Clarice Dall’Agnol

Literatura

Confissão

confissao

por Cassiano Rodka

“Going to your funeral now and feeling I could scream
Everything goes away
Driving down the highway through the perfect sunny dream
A perfect day for perfect pain”

“Going to Your Funeral”, Eels

Confesso que fingi quando chorei.
Não que não seja triste que tenhas te ido, mas bem sabes… E não que não tenha te amado, te amei muito. Mas não mais. Quando te encontrei morto, confesso que até sorri. Estava preparada, já havia tantas vezes me imaginado nessa situação, e lá estavas, gelado. E houve um momento de alívio nessa despedida. Não foi preciso brigar ou nos separarmos, tu me deixaste na paz. Silenciosamente. E foi bom assim. Mas no funeral, querido, com tua mãe aos pedaços e tuas irmãs inconformadas, tive que chorar. Chorei porque era necessário chorar. E mostrar aos outros que éramos felizes, que sentirei tua falta. Fingir como sempre fingimos em vida. Mas me alegrava saber que era o último momento em que deveria fingir. O último ato de nossa amarga união. Em poucos dias, poderia sorrir com nossos filhos e ser verdadeiramente feliz. Por isso, chorei. E, nas lágrimas salgadas, escondia-se o sorriso doce. E ao meu redor todos sentiam pena de mim. Pobre de mim, viúva. Pobre de mim, salva.

Não foi difícil fingir o choro.
Logo no início, as lágrimas não saíam e acreditei que todos saberiam. Mas não demorou a se derramarem as primeiras gotas, escorrendo fingidas pelo meu rosto. Soluços forçados, mãos no rosto. Tapava por vezes os olhos molhados, por outras, o leve sorriso. Satisfeita com a minha convincente tristeza. Foi um ato longo e cansativo, devia ter dito que querias ser cremado. Mas me mantive firme no luto. Quando o caixão foi sendo emparedado, a intensidade dos choros aumentou. E tive que acompanhá-los, querido, tinha que sofrer mais, a viúva infeliz. E fingia uma dor no peito que eu apertava com meu punho cerrado. E as atenções eram todas para mim, a coadjuvante do casal. Quando tua mãe desviou os olhos do caixão para observar minha dor, senti orgulho de mim. Que atuação, querido, que atuação! Caí de joelhos e berrei, dizia coisas estúpidas como “não te vás” e “o que será de mim?”. Logo todos me olhavam, cheios de pena e angústia. E quanto mais me olhavam, mais eu entrava no papel. Desculpe, querido, mas eu roubei o show. Do choro às palmas, logo todos gritavam por mim. “Bravo, bravo”. Eu, a esposa coadjuvante. A esposa “sim, querido”. A esposa invisível. Mas era o último ato e as cortinas logo se fechariam. E os aplausos, querido, eram todos para mim.

Literatura

Histórias de tartarugas

historiasdetartarugas

por Clarice Casado

Não conheço nenhuma história de tartaruga que seja normal. Dizem que tartarugas são bichos que trazem sorte e bons fluidos para uma casa. Vai ver você nem sabia disso, leitor. Mas é o que se diz por aí. Compre uma tartaruga e terá sorte. Sorte, sei lá a natureza dessa sorte: no amor, no jogo, nas finanças, na saúde. Não. Na saúde, não. Nunca ouvi alguém dizer, “Ai, que sorte que tenho na minha saúde, nunca pego gripe”. Está maluca a autora.

Mas, histórias de tartarugas? Tartarugas são bichinhos lentos, lentíssimos. Engraçado associá-las com sorte, bons fluidos. Ninguém quer sorte lentinha, lerdinha. Todo mundo quer sorte rápida, instantânea. Pergunto-me: comprei uma tartaruga, ok. Quanto tempo vai levar pra bichinha começar a me dar sorte? Não sei. E então você passa cem anos de azar vivendo com a tartaruga, até que um dia ela morre: antes de você. “Que porcaria de sorte é essa???”. Imaginei (imaginem) um velhinho bem velhinho, enterrando o cadaverzinho da tartaruga e praguejando…

