Clarice Dall’Agnol

Literatura

Ao vento

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por Clarice Casado

Abraçou satisfeita a mangueira. Olhou para cima, e a grande árvore parecia querer engoli-la, “Sobe, vai, deixa de ser boba…”, e ao mesmo tempo ouvia a voz da mãe, “Não vai subir porque é perigoso, hein?”, e ficou ali abraçada, ainda, naquele tronco forte, seco, sólido, marrom acinzentado.

O vento ventava forte em junho, na terra do vento, e fazia barulho, cantava, cantava e assobiava a música mais bela do mundo, aquela música do vento, “Que vontade de beijar o vento…”, a boquinha faz o movimento, joga o beijo no ar: frio, mas quente, que quente…! Sente a árvore, sente seu cheiro, sente a sua cor e sua graça, sente o seu movimento e os seus sussurros, tão grande, tão perto, presente. Presente nela. E no tempo. Arrepio.

“O vô falou que vai construir um balanço, um balanço feito de pneu (que medo, que medo…)”, ouve a própria voz e a voz do vento misturada com a das folhas da árvore, da árvore seca que dá fruta uma vez por ano, umas poucas frutas amarelas e grandes e doces, “Que doce, que docinha”, que a mãe apanha e corta no meio e come de qualquer jeito, se lambuza toda, logo ela que não gosta de lambuza e tem medo de árvore. A menina não entende como isso acontece. Acha que o medo acaba quando a mãe come a fruta.

E sonha com o balanço negro de borracha, com o balanço que o avô vai colocar na árvore, pendurado como se fosse a fruta, mas não vai ser doce como a fruta, “Quem disse que não vai?”, vai balançar e vai balançar e ela vai estar nele, e vai poder beijar melhor o vento, “Vai ver desse jeito ele não foge de mim, eu tenho medo da árvore e o vento tem medo de mim, que eu pegue um pedaço dele pra mim e nunca mais devolva, e aí ele vai ficar apaixonado por mim para sempre, vai ganhar o meu coração, este vento levado (e gelado)”.

“Vô, como você vai prender o balanço?”, e o rostinho ansioso olha para as mãos fortes e falantes do avô, que corta dois pedaços de corda grossa e amarra muitas vezes no pneu, dá várias voltas, “Será que o vento não vai ter medo de mim no balanço, eu vou sentir o vento, eu vou chutar o vento, eu vou beijar o vento, sopra, vento, sopra, me leva daqui pra me colocar no final do arco-íris, me leva, me leva, me leva…”.

“Vai, senta, que eu te ajudo, guria, vai, coragem!”, e senta com medo, grande medo, imenso medo, “Divino medo, que pula no meu coração, que me faz sentar aqui no pneu borrachento, que frio, que ideia a minha, agora vou, vai, pode empurrar!”, e desliza no ar, e sente o ventão que queria sentir cortando a cara, a alma, o medo, tudo. “Vou voar, vou voar, me deixa voar, vento, me venta contigo, me guarda contigo, me rouba um beijo…!”.

E ali balança, e ali balança, balança que nem a fruta madura, amarela, doce, perfeita, que doce, que doce, que docinha, que céu tão azul com as nuvenzinhas de formato de urso e de homem feio, que doce, que doce, que doce, mãe, a árvore é muito mais doce do que você pensava, dá outras frutas mais doces do que a que você come se lambuzando, mãe, estou me lambuzando agora, está vendo, estou lambuzada e estou voando tão alto que você nem iria acreditar, mãe, nunca iria acreditar no quão alto eu posso voar, voar, voar, me deixa voar. Me deixa voar. No tempo.

Literatura

Invertido

invertido

por Cassiano Rodka

Me agrada o invertido.
De pernas pro ar, virado ao avesso, do lado errado. A estante arrumada me fere os olhos. Prefiro as lacunas de livros emprestados, perdidos, fora do lugar. (Qual o lugar do livro?) Gosto das frases frouxas, ditas sem jeito. Dos tropeços das línguas dos enamorados. (Os apaixonados são todos gagos.) O som de um acorde dissonante. Uma nota errada no piano. (A nota nunca é errada, errado é o pianista.) O embaraço de quem esquece a letra no palco. Mas enrola e reinventa a canção. (Improviso é um erro metido a besta.) A criança que (sabiamente) desenha uma árvore azul e um céu verde. (Daltonismo opcional.)

