Clarice Dall’Agnol

Literatura

A arte de fazer (e beber) café

artedefazerebebercafe
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Eu simplesmente amo café. Sou uma tomadora regular da bebida pretinha, mas também não cometo excessos. Todo o exagero é ruim, certo? Mas o engraçado é que eu não era uma amante de café até alguns anos. Eu inclusive odiava café. Não conseguia nem sentir o cheiro. Mesmo colocando açúcar ou adoçante, eu não conseguia engolir aquele negócio.

Até que, num belo dia, meu primeiro filho nasceu, e eu, que dormia pelo menos oito horas por noite, passei a dormir umas quatro ou cinco, entrecortadas por choros e mamadas intermináveis… Como eu precisava acordar cedinho na manhã seguinte, algo entre seis e meia e sete horas, não estava dando para aguentar de olhos abertos, literalmente. É, os olhos fecham mesmo, não tem jeito. Tem gente que sabe muito bem do que estou falando…

Um belo dia, então, resolvi me render e tomar um café (zinho, claro, afinal, não era muito chegada). A felicidade e ânimo que surgiram a partir do final da primeira xícara fizeram com que eu pedisse a segunda, e seguisse na terceira, e assim por diante, até que a deliciosa, quente e exótica (sim, claro!) bebida passasse a fazer parte importantíssima de minha vida de mãe/estudante de Letras/professora de inglês/esposa/dona de casa/e etc.! Tudo mudou tanto, o mundo passou a ser maravilhoso novamente! E mesmo tomando em média cinco cafezinhos por dia, o preto nunca deixou de fazer efeito para mim. Até hoje, quando tomo no máximo quatro por dia, ainda fico ligadíssima, atentíssima e felicíssima após uma xícara de café.

Mas tenho mais um motivo para ficar extremamente feliz com a existência do café em minha vida: comprei uma máquina de Nespresso (sim, vou fazer propaganda, poxa vida, esse pessoal merece!). A Nespresso (www.nespresso.com) existe e faz tremendo sucesso há vinte anos na Europa e desde dezembro do ano passado chegou ao Brasil, instalando-se em São Paulo (claro, só podia ser em Sampa…). A Nespresso tem uma Boutique Bar, como a denominam, localizada na agradável Rua Padre João Manoel, em um dos pontos mais legais dos Jardins. Sempre cheia de gente cool, apreciadora de um bom café, a boutique vale a pena conhecer. Lá, além de se poder apreciar os mais variados sabores de cafés, são vendidas as tais máquinas de café expresso, fabulosas e super fáceis de utilizar em casa.

Comprei a máquina e ganhei um manual que não ensina apenas como se utiliza a maquininha, mas, também, traz um verdadeiro ensaio sobre a arte de fazer café. Explicações detalhadas que vão desde o plantio e colheita até a seleção dos melhores grãos e sua torrefação e outros milhões de detalhes. Os tipos de café são chamados de Grand Crus, os cafés gourmet, que se apresentam embalados a vácuo em pequenas cápsulas coloridas. Cada cor de cápsula representa um dos doze Grand Crus, que são compostos por blends (misturas) de diferentes sementes, que terminam por transformar-se nos grãos de café. Há sessenta tipos de cafeeiros no mundo, mas apenas dois desses são usados para fabricar o café: o Coffea arábica (Arábica) e o Coffea canephora (Robusta). Esses grãos originam-se de vários países, como o Brasil, Colômbia e Etiópia. Lindos nomes: ristretto, roma, volluto, capriccio… E as misturas resultam em refinados e agradáveis sabores, formando cafezinhos lindos, como se tivessem três camadas de cores. É maravilhoso para os olhos e para o paladar.

Agora, quero estudar a fundo esta arte. Sinto que há muito a aprender, e muitos sabores a desvendar. E aproveitar…! Se puderem, aproveitem também, leitores. Vale a pena!