História de tartaruga número 1: meu filho ganhou uma tartaruga. Não, na verdade, é um jabuti. É diferente de tartaruga, não vive na água, vive na terra, em um terrário (que é igual a aquário, mas sem água. Não, não estou subestimando o meu caríssimo leitor, de maneira nenhuma, estou explicando só porque eu não sabia o que era um terrário até o jabuti vir morar conosco). Pois jabuti é um pouco mais rápido que tartaruga. Dá umas corridinhas de vez em quando. E pode viver até cem anos, ou mais. Bom, claro, você já viu tartaruga estressada? Naquela vida mansa, nem posso imaginar como poderia estressar-se…! Pois eu me estresso só de olhar pra ela (ou ele, no nosso caso, pois é um macho chamado Miguel – ótimo nome, diga-se de passagem), fico estressada. Paradinho ali, olhando pro nada, sem fazer nada. E ainda tem que tomar banho todos os dias. Banho??? Sim, Miguel banha-se diariamente em um pote plástico estilo “tupperware”, com água morna – tem que ser morna, para ativar a circulação dele. Em resumo, toma banho pra se agitar um pouco. É isso mesmo. Não é um clássico banho relaxante, é um banho “agitante”. E o meu filho leva a sério, “Tá na hora do banho do Miguel!”. Miguel tem hora pra tomar banho. Ai, ai. Mas o pobre Miguel não durou muito. Um dia, alguém percebeu que ele parecia estar paradão há muitas horas. Na verdade, tinha estado parado desde a noite do dia anterior, mas, como tartarugas em regra são paradonas, ninguém deu muita confiança. Fomos examinar, na manhã seguinte. O terrário fedia, e o Miguel falecera. Tadinho, seu mini-cadáver foi direto para o lixo. Meu filho ficou muito triste com a perda do Miguel. Voltamos à loja de animais. Contamos a história ao vendedor, que disse que talvez ele tenha ficado doente ou tivesse tido alguma queda. Meu filho olhou-me de canto. Eu derrubara o Miguel uma vez, muitos meses antes. Coitado, foi um tombo e tanto. Meu filho me culpou pela morte, depois, no carro a caminho de casa. Eu não senti culpa alguma. “Ué, mas ele, em tese, não deveria viver cem anos?”, perguntei-me. Mas fiquei calada, ora, viveria sem anos se uma mãe histérica não o tivesse derrubado porque levou um susto quando uma das patinhas ásperas do bicho tocou-lhe o dedo! Pobre Miguel, foi uma exceção. Compramos outro, que foi imediatamente batizado de “Miguel II”. Miguel II mexia-se muito menos que o outro. E mal comia. Ligamos para a loja. Levamos Miguel II para trocar por outro, com medo que morresse também. “Miguel III” viveu conosco por mais alguns meses. Morreu também, cadaverzinho duro e de olhinhos fechados também no lixo. Causa mortis: não sabemos até hoje. Vai ver nossa casa tem uma maldição contra jabutis…

História de tartaruga número 2: um aluno contou-me hoje a história de uma tartaruga que teve na infância. Adorava o bichinho. Não perguntei se ele dava banho na dita cuja. Mas o nome era Guida, apelido da tia do meu aluno, que chamava-se Margarida. E era tartaruga mesmo, isso ele disse. Tartarugas têm a mania de se esconder. Qualquer cantinho é delicioso. Vivem literalmente “à margem”. Um belo dia, a tartaruga do meu aluno desapareceu, “Cadê a tartaruga, onde está a coitadinha”, etc, etc. Concluíram que a pobrezinha havia sido colocada por engano no lixo. Como gostava muito de se esconder (seguindo a tradição da espécie), a família concluiu que ela teria se escondido em uma caixa de papelão grande onde costumavam colocar sacos de lixo. Sem querer, alguém, ao retirar o lixo da casa, retirou a tartaruga junto. Triste fim, o dessa pobrezinha. Bom, cadaverzinho de tartaruga no lixo.

História de tartaruga número 3: eu e meus irmãos, todos com menos de dez anos, ganhamos dos meus pais uma tartaruga. Felizinhos que ficamos com ela, bem lentinha, não incomodava ninguém, vivia numa bacia de plástico cor-de-rosa, com água, claro, porque ela não era jabuti. Nome: Margarida! (Coincidência, não??? Coisas de tartarugas…). Margarida viveu conosco por pouco tempo. Um dia, assim como a do meu aluno, ela desapareceu. Meu pai nos contou que a tinha visto pulando a janela. “Pulando a janela?”. Leitor, não me pergunte como acreditamos nisso. Como o pequeno réptil teria escalado a parede para chegar até a janela era uma questão que nem passava por nossas inocentes cabecinhas… Éramos pequenos, provavelmente acreditávamos em tudo que nosso pai nos dizia. Bons meninos. Devo confessar que acreditei nessa tamanha bobagem por um bom tempo. Obviamente, com o passar dos anos percebi que era uma “mentirinha inocente”, mas nunca soube do verdadeiro paradeiro de Margarida. Recentemente, quando meu filho ganhou o Miguel, perguntei ao meu pai, e ele confessou: ela morrera, e ele não quis contar para nós. Como se pular pela janela do sexto andar não matasse tartaruga… Bom, mas isso não importa. O que importa é que dizem que elas vivem até cem anos… A do meu aluno e a nossa obviamente ficaram fora da estatística. Resultado: cadaverzinho provavelmente no lixo também.

