Clarice Dall’Agnol

Literatura

A moça na igreja

mocanaigreja

por Clarice Casado

Entrava raramente naquela capela, mas, naquele dia, especialmente, sentiu que precisava entrar. O coração remoía mágoas e preocupações que não iriam sarar por si. Sentia que aquele lugar meio escuro, misterioso, pacífico, – perfeitamente aconchegante, como o útero materno – iria ajudar-lhe a organizar o pensamento.

Entrou, sentou em um dos bancos, bem atrás. Não sentia vontade de sentar-se mais à frente. Olhou para as paredes bonitas da capela, o teto elaborado, pensou, “que bom poder estar aqui, sinto-me protegida, sinto-me como em uma concha”. Teve a estranha sensação que seria perfeito se pudesse passar o resto de sua vida ali, protegida do mundo. Poderia esquecer-se para sempre de todos os seus problemas, e começar uma nova vida naquele lugar, naquele mundinho hermético, abençoado. E isso que não era, de maneira alguma, uma pessoa religiosa. Acreditava em Deus, mas não era uma praticante fervorosa de sua religião.

Tinha notado uma mocinha a seu lado, que deveria ter uns vinte anos, com a cabeça baixa, rezando. Pensou na moça, “O que será que a traz aqui? Será que, assim como eu, está com o coração inundado de problemas e precisa de ajuda?”. A resposta logo vem: a moça começa a chorar desesperadamente, soluçando, um choro baixinho, mas forte, daqueles que vêm do fundo da alma.

Ela olha, sem jeito. Não sabe o que fazer. Lembra da filha adolescente, fica com um nó no espírito. Quer chorar também. Quer conversar com a moça. Fica alguns minutos (que se arrastam parecendo horas) tentando lutar contra a sua vontade de se aproximar da moça, conversar, ser mãe, como sempre é, como sempre vai ser. Respira fundo, chega mais perto. Coloca a mão no ombro da menina, que joga-lhe um olhar assustado. “Meu bem, seja qual for o seu problema, não se preocupe, há de passar”. Surpreende-se com as próprias palavras. Não é uma mulher muito acostumada a tais gestos, não é muito de conversas delicadas. É uma amiga exemplar, amiga para todos os momentos, mas costuma dar conselhos práticos àqueles a quem ama. Pensa, “Nossa, quem é essa pessoa que agora surge em mim e consola uma absoluta estranha chorando em uma igreja?!”.

A moça para um pouco de chorar. Ela continua com a mão em seu ombro, dizendo tudo que a moça queria ouvir naquele exato momento, naquela igreja, naquela manhã de chuva fina em plena primavera. Ela pergunta o nome da moça. A moça pergunta o seu. Não são mais tão desconhecidas. Têm agora algo a dividir, pelo resto de suas vidas. O encontro na igreja. A certeza de que nunca mais estarão sozinhas.

Literatura

O mendigo da Rua da Praia

mendigodaruadapraia.jpg

por Clarice Casado

Ela fazia todos os dias o mesmo caminho. Subia com passo vagaroso a Rua da Praia, apelido carinhoso que os habitantes da cidade davam a uma das ruas mais antigas da cidade. Uma rua sem praia, mas que um dia fora banhada por um rio. Daí o apelido.

Passeava despreocupada pela rua, às vezes fazia compras e outras ia à pedicure. Mas aquele caminho era religioso, sagrado como a missa de domingo. Nada como a rotina, sabia ela. A rotina a matinha viva, alegre e ativa aos oitenta e cinco anos, anos todos bem vividos, com alegrias e sofrimentos, anos que quase ninguém lhe dava, “Nossa, mas como a senhora é moça, parece muito menos”, e ela dizia, “Já tenho até bisneto!”, toda orgulhosa.

A rotina tem dessas coisas. Dessas coisas de rotina que a fazem ser rotina. Pode ser um acordar todo dia no mesmo horário, pode ser tomar sempre o mesmo café da manhã e ainda ficar feliz com isso. Ela pensava que bobos eram os que não gostavam de rotina. Bobos eram os que precisavam de acontecimentos-surpresa para viverem mais satisfeitos. Só quem já viveu dias completamente fora da rotina sabe que nem sempre eles são bons.

