já viu a série do momento? Não? Já tem sete temporadas! O novo filme da Fulana Jones? O mais recente livro do Beltrano de Castro? O último álbum de Cicrano Star? É impossível acompanhar o ritmo de um mundo conectado, pois tem sempre alguém fazendo algo novo a cada minuto. E vamos ser sinceros? A gente não precisa de 90% do que está sendo produzido. E não estou falando em qualidade – tem sempre muita coisa boa sendo criada –, estou falando daquilo que nos toca de verdade. Nem tudo que é bom para os seus amigos vai fazer sentido para você. 

Em janeiro, eu fiz apenas uma resolução de Ano Novo: me dar o direito de um tempo para fazer nada. NADA! O que este “nada” inesperadamente gerou foram momentos em que eu consigo silenciar a mente e curtir coisas que eu realmente quero fazer naquele instante. Sem me preocupar em ser produtivo ou útil. Não são momentos instagramáveis, são oportunidades de estar comigo, plenamente sozinho, sem ter que alcançar objetivo algum. Me sinto recuperando algo importante na minha vida, um controle do barulho externo. 

Havia um tempo em que, quando a gente chegava em casa e fechava a porta, o mundo ficava lá fora. Era portanto, um espaço só nosso. Era preciso ser convidado para entrar no lar alheio. Atualmente, há várias portas abertas. Escancaradas. Mas a gente sabe muito bem como fechá-las. Ou melhor, desligá-las. 

Ah, que satisfação!… 

Música

A reflexão (ou Os ídolos também morrem)

Foto: Greyson Joralemon

Nossa relação com música começa desde cedo. No início, o que escutamos é essencialmente o que nossos pais gostam de ouvir. Esse primeiro contato se torna a fundação onde passamos a construir o nosso gosto pessoal, mas ainda não nos define completamente. Para mim, foi rock, jazz e MPB. A vitrola dos meus pais tocava Jerry Lee Lewis, Ella Fitzgerald e João Gilberto. Estavam lá o tempo todo, costurando-se aos meus ouvidos e tornando-se parte de mim. 

Mas é durante a adolescência que nosso gosto musical vira algo mais. Não é mais apenas música, é um espelho. Nossos ídolos não são somente vocalistas incríveis ou instrumentistas invejáveis, são o que almejamos ser. Um reflexo de ideias que já habitam em nós, mas não encontraram ainda voz. Entrevistas tornam-se tão importantes quanto as letras das canções. Queremos desvendar os seus mistérios, saber os segredinhos que tornam esses seres tão especiais e entender como eles têm a coragem de ser exatamente como são. Emulamos suas palavras e seus trejeitos – inconscientemente ou não –, e suas opiniões nos ajudam a questionar o mundo e moldar quem realmente queremos ser. Ou quem, no fundo no fundo, já somos. 

Para mim, foi ver o Mike Patton pegando sempre o caminho inverso ao esperado. Foram os Mutantes desafiando os padrões musicais sem nunca se levar tão a sério. Foi a Nina Simone deixando claro, em meio a uma plateia branca, que estava ali para cantar o que, no fundo, não queriam ouvir. Foi o Nirvana desbancando a pompa e o machismo do rock para levantar o volume da voz dos incompreendidos. Foi o “Julinho da Adelaide” driblando a censura e cantando verdades contundentes fantasiadas de canções de amor. E é a Lizzo pregando com mil palavrões que se amar é possível – e é uma delícia! 

Tudo isso é música para os meus ouvidos. 

Mas o reflexo tem fim. Esses fortes seres, cheios de grandes ideias, que nos revelam como um filme e nos botam para cima mesmo nos piores momentos… Eles morrem. Às vezes, de maneira apenas simbólica: perdemos a conexão com o que eles têm a dizer ou eles nos revelam personalidades escondidas atrás de uma cortina – malditos Mágicos de Oz! – e nos decepcionam. Outras vezes, isso acontece de forma impiedosa e concreta: eles morrem. 