Gosto de entortar as coisas, deformá-las, vê-las refeitas. Me incomoda o uniforme. (Quatro casais em uma mesa quadrada.) Me agrada o inusitado. (Cinco texugos em uma mesa redonda.) Faz bem fugir às regras de vez em quando. Só é lei porque alguém obedece. (Bula de remédio declamada é poema.) Gosto das cicatrizes, dos cortes, dos arranhões na borda da mesa. (Resultados imperfeitos de ações mal calculadas.) A camiseta manchada, o bolso furado, o botão faltando. (Pequenas lembranças da existência do inesperado.) Definição perfeita da imperfeição humana. O paralelepípedo solto na calçada, o texto inacabad

Literatura

Senhora Lázaro ou Uma balada para Sylvia

sylvia

por Clarice Casado

“Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.

I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I have a call.”

“Lady Lazarus”, Sylvia Plath

Está muito frio. Está gelado. Ela tem medo. Tem medo do que passou e do que está por vir. Não sabe o que fazer. E nem exatamente para onde ir. Sentada em frente à máquina de escrever, estática. Nada lhe ocorre. A folha branca é tão misteriosa quanto o pedaço de lua que vê da janela à sua frente.

Levanta. Vai buscar outro café. O caminho parece tão longo até a cozinha. Medo. De novo. Passa pelo quarto dos filhos, que dormem tranquilos. Ouve suas respirações e também as batidinhas compassadas de seus pequenos corações. Será que sonham? Sim, por certo. Aperto no coração. A ideia é fixa. Não sabe o que fazer. De novo. A ideia vem. E vai. E volta. De novo.

Ela volta para a máquina de escrever. A folha continua branca. A lua continua misteriosa. Parece que o frio vai ficando cada vez mais frio. Não consegue pensar. “Será que meu pensamento está congelado?”. Se estivesse, não haveria mais motivos para estar ali. Sim, ela conclui, “não consigo mais pensar”. Queria sair para ver o mundo. Queria fugir. “Vou fugir”.

Volta para a cozinha. Abre a geladeira, pega o leite e a manteiga. Separa duas canequinhas coloridas, aquece o leite, e despeja-o nelas. Procura o pão no armário, corta quatro fatias, enche-as de manteiga e também de geleia de morango. Coloca as fatias de pão com manteiga e geleia em dois pratos pequenos, também coloridos. Retira uma bandeja do alto de um armário. Coloca ali as canecas com leite e os pratos com pão.

Segue até o quarto dos filhos, deixa a bandeja em uma mesinha perto das duas camas. Observa com ternura as faces rosadas e serenas e claras dos filhos. Beija-lhes as bochechas. Abre bem todas as janelas. Escancara-as. Sente o ar gélido em seu rosto. “Quero Fugir”.

Volta para a cozinha. Fecha a porta. Fecha todas as janelas. Procura diversos panos, lençóis e toalhas e coloca-os, enrolados, em todas as frestas e saídas de ar das portas e janelas, vedando tudo completamente.

Abre a porta do forno. Liga o gás. Senta-se no chão úmido e frio da cozinha. Coloca a cabeça dentro do forno, pode sentir o cheiro forte e presente do gás. Ali fica, até perder os sentidos. Até fugir. Fugir para sempre, como queria.

 

 

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Sylvia Plath, uma das maiores poetas norte-americanas do século XX, suicidou-se em uma madrugada gelada de inverno, na Inglaterra, em 1963. Tinha trinta anos. Havia se separado recentemente do marido, o também poeta Ted Hughes. Tinha dois filhos pequenos. Era maníaco-depressiva, e, antes de sua morte, já havia tentado o suicídio uma vez, aos vinte anos.

A perturbadora e sensível poesia de Plath é classificada, por seus estudiosos e leitores, de confessional. Em sua obra está toda a sua vida. Suas angústias. Seus medos. Seus sucessos. Suas paixões. Sua essência. Sua capacidade de ressuscitar. Sempre.