História de tartaruga número quatro (e última): viagem à praia em um Opala Comodoro branco ano 1979, mesmos personagens, meus irmãos e pais. Vemos na estrada uma enorme tartaruga, atravessando com a maior calma de tartaruga do mundo. Meu pai freia bruscamente. Minha mãe grita. A gente não entende nada. Ele para o carro. Ele desce do carro. Ele pega a tartaruga no colo, sob nossos olhares pasmos. Ele a coloca – pasme você, leitor – no porta-malas do Opalão. Provavelmente uma dívida com a tartaruga que quase atropelou: dar um “lar” a ela. Ela vai passar o verão conosco, na casa de praia da minha avó materna. Todos os primos ficam felicíssimos, ela foi a atração do verão. O que aconteceu com essa? Não faço a mínima ideia. Lembro como ela chegou, mas não lembro como partiu. Gosto de pensar que ela não morreu. Gosto de pensar que ela está até hoje caminhando pelas estradas do litoral gaúcho (talvez brasileiro), sendo muitas vezes quase atropelada e outras vezes recolhida por motoristas bonzinhos como meu pai, pra passar o verão com as crianças e fazer a alegria delas. Vai ver qualquer hora encontro com ela em uma estrada qualquer, já velhinha, apoiando-se numa bengalinha, chapeuzinho de surfista, óculos de sol. E sempre levando sorte a todos. Devagarinho. E sempre.

Literatura

Flora

flora

por Cassiano Rodka

Flora não saía de casa por outro motivo que não fosse o rancho. Não via beleza fora de seu apartamento ultradecorado. Em meio a vasos chineses, porcelanas, bibelôs e rococós, a única outra respiração que se ouvia na casa era a de suas plantas. Sim, ela dizia que as ouvia respirar. Dizia a si mesma, é claro, pois não morava com mais ninguém e tinha esse costume de falar sozinha, para deleite dos vizinhos adolescentes do 22.

Flora acordava todos os dias às sete em ponto ao som do despertador que ganhara de sua vó. O som que imitava as badaladas do Big Ben lhe trazia um sorriso no rosto. Iniciar um dia era sempre uma aventura. Vestia suas pantufas de veludo e ia até a cozinha tomar um copo grande de leite morno. Logo depois, enchia o regador vermelho de água e molhava o único vaso que havia na cozinha, onde habitava um enorme girassol próximo à janela. Seguia pelo corredor até a sala, onde molhava as demais plantinhas, dando-lhes “bom dia” e conversando com cada uma. Quando era necessário, saía para fazer as compras antes da hora do almoço. Assim, poderia comer ao meio-dia e seguir seu dia sem preocupações. Pegava a lista do que estava faltando na casa e seguia até o elevador torcendo para descer sozinha. Às vezes, alguns vizinhos resolviam aparecer e descer também. “Por que não descem outra hora? Vão descer bem no meu horário!”, falava em voz alta para si mesma. Mas os vizinhos insistiam em ouvir aquilo que falara para si e sussurravam entre eles com caras desgostosas. Das bocas fofoqueiras, Flora sempre distinguia algumas palavras frequentes, como “gagá” e “dislexia”. “Gagá” ela bem sabia o que era, “dislexia” era palavra feia demais para estar em seu vocabulário. Parecia uma daquelas usadas pelo Doutor Afonso quando ela costumava frequentar o médico. Se “diagnóstico” já era palavra feia de doer, imagina o que vinha depois! “Esclerose”, “Alzheimer” e outras que é melhor nem lembrar. Flora não precisava de medicina. Ela podia muito bem cuidar de si mesma.