Lembro da sensação estranha quando David Bowie partiu. Parecia que algo inimaginável havia acontecido, como se não havíamos percebido que ele era um mortal. Era fácil não perceber. Alguém tão gigante, tão diferente da maioria da humanidade… Era inaceitável. Incompreensível. Antes dele, senti esse desconforto com a partida de Renato Russo. O cara que traduzia o Brasil em versos, que fazia os jovens pensar sobre política e questionar seu papel no mundo, ele simplesmente deixou de existir. Deixou um vazio, um silêncio. Parecia estranho que o mundo ainda girava. Mais recentemente, foi Rita Lee. Para mim, ainda é estranho estar vivendo em um planeta onde ela não mais habita. Sinto falta da audácia, da sagacidade, dos tweets. Sim, a música continua viva. Mas não é só a música, é o reflexo. Me sinto olhando um espelho sem reflexo. 

É tão estranho um mundo sem Lou Reed. É tão triste um Brasil sem Gal Costa. Mas, da falta do reflexo, me veio uma longa reflexão. E sabe o que eu descobri? A verdade é que o reflexo somos nós. As ideias, as canções, a atitude, nada disso morre porque estão espelhadas em nós. Nós somos a continuidade dos nossos ídolos. A gente fica encarregado de passar tudo isso adiante para as novas gerações. Porque, não, não é só música. São cacos de um grande espelho que reflete quem somos nós. E a gente brilha, e o mundo gira, como uma grande mirrorball. 

Piras

Muita gente apanhou pra que nós pudéssemos sarrar na avenida Paulista hoje

Até 1962, em todo o território americano, era crime se relacionar com pessoas do mesmo sexo. O país era tomado de leis antissodomia que criminalizavam inclusive o cross-dressing (que nada tem que ver com ato sexual), tornando-o passível de prisão e punições corporais. Pasmem: alguns estatutos antissodomia só foram abolidos em 2003 nos EUA, e ainda hoje há lugares em que relações homoafetivas são crime, principalmente em função de uma herança colonial ou crenças religiosas.

Essa mensagem é o que o meu amigo gay que mora em Dubai recebe ao entrar no Tinder: um aviso de que não é uma zona segura para pessoas LGBTQIAPN+ (mar/2023)

É nesse clima que se firmou o Stonewall Inn, bar em Nova York frequentado por pessoas marginalizadas pela sociedade. O Stonewall Inn era o bar mais ace$$ível para a população LGBTQIAPN+ na época, tornando-se referência para a comunidade e lugar de abrigo para pessoas que eram expulsas de casa ou buscavam onde trabalhar.

Os donos do local possuíam relação com a máfia, e por isso a polícia fazia vista grossa. Mas as batidas eram frequentes, e na noite de 28 de junho de 1969 houve mais uma. Porém, dessa vez diferente: as drag queens se recusaram a ir para a delegacia, as yags não mostraram suas identidades. Do lado de fora do bar, mais e mais pessoas se juntavam para testemunhar e hostilizar a ação policial que se tornou truculenta. Houve confronto, prisões e confusão por mais de uma noite.

Não somente como reação à violência no atraque, mas principalmente como um basta a uma série de opressões, essa noite ficou conhecida como a revolta de Stonewall. A partir dela surgiram articulações do movimento LGBTQIAPN+ nos EUA que culminariam em protestos, nas primeiras marchas do orgulho e em coletivos de organização coletiva para demandar políticas de proteção a essa população.

Il 28 giugno si celebrano i Moti di Stonewall: cosa sono? - Gay.it
Marsha P Johnson e Sylvia Rivera, ativistas que participaram dos primeiras manifestações pelos direitos LGBTQIAPN+ nos EUA.

A revolta reverberou em todo o mundo e essa data foi escolhida como Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+. Importante lembrar que, na época da revolta, o Brasil passava pelos anos mais duros da ditadura militar (o AI-5 foi menos de um ano antes!). Não havia espaço para lutar por esses direitos quando se morria por apenas criticar o governo, então o movimento LGBTQIAPN+ no Brasil acaba por se organizar alguns anos mais à frente.

Ainda por aqui, tivemos uma manifestação no Ferros’s Bar, referência para a comunidade lésbica de São Paulo, que ficou conhecido como “o pequeno Stonewall brasileiro” em 19 de agosto de 1983. A data da manifestação no bar foi adotada como Dia do Orgulho Lésbico no Brasil.

