Clarice Dall’Agnol

Literatura

Maturidade

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por Marcella Marx

Entrei no trem ainda vazio, apesar disso algumas pessoas já andavam pedindo licença pelo estreito corredor. O trem não era dos mais antigos, havia dois lugares em cada lado, ambos voltados para frente. Minha imensa mochila foi raspando em todas as poltronas até chegar a minha: uma janela. Tentara evitar durante todo o percurso pensar no fato de que teria pela frente um grande “desafio”. A verdade é que não conseguia, por melhores que fossem minhas conjeturas, obter êxito na tarefa que me aguardava, na maioria de minhas elucubrações, o final era desastroso. A simplicidade daquela tarefa fazia-me sentir ridícula e notar o quão banais minhas preocupações haviam se transformado. Incrível, eu pensava, como ações simples eram amplamente redimensionadas. Bastando, para tanto, que você saia de sua posição de conforto ou que transgrida um espaço geográfico previamente estabelecido para você e, mais tarde, por você (esse último ainda mais assustador).

Havia chegado o momento, o corredor esvaziara-se um pouco. Desvencilhei-me das amarras, a apoiei sobre o braço da poltrona, segurei firme com as mãos, uma de cada lado e ergui com toda a força que alguém cansada, depois de caminhar o dia inteiro sob sol e chuva, podia dispor. Quando havia conseguido erguer a mochila à altura dos olhos, percebi que não podia mais, desespero, raiva e pena de mim mesma, naquela cena um tanto deprimente. Sabia que se desistisse não teria força para levantar novamente, foi então que, surpreendentemente, meu pensamento foi comandado pelo movimento de meus braços. Abaixei-me e, com a cabeça, fui equilibrando os 14 quilos. Quando já próxima à porta do bagageiro, empurrei-a para dentro com as mãos e um forte grito interno que, por pouco, não foi ouvido por toda a estação.

Completamente absorta estava que nem percebi as pessoas se aglomerando no corredor à espera de passagem e, ironicamente, um jovem senhor ofereceu-me ajuda. Fiz um sinal aliviada e tão crente em mim como poucas vezes fui. Impossível descrever a satisfação e o orgulho que me tomavam e, sob efeito dos quais, permaneci gabando-me durante um bom tempo. Era a mais independente das mulheres, livre, como também poucas vezes fui.

O trem estava lotado, mas o lugar ao meu lado ia vago. Minha felicidade não poderia ter sido maior, considerava aquela uma recompensa pelo esforço de há pouco. Esparramei-me pelos dois assentos e dormi. Lá pelas tantas da madrugada, o trem fez mais uma de suas inúmeras paradas para embarcar e desembarcar passageiros. Nessa em particular, ninguém desceu e somente um homem embarcou e sentou-se no único lugar vago: o ao meu lado. Era um senhor, devia ter quase uns setenta anos, exalava um cheiro forte de vinho fermentado. Não conseguia saber se o odor vinha dele ou da garrafa sem rótulo e cheia de um líquido de cor indefinível devido ao lusco fusco do trem. Refiz-me na poltrona, procurando ocupar o menor espaço possível. Quanto mais eu me encolhia, mais o velho (atenção à mudança do vocábulo) rastejava para o meu lado e não cessava em beber o líquido insosso. Todos dormiam no trem e eu tentava, a todo custo, fazer o mesmo, desejando que o tempo voasse e que eu chegasse a meu destino. Imóvel e coagida no canto, ouvi o velho balbuciar qualquer coisa, não conseguia sequer reconhecer o idioma utilizado, parecia um dialeto alemão. Após o murmúrio ele retirou de dentro de uma sacola imunda e rota, uma pequena lanterna. Eu continuava fingindo que dormia, com os olhos bem cerrados. Sem importar-se com tal fato, ele utilizava a lanterna como instrumento de tortura, acendendo e apagando sem cessar. O barulho do botão que a operava fazia meu sangue ferver, imaginando meus antepassados torturados em trens fantasmas que os levavam para a viagem – sem volta. Não me submeteria àquilo, não eu, não outra vez… Comecei a empurrar o velho e a falar alto e de maneira ríspida em todos os idiomas que conhecia. De repente, o que parecia impossível aconteceu: alguém se apiedava de mim. Sentada a minha frente uma mulher propôs fazermos uma troca, eu sentaria no lugar do homem ao seu lado e ele passaria ao meu. Por certo que seu altruísmo não era de todo genuíno, pois ela também sofria ao lado de seu vizinho que não parava de tossir. Infelizmente, tal oferta não era interessante para os demais envolvidos que nem sequer a cogitaram. Minha última esperança eram os fiscais do trem, com os quais fui ter. Eles argumentaram que o velho tinha pago a passagem como eu e que, portanto, tínhamos os mesmos direitos. Nada responderam sobre minha indagação a respeito dos deveres a nós impostos quando dividindo um mesmo espaço. Havia regras e o velho as quebrava todas.

