Clarice Dall’Agnol

Literatura

Coisas de menina

coisasdemenina

por Clarice Casado

Estou grávida há dois meses, e já sei que vou ter uma menina. Um moderníssimo exame de sangue chamado de sexagem fetal permite aos pais saberem o sexo de seus bebês bem no início da gravidez. Saber o sexo é apenas um detalhe, uma curiosidade que parece até boba perto da verdadeira expectativa de um bebê e da incerteza que temos sobre seu constante bem-estar e perfeita saúde. Só quem é pai ou mãe ou está prestes a ser compreende o que quero dizer: queremos que nossos filhos sejam perfeitos fisicamente e mentalmente. O resto é resto. Pelo menos eu penso assim. Mas é claro que saber o sexo faz com que aquele projeto de ser humano torne-se mais humano, mais gente, porque somos afinal, homens ou mulheres, e essa diferença faz uma grande diferença. É diferente ser homem, é diferente ser mulher. Todos sabemos disso. Muitas mulheres querem a igualdade, mas esta não existe, e nunca existirá. A começar pelo fato de podermos gestar um filho, e os homens não. Eles podem gerar um filho conosco, mas quem carrega um pequeno corpo e uma pequena alma dentro de nós somos nós mesmas, mulheres. Isso temos e eles nunca terão. E eles imaginam o quanto isso seja maravilhoso. Só um maluco não levaria isso em consideração.

E assim o fato de meu bebê ser mulher mudou tudo, claro que mudou. Tenho medo do que a espera no mundo. Sim, porque o mundo é mais cruel com as mulheres, e aqui não estou querendo parecer vítima ou defensora de um arcaico feminismo, não, é a mais pura verdade. O mundo, apesar de toda a sua evolução social, ainda apresenta-se mais difícil para as meninas. A mulher é mais frágil emocionalmente, em geral, que o homem. Acaba sendo vista como “chorona”. Ela é mais organizada, e por isso muitas vezes leva a fama de “chata”, “pernóstica”. Assim, fico dividida entre duas ideias: fazer de tudo para que minha filha seja completamente mulher, ou fazer de tudo para que ela saiba controlar suas características femininas e sofrer menos. Estarei louca? Creio que não. Penso mesmo nisso. Acho que o mínimo que posso fazer por ela é pensar nisso: prepará-la para um mundo que em regra não irá tratá-la como deveria.

Meu filho mais velho, de quem muito já falei em meus textos, tem apenas cinco anos, e já o pego dizendo frases como “Isso é coisa de mulherzinha”, sendo que jamais ele ouviu isso de mim nem de meu marido. Onde ouviu? Pelo mundo. Pelo mundo afora ouve-se muita coisa. Basta estar no mundo para ser alguém no mundo com alguma opinião já incutida por esse mundo. Mesmo sem que se perceba. E eu tento dizer a ele algo que talvez não seja verdade, “Filho, não há coisas de mulher ou coisas de homem, tudo depende de tudo”. Em realidade, penso que em parte ele tem razão, pois há, sim, coisas de homem e coisas de mulher, claro que há, pois, senão, não existiriam as diferenças das quais falei no início. Mulheres têm suas coisas e homens têm suas coisas e isso não significa que não possam de vez em quando tentar trocar essas coisas. Talvez eu deva dizer isso ao meu filho. A mulher pode chorar por uma bobagem, porque em regra a mulher chora mais mesmo, mas o homem também pode vez ou outra experimentar essa sensação sem vergonha ou sentimento de culpa, por pensar que está a agir “como mulherzinha”.

O importante é ter consciência que as diferenças existem, e que temos de conviver – e bem – com elas, para que possamos ser mais felizes. Guerra dos sexos é definitivamente coisa do passado.