Literatura

Dias ensolarados

diasensolarados

por Cassiano Rodka

São esses dias ensolarados
que me empurram com leveza pela via única
dos tempos em que amar é construir castelos.
E eu coroado. E o sol alumiado.

São esses dias ensolarados
que me entregam a ti em uma sabida calçada
em um calculado encontro de sorrisos paralelos.
E eu atrasado. E tu, passando.

São esses dias ensolarados
que aliviam os ânimos de mágoa passada
e enchem de dentes os rostos mais sérios.
E eu. E tu. E um novo dia.

Literatura

Minha batyan

minhabatyan

por Marcella Marx

À Rosa

Tempo inquieto, mãos cansadas.
Quarenta anos num lampejo.
Ágeis mãos, pelo tempo e pelo vento esculpidas.
Formas calejadas: escultura realista.
Também mãos do acalento, que confortam.
E firmes nos sustentam quando, quase sem forças, caminhamos.
Mãos que creem através de nós e a nós doam sua história.
Sábias aprendizes cuja última lição é o desapego.
Dolorosa compreensão.
Mãos que tecem em sua busca incessante pela eternidade.
Tecido de fibras entrecruzadas e mais uma vez…
Por cima, por baixo, a malha vai sendo,
enquanto criam a si mesma.
Capturado entre os fios está aquele para o qual faltam palavras.
E o calor desperta a resposta e aquece além do corpo:
“Deixa, agora é minha vez de tecer”.

Literatura

Lara

lara

por Clarice Casado

Ela me contou que se conheceram na cidade natal dele, no interior do estado mais rico do país. Eu nem perguntei, mas, assim, como que por encanto, ela começou a me contar, e eu ouço tudo sempre, adoro ouvir, e fiquei ouvindo, em alguns minutos a história desenhou-se em minha mente, clara, cristalina, era tudo muito vago e ao mesmo tempo tão certo, tão real, tão absolutamente verdadeiro. E não há nada de absoluto no amor. Mas nos olhos da menina, filha dela, eu via o amor que ela me descrevia, um amor daqueles que só quem oferece pode entender. Mas ela nem imaginava que eu contaria isso hoje, senão, talvez nem tivesse contado, ou talvez tivesse. Talvez tenha contado por saber que eu contaria. Algumas histórias precisam ser contadas, elas dizem, olha, vem cá, sou importante, sou diferente, faça-me existir para sempre. E contou que o único elo entre eles foi sempre a cidade, sempre a cidade, sempre a cidade. Ficaram separados por diversas oportunidades, viajaram, conheceram o mundo, outros mundos, experimentaram as mais diversas coisas, pessoas, cidades, costumes, comidas, sentimentos, decepções, alegrias, tristezas, viraram o mundo atrás de coisas que nem sabiam ao certo o que eram, para, finalmente, encontrarem-se novamente naquela cidade. E assim foi durante muitos anos, o acaso fazia que fossem e voltassem. Lutavam contra tudo e contra todos, sem saber que havia destino, mas havia, apesar de não acreditarem nele. Mas o destino, acreditemos ou não, é implacável, ele vem, ele acontece. E o deles foi se encontrarem novamente na cidade natal dele, naquele refúgio só deles, naquela paz infinita, naquelas montanhas, naquele céu de setembro, naquelas folhas cor de pêssego, foi ali que tudo se deu. A menina também estava escrita, o destino a escreveu para eles, mas eles ainda não sabiam. Mas um dia souberam, e, quando souberam, chamaram-na Lara, porque a cidade assim se chamava, e era a cidade que fazia, sempre fez, sempre fará com que tudo tenha sentido.

Literatura

Meninos e meninas

meninosemeninas.jpg

por Clarice Casado

Quando o Renato Russo escreveu “Meninos e Meninas” ele não queria dizer nada do que eu vou dizer aqui neste texto.