Retornei fracassada ao meu lugar, o pesadelo continuava com as luzes acendendo e apagando, o barulho, o cheiro… ainda posso senti-lo. Decidi, num ato de desespero, fugir. Era uma questão de sobrevivência, de sanidade. Fechei novamente os olhos e prometi não abri-los até estar completamente “a salvo” (talvez isso significasse o final da viagem, 12 horas, quem sabe!?), assim fiz. Ao toque das pálpebras cansadas, mergulhei em grandes aventuras, minha imaginação levou-me de volta a minha casa, reencontrei os meus. Revisitei conhecidas montanhas onde senti o cheiro das flores e saboreei as frutas. Aquele passeio era frequentemente interrompido pelo velho, para quem as divisões do dia e da noite não faziam mais sentido algum, talvez pelo efeito do álcool ou pela idade avançada. Quem sabe ele tivesse perdido a razão, fugido de casa; quem sabe havia sido um prisioneiro de guerra e enlouquecido com as torturas. A mim, parecia um bruxo que assombrava minha paz.

Quando havia perdido por completo a noção do tempo e, compenetrada, fugia da Europa, da estrada, do trem e do lado daquele velho, paramos. Não consegui saber onde, como da outra vez. Só havia escuridão e deserto lá fora. Pensei que um novo passageiro embarcaria, porém enganei-me, era meu vizinho que partia. Abri um canto de olho desejando que ele já tivesse ido, mas lá estava ele em pé, esperando que eu fizesse o que fiz. Decidi enfrentá-lo, já que havia sido pega. Abri os olhos, ele então fez um gesto de adeus e sorriu um sorriso que, naquele momento, pareceu sarcástico, gozador, mas que hoje se assemelha mais ao sorriso de alguém que precisava de atenção. Sorriso humilde e sofrido, de alguém que se expressa como pode e que tinha, por certo, muito a me dizer. Bem provável que se minha atitude tivesse sido outra, quem sabe o homem que me assombrava se transformasse em sábio.

Literatura

Emília, Emília

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por Clarice Casado

Não sou uma carnavalesca. Mas já fui uma, na infância. Amava os bailes de Carnaval infantis. Aguardava-os ansiosamente, todo santo verão. Chegava janeiro, já queria saber qual fantasia ia usar. E minha mãe era quem fazia, para mim e para minha irmã. Para o meu irmão (hoje meu colega no PáginaDois), ela acabava comprando mesmo, ou de Robin, ou de Pirata, sei lá, essas coisas de menino. Coitado, saía prejudicado. Mas acho que ele nem gostava muito de Carnaval, como não gosta até hoje. Ficava lá, meio quietinho no meio do salão, jogando timidamente uns confetes de vez em quando, enquanto aquela criançada toda louca jogava com fúria e alegria confete e serpentina uns nos outros, a maior confusão, um chorava, outros brigavam de soco, mais um se engasgava com confete misturado com cachorro-quente e Guaraná, e o Cassi ali, sempre observando, muito atento, provavelmente desde então registrando tudo em sua brilhante cabecinha, que hoje é capaz da mais sofisticada poesia e da mais contundente prosa.

E enquanto o Cassi observava, eu e a Camila, minha irmã, pulávamos e dançávamos no salão, como pequenas havaianas, bailarinas, odaliscas, essas coisas todas de meninas. Tudo muito comum, todos os anos a mesma coisa, mas a gente amava. E nós duas sempre usávamos fantasias iguaizinhas. Às vezes variava apenas a cor, de acordo com o gosto das mini-carnavalescas.