Literatura

Janela aberta

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por Cassiano Rodka

Na ponta do lápis, o nada.
Olhou a samambaia e quis culpá-la. Maldita planta! Arrancou-lhe um pedaço como se beliscasse um colega no primário. Serviu café no copo de plástico. Não tomou. Na folha branca, uma mosca pousou zombeteira. O que estava errado? Onde estavam as palavras? Onde descansavam suas ideias? Mexia-se na cadeira fazendo-a ranger. Mas permanecia o silêncio das ideias. Observou a fumaça do café. Dançava calmamente e fugia pela janela. As cortinas balançavam-se afoitas querendo seguir a fumaça. Para onde? Talvez culpasse a janela aberta. Era isso! A janela! Por que deixara ela aberta? Ela estava sugando suas palavras, entregando-as ao vento. Decidiu escrever palavras soltas, sem nexo. E, ao escrevê-las, viu soltarem-se das folhas, uma a uma, flutuando em direção à janela. Algumas poucas ficavam presas na cortina e ele procurava pegá-las, mas desmanchavam-se por entre os seus dedos. Continuou escrevendo, coisas, nomes, adjetivos, o que fosse. Rabiscava rapidamente, esperando mantê-las no papel, e produzia uma enxurrada de palavras que voavam janela afora. Jogou o lápis num canto e foi à prateleira. Pegou o primeiro livro que encontrou e abriu as suas páginas, libertando frases e diálogos. Sentiu-se ele mesmo livre e continuou a proeza com satisfação. Livro por livro, página por página, numa empolgação cada vez mais frenética. Largava os livros vazios pelo chão e ria sozinho do turbilhão de letras que deixava seu apartamento em direção à rua. Enciclopédia, dicionário, Dostoievsky. Torcia a chave dessas prisões de papel e abanava as palavras indicando-lhes a saída. Livro de receitas, guia da TV, Rubem Fonseca. Do lado de fora, palavras encontravam-se nas esquinas e histórias formavam-se pelas calçadas. Frases de Oscar Wylde riam dos transeuntes. Capítulos de Julio Cortázar ignoravam os semáforos. Poemas de Cecília Meirelles estendiam a mão aos solitários enquanto poesias de Carlos Drummond de Andrade aproximavam os namorados. Do lado de dentro da janela, ele olhava satisfeito o efeito de sua proeza. Deleitou-se ao ver umas crianças que brincavam de roda com as histórias de Ziraldo e riu até chegar às lágrimas ao assistir o susto da pobre Dona Adelma: Foi à padaria comprar um pão doce e deu-se de cara com um texto de Anaïs Nin atravessando a rua.

Literatura

Enmoçar

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por Clarice Casado

Vai ver sou mesma uma garota de sorte. E tenho essa mania boba de ainda me considerar uma menina. Louca, isso mesmo. Estou a alguns meses de completar trinta e dois anos. Mas as pessoas mais loucas ainda ao meu redor insistem em dizer que pareço mais jovem. Hoje mesmo uma moça que mal conheço disse que eu parecia ter vinte e três anos. E sei lá qual o motivo bobo que me faz achar isso uma beleza, uma verdadeira maravilha. “Tadinha, tadinha de mim”, como se a juventude tornasse alguém mais inteligente ou rico de caráter. É uma loucura como a busca incessante da juventude é um dois maiores objetivos do ser humano. É um clichê dos grandes, mas é tão verdadeiro que dói, como doem todas as verdades bem verdadeiras. Verdade verdadeira é pior que tapa na cara. Uma marca violenta que dura um tempão.

Quando você tem quinze anos, quer parecer dezoito, para poder ser tratado como adulto: votar, dirigir, beber (não necessariamente ao mesmo tempo), não ser barrado em porta de boate. Nunca fui barrada em porta de boate. E hoje as pessoas acham que pareço oito anos mais nova. Difícil de entender? Sim, para mim, dificílimo. Olham as minhas fotos de vinte e poucos anos e dizem que pareço mais velha nelas do que hoje. E eu? Fico toda felizinha… Não vou mentir. E mente quem diz que não fica todo contentinho se alguém diz que você parece mais novo. “Mais novo” é até melhor que mais belo, mais inteligente, mais magro, mais feliz. Diga a verdade, você alguma vez abriu um sorriso largo depois que alguém lhe disse, “Ah, você parece tão mais feliz agora…”. Convenhamos, o máximo que você vai fazer é pensar que seu amigo está meio doidinho. Ou bêbado. Ou sem assunto, o que é bem pior.