As meninas não gostam dos meninos e os meninos não gostam das meninas. E agora está todo mundo pensando que estou falando daquelas rixinhas de crianças, ou seja, daquele ódio visceral que os meninos nutrem pelas meninas e vice-versa, durante alguns anos de suas vidas.

Eu acreditei piamente nisso durante muitos e muitos anos, até que nesta semana eu ouvi de uma amiga uma reclamação de seu filho de seis anos a respeito das meninas de sua escola, dizendo que eram fofoqueiras, intriguentas, puxa-sacos e vários outros lindos adjetivos. Isso veio de um sincero e inocente menino de seis anos. Mas poderia muito bem vir de homens adultos, de 20, 30, 40, 60, 70 anos. Eles acham mesmo isso das mulheres. Acham com seis, com quinze, com vinte e sete, com trinta e quatro, com quarenta e oito, com sessenta e lá vai cacetada… Acham e acharão sempre. Talvez porque seja mesmo verdade.

Ah, te peguei, leitor: provavelmente você estava achando que eu ia começar com um papinho pró-homens contra a minha própria classe, mas, não, já fiz isso em outros textos. Eu gosto mesmo de falar e refalar disso, mas hoje a coisa é outra.

Assim como os meninos de seis anos tem aquele ódio absoluto de toda a coisa pequena de saias e cabelos mais compridos que os deles, aquelas cabeludas também os odeiam com veemência: eles são uns porcos, dão pum e arrotam a toda hora, falam alto, lutam até por um lápis quebrado, têm códigos de honra incompreensíveis pelo sexo oposto, essas coisas todas. E não só as pequenas cabeludas acham assim: as grandes também. Você sabe disso, leitor. As mulheres de sete, dezesseis, vinte e quatro, trinta e seis, quarenta e nove, cinquenta e cinco, sessenta e lá vai cacetada também têm as mesmas reclamações sobre os companheiros do sexo oposto! Eternamente…

Pois bastou que eu ouvisse o comentário do filhinho da minha amiga para concluir algo, que, penso, é irrebatível: todos pensamos que o ódio mortal entre meninos e meninas acaba no exato momento em que você sente vontade pela primeira vez de dar um beijo cinematográfico no seu amigo do sexo oposto, ou seja, quando está com uns onze, doze, treze anos, dependendo da sua evolução sexual. Pois esta que vos fala pensa o seguinte: o ódio nunca acaba, e nunca acabará. Brigaremos e criticaremos o sexo oposto para sempre. Nunca seremos capazes de realmente “gostar” da pessoa do sexo oposto a quem deveríamos amar. O que nos une é algo animal, instintivo: paramos de brigar aos doze anos porque nossos hormônios dizem, “Pare, agora, você precisa dar uma trégua!!!”.

A criança pequena (isso eu já falei mil vezes em outras oportunidades) é sincera, diz a verdade: “Eu odeio as meninas/meninos!”. Nós, adultos, falsos e covardes, não conseguimos dizê-la. Não conseguimos, porque o animal dentro de nós é mais forte. Precisamos acasalar. E, nesse momento, esquecemos o ódio e fazemos o que temos de fazer. Muitas vezes, o acasalamento vai adiante, faz-se o ninho, têm-se os filhotes, e cada um dos sexos, separadamente, consegue dar amor incondicional às frágeis criaturas. O que acontece é que apenas achamos que amamos alguém do sexo oposto: na verdade, o odiamos!

O Renato Russo que me perdoe: eu não gosto nem de meninos e nem de meninas… E tenho dito!

Reli tudo, e acho que estou ficando louca. Não me leve a mal, leitor. Isso é apenas literatura pós-noite mal dormida.

Literatura

Dias chuvosos

Dias_Chuvosos (menos chuva)

São esses dias chuvosos.
Que me enchem de tristeza e nostalgia úmida
dos tempos em que o mar destruía castelos.
E eu assustado. E a chuva no telhado.

São esses dias chuvosos.
Que te entregam a mim em uma esquina molhada
em um inesperado encontro de sorrisos amarelos.
E eu encharcado. E tu, passado.