Literatura

Despertar

despertar.jpg

por Cassiano Rodka

Foi no tempo de um minuto que ele despertou. Percorreu a própria mente com uma lanterna, olhou cada canto à procura de si. Encontrou-se em pedaços, sem muita surpresa. Passou da proa à popa sem que os oficiais o vissem. Era como se ele sempre pudesse ter visto o que havia lá. Na verdade, era como se ele sempre soubesse. E lá estavam, separados em alguma ordem numérica, sustados de vida em grandes caixas de madeira. Por entre frestas, era possível enxergar os dias lá dentro. Em tantas delas, ele se via sentado, encarando luzes, digitando letras, esbravejando números, enquanto o sol lá fora cantava, acostumado à falta de atenção. Não quis negar que havia sol em seus dedos – e, de fato, havia – , mas sabia por certo que precisava daqueles minutos. Fechou os olhos e guardou aqueles momentos, ou pelo menos, o que valia ser guardado deles. Então, ao abri-los, não houve hesitação. Com o punho cerrado, soqueou um dos caixotes, derrubando parte da pilha, chutou um que estava mais no cantinho, beijou com os cotovelos mais dois, partiu a madeira com euforia, fez soar um quebra-quebra de dar inveja, libertou-se tantas vezes, viu-se correr para todos os lados, às vezes contente, às vezes com desespero, viu a luz entrar pelas paredes à sua volta, e percebeu então, em meio aos escombros dos tijolos, que havia mais no ar do que a fumaça dos cigarros e a buzina dos carros.
E, com um lápis, escreveu um livro.
Com um violão, fez uma canção.
E, com alegria, convidou o seu amor para passear
à luz do sol de seus dedos.

Literatura

Dia das crianças

diadascriancas

por Clarice Casado

Entraram no meio da noite. Não, já era madrugada. Ela sentia um pouco de medo, mas não comentou nada com ele. Tentaram entrar pela porta, mas não conseguiram, o vidro era muito pesado e resistente. Conseguiram trincá-lo apenas. Tentaram pela vitrine. Foi mais fácil. Partiu-se sem muito barulho, ninguém viu nem ouviu. Pensaram estar com sorte.

O coração dela parecia que ia sair pela boca, sentia a pulsação de um modo tal como nunca sentira em sua vida. Parecia que estava com febre até. A imagem dos três filhos que surgiu-lhe na mente acalmou-a um pouco. Pensou na carinha deles quando vissem os presentes. Sentiu vontade de chorar. Engoliu o choro quando ele a olhou.

Ele não parecia nervoso. Parecia calmo até demais. Concentrado como se estivesse executando a tarefa mais árdua de sua vida. Tinha conseguido uma caminhonete velha emprestada com um amigo. Não conseguiria finalizar a operação sem um carro. Lembrou-se do dia em que passara ali com os filhos, em um domingo de sol quente. As crianças olharam a vitrine e enlouqueceram com os enormes bonecos de pelúcia.

No dia seguinte, procurou no armário sua melhor roupa e foi até a loja, só para saber o preço dos brinquedos gigantes. Naquele dia sim, estava nervoso. Nunca tinha entrado em uma loja como aquela, com coisas tão caras. Sentiu-se até meio oprimido pelo ambiente branco, iluminado e limpo. Falou com uma moça simpática, “Boa tarde, poderia saber o preço desses bonecos de pelúcia enormes?”. Não acreditou quando a moça disse. Queria mesmo era perguntar se ela estava falando sério. Não teve coragem. Era quase um salário de um mês inteiro no supermercado onde trabalhava como caixa. Disse obrigada e saiu perturbado, uma sensação que já tivera antes, mas não tão fortemente como agora. Um misto de indignação, raiva, impotência e incompreensão. Não tinha raiva de ninguém, não odiava o dono da loja, pois sabia que provavelmente aquele boneco deveria ter vindo de algum país muito distante, deveria ser muito especial, ser caro de verdade. Tinha uma raiva apenas. Indignado estava por não ter dinheiro para comprar os bonecos para aos filhos, que falavam sempre neles desde o dia em que os viram. Impotente sentia-se porque nada poderia mudar em sua situação financeira. Não tinha condições de arranjar um emprego que lhe pagasse mais, pois não concluíra nem a quarta série do Ensino Fundamental. E incompreensão, sim, não compreendia por que não podia. Não compreendia por que a vida o tinha colocado naquela situação. Naquela situação de querer dar algo aos filhos e não poder. Pensou que jamais deveria ter passado por aquela rua chique de um bairro abastado com os filhos naquele domingo. Resolveu mudar de ares, e deu no que deu. Os filhos haviam tomado contato com outro mundo, outra realidade, uma realidade que para eles parecia sonho. Que erro, “Errei”, pensou, definitivo.