E sua rotina incluía em dar, todos os dias, uma pequena esmola a um pedinte, um mendigo que praticamente morava na tal Rua da Praia. Um homem, um deficiente físico, que há anos pedia dinheiro no mesmo lugar, batendo com uma caixa no chão toda vez que um pedestre passava por ele. E ela depositava então aquele sagrado dinheirinho todos os dias na caixa do mendigo, e o mendigo agradecia-lhe sorrindo, um sorriso amarelado de quem nunca foi ao dentista, um sorriso de rotina.

Certo dia, passeava ela por sua rotineira rua quando teve a rotina quebrada: uma emissora de televisão local gravava uma reportagem exatamente ali. Olhou despreocupada e até desatenta para a câmera, e continuou seu passo sem pressa. Sem a pressa dos que odeiam a rotina.

À noite, o telejornal da cidade transmitiu a reportagem. Ela estava assistindo, viu-se na telinha e sorriu. Enquanto o repórter falava, ela passava vagarosamente, o que lhe rendeu uns bons minutinhos de “fama”, todo mundo tem direito aos seus uma vez na vida, afinal. Logo começou a receber telefonemas da família, primeiro uma neta, depois uma amiga, ainda uma prima distante, com quem há muito não falava. Nem sabia o que dizer, pois fazia tempo que uma quebra de rotina não a surpreendia.

No dia seguinte, saiu de manhã para seu passeio de costume. De longe, avistou o mendigo já a bater com sua caixa no chão. Poucos eram os que lhe depositavam algum dinheiro. Pensou rapidamente no homem e em sua sofrida vida. Sua sofrida rotina. Ficou pensando se ele gostava daquela rotina. Ela fazia parte da rotina dele e o contrário também era verdadeiro. Imaginou que um dia talvez ele não estivesse mais lá, e ela acharia estranho. E ele também ficaria muito desapontado no dia em que ela não pudesse mais passar por lá e dar-lhe a esmola. O que seria deles?

Chegando perto do homem, com o troquinho já no bolso, parou. Olhou para ele com um misto de ternura e pena. Colocou o dinheiro na caixa. O homem encarou-a e, pela primeira vez, falou com ela, “Eu vi a senhora ontem na televisão!”, com um entusiasmo imenso, com orgulho, como se um parente próximo ou um amigo querido tivesse sido aquela celebridade momentânea. Ela ficou surpresa. Agora a surpresa era dela. Outra quebra de rotina: dois dias seguidos. “Como assim, ele me viu na televisão?”, e ela apenas sorria para o homem, sem saber o que dizer, “Pois é…”.

O mendigo a tinha visto na televisão. Isso era fato. Mas, como? Se ele vivia na rua, como poderia ter uma televisão? Onde seria sua “casa” ou algo parecido? Embaixo de alguma ponte? Como ligaria a televisão? Será que alguém o trazia todos os dias para aquele mesmo lugar para esmolar, e à noite o levava de volta a alguma humilde casinha, que tinha televisão? Teria ela financiado ou ajudado a financiar a televisão, com aquela esmola diária?

Todas essas perguntas brigavam em sua cabeça ferozmente, tentando desvendar aquele difícil enigma, enquanto ela se afastava do homem. Nenhuma pergunta encontrava resposta. Em sua mente, apenas uma confusão imensa, uma sucessão de imagens que eram em preto e branco. O homem atirado na rua, ela sendo filmada, ela vendo TV em casa em seu confortável sofá, o homem também assistindo à televisão em uma maloca qualquer da cidade. Sentiu-se um pouco traída. Pensava ser a esmola uma ajuda em sua alimentação e vestuário, mas, em realidade, talvez ele tivesse usado aquele dinheiro para comprar uma televisão. Mas, o que importava?

Quanto mais pensava, mais se convencia da total quebra em sua rotina que aquele fato causara. Por isso odiava quebras de rotinas. Por isso amava viver todos os dias a mesma rotina. Pensou na importância daquele fato para o mendigo. Talvez fosse mesmo algo importante em sua vida: a senhora que lhe dava esmola todos os dias aparecera na televisão.