E então, veio a pergunta (ou constatação): estou remoçando? É possível, em vez de envelhecer, “enmoçar”? Algumas pessoas não envelhecem, “enmoçam”. “Ai, Fulana está “enmoçando”, você não acha? Cada dia menos rugas, menos cabelos brancos, mais memória e vigor”. Imagino esta frase sendo dita em um daqueles filmes de futuro, estilo Blade Runner, onde as ruas da cidade são sempre escuras, molhadas e cobertas por um fog constante, com gente estranha de com roupas esquisitas andando pelas ruas, montes de anúncios luminosos em terceira dimensão, carros voando, edifícios de quatrocentos andares, e de repente surge uma cena de uma amiga dizendo pra outra a tal frase. E é bem isso mesmo. Fonte da juventude já existe, principalmente pra quem tem muito dinheiro. São pílulas, métodos revolucionários de ginástica, operações plásticas, cremes, montes de coisas que seduzem todo mundo. Tenho certeza de que se toda a população mundial tivesse acesso a tudo isso, iria certamente desfrutar. E “enmoçar”, com o maior orgulho.

Loucura maior seria o processo de “enmoçamento”. A pessoa iria enmoçando em ritmo acelerado, e inclusive suas células sofreriam um processo de enmoçamento, o que possibilitaria que ela voltasse aos estágios iniciais de sua vida. Teria novamente quarenta anos, e sofreria mais uma vez a famosa “crise”, mas ao contrário, “Nossa você vai voltar aos quarenta, isso merece uma comemoração!”, e assim sucessivamente, voltaria aos trinta, ficando mais feliz ainda com isso, e aos vinte, “Ah, maravilhosos vinte, quanto vigor, quanta energia, nada me satisfaz mais do que não fazer nada”, e iria enmoçando, enmoçando, até ser novamente criança, e então curtiria a infância ainda mais, como se fosse a primeira vez, mas sabendo ser a segunda, a maravilhosa segunda chance, meu Deus, as segundas chances, se todos as tivéssemos, tudo o que poderíamos mudar. E logo ouve o choro de si mesmo, está em um berço, é um bebê novamente. E depois disso? E depois disso, pelas leis do enmoçamento, deveria acabar novamente em um útero materno. Um quente e escuro lugarzinho, aquele lugarzinho perfeito de onde saíra há muitos anos, e para onde voltaria agora, úteros de aluguel, que acabariam por abrigar aqueles que escolhessem pelo enmoçamento. Sim, porque o enmoçamento não seria obrigatório. E aqueles filhos de mães de aluguel seriam chamados de “os renascidos”. E eles renasceriam e seriam recriados, por outra família, e teriam outros irmãos, e outros parentes, e outros amigos e outra vida, mas sempre conscientes de sua vida anterior e de sua condição de renascidos.

E assim, acabariam por conviver em desarmonia, pessoas que envelhecem naturalmente e pessoas que enmoçam e renascem, porque, imagine, leitor, o caos que tal fenômeno da ciência poderia causar? Pessoas que optassem pelo enmoçamento não poderiam jamais ter filhos, afinal, o que fazer com as crianças quando o pai ou a mãe começasse a enmoçar? Imagine-se os inúmeros problemas jurídicos e filosóficos que tal “opção de vida” poderia causar à Humanidade? Como resolver tal situação instaurada? Como viver assim? Imagino que haveria uma grande cisão na sociedade mundial, separação essa que não deixaria margem para neutralidade. Seria o estopim de mais uma guerra mundial. Bandeiras e palavras de ordem seriam criadas: “Envelhecimento digno, sim! Abaixo o enmoçamento!”, “Segundas chances: diga sim ao enmoçamento!”. E o povo nas ruas protestaria pelos seus direitos, lutando por suas causas tão opostas e ao mesmo tempo tão próximas, lutando em uma guerra sem armas, uma guerra de idéias, de árduas discussões filosóficas: reviver ou morrer?

Vai ver sou mesmo uma garota de sorte. São quase sete e meia da noite de segunda-feira e acabo de fazer ficção científica, pela primeira vez.