Quando voltava para casa, cuidava para preparar o almoço em tempo de comer ao meio-dia em ponto, quando o cuco do relógio de parede da sala aparecia para lhe avisar a hora. Com a comida servida na mesa, Flora sentava em uma poltrona verde, onde esperava o cuco chamá-la: “Cuco, cuco, cuco…”. Mas o que ela ouvia era “bom apetite”. Ela agradecia ao Sr. Cuco e sentava-se à mesa. Após lavar os pratos cuidadosamente e guardá-los nos armários de madeira, Flora deitava em sua cama e dormia. Acordava ao som do Big Ben às quatro da tarde e sentava-se na sala para assistir TV até a hora da janta. O ritual da janta era muito parecido com o do almoço, o que incomodava um pouco Flora. Por isso, olhava sempre pela janela entre uma garfada e outra, agradecendo à lua por tomar o lugar do sol e oferecer outro cenário para sua refeição. Antes de deitar, lia com dificuldade algum dos livros de sua pequena biblioteca. Já na cama, dava “boa noite” a si mesma e dormia.

Um dia, Flora acordou em desacordo consigo mesma. O despertador tocou o som das vozes debochadas dos adolescentes do 22. Flora não acordou sorrindo, pois não gostou daquela nova opção do velho relógio. Vestiu suas pantufas de vidro e foi até a cozinha tomar um vaso grande de veludo morno. Logo em seguida, encheu o girassol de leite e molhou a única janela que havia na cozinha. Seguiu com o girassol até a sala onde torceu as últimas gotas de leite em cima das outras plantinhas, que fofocavam entre si chamando-a de “diagnóstica”. Flora ficou chateada com as plantas e derrubou algumas no chão. “Suas ingratas!”, esbravejou. Sentia-se tonta e deitou-se na poltrona verde. Só percebeu que adormecera quando o Sr. Cuco a acordou dizendo: “Gagá, gagá, gagá…”. Flora sentia-se traída, todos aqueles aos quais ela dedicara a sua vida estavam debochando dela. “Gagá, gagá, gagá…”, meu Deus, era meio-dia!! E Flora não havia preparado a janta! A Doutora Lua já devia estar subindo no elevador para o desjejum e Flora não havia ainda preparado um delicioso prato de esclerose. Olhou aflita pela janela e avistou o sol. Pediu ajuda ao astro e tudo o que ele fez foi desejar-lhe “boa noite”.

Flora no chão.

Literatura

O jogo do palito (um ensaio sobre a amizade entre os homens)

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por Clarice Casado

Esta é dedicada a todos os queridos membros da “Liga Profissional Paulistana do Palito” (L.P.P.P.), e também às maravilhosas mulheres que os aguentam…! (incluindo a mim mesma!)

Senhoras e senhores, apresento-lhes o jogo do palito! Palito? “Jogo do palito”? Devem estar perguntando-se, entre curiosos e pasmos, os meus estimados leitores. Sim, palito, palitinho, palitinho de dentes, aquela coisinha horrorosa de madeira que alguns indivíduos utilizam como escova de dentes, sabem? Pois, saibam que essa não é a sua única utilidade. Há alguns meses, descobri que o tão popular palitinho de dentes pode ser usado como instrumento (ou apetrecho, sei lá) de um jogo intitulado “jogo do palito”, ou apenas “palito”, para seus praticantes mais frequentes, engajados, sérios – profissionais da coisa, mesmo. Sim, o “jogo do palito”, ao menos entre os meus amigos (do sexo masculino) mais íntimos, é considerado um jogo sério, seríssimo. Não é qualquer um que encontra-se habilitado a praticá-lo! As crianças são proibidas e as mulheres, bem, as mulheres não são lá muito bem-vindas… O que os meninos preferem, de verdade, é jogar só entre eles mesmos.

Passo a explicar, então, o afamado jogo. Prestem muita atenção! O jogo sempre acontece ao final de um encontro em algum restaurante ou bar, quando estão à mesa amigos que terminaram de almoçar, jantar, ou fazer um happy hour prolongado. O perdedor do jogo deverá pagar a conta. Não há “um” vencedor no jogo. Há vários. Mas há um infeliz (que na maior parte das vezes sou eu, apesar de que, nas últimas duas semanas, venci duas vezes!) que perde, e arca com toda a despesa. Pois bem, cada participante toma posse de um palitinho de dentes e quebra-o em três partes iguais. Cada participante coloca o número de partes do palito que desejar em sua mão fechada (a mão direita, descobri isso em uma das minhas últimas partidas!), e coloca a mão em cima da mesa. A outra permanece escondida, também fechada, embaixo da mesa, de preferência. Verifica-se o número total de palitos que existem “na mesa” (este é um dos “termos técnicos” do palito: “na mesa” significa naquela rodada). Sabendo o número total de palitos, cada participante, em ordem, passa a tentar adivinhar quantos palitos há “na mesa”. Essa adivinhação tem toda uma técnica, que eu, sinceramente, até hoje não fiz a menor questão de querer entender.