Foi dormir naquela noite pensando naquilo. Não conseguia compreender. Pensou em conversar com ele no dia seguinte, tentar saber como a tinha visto na televisão, onde morava, o que fazia durante a noite. Sim, porque de dia ele ficava ali, ela sabia, porque passara pelo mesmo ponto em horas diversas. Adormeceu com esse pensamento vivo em sua mente. Sonhou com isso. Deve ter sonhado. Não lembrava direito, mas, quando acordou, tinha a nítida sensação de ter sonhado que estava vendo televisão com o mendigo na rua, exatamente no ponto onde se encontravam todos os dias.

No dia seguinte, pela primeira vez saiu de casa sentindo-se esquisita. Como há muito não se sentia. Era até um pouco de medo. Medo de coisas desconhecidas. Medo de que sua rotina pudesse ser novamente quebrada, medo de ser assaltada pela surpresa, medo de nada ser como antes. E não seria. Ela sabia que não seria. E ele também.

Literatura

Educação sexual

edsex.jpg

por Clarice Casado

No setor de livros infantis de uma grande livraria da cidade, uma mãe ajuda o filho pequeno a escolher títulos para a sua biblioteca.

O menino escolhe alguns livrinhos, e logo vai correndo até um mini aparelho de som instalado perto dos livros, com CDs infantis para ouvir e com um fone de ouvidos um pouco gigantesco para as pequenas cabeças das crianças. O menino ouve e sorri.

A mãe do menino, observando de longe, percebe que uma menina de uns seis ou sete anos aproxima-se do menino e coloca, gentilmente, uma cadeirinha para que o menino sente-se enquanto ouve música. Pensa consigo: “É impressionante como as mulheres começam a desenvolver cedo os mecanismos de sedução!”.

O menino logo se cansa, vêm até a mãe, e lhe sussurra ao ouvido, “Mamãe, você não vai falar pra ela, mas eu achei tão carinhosa aquela menina…”. A mãe sorri, achando a maior graça, e confirmando seu pensamento anterior: “Funcionou…!”.

A menininha vem, fica meio que rondando a mãe e o menino. A mãe do menino pensa por onde andará a mãe da menina. Tão pequena, ali, solta.

O filho continua olhando outros livrinhos, senta em uma mesinha e vira as páginas com entusiasmo. A menina dirige-se a uma das prateleiras, olha fixo para um livro grande, de capa dura e branca, com desenhos de uma uma menina e um menino peladinhos. A mãe do menino confere o título: “De onde eu vim?”, ou algo parecido. A menina comenta para ela mesma, “Hum, este deve ser legal”. Vai sentar na mesinha, começa a virar as páginas. A mãe do menino ainda não consegue perceber se ela sabe ler ou não. “Ah, que bonitinho isso daqui!”, e continua folheando o livro. Para em uma página, enquanto a mãe do menino acompanha, curiosa, os olhinhos vivos da menina ao ver o livro: “Ih, isso daqui eu não entendi”. A mãe do menino olha furtivamente para a página: espermatozoides desenhados, um bando deles, nadando em direção a um óvulo. “Iiihhh…”. A menina se aproxima da mãe do menino, (que já está em pânico!), com o livro nas mãos: “O que é isto daqui, parecem uns peixinhos, eu não entendi”. A mãe do menino pensa, “Era só o que me faltava ensinar sexo para uma menina de seis anos desconhecida em uma livraria, eu mereço!”. A mãe do menino olha o livro e pergunta, “Você sabe ler?”, e ela, “Não”. (Ufa, menos mal, que alívio). A mãe do menino percorre nervosa os olhos pela livraria, tentando localizar a mãe da menina, sendo que ela não faz a mínima ideia de como a mulher é. A menina pergunta de novo, e a mãe do menino, pega absolutamente de surpresa, imaginando que seria uma loucura começar a explicar sexo pra menina, vai que a mãe dela aparece, e pensa, “O que esta doida pensa que está falando pra minha filha, sem minha autorização?!”, e a mãe do menino apenas diz, “Ah, este livro não é para a sua idade, pega outro ali, vai!”. A menina olha com cara de decepção para a mãe do menino. Grita pela mãe dela, que demora a aparecer, mas aparece, e a menina vai dizendo, enquanto a mãe do menino meio que se esconde atrás de outro livro, “Eu não entendi isso daqui e daí ela falou para eu pegar outro”, e a mãe da menina segura o livro, olha a capa, “Ah…”, fica uns segundos pensando no que vai fazer, “Ai, meu Deus, não esperava ter que dar aulas de sexo para a minha filha de seis anos no meio de uma livraria de shopping em frente a estranhos!”, mas, não perde o rebolado: pega umas almofadas do chão, senta-se com a menina, e começa a explicar tudinho, com o jeito mais doce do mundo.

