Clarice Dall’Agnol

Literatura

A noiva

noiva

por Clarice Casado

Olhou muito compenetrada para a saia branca, rendada e muito rodada. Ajeitou uma das alcinhas da parte de cima do vestido, preocupada, pensando, “Ai, será que esse negócio não vai despencar na hora que eu for dizer “Sim!”?. Aflita, ainda perguntou ao homem que estava ao seu lado que horas eram. O homem, um velho que cheirava a tabaco, suor de cinco dias e cerveja, murmurou algo como “Dez pra cinco”, e virou pro outro lado bruscamente, como se estivesse lhe fazendo um grande favor. Pensou, “Velho estúpido, deveria era me respeitar, já que vou casar daqui a duas horas e dez minutos”. Suava. Devia estar fazendo uns 30 graus, e olha que ainda era outubro. Podia até sentir umas gotinhas quentes de suor escorrendo pelas suas costas ossudas. “Menina, come mais desse feijão”.

Nada do ônibus. O calor daquele dia típico de primavera naquela pequena cidade do interior da Paraíba fazia com que ardesse sua face rosada, que hoje estava ainda mais rosada, por causa do blush vermelho-terra, meio velho e ressecado, que a Matilde tinha insistido em passar nela, “Vai, sua boba, deixa eu passar, é chique, eu vi numa revista”. Boba era a Matilde, achando que aquilo iria alterar muito a sua imagem de noiva. Mudou, sim, fez com que ficasse com cara de mais velha, pelo menos isso, porque, afinal, casar com dezoito anos e contra a vontade do pai não era uma boa coisa, ela sabia disso, mas, fazer o que, tinha se apaixonado pelo Juninho como nunca tinha se apaixonado por homem nenhum nessa vida, e ele falou, “Vamos casar, Geralda, vamos, eu amo você e você sabe disso”, pronto, bastaram essas palavras para a Geralda se derreter todinha, como se derretem todas as mulheres com qualquer punhado de palavras ditas por homem apaixonado.

E o ônibus, nem sinal. Os sapatos brancos de couro, com um bico muito fino que a Matilde tinha emprestado já doíam (ela estava era acostumada com um bom par de sandálias de tiras de couro cru, bem baixinhas, confortáveis), e então ficou pensando no trabalho que aquelas bolhas iriam dar pelo resto da semana, quando tivesse que arar a terra com o pai. Lembrou-se da cara carrancuda do velho quando ela estava saindo de casa, toda vestida de noiva e bonita, do velho com aquele jeito dele, de desaprovação mas também já meio que se arrependendo, já meio doido de vontade de sentar ela no colo e cantar cantigas antigas, cantigas do tempo em que ela ainda cabia direitinho no colo dele. “A tua mãe se tivesse viva ia fazer a mesma coisa, ela nem ia gostar desse Juninho, disso eu sei, porque ele é moço bonito demais, só vai dar trabalho pra você, vai te aprontar, e você vai voltar correndo pra casa chorando e daí nem vai adiantar, porque você sabe que eu não vou passar a mão na sua cabeça de vento, minha Florzinha, você sabe disso”.

E as palavras estavam ali, dançando no pensamento dela, agora estavam até martelando, porque começou a sentir um tantinho de remorso, e um tantinho de pena do pai. Ela havia prometido que iria continuar ajudando-o com a terrinha dele, que ele ia continuar plantando o milho, e que ela estaria ali, todas as manhãs. E à tarde continuaria com seu trabalho na escola, ensinando as crianças a ler e escrever. Ela sabia que o pai era todo orgulhoso porque ela tinha feito magistério na capital e que agora era professora, ele gostava de contar isso pros amigos, e ela ficava toda boba. Boba meio que se sentia agora, ali esperando aquele ônibus, pra ir casar com o Juninho na igreja da cidade vizinha, que era onde o Juninho morava, e, que ela soubesse, não ia ter muita gente no casamento, porque os pais dele também não aprovavam muito a coisa. O primo dele, o João Grande, ia estar lá, porque ele é que tinha feito com que os dois se conhecessem. E a Matilde, claro, mas ela ia depois, porque a lojinha de tecidos só fechava às cinco, e a patroa dela não quis de jeito nenhum deixar ela sair mais cedo pro casamento da amiga, “Cretina, mal-amada, isso é o que ela é”. A Matilde era uma moça meio brava, isso ela sempre foi. Lembrou-se do dia em que as duas estavam em uma festa de São João quando tinham uns treze anos, e a Matilde brigou com um rapazinho porque ele havia dito umas gracinhas pra ela. Só faltou bater no garoto. Aliás, ela queria bater, mas a Geralda não deixou.