Diz uma das minhas amigas que não há lógica alguma no jogo, que é pura sorte. Mas os meninos inflamam-se, indignados, como se isso fosse a maior heresia da história da civilização ocidental e dizem “Sim, claro que tem, tem a ver com lógica matemática, como não?!!!”. E eu, que assumidamente odeio números e contas e ciências exatas, chuto, portanto, qualquer número que vier em minha cabeça, que esteja dentro dos limites do que está “na mesa” (vai ver é por isso que perco tanto…!).

Já os meninos consideram dominar a técnica da adivinhação como algo fundamental, essencial. Utilizam-se até de expressões, criadas por eles (que aqui decidi chamar de “termos técnicos”), como “dois é quatro”, “cinco é um”, “lona” (que significa nada de palitos na mão), “é preto no branco” (algo como “é agora ou nunca”, sei lá, acho que é isto), e outras insanidades desse gênero…! Pois bem, os excepcionais indivíduos que conseguem adivinhar o número de palitos que existem nas mãos fechadas de todos os participantes vão se livrando aos poucos de seu pedaços de palitos, até ficarem sem nenhum. Neste momento, saem do jogo, livrando-se, também, da conta. Quando restam apenas duas pessoas, o jogo se reinicia, ficando cada uma com três pedaços de palito nas mãos novamente. Essas duas pessoas estão na “final” (outro “termo técnico”). Quem perder, será premiado com o pagamento da conta.

Pois então eu dizia que, para os meninos, o jogo de palitos é coisa muito, mas muito séria. Disputam o palito como se estivessem disputando uma final de Copa do Mundo. A “Liga Profissional Paulistana do Palito”, denominação que acabo de criar para os meus queridos amigos competidores deste nobre esporte, é quase como uma Máfia. Assim mesmo, com “M” maiúsculo. A “Máfia do Palito” é apenas um exemplo (ou uma verdadeira constatação) do alto grau de cumplicidade e da enorme capacidade de associação existente entre os homens. As amizades masculinas são peculiares, elas têm regras, como tem o jogo do palito. Regras que devem ser conhecidas e cumpridas, sob pena de exclusão do “clube”. Entre os meninos, formam-se verdadeiras irmandades, o que os falantes de língua inglesa chamam de brotherhood of men. Os homens formam uma classe tão unida que até mete medo. Apoiam-se em qualquer empreitada. Não questionam. Não pedem explicação. Não se explicam. É mesmo uma Máfia. Não há quem não tema a Máfia. Nada que se fale ou se comente ali sai dali, nem sob severíssima “tortura”. São os meninos capazes de criar histórias fantásticas para proteger uns aos outros. E, sabe-se bem, na Máfia não há perdão. Nenhum deslize é perdoado. Quem assistiu o clássico de Coppolla da década de 70, “O Poderoso Chefão” (The Godfather) sabe bem do que estou falando!

A nós, mulheres, diante de tudo isso, cabe tentar compreendê-los, e, sinceramente, tentar aprender com eles a nobre arte da amizade. Estou dizendo alguma mentira? Desculpem-me, meninas…

Literatura

Complexo de Wendy

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por Clarice Casado

Ontem, pensei que seria ótimo ser o Peter Pan. Mas o Peter Pan é menino. Não, acho melhor ser a Wendy. Não que eu tenha problemas com isso, porque, em realidade, a minha “porção masculina” é bastante forte, consigo pensar “como homem” em diversas situações. Meus amigos homens até de certo modo incluem-me no grupo, porque sabem que sou uma mulher um pouco diferente das outras. Compreendo os homens e seus “mecanismos”. Em realidade, Wendy também é uma menina diferente, já que é inserida em um universo completamente masculino na Terra do Nunca, e adapta-se muito bem a toda aquela situação de aventuras e lutas com os piratas e o Capitão Gancho. E torna-se também uma espécie de líder. Líder sentimental. É a “mãe” que eles precisam, e também a conselheira, a ouvinte incondicional, o elemento apaziguador, o braço forte travestido na figura frágil. Assim, penso que sofro de algo que resolvi chamar de “complexo de Wendy”. Isto é inegável.