Chegou em casa triste naquela noite. Ela estranhou, porque, apesar da vida simples que levavam, ele tinha sempre um humor muito bom. Olhou-a de um jeito estranho. Ela sentiu o olhar diferente. Queria perguntar o motivo, mas às vezes tinha medo dele. Nem sabia a razão do medo, mas tinha medo. Ele perguntou como tinha sido o dia, ela contou as coisas que as crianças tinham feito, as brincadeiras, falou sobre a lição de casa. Ela ficava em casa com as crianças, estava desempregada há alguns anos, e, mesmo se arranjasse trabalho, não poderia sair de casa, porque não tinha com quem deixar as crianças, e os dois concordavam que eles eram ainda muito pequenos para ficarem sozinhos a tarde toda.

Ele jantou muito quieto, apenas perguntando de vez em quando coisas para as crianças. Ela o olhava um pouco tensa. Algo havia acontecido.

Arrumou a cozinha enquanto ele colocava os filhos para dormir. As crianças falaram-lhe mais uma vez sobre os bichos de pelúcia, o dia das crianças era amanhã, “Papai, a gente não poderia ganhar aqueles bichos?”. Ele sentiu como que uma pontada no peito. Teria que dizer a eles a verdade, jamais poderiam ter aqueles bichos, pelo menos não quando crianças. Um dia, por que não, poderiam ter mais sorte que ele na vida e ganhar mais dinheiro, e, por que não, comprar bichos como aqueles. Mas sabia que os bichos só tinham aquela graça toda para eles porque eram crianças. Sua cabeça agora doía. E tudo isso deu-se em segundos, os segundos entre a pergunta das crianças e sua resposta, “Sabem, meus filhos, o papai ama muito vocês. E acho que nesse ano vocês merecem mesmo aqueles bichos, porque têm sido bonzinhos, a mamãe sempre conta como se comportam bem, como estão aprendendo a desenhar e a ler, é, vocês vão ganhar os bichos, sim”. As crianças começaram a rir e depois gargalhar e depois a abraçá-lo e beijá-lo, uma das meninas até chorou. Meninas são mesmo emotivas, desde pequenas. Deu boa noite e saiu do quarto, apagando a luz.

Enquanto ele saía meio que perdido de dentro do minúsculo quarto, enquanto sentia-se como que em outra casa, em outra cidade, em outro mundo, ela, na cozinha, que ouvira toda a conversa e toda a gritaria de felicidade das crianças, ela pensava que ele deveria ter enlouquecido. Ficou calada. Segurou firme o prato que lavava.

Ele parou no meio da pequenina sala, os olhos fixos no nada. A sensação de indignação, raiva, impotência e incompreensão tinha ido completamente embora. Sentiu-se poderoso, e não tinha ideia de onde pudesse ter vindo aquele sentimento. Sabia exatamente o que deveria fazer, e nem estava com medo. Tinha que fazer. Não era algo sobre o qual pudesse pensar. Pensar seria ruim. Precisava apenas pôr o plano em prática.

Quando entrou na cozinha, ela o esperava sentada em um banquinho. Ele chegou perto e passou a mão por seus cabelos negros. Amava-a como sempre. Sabia que isso os mantinha até hoje juntos, apesar de tudo. Não disse nada. Ela olhou-o também, algumas lágrimas nos olhos cor de mel. Ficavam mais bonitos naquela luz desmaiada da cozinha, ele pensou. Lembrou-se da expressão dela quando ele lhe dissera, na noite anterior, que iria até a loja saber o preço dos bonecos. Seus olhos falavam. E ele geralmente entendia. Entendeu que os olhos dela não aprovavam sua ida. Mas ainda assim, foi.

Ela também entendera seu rosto triste ao entrar em casa, mas calara, justamente para não ter que dizer “Eu avisei…”. Ele entendera também o silêncio dela.

Abraçaram-se com carinho, por um tempo longo. Um abraço daqueles que valem por uma vida inteira.

Ela desvencilhou-se dele bruscamente quando ele sussurrou-lhe algo ao ouvido. Tinha agora mais lágrimas nos olhos, que secaram rápido. Invadiu-lhe um calor esquisito, e ainda era junho. Ela olhava-o fixamente, e pensava nos três filhos sorrindo, pensou no cabelo todo arrumadinho das meninas de manhã, antes de irem para a escola. Lembrou do dente do filho que recém havia caído, deixando-o com o sorriso banguela mais lindo do mundo.