Mas houve um ano (um grande ano, creio que 1980 ou 81, porque eu lembro de ter uns seis ou sete anos) no qual fomos com uma fantasia sensacional: minha mãe confeccionou duas fantásticas fantasias de Emília, sim, a Emília do Sítio do Pica-pau Amarelo, a cativante e famosa personagem de Monteiro Lobato. Em uma época em que o Sítio estava no auge, era um dos únicos programas infantis que existia e que efetivamente prestava na televisão, um época sem Cartoon Network, ou Nickelodeon, ou Discovery Kids (adoro esses canais, mas o Sítio “original” era tão legal…).

Minha mãe gastou um tempão fazendo aquela fantasia. Era o máximo, um vestidinho com bolinhas e listras, todo de tecido vermelho, azul-marinho e amarelo, com manguinhas bufantes, sainha rodada e bem curtinha, com um aventalzinho. Mas a melhor parte era a peruca, perfeita, toda feita de retalhos coloridos, costurados um a um em uma touca feita com meia-calça. Era indescritível. E tinha também umas meias-calças listradas, que completavam a “produção”. Isso sem falar na maquiagem, com direito a rosto branco, sardas pintadas, olhos com cílios muito pretos e compridos, para que ficássemos iguaizinhas à simpática boneca de pano animada de Lobato.

No dia do baile, estávamos, como sempre, animadíssimas. Eu não me lembro qual era a fantasia do meu irmão nesse ano, mas, qualquer que fosse, seria implacavelmente ofuscada pelas “Emílias”, que saíram confiantes e felizinhas rumo à diversão! O impacto das Emílias no baile foi imediato, hordas de crianças e adultos sorriam e apontavam para nós, foi uma coisa impressionante, tanto que me lembro daquele dia com detalhes, como se tivesse acontecido ontem! Foi um sucesso estrondoso, “Olha, mãe, as Emílias!”, “Ai, que lindas!”, “Bah, que perfeito!”, “Nossa, que graça!”. Eu e a Camila, minha irmã, estávamos “nos achando”, numa época em que essa gíria ainda nem sonhava em existir…! Minha mãe também devia estar bem orgulhosa.

Nos divertimos pra caramba na festinha, todo mundo queria tocar nossa peruca, ver de perto nossa fantasia. Até que chegou uma moça perto de nós, e perguntou à minha mãe (acho que foi à minha mãe, não me lembro bem disso, porque o barulho era infernal) se gostaríamos de participar do concurso de fantasias. “Concurso?”, pensei, e fiquei meio apavorada, porque, desde então, tinha pavor de público. Melhorei muito com os anos, e talvez grande parte da perda desse medo se deva a esse longínquo evento. Acho que a Camila deve ter gostado logo, porque sempre foi mais exibida e extrovertida que eu. Sei que acabamos concordando, a moça pegou nossos nomes, e passado um tempinho, fomos desfilar, em uma passarela mesmo, no meio do salão. Fomos de mãozinhas dadas, eu muito apavorada, mas, assim que pisamos na passarela, fomos ovacionadas pela multidão de crianças e adultos!!! Todos adoraram, e batiam palmas sem parar!

Nossos outros concorrentes, coitados, ficaram mixinhos perto das exuberantes Emílias! Piratas, odaliscas, palhaços, bailarinas, super-heróis, todos desfilando e recebendo umas palminhas aqui e ali. Até que… Chegou o momento da decisão! Foram escolhidos pelos jurados três duplas finalistas e estávamos entre elas! Fomos chamadas de novo, agora para subir num pequeno palco, montado perto da passarela. Quanto nervosismo! Lembro do meu coração batendo e pulando muito, creio que foi a primeira vez que senti um nervosismo daquela natureza.