Mas o que quer dizer ter orgulho?

Orgulho é honrar quem se é, é admirar a si. É o contrário de ter vergonha, é não querer esconder-se. É por isso que as datas de orgulho são tão importantes individual e coletivamente: olhar para si com orgulho é entender a própria existência como um presente, e reconhecer no coletivo nossas semelhanças e diferenças através de um movimento empático.

Nesse sentido, cabe perguntarmos: as paradas do orgulho LGBTQIAPN+ que tradicionalmente acontecem em junho são um momento de festa ou de luta?

Avenida Paulista durante a Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ em 2023 (acervo pessoal <3)

Eu penso que são os dois: só celebra quem está vivo, só (r)existe quem luta. Se por um lado é importante não reduzir as demandas de um grupo socialmente marginalizado a fazer comemorações coloridas ao som de Pabllo Vittar, por outro a própria ocupação da rua é uma forma de manifesto, de dizer “oi, estamos aqui!”. No país em que a expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos, dizer que está vivo já é muito.

Mas como ir além para que mais pessoas possam viver com orgulho e dignidade? Para que a população LGBTQIAPN+ não seja lembrada apenas no mês de junho?  Trago aqui algumas pistas a nível de Estado:

  • Políticas de proteção: criminalização do crime de homo/lesbo/transfobia, formação de agentes do direito e da polícia para acolhimento, atendimento e reconhecimento de violências;
  • Políticas de saúde: acesso a ginecologistas, testes, medicamentos, hormonioterapia e apoio de saúde mental;
  • Políticas de educação: promoção de discussões sobre autocuidado e respeito com perspectiva de gênero nas escolas, campanhas de proteção no ambiente escolar, formação de profes;
  • Políticas de informação: pesquisas e geração de dados sobre as condições da população LGBTQIAPN+ para conduzir as demais normativas.

Para isso tudo acontecer, precisamos de três coisas: verba, vontade e gente. Gente qualificada temos de sobra neste país em coletivos, cargos governamentais, academia e sociedade civil em geral. E aí, governo? Bora fazer acontecer?

Literatura

O amor é uma luta

Ilustração: Cassiano Rodka

Quando criança, aprendi que o amor estava nas pessoas e era passado de uma para outra através do beijo. Era mantido seguro no aperto das mãos entrelaçadas e concretizado em uma troca de alianças. Quando duas pessoas se amavam, o fato era celebrado por todos, até virava festa. A união era eterna e levava a um só lugar: o tal do final feliz. 

Aí eu cresci. 

O amor que eu sentia não era celebrado. Era um erro. Algo a ser escondido em um diário dentro de uma caixa embaixo da cama. Gostar de alguém era um perigo. Os olhares eram espiadelas. O contato se dava no mundo das ideias. O amor era solitário. Não era sentido, mas almejado. Vinha em forma de escrita, de música, de lágrimas. Mas não vinha nunca. Eu sentia que era o único a amar assim. Não entendia quem eu via no espelho. 

Aí eu me encontrei. 

E junto comigo, toda uma comunidade. O amor voltou a ter sentido. Passou a ser sentido. Ficou maior. Tão enorme quanto uma massa de pessoas descendo a avenida Paulista. As mãos dadas passaram a ser tão importantes quanto os punhos cerrados jogados ao alto. A escrita não é mais traçada em letras miúdas, vem em letras garrafais. A música não é mais só minha, é um canto em uníssono – envolvente, estremecedor, efervescente. Em ebulição. Uma união que não é presa por uma aliança, mas por um elo comunitário. O amor não é nada daquilo que eu aprendi. O amor é uma luta. Uma batalha diária pelo seu próprio sentido. É olhar-se no espelho e sorrir. É olhar para o outro e se enxergar. É uma longa caminhada rumo a um estado de pertencimento, de harmonia e de recognição. 

E eu acho que cheguei. 

Quadrinhos

Prisioneiro dos Sonhos, Livre dos Limites

O quadrinista francês Marc-Antoine Mathieu é um mestre na arte de quebrar a quarta parede. Não só a quarta, mas a quinta, a sexta e qualquer outra parede que aparecer pela frente. Determinado em desafiar os limites do formato das histórias em quadrinhos, o escritor criou a série Julius Corentin Acquefacques, prisioneiro dos sonhos. 