Literatura

Angelina

Foto: Vanilson Coimbra

Pronto. Começou. Ela já começou a nadar em mim. Já está aqui há quase cinco meses, e eu ainda não a sentia. Agora, sei que está aqui, tenho a confirmação bem palpável.

Assusta-me a responsabilidade enorme que tenho agora sobre meu corpo. Devo cuidar bem dele, cuidar mais do que nunca. Qualquer esforço a mais, qualquer exagero podem significar algum dano a ela. E a mim também, claro. A nós.

Os movimentos de um bebê no útero são bem assim: parece que tem algo nadando em você. Como é a sensação de algo nadando em você? É assim, é isso que estou sentindo. Tem gente que diz que parece uma borboleta voando na sua barriga. Sim, pode ser isso também. Mas borboleta não vive na água. Um bebê vive, e é por isso que penso neles nadando.

Sou seu mar infinito. Vai ver ela pensa que o mundo é mesmo só isso. Mas nem tem nada de infinito, porque é tão apertadinho… Bom, cada um tem a sua ideia sobre finitude. Cada um estabelece seus conceitos sobre finito baseando-se nos limites que tem. Os dela ainda são bem restritos. Bem, mas nem tanto… Há as vozes. As vozes que ela ouve lá de dentro. As vozes aqui de fora. Um exterior que ela ainda não conhece, mas aos poucos já percebe que existe. Já está ampliando limites… Ah! E existe a luz: a luz que ela vê e sente. A luz aqui de fora, para ela, é apenas luminosidade.

Orgulha-me mantê-la. Aquecê-la. Provê-la. Sou a única responsável. Preciso estar bem para que ela esteja bem. Preciso estar calma para que ela esteja calma. Preciso estar bem alimentada para que ela não tenha fome. Preciso descansar para que ela descanse. Preciso ser feliz para que ela absorva toda a minha alegria.

Nada, Angelina. Nada, minha filha, minha pequena, minha mais nova invenção. Angelina menina. Menina. Angelina.

Literatura

Metodologia

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por Clarice Casado

Não é sempre que às oito e meia da manhã você se depara com coisas inusitadas. Elas acontecem, mas não é sempre. Fatos inusitados me perseguem. Esse que vou relatar, concluí depois, nem é tão inusitado assim, mas é, no mínimo, curioso.

Todas as terças-feiras pela manhã tomo café na lanchonete da minha academia de ginástica, um lugarzinho legal e envidraçado de onde se pode avistar as quatro piscinas do lugar, com uma meia dúzia de corajosos mergulhados na água a dar braçadas animadas. É bom tomar café da manhã ali, olhando a piscina azul e o pessoal se exercitando nela. É diferente. Saio da rotina nesse dia, como queijo Minas frescal em vez de queijo cottage: só esse pequeno detalhe já altera meu dia.

Sento quase sempre na mesma mesa, de onde dá pra ver bem a piscina. Coloco minha bolsa na cadeira, vou até o balcão, peço um misto no pão integral, com queijo branco e peito de peru, e um café expresso com leite desnatado, mais leite do que café. O cara sempre me pergunta se o sanduíche é com tomate, e eu digo que não, sempre digo que não. Volto pra mesa, tiro meu celular da bolsa e coloco-o em cima da mesa. E então fico esperando ela chegar. E ela geralmente chega logo.

Ela tem a pele muito branca, cabelos lisos, longos e negros. Deve ter uns vinte e cinco anos. Rosto não muito bonito, mas um corpo ótimo, magra, com músculos definidos. Ela chega como sempre, a bolsa numa das mãos e a sacola de ginástica na outra. Larga-as em uma mesinha geralmente perto de mim, levanta-se, vai até o buffet de café da manhã, escolhe sempre as mesmas coisas: duas fatias de pão integral, queijo branco, peito de peru e tomate. Sim, ela gosta de tomate. Leva tudo num prato até o balcão e entrega ao atendente, dizendo algumas coisas que nunca ouço. Ela mesma escolhe os ingredientes de seu sanduíche. Volta à mesa, pega uma bolsinha dentro da bolsa de ginástica, vai até um espelho em uma das paredes da lanchonete, e começa a se maquiar, ali mesmo. Maquia-se enquanto espera seu café. Nesse exato momento chega sempre meu lanche.