Naquela mesma noite, ela foi bater na porta da casa de uma amiga e vizinha, perguntando se poderia ficar com as crianças por algumas horas, eles precisavam sair com urgência. A amiga nem perguntou os motivos, apenas foi. Ele telefonou muito rapidamente para um colega de trabalho que tinha uma caminhonete velha, quase caindo aos pedaços, mas que ainda rodava. O colega emprestou, trabalhavam juntos há anos. Ele prometeu entregar-lhe no dia seguinte.

Os dois pegaram um ônibus até a casa do colega, eram mais de meia-noite. Sentiram o gelo da madrugada como nunca. Resolveram esperar algumas horas, para que a cidade ficasse mais deserta. Pararam com o carro em uma rua próxima à casa do colega, absolutamente mudos, o que lhes ocupava eram os pensamentos, muitos. O trajeto até a loja foi rápido, mas pareceu-lhes imensamente demorado. Não trocaram uma só palavra durante todo o tempo. E assim foi durante todo o assalto. Quando conseguiram entrar, localizaram rapidamente três bonecos, um leão para o menino, uma girafa para a menina mais velha e um urso para a mais nova. Ele deparou-se com as etiquetas com os preços e arrancou-as com força. Ela nem olhou. Um a um os bonecos foram sendo colocados no carro. Tudo foi muito rápido. Ela parou de sentir frio e medo enquanto estava ali. Ele sentiu-se feliz, feliz, muito feliz. Nunca fora tão feliz. Entraram rapidamente no carro. Partiram sem olhar para trás.

Quando chegaram em casa, era quase de manhãzinha. Ela dispensou a amiga sem que ela percebesse nada, agradecendo-a. As crianças ainda dormiam serenas. Colocaram os bonecos no pequeno quarto, meio que amontoados. Os enormes bichos faziam com que o quarto parecesse ainda menor. Sentaram-se no chão e sorriram um para outro, e depois para as crianças. Abraçaram-se e adormeceram ali mesmo. Não sonharam. Nunca mais sonharam.

Literatura

Positivo

positivo

por Clarice Casado

Batimentos cardíacos acelerados. Muito acelerados. Uma estranha sensação de ansiedade tomando o corpo todo. Sentindo os arrepios como se não fossem meus. Um corpo que já não mais me pertencia somente. Mas eu nem sabia.

Numa manhã que parecia uma outra qualquer, em março. Mas transformou-se em especial no momento em que eu soube que seria mãe pela segunda vez. Tanto o exame de farmácia quanto o exame de laboratório acusaram “positivo”. Em mim já habitava um broto de ser humano, um minúsculo broto destinado a fazer nossa felicidade para sempre. A sensação foi de euforia instantânea: beijos e abraços, ligações para os amigos e família. Todos felizes também, compartilhando conosco a felicidade e a ideia da novidade. Uma renovação para todos nós. Algo novo sempre rompe, divide épocas, cria expectativas.

Estou assim (estamos) a aguardar mais um pequeno resumo de nós, que está morando em mim. Fazendo seu ninho em meu ninho. Aconchegando-se em mim e de mim tirando sua nutrição. E tenho a sublime missão de zelar por meu próprio corpo com muito mais cuidado, com muito mais amor, com muito mais carinho, com muita, mas muita alegria. Tudo em doses enormes, só porque ele está aqui, formando-se. Crescendo devagarinho, expandindo-se, e eu já posso sentir o seu amor.

Creio ser um absurdo eu tentar colocar em palavras as sensações geradas por esse meu estado. Creio não ser possível mesmo traduzir tudo isso escrevendo. Mas aqui estou tentando fazê-lo para que fique registrado este momento, e para que um dia meu bebê possa saber o quão importante a notícia de sua futura chegada foi para mim, meu marido, meu filho e para todos que nos rodeiam e que nos querem bem.

Nós. Sim, nesse momento não sou apenas eu. Sou nós. Sou eu e ele. E ele sou eu também. Somos uma dupla. E somos um só. Seremos um só por nove meses. E por que não dizer para sempre?