O primeiro volume foi lançado em 1990 e, desde então, sete outros livros se seguiram. A história se passa em uma realidade distópica onde os seres humanos lutam por espaço em uma sociedade burocrática em que tudo é feito de forma automática. Há um quê de Kafka na narrativa, o que foi confirmado pelo próprio quadrinista. Ele revelou que o sobrenome do personagem, Acquefacques, foi criado pela sonoridade de “Kafka” ao contrário: Akfak. 

A editora Comix Zone lançou dois desses volumes no Brasil e já anunciou que em julho deste ano teremos mais um livro da coleção. Fiquei impressionado pela maneira como Marc-Antoine Mathieu se libertou completamente das limitações da mídia e transcendeu as bordas dos quadrinhos de formas inimagináveis. 

Em A Origem, Julius Corentin Acquefacques acorda de um sonho esquisito, mas logo se põe a seguir a sua rotina diária. Em uma realidade onde quase não há mais espaço no mundo, ele vive em um apartamento minúsculo. Quando sai para o trabalho – ele é funcionário do Ministério do Humor –, ele percorre uma rua abarrotada de gente. É preciso entrar no fluxo de pessoas e ficar atento para sair na hora certa para não ser arrastado para o lugar errado. Quando ele chega em seu escritório, uma surpresa: uma carta endereçada a ele com uma página de história em quadrinhos onde ele é o personagem principal. Para a nossa surpresa, a folha em questão é a mesma página 4 do livro que estamos lendo. A partir daí, o personagem entra em uma busca por descobrir quem ele é e qual o seu papel no mundo. E nós somos arrastados com ele a um universo que se descola das páginas da HQ e extrapola as possibilidades do gênero. Sim, coisa de louco! 

No outro volume, O Processo, Julius Corentin Acquefacques acorda de um sonho esquisito em uma realidade que parece ser ainda mais estranha: ele é surpreendido pela presença de um sósia. Assustado pela sua presença, ele opta por ignorar aquela situação e seguir sua preciosa rotina. Mas a existência do duplo se prova mais complexa do que ele gostaria e Julius Corentin Acquefacques se vê em uma busca pela reordenação da linha do tempo de sua vida. Eu garanto que você não está preparado para o tipo de desdobramento que ocorre nas páginas dessa história. A impressão é que, assim como o personagem é puxado para fora da história, nós somos puxados para dentro. O trabalho de construção do roteiro é… arquitetônico! 

O terceiro volume, O Começo do Fim, está previsto para ser lançado em 30 de junho e eu não vejo a hora de acompanhar mais uma aventura no universo onírico de Julius Corentin Acquefacques. 

Literatura

Página em branco

Foto: Bianca Rosolem

Chegada a hora, ela começou.

De primeiro, tímida e insegura, não sabia se conseguiria.

Reviu seus antigos trabalhos, todos lindos, porém, ela não reconheceu aquela voz.

Aquele tempo, que para ela passou, levou com ele aquela que havia escrito todo aquele passado.

Inevitável foi, então, o passo recuado para um grande suspiro – poético, sim, sobretudo, existencial – e o angustiado autoquestionamento:

– Quem sou eu, hoje?

Ora, inegável que aquela menina, dolorida e assustada, era ela. Mas também, não era mais ela! Isso mesmo, ser ou não ser a mulher que era a menina.

Fiquei debruçada entre todas essas Eu’s e suas mais diversas vozes, que contaram suas histórias de prosa e verso, procurando quem então poderia hoje ser.

E de todas elas, encontrei a matéria bruta – acredito – que as une e as identifica mesmo que sejam tão diferentes vidas: O sonho.

Ainda que a voz seja triste, melancólica, ou energética, irônica e revoltada, sempre, sempre, sem sombra de dúvidas – acho que nenhuma mesmo – todas foram sonhadoras.

Elas sempre sonharam, desde muita jovem, ainda criança, com as curiosidades e mistérios da vida, com a beleza, o amor, a liberdade, a alegria… a magia.

– Eu, hoje, sou a eterna Sonhadora!