Queria saber de novo as horas, mas ficou com medo de perguntar ao velho ranzinza. Pensando bem, até que o velho lhe lembrava o seu pai, com aquela cara sempre azeda, aquela cara de amargura, provocada pela vida e pelo tempo, e pelas coisas tristes e duras que ele já tinha passado. Quando a mãe da Geralda morreu, ela tinha três anos, pegou uma tuberculose e não durou nem uma semana. A Geralda não conseguia lembrar da mãe, e o pai só tinha uma foto dela, de quando eles casaram. Ela tinha ficado um tempão olhando praquela foto, só pra memorizar como era o vestido da mãe, porque ela queria um igualzinho. Mas na verdade não dava pra fazer igual, porque nada é igual nesse mundo, pensou a Geralda. Desistiu da foto, foi na costureira da lojinha que a Matilde trabalhava e falou, bem decidida, mas com as feições tristes, “Moça, eu quero um vestido branco pra casar, só isso, não precisa ter renda nem pedras, porque eu não tenho dinheiro para pagar”. A costureira olhou pra ela morrendo de pena, e disse, “Minha linda, você deixa eu fazer um vestido bem bonito pra você, deixa? É por minha conta. Essa minha barriga não conseguiu segurar filho nem filha, e eu fiquei assim, sozinha. Nunca vou ver um filho casando, então, deixa eu fazer um vestido bonito pra você, do meu jeito?”. A Geralda até meio que se emocionou, apesar de não ser moça dessas coisas, de choros e manhas, já que foi criada sem mãe. Mas gostou de ouvir aquilo daquela desconhecida naquele momento. Pronto, ela ia ser a sua mãe, naquele momento. Decidiu deixar a mulher fazer o vestido do jeito que quisesse, “Tá bom, então a senhora faz do jeito que achar mais bonito, pode até colocar renda, mas pedra não que eu acho meio metido a besta”, e a costureira ficou realizada, sorriu pra Geralda, e disse que ia usar uma linda renda que tinha chegado ontem do Nordeste.

O pai veio de novo no seu pensamento. Chegou mais um homem na parada, olhou pra ela, nem ligou. Às pessoas naquela terra não se surpreendiam com nada, não era uma noiva esperando o ônibus que iria mudar muito a vidinha pacata delas. Olhou ao seu redor, e ficou percebendo a cidadezinha, e os seus poucos movimentos. Parecia mesmo que nada se mexia por ali. Era como se fosse um quadro daqueles pintores famosos do Brasil que ela tinha estudado no colégio. “Paisagem ao Luar”, ela pensou que esse ia ser um título bonito pra um quadro, ela lembrava que tinha uns títulos assim. E já estava mesmo aparecendo um pedacinho de lua no céu, naquela terra o sol se punha cedo, e as pessoas paravam cedo. Vai ver que era por isso que cidadezinha parecia tão parada, pensou. Não, isso não, porque parecia parada de dia também.

O homem olhou de canto pra ela, uma vez. Agora ela notou que ele parecia meio nervoso, tinha um relógio de plástico amarelo no pulso, que olhava a cada dez segundos. Suava. Todos suavam. Mas ele tinha um suor diferente, não era apenas o cheiro, era o jeito. Geralda queria era que o ônibus chegasse logo, levava mais de uma hora pra chegar na cidade do Juninho. “Bom”, pensou, “o casamento não vai começar sem mim”. Ajeitou de novo a alcinha do vestido, que ainda insistia em cair.

Nem percebeu quando o homem mexeu em um dos bolsos da calça. Mas ele mexeu, parecia que procurava algo. O velho pegou fumo do bolso, e começou a preparar um cigarro de palha. Geralda olhou e nem ligou muito, mas ficou com um pouco de nojo das mãos do velho enrolando o cigarro, eram sujas, de terra e de sujeira mesmo, sujeira de uma semana sem banho. Fedia o velho, agora é que ela notara.