Literatura

Nos olhos do relógio

nosolhosdorelogio

por Clarice Casado

“Olhei tanto para o relógio que aprendi a coreografia dos ponteiros. Sei cada movimento de cor: o frenético balé da mudança de segundos, a lenta transformação do primeiro minuto em último, os ângulos perfeitos das horas quebradas. Dou corda no relógio e ele dá vida a mim. Danço conforme o ritmo. E a música que ouço sussurra tique taque tique taque tique taque…”

“O relógio”, Cassiano Rodka

Minha imagem mais forte sobre relógios é tão marcante quanto o dia em que olhei pela primeira vez o rosto da minha mãe. Lembro-me bem do dia, sim. Azar dos cientistas que iriam dizer que isso não é possível, que sou uma doida. E sou mesmo. Olhei-a, após ver aquela luz branca toda ao meu redor, pensando, “O que é isso, onde é que vim parar???” Lá dentro estava bem melhor e mais quentinho. Até hoje, detesto luz intensa diretamente no meus olhos. Minha mãe sempre me disse que isso era um problema de pessoas que tem olhos claros, como os dela. Os meus não são tão claros, são apenas esverdeados. Os dela são de um azul tão azul, que, sinceramente, não sei se até hoje conheci alguém com uns olhos como os dela. E tenho até hoje essa obsessão pelos olhos dela, daquele azul de mar do Taiti, desconcertante. E eu me lembro justamente disso, depois da claridade toda no meu rosto, a visão dos olhos dela, parecia que eu estava mergulhando em um mar (sendo que eu ainda não tinha visto um mar na minha curtíssima vida). Primeiro minuto: Apgar 9. Quarto minuto: Apgar 10. Bebês recebem nota quando nascem. Se não me engano, fui 9 e 10. Isso é detalhe. Ela me olhou e eu mergulhei no azul dos olhos dela, e sabia quem ela era, claro que sabia. Morei nela por nove meses. Quando ela falou alguma coisa que não entendi, reconheci sua voz. Era ela, era ela, finalmente a conhecia.

Mas eu dizia no princípio que minha imagem mais forte sobre de relógios era tão marcante como o primeiro dia em que vi minha mãe. Sempre quando penso em relógios, penso nela, lembro dela dando corda em um antigo relógio de parede (herdado de alguma avó, tia-avó, algo assim). Ela dá corda nele até hoje. E ele, lembro-me bem, insistia em sempre adiantar em dez minutos. Ela ia lá, dava a corda, acertava (porque sempre foi – e ainda é – muito meticulosa, organizada, virginiana por excelência) os ponteiros, abrindo uma portinha de vidro que protegia o grande relógio. Mexia nos ponteiros finos, de ferro. Mas ele teimava em implicar com ela. Parecia que estava vivo, parecia que fazia aquilo só pra incomodá-la. Ficava lá a nos roubar minutos (pra onde foram, penso hoje, onde estarão?). E ela, inconformada, voltava a mexer nele. Vai ver o relógio nutria uma secreta paixão por minha mãe. Queria vê-la, olhar bem dentro dos olhos azuis dela umas dezenas de vezes por dia…

Nunca pensei nela assim, como senhora do tempo na nossa casa. Ela era a senhora da casa, disso não tenho a menor dúvida. Estávamos ali, penteados e arrumados e limpinhos e felizes todos os dias porque ela sempre zelou por nós. Encontrava tempo em meio aos livros da escola, provas e redações infinitas de alunos, encontrava tempo pra brincar conosco e pra nos contar histórias em livrinhos mágicos. E lia as histórias como ninguém. Vai ver que é por isso que até hoje não consigo ir dormir sem ler pelo menos uma linha de um livro. E o tempo passando. Imagino que mesmo depois que dormíamos, ela ainda ia ter umas conversas com o relógio. Brigava com ele, mas também eram amigos. Meu pai odiava as badaladas do relógio. O relógio badalava quando se completavam as horas inteiras, como se fosse um sino de igreja, e meu pai badalava de raiva. Um dia ela resolveu então desativar as badaladas. Mas me lembro que de vez em quando ele badalava do nada. Uma coisa doida, sem explicação. Acho que era pra chamar a atenção dela. Queria vê-la novamente. E aquelas badaladas nos botavam medo. Eu morria de medo. De repente, relógio badalando, dentro de mim muito forte, as batidas do coração, bate, badala, bate, badalando. Útero. Ele ficava anunciando horas, sem que quiséssemos saber. Anunciava as horas, e chamava minha mãe. E funcionava. Lá ia ela, pra ver o que estava acontecendo com o danado do relógio. Ele conseguia mesmo o que queria.