Afinal, o que nos define? Alguns podem dizer que é a realidade. Mas eu me pergunto:

– E a realidade, quem a define?

Logo me respondo:

– Eu!

Então, que voz poderá me convencer de que o sonho não é realidade, e que o real não é sonhar?

Não, ninguém, nem eu mesma, nem a Eu mais cética e derrotada poderia ser maior que essa crença nos sonhos.

De posse dessa Eu sonhadora, decidi acatar esse caminho, essas linhas, esses pensamentos e fui além (não acreditei que conseguisse ultrapassar 5 linhas), e deixei esse sonho de mim mesma me guiar.

É chegada a hora de sonhar acordada e de olhos bem abertos.

E nessa entidade do Eu, como projeto de uma grande ficção emanada dos sonhos, sou minha própria criação.

Eu posso sonhar realidades.

Nos meus sonhos, a minha matéria primordial, dou voz às minhas profundezas.

Ali, as camadas superficiais da vida desaparecem e nesse encontro só existe a minha realidade:

O sonho.

Cinema

Orgulho o ano inteiro

Junho é o mês do Orgulho. Apesar da gente aqui no PáginaDois ter orgulho das nossas diferenças e da nossa diversidade durante o ano inteiro, é muito bacana perceber como, nos últimos anos, o cinema e a produção de mídia têm se voltado muito mais para a realidade LGBTQIA+, o que é excelente: uma produção audiovisual mais diversa significa mais histórias, com diferentes relatos e vozes distintas. É muito bom PARA TODO MUNDO, que ganha com uma infinidade de narrativas. E é melhor ainda para quem consegue se ver representado nas telas de forma real e não como uma caricatura ridícula para alívio cômico.

Para celebrar essa diversidade toda, vamos a três dicas de filmes que podem ser assistidos atualmente nas plataformas de streaming no Brasil:

Retrato de Uma Jovem em Chamas (Portrait de la Jeune Fille en Feu, Céline Sciamma, 2019)

O quarto longa da diretora francesa Céline Sciamma foi aclamado pela crítica. Venceu a Palma de Ouro em Cannes e foi indicado a inúmeras outras premiações. No século XVIII, a jovem aristocrata Héloïse (Adèle Haenel) tem seu casamento arranjado pela própria família. Marianne (Noémie Merlant), uma pintora, recebe a missão de pintar o retrato de Héloïse para que seja mandado para o seu futuro marido. A tarefa não vai ser tão simples quanto Marianne imaginava, uma vez que Héloïse não quer casar e nega-se a posar para o quadro. Marianne então vai ser apresentada como uma nova aia para aproximar-se de Héloïse e trabalhar no quadro em segredo. O filme faz uma reflexão sobre a criação artística e os atos de olhar e ser olhado. Sciamma faz sua obra mais madura num filme belíssimo, do qual ela também é roteirista.

Disponível no Globoplay.

Fanfic (Fanfik, Marta Karwowska, 2023)

Quer algo numa língua diferente? Recentemente estreou na Netflix o longa polonês “Fanfic”. A diretora e roteirista Marta Karwowska mostra adolescentes se descobrindo num ambiente escolar. As agruras, dores e delícias do “coming of age” desse longa nos mostram que adolescer não é muito diferente na Polônia do que é no Brasil ou em outras partes do mundo. Ainda que os jovens tenham uma tranquilidade de fluir (entre gêneros, entre orientações sexuais) e experimentar hoje em dia, a idade da descoberta não deixa de ser dolorida em função disso.

Disponível na Netflix.

Corpolítica (Pedro França, 2023)

O Brasil é o país do Carnaval, da música e da sensualidade. E também é o país que mais mata pessoas LGBTQIA+ por ano no mundo. Por que, apesar disso, as pessoas queer ainda estão tão pouco representadas na política? É essa pergunta que motiva a investigação do diretor Pedro França no documentário “Corpolítica”. Uma fala poderosa é dita por uma menina no trailer: “Um corpo que nasce mulher, preta, LGBT… ele já nasce político”. É nesse tom que Pedro França conduz seu documentário. “Corpolítica” está em cartaz nas principais capitais brasileiras!

Disponível nos cinemas.