O homem estranho carregava uma sacola verde que parecia uma mala, e era toda de plástico, com uns detalhes em couro falso, marrom. Devia estar indo viajar também. Mas por aquelas bandas era tão comum ver gente carregando coisas como ver uma noiva em uma parada de ônibus. Ninguém nem notava. Ninguém tinha carro, o ônibus era o único meio de transporte para todos. Ou umas bicicletas velhas, mas ela achava que era melhor chegar na igreja caminhando, após ter descido do ônibus, que provavelmente ia estar quente e fedorento. Bicicleta ia acabar com seu vestido, que a costureira boa alma tinha feito com tanto carinho.

Tudo o que aconteceu depois que Geralda pensou na costureira e na bicicleta foi tão rápido e inesperado, que o velho do palheiro está até hoje tentando recompor os fatos e entendê-los. O velho nem terminou o palheiro, aliás.

Geralda mal acreditou quando viu o pai correndo em sua direção, o velho vinha meio que mancando (ele mancava), como sempre, mas corria mancando, com a velha espingarda na mão. O homem ao seu lado também estava tirando do bolso um revólver pequeno, que Geralda não sabia dizer de que tipo era, porque não entendia nada de armas. E ela não sabia que enquanto ela estava na parada do ônibus aquele mesmo homem estava assaltando a pobre casa do pai, e que lá tinha encontrado a caixinha de economias do pai, umas economias de uns vinte anos, pelo menos, porque ele se recusava a ir ao banco, achava que iam roubar o dinheiro dele. E ela só viu o pai vindo em sua direção, e automaticamente disse “Paizinho!”, e o homem ao seu lado, mesmo meio bêbado, agarrou-lhe pela cintura dizendo, “Para aí, velho, ou eu acabo com a tua filha”, e o velho, que enxergava mal, não entendeu a princípio tudo aquilo. Só viu a filha nas mãos do ladrão e sentiu um frio na barriga. Daqueles calafrios que só quem é mãe ou pai sente. Daqueles que dão medo de perder a própria carne, aquele medo de perder o próprio sangue e depois passar os resto da vida sem nunca mais ser uma pessoa de verdade de novo.

O velho só teve força de dizer, “Larga minha menina”, e a menina, toda vestida de branco, sentiu uma fraqueza tão grande nas pernas, uma fraqueza que inundou o corpo de um calor misturado com frio, com frio, com calor, mas conseguiu respirar, sentiu que ainda estava viva. Fechou os olhos. O estampido da espingarda foi claro. O cheiro de sangue também. O homem ainda a segurava. Sentiu sua mão molhada, mas não conseguia abrir os olhos. Estava de pé, ainda. O homem tombou ao seu lado, sentiu o baque surdo. Resolveu olhar. O vestido aos poucos ia se tingindo de um vermelho vivo, um vermelho igual ela nunca havia visto antes. Parecia aquele vermelho do céu de final de tarde, naqueles dias em que ela tinha a mais pura certeza de que Deus existia. A imagem vermelha cegou-a por alguns instantes. “Pai”, “Meu Pai”, pensou. As pernas foram fraquejando. Não entendia que o sangue era dela. O pai, que entendera, vinha desesperado em sua direção. O pai olhou fundo em seus olhos fundos. Calou e acariciou sua testa, “Filha, minha filha”, Geralda nada pode dizer. Segundos apenas. O velho pai apenas apontou a espingarda para o próprio peito. E os dois voaram de mãos dadas para longe dali.

Literatura

A revolta dos saltimbancos

revoltadossaltimbancos

por Clarice Casado

“All animals are equal, but some animals are more equal than others.”
(“Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros”)

“Animal Farm” (“A Revolução dos Bichos”), George Orwell

Os Saltimbancos estão tocando no meu carro há alguns dias, já. As músicas foram traduzidas e adaptadas por Chico Buarque a partir de texto original de Sérgio Bardotti, que, por sua vez, inspirou-se no conto Os Músicos de Bremen, dos irmãos Grimm.

Comprei o CD remasterizado (o álbum original foi gravado em 1977) por acaso em uma livraria dia desses, porque costumava ouvi-lo na infância. Era para ser um revival. Um doce e inocente revival com igualmente inocentes musiquinhas infantis. Inocente sou eu, de pensar que o Chico, em 1977, iria escrever músicas, mesmo que para crianças, sem umas alfinetadas na ditadura suavemente inseridas na clássica história do Jumento, do Cachorro, da Gata e da Galinha que queriam ser músicos na cidade.