Quando subimos ao palco, uma multidão gritava e batia palmas sem parar, “Emílias, Emílias, Emílias…!!!”, sem parar, sem parar, sem parar, fiquei mais nervosa ainda, não sabia se ria ou chorava, uma louca mistura de sensações! Então o mestre de cerimônias (ou algo parecido) começou a pedir que o público batesse palmas para cada dupla. Não lembro quais eram as fantasias das outras duplas, porque o pessoal gritava tanto “Emílias”, que só consigo lembrar-me disso. Quando ele pediu, “Agora palmas para as Emíliaaaas!!!”, recebemos inegavelmente o aplauso mais poderoso de todos, com assobios, gritos, confetes e serpentinas, e em poucos segundos o cara declarou, “As vencedoras foram as Emílias!!!”, e a multidão explodiu em aplausos e gritos mais entusiasmados ainda! Meu coração parecia que ia pular pela boca, agora eu sorria muito, de alívio e felicidade! Nosso momento de glória foi perfeito, fabuloso! Desfilamos de novo, orgulhosas e vencedoras, eu com seis anos, minha irmã com quatro, tão pequenas e já sentindo o delicioso e incomparável sabor da vitória…! Nosso prêmio foi um jogo muito conhecido na época, “Cai não Cai”, que jogamos o resto do verão e depois por muito tempo. Mas o prêmio maior foi sem dúvidas aquela multidão gritando alto por nós.

Lembrei-me hoje disso, quando acordei, e resolvi dividir com meus leitores. Eu não ia escrever nada sobre Carnaval nessa semana de Carnaval, porque achei muito óbvio. Mas uma lembrança como essa tinha que ir para o papel. Para que, a partir desse momento, não fique mais apenas na memória das Emílias.

Literatura

Heitor

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Um espinho lhe picava o dedo da mão esquerda quando Heitor pressionou o botão da campainha.

Ouviu latidos se aproximando e gelou. “Ela tem um cachorro”, lamentou com a cabeça baixa. Podia ser um pássaro na gaiola ou um peixe no aquário. Um camelo no quintal teria lhe deixado feliz. Mas não. Marta tinha um cão. Batidas na porta e arranhões. Era ele. Latindo, arfando e Heitor com os olhos fechados, unindo forças para quando a porta abrisse e… Fingiu um susto quando o cachorro pulou em sua direção. “Não se preocupe, ele não morde”, disse a senhora de blusa florida. Eles nunca mordem. Não para os donos. Eles são bonzinhos, inteligentes, são o orgulho felpudo da casa. “Ele não é uma gracinha?”. Não, minha senhora, ele não é. É feio e está com as patas em cima de mim, interessadíssimo em me derrubar. “Acho que o Fluffy gostou de você”. Não posso dizer o mesmo. Eu o odiei de imediato. Eunice se apresentou e chamou o marido para me cumprimentar. George com G-E-O veio prontamente me saudar e ensinar-me o seu nome. Ambos eram sorridentes e simpáticos. Mas nenhum percebeu meu desconforto enquanto o cachorro insistia em cravar as patas nas minhas pernas. Marta desceu as escadas no momento em que entrei na sala de estar. Parecia que estava esperando no topo. “Vejo que já conheceu o Fluffy. Ele não é um amor?”. Não, não é. Mas meus sentimentos estão em desacordo com o movimento da minha cabeça. Estico a mão com as rosas e o cão pula em direção às flores. Gritos, risadas e Marta agachada recolhendo as rosas do chão dizendo que eu não precisava ter me incomodado. Incomodado… O único incômodo estava sentado ao meu lado latindo e babando com a língua para fora. Não era pra ter sido assim… Imaginei esse momento tantas vezes em minha cabeça, de maneiras diferentes, às vezes ela sorria, às vezes ela simplesmente cheirava as flores e seus olhos brilhavam. Mas em nenhum deles ela recolhia as rosas do chão. Nenhum, além desse. Marta sobe as escadas e o cão late insistentemente para mim. E os simpáticos senhores seguem conversando comigo me levando até o sofá, onde posso me sentar e ficar mais próximo das patas de Fluffy, além de estar plenamente ao alcance de sua baba. Ele prontamente apoia as patinhas dianteiras nos meus joelhos e fica me encarando com seus olhinhos pretos e latidos agudos. “Fluffy, desce daí!”, diz a mãe de Marta sem se importar com o fato do cachorro não obedecer suas ordens. E começa o esperado interrogatório por parte dos pais da moça. Basicamente, querem saber quem eu sou e o quanto ganho. Divido meu tempo entre escolher respostas maduras e fuzilar Fluffy com o olhar…