São esses dias chuvosos.
Que encharcam os ânimos em água pesada
e enchem de pregas os rostos mais belos.
E eu. E tu. E a chuva.

Literatura

Carmine

carmine

por Clarice Casado

Ao incomparável Carmine Avena Jr.,
como não poderia deixar de ser

Pronuncia-se Cármine, assim mesmo, com ênfase na primeira sílaba. E é um nome próprio, mesmo que você não conheça ninguém com um nome igual a esse.

Não é tarefa fácil escolher um nome para uma criança, especialmente se essa criança vai ser seu filho ou filha. Você começa a pensar nisso enquanto ainda é pequeno, (especialmente as meninas), sonhando com o dia em que terá seu bebê e poderá batizá-lo. Você terá esse poder, só não sabe quando. Talvez você já tenha passado por isso e certamente vai entender exatamente do que estou falando aqui.

Mas o fato é que você um dia conhece alguém super especial e acaba decidindo que quer passar uma vida ao lado daquela pessoa, dividir alegrias e tristezas, coisa e tal, e, em alguns anos, você resolve que só vocês dois não bastam: um terceiro membro pequeno e gorducho e chorão precisa entrar em cena, para que vocês tenham o prazer de voltar a ver desenhos na TV e saber que o melhor amigo do Bob Esponja é o Patrick Estrela, e que os dois passam metade do desenho rindo da cara do Lula Molusco. Mas, antes disso, você terá que escolher um nome para o terceiro membro do clã, e, acredite, que coisa mais difícil! Um nome determina o destino de uma pessoa.

Um dos meus melhores e mais queridos amigos foi batizado de Carmine, um bonito e diferente nome de origem italiana. Foi uma homenagem a seu pai, nascido no “país da bota” (é inevitável, sempre que penso na Itália, me vêm à mente não só vinho, gôndolas e Marcello Mastroianni, mas também aquele mapa em forma de uma botinha).

Meu amigo conta que sempre adorou seu nome, mas “sofreu” boa parte da infância (e às vezes sofre ainda hoje), tentando explicar às pessoas a pronúncia correta de seu nome. Ele diz que na escola muitos professores o chamavam Carmíne, acentuando bem o “i”, e, quando ainda não o conheciam no primeiro dia de aula, na hora da chamada, perguntavam, “A Carmine está presente?”. Pensavam que ele era menina! Pobre Carmine…!

Soletrou seu nome muitas vezes na vida, e ainda continua soletrando. Entendo bem o que é isso, porque meu sobrenome paterno é Dall’Agnol (pronuncia-se Dallãnhól), de origem italiana, mais precisamente do norte da Itália, de uma região chamada Vêneto. Sei muito bem o que é passar uma vida soletrando…! A vantagem é que você fica craque na coisa: “Seu nome, senhora?”, e eu vou, “Clarice… Vou soletrar o sobrenome, tá? D-a-l-l, apóstrofo…”, e a pessoa me interrompe, “Como?”. O maldito do apóstrofo sempre foi e ainda é um problema, a maioria das pessoas falantes do português, obviamente, não sabem e não têm a menor obrigação de saber o que seja a virgulinha suspensa em uma letra. Eu só consigo me lembrar do apóstrofo sendo usado na língua portuguesa em “copo d’água”. O apóstrofo indica a omissão de uma letra, para facilitar a pronúncia de uma palavra ou expressão. No caso do meu nome, houve a omissão da letra “a”, de Dalla Agnol (“dos Anjos” ou “dos Cordeiros”, há controvérsias sobre o significado – não é isso, Pai?), acabou tornando-se Dall’Agnol.