A mãe do menino finge que está lendo um livro do Harry Potter, mas em realidade fica ouvindo atentamente a “companheira de luta” em um dos momentos mais difíceis do doce ofício. Inesperado tão esperado. Um dia ia ser a sua vez também, e queria estar preparada.

Literatura

Os pescadores

pescadores

por Cassiano Rodka

Nem por pesca, nem por dores
Que seguiram a remar
Encontravam-se perdidos
Nos diversos tons do mar

Seja marinho ou celeste
Claro, escuro ou de pintar
Tão azul era o caminho
E o barco, devagar

Em correntes de incerteza
Em marés de azar
Seguiam as pás remando
Sem sair do lugar

Mas quem sabe traga o vento
Novas rotas a traçar
Se mesmo o mar se reinventa
E o que resta é remar.

Literatura

Pequenas felicidades certas

pequenasfelicidadescertas

por Clarice Casado

Ao contrário do que diz a lenda, creio que o ser humano não tem absolutamente nada de complexo. Somos simples, simplíssimos. Nós mesmos nos auto-rotulamos “complexos”, para aceitar mais facilmente os nossos problemas.

Você certamente já ouviu o jargão mais de um milhão de vezes, “Ah, a vida é assim mesmo, cheia de problemas, porque o ser humano é muito complexo”. Não, não, não me venha com esta. Somos simples, simplíssimos. O mundo ao nosso redor é que talvez seja complexo demais: informações demais, pessoas demais, veículos demais, casas demais, prédios demais, barulho demais, guerras demais, vaidades demais. Tempo de menos, alegria de menos, satisfação de menos, organização de menos, inteligência de menos, cultura quase zero. Ser humano complexo? O ser humano é composto por um corpo, cheio de sangue e pele e ossos, que tem um cérebro que acaba se preocupando demais ao longo da vida com o mundo complexo ao seu redor, e, conclusão bombástica: começa a julgar-se hiper complexo, e assim se fecha em seus problemas e sua vida passa a ser regida por eles, e só o que sabe dizer é “Tenho problemas, estou cheio de problemas, os meus problemas me sufocam”.

Nascemos tão simplezinhos, em um momento simples, bonito, onde pais e mães estão mais felizes do que nunca, esquecendo por alguns instantes todos os seus problemas de adultos complexos que são; nascemos em um ambiente de alegria, amor, completude, perfeição. Êxtase. Não acho complexo, acho muito simples. Simples e bonito. A palavra complexo é complexa, empolada, horrorosa. Complexo, para mim, é sinônimo de difícil. Não nascemos de maneira difícil. Em geral, o bebê nasce sem maiores problemas, e vai viver durante uns bons dez anos uma vida simples, muito simples, onde precisa apenas comer, dormir, brincar, e – vá lá – estudar um pouquinho.

E então, de uma hora para outra você faz onze anos e parece que tudo fica complexo, difícil, complicado mesmo. Você quer brincar, mas tem vergonha de brincar. Você quer ficar entre os adultos, mas tem vergonha de dar a sua opinião sobre os assuntos. Você deixa de ser simples. Na sua cabeça, tudo está muito claro, você pensa, “nossa, como a minha vida está complicada!”, e se sente o cara mais problemático do mundo, sendo que ainda está há alguns anos do vestibular e nem sonha como vai ser a neurose da sua primeira paixão ou a pressão inigualável do seu primeiro emprego. Mas o conceito (preconceito?) está criado: “Sou um ser complexo e estou destinado a sofrer pelo resto de minha vida…”.

E então, a vida passa zunindo e gritando desesperada, como cigarra em dia escaldante de verão, e você se encontra com trinta anos, e depois com quarenta anos, e então descobre que há algumas coisas no seu corpo que não funcionam mais como antes; seu trabalho não era bem aquilo que você tinha sonhado quando entrou pela primeira vez na universidade; seu companheiro ou companheira parece ser um extraterrestre, alguém que você não reconhece mais e nem sabe porque um dia chegou a amar; seu filho adolescente nem sequer olha na sua cara quando conversa com você, agora só grita, tem chiliques, tem um ataque histérico só porque acha que foi você quem perdeu a tampa da cola Prit que ele estava usando em um trabalho da escola. Pânico!