Começo a ouvir a primeira canção, Bicharia, que começa assim, “Era uma vez (e é ainda), certo país (e é ainda)/Onde os animais eram tratados como bestas (são ainda, são ainda)/Tinha um barão (tem ainda)/Espertalhão (tem ainda)/ Nunca trabalhava então achava a vida linda (e acha ainda, e acha ainda)/O animal é paciente, mas também não é nenhum demente/Quando o homem exagera, bicho vira fera, e ora vejam só/. Bem, só não vê quem não quer que os “animais” são o povo oprimido pela ditadura, principalmente os perseguidos: os estudantes, os intelectuais, os artistas e até os trabalhadores que foram tratados como “bestas”, mesmo, pelo ultrajante e repugnante sistema imposto pelos militares. E o “barão espertalhão”, clara referência aos presidentes militares, minha nossa senhora, Chico Buarque é mesmo fabuloso! O cara conseguiu, em plena ditadura, criticar duramente o sistema através de um musical para crianças!

E acreditem os leitores (e confiram, inclusive, comprando o CD, já que as músicas e letras são magníficas), todas as canções têm sentido duplo, todas as canções resumem a ditadura, de maneira inacreditável. A Galinha, que “não consegue mais botar ovos” de acordo com os parâmetros impostos por seu “patrão”, quer sair para cantar, sair pra ver o mundo, quer se libertar : “Mas um bico a mais/Só faz mais feliz/A grande gaiola/do meu país/. “A grande gaiola do meu país”!!! Palmas, Chico! O interessante é que todas as canções contam com vozes infantis, que amenizam (ou pretendem amenizar, e muito), o efeito contundente das letras. É um fabuloso jogo de palavras que enfeitiça e desafia, do início ao fim do musical.

A Gata, na magnífica voz de Nara Leão, menciona aos amigos Jumento, Cachorro e Galinha, a certa altura do musical, “Cantar uma música me custou muitíssimo”, e segue contando sua história, sob forma de uma das melhores canções do musical, na minha opinião, História de uma gata: “Me diziam a todo momento/Fique em casa não tome vento/Mas é duro ficar na sua/quando a luz da lua/tantos gatos pela rua/que de noite saem cantando assim/Nós gatos já nascemos pobres/Porém já nascemos livres/”. Era duro “ficar na sua”, enquanto diversas pessoas estavam nas ruas lutando pela queda do regime militar, muitas escondidas, e outras diversas sendo torturadas nos porões sombrios do D.O.P.S.

Os animais, juntos, chegam à “pousada do bom barão”, que é um dos momentos mais tensos do musical. Então descobrem que seus patrões estão todos reunidos nesta casa, confabulando. Decidem, juntos, dizendo que estão cansados de tudo, que precisam atacar. A luta armada, representada inocentemente por um jumento, um cachorro, um galinha e uma gata revoltados com seus “patrões”! Palmas para o Chico, de novo! Eles não derrotam os barões, mas os barões fogem. O Jumento, então, ensina a “terceira lição do dia”, “Os homens sempre voltam”. Assim, sugere aos companheiros que se escondam. Eles concordam e obedecem, e escondem-se, cantando uma outra canção, “Esconde-esconde, cabra-cega/Tá aqui?/Tá lá?”. Os barões voltam mesmo, e são atacados novamente pelos animais. Os animais dessa vez vencem, e o Jumento alerta-os que só venceram porque uniram suas forças, estavam “todos juntos”. Inicia-se uma das últimas canções do musical, Todos Juntos: “Todos juntos somos fortes/Somos flecha e somos arco/Todos nós no mesmo barco/Não há nada pra temer/Ao meu lado/Há um amigo/que é preciso proteger/”. Uma clara alusão à premente necessidade de união do povo para vencer a batalha reinante no país engaiolado pela ditadura militar.