Subi os degraus correndo até o meu quarto. Estava eufórica com a presença de Heitor em meu lar. Finalmente, ele conhecia minha família e logo tomaria parte nos porta-retratos da sala de estar. As rosas deixaram um trilho de pétalas pelo corredor. Alguns caules estavam partidos, as flores pareciam um tanto despedaçadas, mas mesmo assim procurou um vaso para colocá-las. Sentou-se na penteadeira e olhou-se mais uma vez no espelho. Não ficou satisfeita e resolveu refazer o cabelo. Queria deixar os pais a sós com ele por um tempo, então podia dar-se esse luxo. Entre uma mecha e outra, ouvia os latidos de Fluffy. Certamente estava brincando com Heitor. Depois de muitas mexidas aqui e ali, estranhou o silêncio. Resolveu descer e juntar-se novamente à família. Já nos últimos degraus, podia escutar o lamento desbotado de sua mãe. Eunice estava sentada no sofá ao lado de George com G-E-O, que a abraçava. Ao separar vagamente os lábios e perguntar por Heitor, seu pai aponta para a cozinha. Marta vai até a porta e ouve uma respiração rápida e profunda. Ela olha o forno, uma cadeira caída e os talheres de prata espalhados no balcão. E leva seu olhar aos retratos da família na parede. Entre os sorrisos conhecidos, destaca-se, emoldurado, o rosto refletido de um homem chorando.

Literatura

Minhas não-férias

minhasnaoferias

por Clarice Casado

Quem não lembra (com carinho, ou talvez com raiva) daquelas redações que éramos obrigados a fazer na escola, quando voltávamos das férias? Pessoal, vamos escrever sobre as nossas férias? E a meninada toda reclamava. Claro. Baita chatice, todo ano a mesmo coisa, e os professores nem aí, que falta de criatividade. Eu posso criticar, porque sou professora e sei que alunos gostam de novidades, sempre. Não estou generalizando, claro, certamente em meio à maioria havia educadores brilhantes e criativos, eu tive muitos.

Mas, será que ainda hoje alguns professores ainda pedem alguma coisa do tipo no início das aulas? Não tenho a mínima ideia, só sei que eu não peço. E sei também que todo ano, nesse período, acabo inevitavelmente lembrando disso. Muitas férias eu narrei a completos estranhos em inícios de ano letivo, entusiasmada. Eu tenho que confessar que não me importava nem um pouco, pois desde cedo gostei de escrever.

Portanto, nesse início de ano, resolvi fazer uma viagem no tempo e escrever uma redação, sim, mas uma redação que intitularei “Minhas não-férias”, ou seja, um avesso das minhas férias, ou, “como poderiam ter sido as minhas férias se eu não tivesse saído da imensa metrópole. Tudo isso, porque, aparentemente, umas maravilhosas férias na praia, como foram as minhas, não dão ibope. Aí vai:

NOME: Clarice Dall’Agnol Casado
ESCOLA: Da Vida
SÉRIE: Quando ouço essa palavra, penso no Warner Channel
TURNO: Noite, meu preferido

MINHAS NÃO-FÉRIAS

Minhas não-férias foram em uma grande metrópole, onde não se tem mais sossego em nenhum minuto. Onde ouvem-se histórias de assaltos, de roubos, de morte, de chuvaradas devastadoras, de gritos, de pânico, de mais medo. Uma grande metrópole que é a minha mas poderia ser qualquer outra, porque sou a personagem principal e também a narradora, portanto, eu basicamente sou a senhora da história.

Nas minhas não-férias, eu acordei cedo todo dia, todo dia, todo dia, e todos os dias eu fiquei querendo quebrar o despertador, mas sei que ele não tem culpa de nada, e não o quebrei.

Nas minhas não-férias, saí de casa e voltei umas seis vezes por dia, como uma doida, e perdi uns 2kg só nessa correria. Nem porque gastei dinheiro com academia.

Nas minhas não-férias, esbravejei sozinha em meu carro mais ou menos 15,6 vezes durante cada dia, com uma variação percentual de 5% para mais ou para menos, dependendo do dia e das tarefas que eu tinha que realizar.