Mas, alto lá, leitor, acalme-se: vamos tentar parar de achar que a vida é apenas um emaranhado repugnante de problemas e mais problemas. Lembro-me até hoje de um texto da Cecília Meirelles que li quando tinha uns doze anos de idade, intitulado Pequenas Felicidades Certas, que é a coisa mais mágica que já entrou em mim sob a forma de letras. Nada como aquilo, nada, nada. Mágico, fantástico. Se todos soubéssemos dar o devido valor às pequenas e simples coisas que nos rodeiam diariamente, seríamos, sim – e não há aqui nenhum lugar-comum – muito, mas muito mais felizes e satisfeitos.

Um dia, parada em um farol, vi um velho senhor acariciando com amor uma árvore. Sim, acariciava-a como se fosse uma filha. E talvez fosse mesmo. Talvez fosse sua única parente, aquela árvore na rua dele. Aquela era a sua pequena felicidade certa. Pequena e simples, acariciar a árvore, todos os dias, cantar para ela. Todos podemos ter as nossas pequenas felicidades certas. Basta olhar em volta, tentar modificar o olhar. Tentar ver novas coisas nas antigas coisas. É como ler um livro ou ver um filme pela segunda vez. Nunca é igual. Fazer das coisas velhas coisas sempre novas é saber olhar de maneira diferente. E saber olhar de maneira diferente é saber viver intensamente, é saber prolongar o curto espaço de tempo que se tem sobre a Terra. É saber fazer de sua existência uma existência especial, marcante, significante. Permanente.

Literatura

Discussões esportivas

discussoesesportivas

por Clarice Casado

Ok, eu confesso. Detesto futebol. Ora, o que posso fazer, juro que já tentei entender o esporte do bando de caras coxudos correndo atrás de uma bola, mas, o que posso fazer, eu não gosto! Não me atrai, não me prende a atenção. Respeito imensamente quem gosta, acho admirável aquela garra de torcida, aqueles gritos esganiçados das pessoas frente ao campo verde (olha, do campo eu gosto, acho aquilo de uma beleza fora do comum, ao menos quando visto de longe!).

Já fui até jogadora de futebol de botão! Confesso, de novo! Devia ter uns dezenove anos, aprendi todas as regras e jogava com um bando de moleques liderados por meu padrinho de batismo, um (ex) aficionado pelo esporte. E eu era boa na coisa! Cheguei até a tirar quarto lugar em um campeonato, certa vez (e juro de pés juntos que não havia só cinco participantes!). Porém, aposentei-me, pelo amor de Deus, descobri que era melhor namorar, ler e ir ao cinema e ao shopping, com aquela idade!

Passado um tempo, desenvolvi uma teoria: as pessoas transformam-se vendo jogos de futebol. As mais recatadas mocinhas podem virar uns demônios cuspindo fogo na frente da tela! Tenho uns primos que simplesmente perdem as estribeiras, são tomados de uma fúria selvagem, são capazes de matar…! Recado: nunca firme um compromisso sério (namoro, morar juntos, casamento) com alguém sem antes observá-lo assistindo a uma partida de futebol. Grandes surpresas podem ocorrer…! Você só conhecerá verdadeiramente o seu parceiro após esse “mágico” momento!

Quer outra dica? Experimente checar se ele ou ela, além de se esbaforir e gritar na frente da telinha com gramadão verde e homens coxudos, vai depois, logo mais à noite, assistir as mais variadas e loucas e gritonas discussões a respeito das partidas, um negócio insano que eu nem sei que nome eles dão, onde um bando de homens (de novo!) e também, em alguns programas, uma moça absolutamente maravilhosa e perfeita (que sorri o tempo todo, e é indubitavelmente um colírio em meio àquele bando de trogloditas) ficam em um semicírculo, ou em uma mesa enorme, e começam a discutir por que cargas d’água o fulano chutou para a direita e não para a esquerda, e por que o técnico tal é um imbecil ou não, e se a chuva atrapalhou ou não o jogo, isso quando não tem um jogador convidado, que dá um discurso no mais refinado e bom português, explicando que “a gente fizemos o que pudemos, e o professor achou que foi bom”. Socooooorroooo!!! Alguém me salve!!! Me tira daqui!!!