Além de tudo isso, Os Saltimbancos do Chico é uma inegável e interessante releitura de A Revolução dos Bichos (“Animal Farm”), de George Orwell, de 1945, uma fábula sobre a Revolução Russa de 1917 e o surgimento do regime Stalinista. Na narrativa de Orwell, os bichos de uma fazenda (representando o proletariado da Rússia à época da revolução) reúnem-se, indignados com suas condições de vida e de trabalho e resolvem expulsar o patrão (“Mr. Jones”, que simboliza o Czar Nicolas II) e criar novas regras de convivência entre eles, liderados por um porco (“Old Major”, simbolizando Karl Marx, o mentor intelectual da revolução). Old Major morre, e logo o poder é disputado por outros dois porcos, Napoleon (personagem metafórico para Stalin) e Snowball (o Trotsky de Orwell). Mas logo Napoleon assume de vez o poder, e em pouco tempo, um pequeno grupo de animais, sob liderança de Napoleon, acaba por instalar uma nova ditadura, provando o corrompimento pelo poder, não importando a natureza do regime, naquele caso, se fascista (o do patrão) ou comunista (o dos porcos).

Metáforas e mais metáforas, é de metáforas que foram construídos os textos de Chico e de Orwell. Metáforas do início ao fim. O medo, quando se escreve, é algo sempre presente, para o escritor. Mas eu fico imaginando o medo (e o prazer, ao mesmo tempo), de Chico Buarque, que escreveu seu bestial manifesto em plena ditadura, e de George Orwell, que concluiu Animal Farm em 1944, mas só publicou-o em 1945, após o final da Segunda Guerra. Que medo fabuloso.

Bem, depois de tudo isso, respiração ofegante, coração batendo muito forte, só resta-me dizer: “Ave Chico. Ave Orwell”. Quanta sutileza. Quanta coragem. Quanta poesia. Penso que a poesia em tempos de guerra é a mais genial que existe.

Literatura

Para onde vão os e-mails que não chegam?

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por Clarice Casado

À Luísa e suas sensíveis e perdidas palavras

O texto inicia-se com uma pergunta. A autora pergunta aos leitores? Pergunta ao infinito, ao vento, a quem pergunta? Não sei. Não sabe. A autora não sabe a quem pergunta, e a pergunta perde-se no tempo e no espaço, bem como os e-mails que nunca chegam. Que preocupação é esta, autora? Parece ser uma preocupação pequeno-burguesa altamente insignificante, mas não é!

Não, não é insignificante mesmo. Imagine-se escrevendo uma bonita e enorme e cheia de detalhes carta eletrônica (sim, porque quem gosta de escrever cartas apenas deixou de escrevê-las a mão para escrevê-las virtualmente), a carta termina, você envia muito contente ao seu destinatário, e aguarda a sua resposta. Passa-se um dia. Passam-se dois dias. E três, e uma semana, e, neste ponto, você ainda pode estar pensando que a pessoa é daquelas estranhas que checa a correspondência eletrônica de vez em nunca, mas vá lá, você ainda aguarda. E um mês transcorre e você já até esqueceu que enviou a carta, quando encontra, por acaso, o Fulano ou a Fulana a quem você havia enviado a carta na fila do cinema, não resiste e pergunta, “Escuta, você não recebeu o meu e-mail?”, e a pessoa olha para você com aquela cara mais calma do mundo, e fala, para o seu desespero, “Não, não recebi”, você faz aquela cara de tacho, decepcionadíssimo, tentando lembrar de todas as palavras que escreveu, triste, por que agora sabe, tem a certeza absoluta que a pessoa não recebeu. Decepção. Ódio do Bill Gates, da Internet e do mundo globalizado inteiro!

Uma prima querida e distante passou por esta trágica experiência dia desses, e a destinatária da carta eletrônica dela era eu. A cena foi exatamente esta, com exceção de que eu não a encontrei na fila do cinema, mas sim em uma de minhas viagens à minha terra natal, onde ela mora. Ela não podia conformar-se, pois disse-me que havia escrito uma longa carta, elogiando e comentando uma crônica minha, coitadinha, seu olhar e sua expressão eram de alguém que havia perdido algo muito importante. E havia mesmo, concluí: perdeu um momento. Um momento em que provavelmente estava muito inspirada, e escreveu coisas doces e verdadeiras para alguém de quem gostava. Um monte de palavras unidas que perderam-se no espaço virtual para sempre. Como resgatá-las? Não tem como. Aquelas exatas palavras, naquele exato dia, aquele exato sentimento que sentiu ao ler meu texto e fez com que me escrevesse nunca mais voltarão.