Nas minhas não-férias, gastei muito dinheiro em shoppings, farmácias e livrarias, meus consumos preferidos, não necessariamente nessa ordem. Há dias em que se precisa desesperadamente comprar roupas, e outros nos quais sente-se cãibras nas mãos se elas não tocarem um livro novinho em folha.

Nas minhas não-férias, briguei e me estressei bastante com meus familiares, porque a rotina é algo cruel para qualquer tipo de relacionamento. Somente umas férias para que se possa curtir integralmente e sem estresses as pessoas que amamos.

Nas minhas não-férias, tive discussões telefônicas terríveis com pelo menos cinco prestadores de serviço por semana, porque ninguém diz coisa com coisa e nunca sabe quando algo vai ficar pronto ou ser entregue realmente.

Nas minhas não-férias, trabalhei bastante, mas isso não me estressa, porque adoro o que faço.

Nas minhas não-férias, dormi muito tarde todos os dias e acordei cedíssimo e de mau-humor todos os dias, porque detesto acordar cedo, mas isso eu já contei na primeira frase desta redação, de outro jeito, mas contei.

Por fim, nas minhas não-férias, fiquei imaginando o quão maravilhoso seria poder estar em férias, de verdade, de preferência umas férias como as que tive nesse verão. Tranquilas. Felizes. Sem brigas. Sem violência urbana. Sem medo. Dormir de janelas abertas. De portas semiabertas. Deixar o carro aberto na garagem. Acordar tarde. Levar meia hora tomando café. Sentir o sol bem quentinho das dez da manhã. Pedalar ao redor do lago. Levar a criançada pra praia. Ir e vir mil vezes do mar pra areia, da areia pro mar. Sentir a água do mar. Fazer buracos e castelos na areia. Ver o sirizinho branco caminhar na areia quente do meio-dia, por entre as pessoas e guarda-sóis coloridos. Ouvir os comentários das crianças sobre o mar, os peixes, as tatuíras, a areia molhada, a praia. Sorrir sem motivo. Estar com a família. Comer um churrasco. Muitos churrascos. Deitar na rede. Sentir o vento. Ver TV até tarde. Ler sem ter pressa. Ouvir o barulho do mar. Ver o mar todos os dias. Comer um crepe no Centrinho. Se lambuzar com sorvete Alpino de casquinha. Ouvir as crianças brincando. Não ter hora pra nada. Sentir cheirinho de protetor solar. Ir ao supermercado calmamente. Tomar banho duas, três vezes ao dia. Levar as crianças pra pracinha. Tirar muitas fotos, preciosos registros. Saber que daqui a pouco a gente volta pra casa. E por isso, aproveitar o máximo que der. Porque férias são férias. E ponto.

Literatura

Distância

distancia

por Cassiano Rodka

Ao Nicos

A mão tremia no braço da poltrona.
Não sabia mais se era o motor ou o medo. Olhando pela janela, via seu passado. Imaginava rostos de pessoas queridas sorrindo. Sorriam em diferentes momentos de sua vida. Alguns choravam; às vezes, ele. Eram tantos os momentos se empilhando em sua mente, disputando um lugar no hall de suas lembranças, que só podia senti-los brevemente, por vezes até lembrava os cheiros ou gostos ou cenários, ou mesmo os filmes que assistia com eles… No primeiro movimento do ônibus, um frio na barriga. O motor tremendo, ele tremendo, o vidro embaçado tremendo. E a rodoviária foi ficando pra trás. E a cidade foi ficando pra trás. E a sua vida…

A mão tremia no meio do peito.
Respirou fundo e questionou suas escolhas. Olhou pela janela e observou as coisas lá de fora passando, borradas, ficando pra trás. Árvores, vacas, outdoors. Tudo ia passando e sua angústia aumentava. Carros, motos, casas. Tudo passava por ele rapidamente e sumia para sempre de sua visão. Limpou os óculos em sua camiseta e os colocou de volta. Eis que viu um carro passando a seu lado. Ia mais rápido que o ônibus e na mesma direção. Fez uma ultrapassagem pelo veículo e seguiu em frente. Sumiu. E quando ele voltou a observar a paisagem, viu que tudo estava diferente. Percebeu o que agora lhe parecia óbvio: as vacas, os carros e os outdoors não estavam ficando pra trás. Permaneciam no mesmo lugar. Quem se movimentava era ele. Junto com suas lembranças e com os rostos sorridentes; eles não ficavam para trás, eram parte do movimento, empurravam-no para frente. Ele movimentava-se.
E sua direção era a melhor possível. Ele ia adiante.