Sim, tenho vontade de gritar! Bem alto! Com a televisão, com os inflamados participantes do programa, com o meu marido que está assistindo, e tentando fazer comentários comigo, indignado com a discussão, enquanto eu tento, desesperadamente, ler o último livro de crônicas da Martha Medeiros ou do Rubem Alves (que, aliás, admite admirar a arte da bola, porém sem entender bulhufas dela!). Eu acabo retirando-me do recinto, para não causar tensões, afinal, vivemos em uma democracia, se o cara quer ver a discussão futebolística, que veja, ora bolas! E se a mulherzinha intelectual quer ler, vá ler em outro lugar, poxa vida! E estamos conversados.

Literatura

A arte de saber fazer-se desnecessário

artedesaberfazerse

por Clarice Casado

Li outro dia em uma revista que ser pai ou mãe é a arte de saber fazer-se desnecessário. Um dia. Um dia, claro. Aos poucos, à medida que os filhos vão crescendo. Não sei se concordo com tal afirmativa. Posso até concordar que precisamos aprender a nos desgrudar aos poucos dos filhos, mas não concordo que seja arte, porque arte não se aprende. Arte que é boa nasce junto com o artista.

Assim, dizer que é “arte” a consciência de que nossos filhos não precisarão eternamente de nós é maluquice. Podemos aprender a deixar nossos filhos viverem independentes, sem nós – isso, sim. Mas não creio que cortem completamente o cordão umbilical. A ligação é eterna. Só quem não é mãe (ou pai, também) pode dizer que os filhos um dia deixam de precisar de nós completamente.

Essa reflexão surgiu-me porque hoje meu filho partiu pela primeira vez com sua escola para um passeio mais longe, foi à praia de Santos, em São Paulo, para visitar o Aquário Municipal, que é muito conhecido na cidade. Estava eufórico há dias com a expectativa da curta viagem. Contando os dias. Fazendo planos, falando sobre os vários tipos de peixe que veria. Hoje, acordou-se às seis da manhã e veio até mim com um sorriso, “Mamãe, é hoje o dia!”. E eu, compartilhando de sua felicidade, e ao mesmo tempo apreensiva com o fato de ter que deixá-lo ir, “É, filho, que bom!”, para transmitir-lhe toda a segurança de que precisava.

Nos vestimos e arrumei para ele uma pequena mochila, com lanche, água, uma revistinha, um joguinho. Disse-me que não precisava de nada daquilo, a professora avisara que haveria lanches no ônibus e almoço no local, e que eles fariam também atividades divertidas na viagem. Ou seja, surpreendeu-me com sua maturidade e independência rejeitando os pedaços de mim que eu estava enviando na forma do lanche, da revistinha… Mas, tudo bem: aprendendo a deixá-lo ser independente.

Já na escola, os outros amiguinhos traziam também sorrisos satisfeitos, andavam de um lado para o outro, e as mães e pais, ao redor, com as feições exatamente iguais às minhas: misto de felicidade com preocupação. Normal: tentando aprender (com eles) que devemos deixá-los serem independentes.

Em fila, partem para o ônibus. Meu filho me vê, para, me enche de beijos rapidamente, e segue os amigos. Entram rapidamente no ônibus, vejo sua cabecinha entre as poltronas, pelas janelas. Senta-se bem perto de uma, procura-me, começa a acenar vigorosamente, mandando beijos e sorrisinhos. Ouço a música das vozes dos pais, “Onde está o Fulano?”, “Está ali, eu vi, ao lado do meu!”, acenam, mandam beijos, abençoam (várias bênçãos!), “Vai com Deus, minha filha!”.

Nós, ali: assistindo ao começo da independência de nossos filhos. Sorrindo muito, vamos passar-lhes segurança. Mas vamos deixá-los ir. O ônibus dá a partida, as vozes dos pais aumentam e se confundem em um mar de “tchaus” e acenos sem parar. As crianças todas riem. A expectativa da chegada em um lugar desconhecido, pensei, “O que será que estão pensando agora, cada um?”. Um nozinho na minha garganta, aquela vontadezinha de chorar, apertinho no coração. E o sorriso firme nos lábios, meus olhos fixos nos dele.