Algumas semanas após ter descoberto que eu não recebera sua carta, enviou-me outra, uma carta sensível e recheada de idéias interessantes, dizia ela que tivera problemas com sua caixa de e-mails, não tinha muita familiaridade com ela, e provavelmente estava a fazer algo errado na hora de enviá-los. Comentava ela sobre a angústia de escrever coisas que desejava fortemente que as pessoas queridas lessem, mas sem saber se elas efetivamente iriam ler. Fantástico. Penso que um dos aspectos da vida resume-se exatamente nisto: temos uma angústia constante porque não sabemos se seremos correspondidos, em todos os sentidos. Em todas as situações. Em todos os momentos. Em todas as tomadas de decisão. É ou não é?

O interessante é pensar que muitos pensamentos e atitudes nossas ao longo da vida ficam igualmente perdidas em algum lugar do tempo e do espaço. Palavras não ditas, gestos não feitos, decisões adiadas, ou, o que é pior, erradas, ou, pior ainda, jamais tomadas, por medo ou insegurança. Decidimos a cada dia de nossas vidas e a cada momento delas, mesmo sem perceber. Pequenas coisas que mudam o curso de nossas existências para sempre. Ter a consciência de que o poder de decidir e mudar está, em sua grande parte, em nossas mãos, é o primeiro passo a ser dado na dura jornada do auto-conhecimento. E são muito poucos os que conseguem.

Literatura

O circo

Ilustração: Cassiano Rodka

Se eu armo o circo, é pra te ver sorrir.
E banco o palhaço em troca de abraço.
E perco o cansaço em busca de bis.
Na corda bamba, um bobo insensato.
Na troca do ato, um tolo feliz.

Se eu caio na rede, é por não voar.
E piso no espaço com breve embaraço.
E teço o compasso com gosto de anis.
No erro do braço, um tropeço.
No traço tentado, um triz.

Se eu armo o circo, é pra te ver sorrir.
Se eu armo o circo, é pra te ver.
Se eu armo o circo, é pra ti.

Literatura

A Moura Torta

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por Clarice Casado

Não há coisa melhor que a infância. Bem vivida, cheia de liberdade e ao mesmo tempo cheia de vigia e cuidado dos pais, cheia de brincadeira e picolé, cheia de primos e histórias. Cheia de bichinhos e de férias na praia. Cheia de alegria e quase nada de tristeza. Tão cheia de nós mesmos, crianças que fomos e que sempre às vezes queremos ser.

Mas, melhor ainda que infância é lembrança de infância. E lembrança de infância chega de repente, meio sem avisar, que nem amigo íntimo, que bate na sua porta em momento inesperado, mas sempre é bem recebido, com amor.

Veio outro dia me encontrar uma dessas lembranças. Veio daquele jeito que eu já falei, eu estava ali, e ela chegou meio intrometida, que metida! E se instalou, e ainda está aqui, comigo, depois de alguns meses, e agora vai pro papel, o que é bem interessante, já que essa lembrança saiu do papel pra me encontrar também, parecia até que dizia, “Oi, Clarice, vem me ver que bonita”, está bem, lembrança. E deixei ela entrar.

Um livro chamado “Contos Populares do Brasil” – que também me encontrou – no aeroporto de Recife, me trouxe de volta a lembrança de infância. Esperando por um voo para São Paulo, estava em uma livraria a folhear justo este livro, quando a lembrança pulou na minha cara: susto, um título, “A Moura Torta”, que eu não ouvia desde a infância. Um misto de imagens, uma atrás da outra, como um verdadeiro slideshow de computador, vieram à minha mente. O título do conto trouxe-me meu pai, muitos anos mais novo, de bermudas, na frente da churrasqueira, aquele cheiro de churrasco, noite, cheiro de suco de uva e de sereno e de maresia, barulhinho de mar, primos, risadas, noite estrelada, lua bem gorda, minha mãe cortando nossa carne, friozinho de litoral, minha avó e meu avô passando com pratos, copos e talheres por um caminho de lajes vermelhas que ligava a casa de praia à churrasqueira, eu, meus irmãos e primos correndo com medo do escuro e rindo e gritando atrás dos dois velhinhos, árvores, árvores, árvores tortas. Medo da Moura Torta. Depois do churrasco, meu pai de bermudas nos contando várias histórias, Formiguinha e a Neve, Velho do Surrão, A Moura Torta.