Literatura

Um peixe chamado Tovi

peixechamadotovi

por Clarice Casado

“O menino não perguntava o que o homem a seu lado
fazia à beira do rio, em julho, na manhã fria.
Foram muitas as manhãs
mas julhos, meses, nem tantos.
Foi, na certa, pouco o tempo que o menino passou
ao lado daquele homem à margem do rio manso.
Depois, em toda sua vida,
Não houve um tempo tão grande
(pois que tempo de menino -como rio de menino-
é maior do que o rio, é maior do que o tempo).”

“O menino e seu amigo”, Ziraldo

O neto convida o avô para o seu programa preferido quando o pequeno o visita em seu antigo apartamento no centro de uma capital do sul do Brasil. “Vamos subir pro seu gabinete, vovô”? O gabinete, um pequeno anexo ao apartamento do avô, é um mundo à parte para os dois. Ali, coisas secretas acontecem, e só eles compreendem aquele ritual. Sobem, o menino falando muito, a vozinha fina, mas constante, clara, não cessa um segundo sequer.

Seu ritual é simples, mas é um ritual. Todo ritual é místico, em sua essência. Para as crianças, rituais são importantes. A repetição dá a sensação de segurança. Para os adultos, a repetição dá a sensação de tédio. Mas não aquele ritual, e não para aquele avô.

O escritório, lotado de estantes de livros que parecem reproduzir-se a cada dia mais, tem um cheiro aconchegante de amizade. Os livros despertam nos seus donos um sentimento de posse e ao mesmo tempo de amizade. É. São mais que parentes próximos, para o avô. São parte dele. De sua história. De sua alma.

Então, os dois, avô e neto, iniciam seu ritual. Pegam juntos os regadores para molhar as plantinhas do avô, regam-nas com amor, e o menino rega um pouco do chão, também! Vai ver que é por isso que os livros se reproduzem com tanta facilidade e rapidez…

Pegam, depois, a comidinha do peixe, de nome Tovi, o último sobrevivente de uma leva grande que o avô comprou há algum tempo atrás. O menino alimenta feliz o peixinho, coloca as mãozinhas dentro do aquário, diverte-se com a ansiedade do animalzinho aquático para abocanhar o seu “sustento”.

Regadas as plantas e alimentado o peixe, passam, em seguida, a alimentar a sua amizade. O avô oferece ao neto um Guaraná “caçula”, em garrafinha de plástico. O neto bebe e fala, bebe e conta histórias, bebe e relata sonhos da noite anterior, bebe e faz perguntas desconcertantes. Trocam ideias, jogam joguinhos, ouvem música, leem histórias, brincam no computador, passeiam pelos três cômodos do escritório caseiro do avô.

O neto nada na imensidão do escritório do avô, nada livre e descobre todos os seus cantinhos e atrações peculiares, respira o amor do avô, que está sempre ali. Que estará sempre ali. E descobre tudo de novo toda a vez que retorna. E toda vez que retorna, o mesmo lugar é sempre diferente. E sempre igual. O peixe Tovi nada na imensidão de seu aquário, e talvez o seu igual seja sempre diferente, também. Porque ele é o único que pode ouvir as conversas do neto e do avô. Um dia, quem sabe ele conta pro mundo…

Literatura

Estrelinhas

Estrelinhas

Ah, se eu pudesse tocar as estrelas…
E vê-las caindo, uma a uma, no mar
Rasgando o céu, te fazendo sorrir
Trazendo as nuvens para te cobrir

Mas, em meu leito, só toco a areia
E vejo seus grãos se esvaírem no ar
Formando um véu, te levando a dormir
Deixando-me livre pra poder partir

Nas entrelinhas dessa noite,
Dou um passo à escuridão
Cerco a sorte, fecho o corte
E esqueço aberto o portão.