Começo a comer observando-a, curiosa, porque sei que dali a alguns minutos começará um dos mais interessantes rituais pessoais que já presenciei em minha vida: O SANDUÍCHE. Ela senta, já maquiada. Espera mais um pouco. Chega o sanduíche. Ela olha para ele com um olhar de desaprovação, sempre. Então, começa: tira a fatia de pão de cima, e começa a tirar todos os pedaços de tomate de dentro do sanduíche, e os coloca organizadamente nas bordas do prato. Na primeira vez que a vi, pensei: ela não gosta de tomate, como eu, e o cara colocou por engano. Engano o meu. Ela fecha novamente o sanduíche. Dá a primeira dentada, enquanto corta (com uma mão só) os pedaços de tomate em pedacinhos muito menores, e começa a colocar cada pedacinho em cada mordida do sanduíche, uma a uma, premiada com um pedaço especial de tomate. Enquanto faz isso, ainda tira e recoloca alguns pedaços de peito de peru no sanduíche, com um garfo, em movimentos tão sincronizados quanto os dos nadadores ao meu lado. E, ainda, em cada mordida, muito sal que ela mesma coloca. Esse ritual segue exatamente igual durante toda a refeição, muito rápida, rapidíssima. Todas as semanas. Todas as terças. Talvez todos os dias da semana, não sei, porque só tomo café lá na terça. Tenho tanta curiosidade, que já cheguei a pensar em ir em um outro dia qualquer, no mesmo horário, só para conferir se aquilo acontece mesmo todos os dias.

Observei-a durante muitas semanas, antes de vir contar aos meus leitores essa interessante e ao mesmo tempo tão monótona história. Pensei muito sobre aquilo, como sempre penso em coisas aparentemente sem importância como essa. Pensei que tinha ela um ritual próprio, como temos cada um de nós também os nossos, cada um dentro de seu grau de método. Também tenho os meus. Aliás, tenho o meu naquele próprio lugar, como sempre o mesmo sanduíche, observo sempre os nadadores e a ela própria, a moça do sanduíche complexo. Poderia haver ali um outro ser me observando, e pensando na loucura do fato de eu observar a moça com tanto método. A loucura de saber passo a passo o café da manhã dela.

Comecei a lembrar de diversas pessoas relatando-me suas metodologias diárias, lembrei-me de um aluno que contou-me seu método para organizar a bolsa de natação pela manhã, na dificuldade de lembrar-se de tudo que precisava levar, que precisava ser ainda mais metódico para não esquecer nada. Pensei no meu filho pequeno, que tem diversos métodos para várias coisas: brincar, escovar os dentes, fazer a lição de casa, uma certa ordem para se lavar no banho: pernas, pés, corpo, cabelos.

Não vivemos sem as metodologias. Não somos nada sem elas. Precisamos delas para tentarmos ter a certeza de que nosso dia será confortável. Nossas metodologias pessoais são por nós mesmos controladas, e é por isso que são boas. O resto de nosso dia é incerto. Ao colocarmos os pés na rua, tudo pode acontecer, e sabemos disso. Queremos o conforto do método, precisamos do método. O método traz, de certa maneira, felicidade. O pão do nosso jeito, a bolsa arrumada do nosso jeito, o banho tomado exatamente como queremos. Essa vida doida que levamos pode tentar tirar-nos tudo: a segurança, o dinheiro, a tranquilidade, a sanidade, muitas vezes. Mas, por favor, não nos tire o método.

Literatura

A outra eu

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por Clarice Casado

A outra eu é doida. Completamente louca. Faz coisas que nem entendo. A outra eu tem pele morena e cabelos anelados. A outra eu tem olhos azuis faiscantes. A outra eu não dá a menor pelota pra opinião dos outros. Sai gritando por aí. Briga com todo mundo. A outra eu briga com desconhecidos no telefone, dá chilique, passa descompostura. A outra eu surpreende até a mim.

A outra eu anda de pé descalço, não penteia os cabelos, não usa maquiagem. A outra eu é maluca. Doida, doida. A outra eu anda de moto, e sem capacete. A outra eu é irresponsável, completamente. A outra eu não tem medo de avião. Nem de mar. Nem de ladrão. Nem de não conseguir o que quer.