Na história dele, da qual só me lembro do fim, uma mulher se transforma em uma árvore torta, e passa a ser chamada de Moura Torta. Havia uma árvore no quintal da casa de praia da minha avó que era toda torta esquisita, e meu pai dizia, “Vocês estão vendo aquela árvore da avó de vocês ali? Pois a Moura Torta se transformou em uma igualzinha”. Pronto. Bastou isso pra que eu passasse todos as noites de verão da minha infância sem ter coragem de passar por perto da árvore. Meu pai contava histórias de dar medo, e a gente adorava. Pedia mais. Acho que as histórias de antigamente eram mais autênticas, não tinham essa besteira exagerada de “politicamente correto”.

E a lembrança então me encontrou. Comprei o livro imediatamente, e no avião comecei e terminei de ler a história, cujo final não tinha nada a ver com a que meu pai contava. Confesso que fiquei um pouco decepcionada. Logo após a história, havia uma nota do autor do livro, o conhecido crítico literário Câmara Cascudo, explicando que nos contos populares (que geralmente tem várias versões, de acordo com o país onde ele foi contado), os inícios e finais podem variar muito. Pois bem, o final de meu pai realmente era diferente. Na versão de Câmara Cascudo, há uma transformação e depois uma morte trágica da vilã, a Moura Torta. Na versão do meu pai, como já disse, a Moura transformava-se em árvore. Igualzinha à da casa dos meus avós.

Mas o problema para mim surgiu quando fui contar a meu pai sobre a descoberta do livro e do encontro com a lembrança. Ele não lembrava da história. Fiquei inconformada. Ele então foi atrás da história e provavelmente também de sua lembrança. Foi pesquisar a Moura na Internet, solução para todos os males modernos. Ele não só achou duas outras versões diferentes da história, como lembrou-se que tinha um livro de um dos autores das tais versões. Concluiu, portanto, que provavelmente lera a história e a modificara para nos contar. Realmente, na versão dele, não havia morte nenhuma. Poupou-nos do pior. Foi, portanto, um pouco politicamente correto, em uma época em que ninguém ligava para isso.

Ainda inconformada com a não existência clara da lembrança para meu pai, fui em busca da ajuda e das possíveis lembranças de meus companheiros de infância: meus irmãos e um primo. Também pela Internet, claro. Recebi respostas negativas tanto de minha irmã, que jamais ouvira falar da Moura, quanto de meu primo, que apesar de ter uma memória fantástica (especialmente para lembranças de infância, que coleciona várias), também não se lembrava. Lembrava de outras histórias, não dessa.

Fiquei decepcionadíssima. Das duas uma: ou vivi outra vida, ou sou completamente louca. Nenhuma das duas. Não acredito em outras vidas e não sou doida. Cheguei à conclusão que há memórias únicas e particulares. Lembranças de infância que existem só para uma determinada pessoa. Outras pessoas até podem tê-la vivido (porque lembro-me perfeitamente de meu pai contando a “Moura” para todos), mas, por alguma razão mágica, apagaram-na da memória, restando ela apenas para a pessoa que algum dia a utilizará da maneira mais especial. No meu caso, tenho agora clara a explicação: a lembrança do conto da Moura, somente existente para esta que ora vos escreve, ficou em mim, e encontrou-me novamente para que eu pudesse contar-vos hoje a minha versão de A Moura Torta. E, modéstia à parte, acho que o meu final é o melhor de todos.

Literatura

Hoje

hoje

por Cassiano Rodka

Hoje deu vontade de me perder.
Tomar o caminho contrário ao que o vento indicar.
Descer as escadas e chegar ao céu.
Plantar bananeira pra me pendurar no chão.
Assaltar um banco e ser o herói.
Correr pelos trilhos na frente de um trem.
Tomar chá com Lewis Carroll até o tempo parar.
Contar o fim do filme para o cobrador.
Arrastar uma sereia mar afora pelos cabelos.
Estar em um conto de Cortázar que descreve um abajour.
Ouvir “Cordão” ao contrário e descobrir que é Noel.
Tirar foto em preto e branco pra poder pintar depois.