Mas, ainda assim, minha porção masculina queria mesmo era ser o Peter Pan, e não pelo mesmo motivo que levaria todas os homens do mundo a quererem a mesma coisa, ou seja, ser Peter Pan para não crescer nunca. Não. Eu queria ser o Peter Pan, ao menos por alguns dias, porque descobri que o Peter Pan, além de não crescer nunca, não compromete-se sentimentalmente com ninguém e nem com nada. E não comprometer-se sentimentalmente, explico logo, não é “não amar”, ou “não odiar”, não, nada disso. Não comprometer-se sentimentalmente é amar ou odiar algo ou alguém sem ter a plena consciência disso. Peter Pan não entende os conceitos de amor e ódio. Peter Pan apenas preocupa-se em ter pensamentos felizes para continuar voando, sempre. Voar é ser livre. É só isso que Peter quer. Peter não quer amar, e nem odiar, e ele pouco se importa se é amado ou odiado. Peter ama e odeia independentemente de sua vontade: ele não tem consciência de seus sentimentos. Não se preocupa com os sentimentos. Deve ser interessante sentir amor ou ódio sem ter consciência deles. Sem saber que “eles” estão ali, dentro de você.

As crianças, todas, são como Peter Pan. Elas amam e odeiam, com a mesma intensidade, mas não são cientes de seus sentimentos fortes e ambíguos. Sentem: choram, sorriem, ficam bravas, têm raiva, gritam, dão gargalhadas, tudo com a mesma intensidade, e depois voltam ao seu estado normal com a maior naturalidade, como se nada tivesse acontecido. Os adultos, geralmente, relevam esses seus comportamentos, porque as amam incondicionalmente. O único amor incondicional que existe é o de mãe-filho e pai-filho.

Digo e repito: a criança, como Peter Pan, sente e não tem consciência de seu sentimento. A criança não tem muita preocupação se sua atitude vai provocar amor ou ódio nos outros. Ela é completamente descomprometida sentimentalmente. Não precisa explicar seus sentimentos. Explicar os sentimentos é a parte mais complicada das relações humanas. Isso é tarefa nossa, dos adultos, mas descobrimos cedo que também não sabemos como fazê-lo, e, um dia, chegamos à conclusão de que seria ótimo voltar a ser criança, para não comprometer-se sentimentalmente.

E então, o que concluo é que Peter Pan não queria crescer jamais não apenas pelo prazer de ser criança pelo resto da vida, mas, isso sim, pela certeza de que nunca precisaria comprometer-se sentimentalmente. Não precisaria sofrer por amor ou por ódio. Jamais. E poderia voar sempre. E saberia que a Wendy estaria sempre lá, esperando por ele.

Literatura

No cárcere de teus braços

nocarceredeteusbracos

por Cassiano Rodka

A rotina me deixou exato.
E no conforto de teus braços, eu a beijo. Anseio o novo, mas temo a mudança. E o medo me segura pelos calcanhares. E eu permito que ele me arraste de volta a teus braços. E estamos juntos novamente. Num velho abraço, confortável e gasto. E me sinto seguro. E só assim penso em ti. No outro abraço. Um que desconheço, que anseio, que temo. E puxo os velhos braços em torno de mim, enlaçando-me concreto. Uma muralha de pele e ossos. E fecho meus olhos para não te ver. E lá estás. Na minha mente, o outro abraço. E assim duplamente abraçado, me deito no colo da incerteza.
………………………….. Que abraço quero?
Mas então ela me puxa, exato. Ela me envolve e me aperta o crânio. E me mostra o caminho traçado, os espinhos rasgados, os dias de sol (onde estão os cinzentos?). E me mantém imóvel. A segurança de ter esse abraço, cansado e murcho, mas meu. O passado se insistindo presente e me oferecendo almofadas. Fujo de ti porque és futuro. E corro tanto de mim mesmo, que durmo.