Um espetáculo. Verdadeiramente, felicidade em estado bruto. Isso sim, arte.

Literatura

Balão surpresa

balaosurpresa.jpg

por Clarice Casado

Ela nasceu em uma tarde de terça-feira, um feriado nacional. Não lembra-se de nada, como de nada lembra-se ninguém, sobre o momento em que nasceu. Dizem que vemos uma luz. É claro. Saímos do escuro para o claro, de maneira tão abrupta, que deve assustar. E não foi à toa que chorou, meio baixinho, mas chorou. Todos choramos quando nascemos, e não é por acaso. Das trevas faz-se a luz. Engraçado é que dizem que quando morremos vemos também uma luz. Ela gostava de pensar que quando morremos voltamos ao útero. Mais ou menos isso. É como se voltássemos ao melhor lugar do mundo, aquele lugar do qual jamais gostaríamos de ter saído.

Sua mãe conta que estranhou quando ouviu seu choro baixo, “Muito baixo”, disse que pensou. E achou-a muito roxinha quando a viu pela primeira vez. Quis saber se ela estava bem, o médico disse que sim. Ela achava super engraçado ouvir sua mãe dizendo que queria senti-la, claro, afinal, ela havia morado na barriga dela por nove meses, mas, quando sentiu seu rostinho pequeno tocando-a, sentiu um pouco de nojo, só um pouco, porque seu rostinho estava todo gosmento, com aquela gosma de nenê que recém saiu da barriga da mãe. Ela gostava de saber que a mãe era sincera. E sabia que não ia ser um nojo de gosma de bebê que as afastaria na vida, não.

Adorava ouvir essa história, a história do dia do nascimento dela. A melhor parte era ouvir o que aconteceu antes. Sua mãe nunca disse que a sensação era “indescritível”, como costumam dizer a maioria das mulheres que passaram pela experiência de dar à luz. A mãe descrevia tudo como ninguém.

Primeiro tudo calmo. A barriga estava ali, e logo iria desaparecer. Aquela barriga grande, enorme, imensa. Aquela barriga que a mãe não suportava mais carregar. Ansiosa, queria ver logo o rostinho dela. E ela queria mesmo sair. E vai ver que a mãe sabia disso. Então a mãe dizia que se sentia como um balão surpresa. “Balão surpresa?”, ela perguntou na primeira vez que ouviu. É. E então a mãe explicava que quando era pequena, nas festinhas de aniversário havia um negócio chamado balão surpresa. Os adultos enchiam um enorme balão com um monte de coisas: balas, doces, pequenos brinquedos. Depois, enchiam de ar, como um balão normal, e o penduravam no teto do lugar onde estava sendo a festinha. Em um determinado momento da festa, a criançada era avisada que estava na hora de estourar o balão. Iam todos para debaixo do balão, esperando ansiosamente o momento do balão ser estourado para que caíssem todas as surpresinhas para as crianças se matarem de gritar e de pular e às vezes de brigar para pegá-las. Na verdade aquilo não era bem uma surpresa, porque as crianças já sabiam mais ou menos o que iria sair dali. Mas não exatamente. O balão precisava ser estourado para que as crianças descobrissem e vissem de perto quais doces, balas e brinquedos estariam no balão. E então vinha a melhor parte da história: sua mãe amava o balão surpresa, mas morria de medo daquele momento. Fica curiosíssima para saber o que tinha lá dentro, mas morria de medo dos momentos que antecediam o estouro do balão, bem como o momento do estouro. Odiava aquela criançada pulando umas em cima das outras, se matando pra pegar umas balas e brinquedinhos. Achava tudo meio louco. Seu coração batia forte, apertado. Muitas vezes, a mãe de sua mãe corria junto com as crianças no momento do balão para ajudar a filha, porque sabia que a menina ficava apavorada e acabava não pegando nada. E minutos após o estouro do balão, sentia um alívio tão grande que muitas vezes queria chorar.

Ela levou muitos anos para entender por que sua mãe sentia-se como um balão surpresa. Um dia, entendeu. A mãe enfrentou o balão de novo no dia que ela nasceu. Morreu de medo, achou que o coração iria sair-lhe pela boca, mas assim que viu a surpresa do balão, tudo passou. E chorou. Um choro de alívio, felicidade, satisfação. Um choro da mais pura qualidade. Choro de mãe.