Literatura

Amigas para sempre

amigasparasempre

por Clarice Casado

Faziam muitas coisas juntas aquelas duas senhoras. Visitavam-se, regularmente. Moravam no mesmo prédio, há mais de trinta anos. Em realidade, eram parentes, tia e sobrinha, mas, tendo quase a mesma idade, eram amigas íntimas. Falavam dos filhos, dos netos, dos bisnetos. Faziam caminhadas juntas, iam às compras.

Viam a novela, eram companheiras de televisão. Eventualmente, assistiam a um balé, na televisão mesmo, porque uma delas tinha sido bailarina na juventude. Sim, tinha sido bailarina, e o que mais impressionava a todos era o fato de, mesmo depois de idosa, ainda ser capaz de levantar a perna esticada bem alto, fazendo os mais delicados e vigorosos movimentos. Essa era uma imagem para ser mantida na memória, para sempre.

A outra senhora, a sobrinha, que era mais jovem, tinha sido professora, casara-se com um homem que por ela apaixonou-se à primeira vista. Sim, existe amor à primeira vista, suas netas sabiam bem, porque ouviam, milhões de vezes, maravilhadas, a história sensível e tocante do dia que o avô conheceu a avó. Ela descia uma escada, na casa da irmã do avô, que era sua amiga de colégio (deveria ter uns dezesseis anos, não mais), quando o avô, no pé da escada, pensou, ao vê-la: “Com esta morena eu casava hoje”. As netas achavam que aquela era a história de amor mais linda do mundo, ainda mais contada assim, por aquela avó tão sorridente, e as netas ficavam imaginando a moça morena, de olhos grandes e escuros, encantando, à primeira vista, o avô de descendência italiana, extasiado pelas graças da avó de origem portuguesa… E ficavam olhando sua foto de mocinha, com aqueles cabelos encaracolados, a boca vermelha e os traços firmes, de uma mulher decidida, que só poderia mesmo fazer com que um homem por ela se apaixonasse à primeira vista!

Mas, então, o destino fez com que a bailarina e a professora ficassem viúvas, em épocas diferentes, mas em uma época em que, ainda, os homens morriam antes das mulheres, porque, dizem, tinham mais incomodações que elas. Mas, de fato, suas viuvezes as aproximaram. Sozinhas, queriam estar juntas. Precisavam estar juntas, necessitavam uma da outra, para dividir a solidão, para compartilhar os segredos, para lutar contra a morte. Para acostumar-se com o fato de que seus dias seriam preenchidos por suas essências e por suas vivências.

Seus homens permaneceriam para sempre nos seus retratos e em suas memórias, e as lembranças que teriam deles seriam para sempre só suas, mesmo porque ninguém da família (nem mesmo as netas) atreveram-se, um dia, a perguntar se elas sentiam falta deles. É claro que sentiam. Sentiam porque eram mulheres como qualquer outra à moda antiga, e, como qualquer outra mulher à moda antiga, iriam amá-los para sempre, incondicionalmente, especialmente quando um deles havia caído de amores pela linda professora à primeira vista.

Um dia, uma delas morreu. Depois de muita, mas muita luta, a velhice venceu a batalha. A bailarina deixou de bailar. No dia seguinte à sua morte, a professora, sua mais fiel companheira, não saiu de casa, como de costume. Preferiu ficar reclusa, guardando talheres, talheres de um jantar de aniversário que tinha oferecido a um dos netos, alguns dias antes do falecimento da companheira de jornada. Limpou os talheres, guardou-os bem, e pensou na amiga. A cada faca limpa, um pensamento. A cada garfo polido, uma lembrança de um tempo que jamais retornaria. E o silêncio da sala conversava com a professora, a cada momento. Não sabia ao certo o que viria depois dali. Mas, também, já não importava mais. Poderia seguir limpando os talheres, até que um dia batessem à sua porta.

Literatura

Ponto final

ponto
imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Nunca gostei muito do ponto final.
As reticências sempre tiveram mais charme…
O ponto final é muito definitivo.
Pronto. Acabou. Tchau.
As reticências dão uma certa esperança…
Asseguram uma continuidade…
Não garantem que ela seja boa,
Mas, pelo menos, não encerram nossos sonhos…
Mas não posso deixar de lembrar
– E, disso, eu sempre, sempre esqueço –
Que o ponto final, além de anunciar o fim,
Demarca também um começo.
Então, que tudo comece
Novamente
De forma diferente
Reticente.