A rotina me deixou exausto.
E nos meus sonhos, são tantos os braços. Que me puxam, empurram, enlaçam. Mas que não me encontram. Voam ao meu redor como um tufão, me batem, me apontam. E quando me encolho chorando, me desfaço. E acordo não mais exato. Desprotegido, mas intacto. Teus braços caídos, muralha desfeita. No carpete, restos de tijolos e mágoas. E sinto falta do outro abraço. O que desconheço, anseio e temo. E me levanto sonolento, pisando em cacos. E saio em busca dele, o abraço que não é muralha. Que me mantém aquecido, inexato. Que me envolve com os olhos e me toca os cabelos. Que me protege na distância e não me impede os movimentos. Que me enlaça em um sorriso. Que me fere a pele quando é preciso. Um abraço que não se fecha em mim, mas que permanece aberto ao me abraçar.

Literatura

Bordini, 28

bordini28
imagem: Cassiano Rodka / casinha: Olavo Geimba

por Clarice Casado

Ao Padrinhal, à Gugu e às Gurias.
À vó Zenyra, ao Pai e à madrinha Lorena.
Ao vô Janyr e ao tio Vevé.
E a todos que lá viveram.

Cheira o cheiro da casa. Passeia o pensamento. Joga-o na memória. Vê os fantasmas. As cenas, em preto e branco e coloridas. Desperta do sonho para um outro. Joga na memória. De novo. Tal qual rede de pesca. Ouve o choro de um bebê ao longe. É familiar. Era dele próprio. Vê um menino correndo. Buscando. Buscando? Buscando a alma da casa. Sentindo a presença dela.

Percorre seus caminhos, apoiado nela como se fosse uma companheira eterna. Mas, não pode ser eterna, porque o eterno não existe. Existe ele, sozinho, na escuridão. Existem seus pensamentos vagando para sempre dentro da casa. E a casa vivendo. E a casa sonhando. E soprando, porque é que nem vento. Permanece, mas sopra. Bem baixinho, os segredos do passado, “Mas eu nem queria ouvir tudo”, mas a casa conta tudo, ela sabe de tudo. Ela esteve ali, todos aqueles anos, sentiu tudo e provocou tudo. Provou de tudo. E ele nem percebia. Eles nem percebiam. Agora percebem.

O tempo é que se vai, e parece mudo, mas não é.

Vazia, desabitada, sem nada, só os sussurros de tempos idos, os calafrios das imagens nas paredes, memórias vagando e confundindo-se com as escadas, com as janelas e com as marcas profundas dos quadros e das estantes e dos móveis. Marcas deles. Cenas de vidas vagando, um projetor antigo de filmes passando as cenas nas paredes nuas da casa, nas paredes confusas de sua mente, “Conta uma história?”, e conta a história do final para o início, porque assim não dá tanto medo…

O passado ali preso, para sempre, todo o sempre, “Ninguém vai deixá-lo escapar”, ouve ruídos de gente conversando, dizendo “Parabéns, que lindo, outra menina”. Gritos de Gol. Meninos gritando, gritando alto, como gritam os meninos. Risadas e vinho. Carne gorda. Farinha. Perfumes misturados em grandes ocasiões. Abraços apertados e beijos carinhosos. Barulhinhos de presentes se abrindo, música. Música. Sempre música. A música que não cessa jamais. Naquele coração que vai ficar também ali preso na casa. Um choro forte. Dois choros fortes. Três choros fortes. Quatro choros fortes. Cinco? “As mulheres são o segredo da casa, não sabia?”. Gritos. Gritos que a casa engoliu.

E a casa vai ficar ali, “O que vai acontecer com ela?”, “Eu nunca mais vou voltar lá”, rostos tristes – parem, rostos tristes – vocês estarão sempre lá. E ela sabe muito bem disso. Todos entravam e todos saíam e todos sempre voltavam, como se ali fosse a sua própria casa. E era. Há casas que são assim. São de todos. Porque têm alma.

A casa respira (respirando).

A casa sente (sentindo).

A casa soluça (soluçando).

A casa segue (seguindo).

A casa permanece (permanecendo).

Na memória.