Hoje ele não badala mais. Ao menos, pelo que eu saiba, não mais. Não moro com ela há muito tempo. Mas ainda sou cercada de relógios por todos os lados. Há um aqui, neste momento, olhando para mim, na tela do computador. Há outro no mostrador do aparelho de DVD à minha frente. Há ainda na cozinha, no meu pulso, no meu celular, no meu banheiro, na cabeceira da minha cama. E me pego todo o dia controlando as horas, os minutos, acertando os “ponteiros” de um e de outro como uma desesperada, para ver se consigo com que todos fiquem em sincronia. Doce ilusão, a minha. Devia ter aprendido com minha mãe que se pode tentar domar um relógio, mas essa é tarefa impossível. Ele se movimenta. E muito sozinho. Nos faz ir e vir. Sorrir, sofrer. Estressar-se, acalmar-se. Correr, ficar. Sentir saudade. Permanecer.

Nasci às 18h20 de um dia de verão, em março. Minha mãe sempre soube e sabe até hoje exatamente o horário. Estava lá o relógio, com aquele tempo ali chegando-estando-já-saindo. Estavam lá os olhos dela, me olhando. Como me olham, até hoje, mesmo de longe.

Literatura

Música no ar

musicanoar

por Cassiano Rodka

“Un point précis sous le tropique
Du Capricorne ou du Cancer
Depuis j’ai oublié lequel
Sous le soleil exactement
Pas à côté, pas n’importe où
Sous le soleil, sous le soleil
Exactement, juste en dessous”

Serge Gainsbourg

Ele acordou com o som de um estouro. Era um som distante que o despertou de leve. Meio cansado ainda, olhou pelas frestas da janela como se procurasse explicação através daqueles pequenos orifícios retangulares. Fechou os olhos, incerto de seu sono e ouviu outro estrondo. Desta vez, parecia mais próximo, e havia uma certeza: era mesmo uma bomba. Com seus sonhos sustados pelos primeiros acordes da guerra, sua única opção era levantar-se. Calçou seus chinelos e dirigiu-se calmamente até a cozinha, arrastando-se como se quisesse distanciar-se de sua própria vontade. No corredor, outra explosão. Abafado pelas paredes de sua casa, o som surdo emudecia. Era um pouco como um abrigo, um pouco como uma prisão. Pensou por uns minutos se havia algo que podia fazer. Sempre acostumado à mesma rotina (acordar, calçar os chinelos, ir até a cozinha, tomar um café preto bem forte…), o que poderia ele fazer? As bombas não faziam parte daquela rotina, elas não deveriam estar lá, estourando surdas como uma trilha sonora para o caminho do corredor até a cozinha. Não podia fazer nada. Não havia como parar aquele som, e elas continuavam a explodir em diferentes tons, cada vez mais como uma música. Chegou a dar um leve sorriso ao perceber uma reprodução quase perfeita da marselhesa. Uma caprichada ironia das bombas musicais, cantando na língua materna de seu inimigo enquanto destruíam as casas da região. Não, não havia nada a ser feito. Mal sabia ele se ainda queria realmente parar aquela sinfonia. Eram bombas tão talentosas, mal acreditava estarem vindo do inimigo, daquela terra tão pouco musical. Talvez fosse na entrada das bombas em nosso solo que acontecesse essa transformação. Deixavam as suas origens e tornavam-se tão talentosas quanto nossas cantoras. E assim que pensou nelas, pôde ouvir um pot-pourri de canções de Edith Piaf, Françoise Hardy, Bigitte Bardot e France Gall. Seu sorriso agora tornava-se imenso. Que beleza de música havia no ar! Começava a se perguntar por que aquele ataque não havia acontecido nas outras vezes em que foi do quarto até a cozinha. Nunca havia beleza em seu corredor. Mas agora elas cantavam, cada vez mais próximas, explodindo casas, destruindo sua rotina, entoando sua canção preferida de Serge Gainsbourg, com o volume aumentando, as lágrimas caindo de seus olhos em direção a seu sorriso, cada vez mais largo, aquela homenagem das bombas a ele, sua voz cantando junto, e explodindo de vez em um último acorde de um dueto de guerra.