A outra eu não chora a toda hora, por nada. Não chora escondido. A outra eu não chora, simplesmente. Ela é meio homem, acho. Cai e não se machuca. Toma banho gelado no inverno. Faz sauna em pleno verão. Toma banho de chuva. Não carrega remédio na bolsa. Não tem celular. Anda a pé. No escuro.

A outra eu me dá um medo. E não tem medo nenhum. A outra eu escreve um romance por dia. É até meio carrancuda, sabe que todo mundo tem medo dela. Mas não está nem ligando. Sobe pelas paredes. Anda de patins, escala o Everest, nada daqui até o canal do Panamá. E ainda diz que não ficou cansada.

A outra eu é uma doida. Mata barata e não foge de besouros. Dá beijos em cachorros. Anda a cavalo pelos pampas. Come vinte pães de queijo e não sente culpa. Mistura vodca com vinho e continua sóbria.

A outra eu sabe dar cambalhota embaixo d’água. Joga todos os esportes como ninguém. Pula a fogueira e não está preocupada se vai se queimar. Ama todas as estações do ano. Não reclama em dia de chuva. Não tem medo de dizer não. Escreve coisas malucas em francês. Diz absurdos em inglês. Canta em alemão e recita poemas em italiano. Arranha japonês e mais alguns dialetos orientais.

Não tem ninguém no mundo como a outra eu. Ela me deixa louca, essa outra eu. Me deixa mais eu do que nunca. E não se importa em ser a outra eu. E daí? Sou mais eu. Ela não fica ouvindo bobagens calada, e nem dá um dedo pra fugir de uma briga. A outra eu lê livros e revistas começando pelo final. E termina sempre todos os livros, mesmo os que acha muito ruins.

A outra eu me surpreende com suas ideias aparentemente inaceitáveis. Viajou o mundo todo dormindo em barracas e abrigos e coisinhas desconfortáveis assim. E tem sempre as melhores histórias pra contar.

A outra eu às vezes me olha esquisito. Nem me reconhece. E por que reconheceria? Somos tão diferentes. É uma metida, descarada, desaforada, sabida. Fala pelos cotovelos. É o centro das atenções. Está com um monte de quilos a mais, e consegue fazer com que todos a achem linda. A mais bela.

Acho que a outra eu é uma fada. E, ainda assim, ela consegue rir de mim.

Literatura

O pêssego

pessego

por Cassiano Rodka

Fui pegar logo o pêssego.
Havia outras frutas no cesto, mas minha escolha foi essa. Peguei uma pequena faca na gaveta e sentei em um dos bancos da cozinha segurando-o com a mão esquerda. Ao firmar o dedão direito na casca aveludada para dar-lhe o primeiro corte, lembrei de ti. Me veio tua pele e teu cheiro na ponta dos dedos. Teu sorriso largo e tuas mãos macias e desajeitadas. Teu olhar trôpego escondendo-se atrás da xícara de café já vazia. Não era bem uma xícara, era teu escudo. Quebradiça defesa. Protegendo-te da minha conversa amigável, da minha evidente vontade de te tirar o véu. De percorrer teu passado, de me acomodar em teu futuro. Teus goles vazios preenchendo os silêncios. Teu olhar atento percorrendo meu rosto enquanto eu jogava palavras ao vento.

Afastei o pensamento.

Observei a primeira lasca cortada da fruta e coloquei-a num prato ao meu lado. Olhei a luz desmaiada que entrava pela janela. Voltei à fruta. Seus tons amarelos, suas manchas vermelhas, hematomas do tempo. As brigas, as lágrimas, teu choro miúdo. Cortei-lhe um pedaço da casca, rasguei-te um pedaço do véu. Fui despindo o pêssego com cuidado, cortando-lhe grandes lascas, descobrindo teus segredos. Encontrei-te muda, desnuda, perdida. Te estendi minha mão, meu perfume. Recebi teu desdém, teus medos morenos. E entrei no jogo com as peças comidas. Mordi um pedaço da fruta, amargo o teu gosto, desgosto sem cascas, as lascas no prato, teu rosto no escuro, futuro em pedaços, a mão pesada no pêssego, o sulco da fruta em meus dedos, teus beijos molhados, segredos, nos dentes um largo pedaço, abraços sustados, carentes, a polpa amarela, teus outros lados, o caroço à mostra, o final esperado.