Literatura

Voo

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por Cassiano Rodka

O comandante Nélson saudou a tripulação e agradeceu a preferência pela empresa. Sérgio olhou pela janela e viu o que acreditava ser a sua cidade natal. O comandante logo confirmou, era Porto Esperança à direita do avião, com 28º centígrados e a 1800 metros de distância. Haveria um sorteio de um kit de alguma marca de refrigerante para quatro poltronas. A sua era 13F, péssimo número, jamais ganharia nada. Tornou a espiar pela janela. Porto Esperança. A essa distância, tão pequenina e inofensiva. Observou as várias linhas que formavam o desenho impreciso da cidade. As ruas por onde andava, os prédios, as luzes, uma composição tão bonita e silenciosa quando vista lá de cima. Abriu a mão direita e observou sua palma. A cidade inteira poderia caber ali. Imaginou os carros passando pelas linhas de sua mão e as pessoas correndo por todos os lados. Cada uma com sua pressa particular. Imaginou os edifícios crescendo de seus poros e podia ver as pontes e os viadutos se formando em sua pele. Viu o palácio do governo quase ao centro, bem próximo à igreja da Glória. Mais adiante, via a favela do Cachorro Degolado subindo morro acima até a ponta do dedão. Sua casa ficava exatamente onde antes havia uma pinta. Percebeu então que as linhas de sua palma coincidiam totalmente com as de sua cidade e que ele a tinha de fato na mão. Assustou-se com a coincidência e olhou para os lados, desconfiado de que alguém mais pudesse ter percebido tal coisa. O senhor da poltrona E folhava uma revista enquanto a moça sentada na D analisava a aeromoça dos pés à cabeça. Riu de si mesmo. Pensou no absurdo daquela situação. E riu mais uma vez, vagamente, incerto da graça. Tornou a olhar. Na sua palma, a cidade. Fechou a mão.

O comandante Nélson pedia para que todos permanecessem sentados e aguardassem o sinal luminoso para desafivelarem seus cintos. Poucos, além dele, obedeceram. Todos pareciam ter uma enorme ânsia em sair do Boeing 747. “Cada um com sua pressa particular”, pensou ele. Ficou um tempo fitando seu punho cerrado, sem coragem para abri-lo. Por entre seus dedos, enxergava alguns fachos de luz. Olhou pela janela e observou os passageiros saindo. Depois do último degrau da escada, via cada pé tocar o solo e sentia uma coceira na mão. Seguia-os com os olhos e sentia a comichão se espalhando levemente pelo mapa de sua pele. Assustou-se com o toque da aeromoça em seu ombro. Levantou-se com hesitação e pegou sua mala com a mão esquerda. A direita, mantinha firmemente fechada. Desceu a escada e firmou o pé na palma do chão. Olhou para o horizonte e escolheu o seu destino. E partiu, mala em punho, para algum lugar entre o morro da Detença e o dedo indicador.

Literatura

Literatura é movimento?

literaturaemovimento

por Clarice Casado

À Helena Sut

Literatura é movimento.

Afirmei ao meu pai, e ele concordou. Movimento? Sim, se é movimento, quero ser levada pelo furacão, quero percorrer os caminhos estranhos e complicados que me levam ao meu íntimo mais íntimo e me trazem ao papel, e me deixam falar de mim sem que eu tenha medo, medo nenhum, não mais.

Se literatura é movimento, não me deixa parada, nunca mais, dá-me a força e a coragem de nunca mais ficar estática, de nunca mais deixar de movimentar-me, de nadar em mim mesma, de voar. Quero que o movimento me movimente mais do que o próprio vento, quero que o vento leve as minhas palavras, arraste-as, como folhas, pro meu papel branco, por meu papel virgem de ideias. Deixa o vento semear meu papel com as minhas palavras. O vento da minha alma, da minha mente, da escritora em ebulição em mim, que ferve como água, que grita e se esperneia no meu Eu, que queria sair, que ainda quer sair, correndo desembestada pelos pampas da literatura.

Se literatura é movimento, liberta a menina tímida que julgava não saber o que fazer da vida, liberta a borboleta de seu casulo, deixa-a voar livre. Quero ver minha própria face, quero ver minha própria alma. Quero ver-me. Quero ver-me pelas minhas mãos criadoras. Quero ver-me e quero que me vejam, que me dispam. Quero que minhas duas metades se unam nesta nova missão: minha metade antiga, e minha metade nova, irmãs, talvez primas, já que são um pouco diferentes. Guardam a essência, mas diferenciam-se em pequenos detalhes.

Se literatura é movimento, deixa-me bailar com a juventude, deixa-me extrair dela tudo que posso, deixa-me sugá-la até sua última gota. Faz de mim uma abelha, e me leva pras flores. Deixa-me levar minhas palavras, deixa que minhas palavras sejam levadas. Pelo vento. Deixa meu pólen se espalhar pelo mundo. Deixa-me voar. Deixa-me voar. Deixa-me sonhar no voo. Voo sonhando. Sonho alado.