E eu continuava soletrando, depois de explicar que o apóstrofo “é como uma virgulinha em cima”, “A” maiúsculo, “G-N-O-L”, “Ah, senhora, Dalaguinol, é isso? Que diferente…”. E eu parava por ali. Às vezes, quando estava com muito bom humor, corrigia a pronúncia da pessoa, que ficava sempre feliz em dizer o nome certo. Hoje, na era do computador, sinto-me totalmente livre do apóstrofo, nem o menciono mais. Sigo num rápido D-A-L-L-A-G-N-O-L, e seja o que Deus quiser.

Mas o Carmine, o herói desta crônica, que, em realidade, é chamado por todos os amigos de Júnior, dia desses comentou comigo como sua mãe ficava furiosa quando estranhos não entediam o nome dele, e ela tinha que soletrá-lo! Contou também que, ainda pequeno, não entendia tal fúria da mãe; só hoje entende. Eu disse a ele que a entendia perfeitamente, porque fazia a mesma coisa quando não entendiam meu sobrenome, e hoje ainda fico brava, certas vezes, quando pobres criaturas inocentes não entendem o nome do meu filho, Vito, também de origem italiana. “Ah, Vítor, que nome bonito…”, “Não, é Vito, V-I-T-O”. Até o próprio Vito já começou a corrigir as pessoas! Ora, cada um tem o direito de escolher os nomes que quiser para os filhos, mesmo que sejam estrangeiros, pois uma grande parte da população brasileira tem ascendências europeia, asiática, do oriente médio, etc. E esse é o motivo da nossa fúria, temos que ser compreendidos nesta séria questão de identidade! Por outro lado, ninguém pode escolher o sobrenome, como é o meu caso, e acaba sofrendo com seu destino de “soletração constante e eterna”! E, realmente, às vezes é bem irritante ter que soletrar tanto.

Assim, como eu dizia no início desta crônica, escolhemos o nome do filho e, por consequência, determinamos parte de seu destino: nos casos do Carmine e do Vito, passar a vida toda soletrando. No caso do Júnior, ainda precisa explicar, às vezes, que ele é um homem, e não uma “Senhora Carmíne”!

Nomes diferentes, originais ou desconhecidos, isso não se pode negar, possuem um charme irresistível. Seus “proprietários” são uns sortudos que, desde pequenos, sentem-se especiais. Defendem seus nomes como se fossem a sua própria honra. Não são mais um João, Maria ou José. São um Vito, um Carmine. Serão para sempre únicos.

Música

Tem alguma coisa na água da Bélgica…

por Cassiano Rodka

Deve ter. Ou na cerveja, afinal o país tem mais de 450 tipos diferentes de cerveja. Um convite inegável à boemia! E a boemia sabe muito bem dar à luz grandes artistas. Atualmente, alguns desses nomes conseguiram chamar a atenção da mídia mundial, o que não é fácil. É duro ser belga. Você pode lançar uma pá de discos bacanas e ninguém ouvir. Mas, de cantinho, bandas como Soulwax, Vive La Fête, Hooverphonic e 2 Many DJs conseguiram fazer barulho o suficiente para expor seus trabalhos ao resto do mundo. Quem abriu timidamente esse caminho foi o pessoal do dEUS, que é uma espécie de Kevin Bacon musical belga, ou seja, se você é músico e nasceu na Bélgica, em alguma momento você tocou com algum membro do dEUS. O que chama constantemente minha atenção nos artistas de lá é a criatividade. Talvez o próprio fato de não se ter os olhos do mundo voltados para o seu trabalho dê uma liberdade os artistas, que compõem sem se amarrar a estilos ou modismos.

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O belga que mais recentemente invadiu meus ouvidos e se instalou por lá foi um cara chamado Daan. Ele começou a carreira em 1998, quando lançou o primeiro álbum de sua banda, Dead Man Ray, uma parceria com Rudy Trouvé, um ex-membro do (adivinha!) dEUS. No ano seguinte, Daan Stuyven lançou seu primeiro trabalho solo, o excelente “Profools”. O título é um trocadilho com o nome do software usado por ele (e 98% dos músicos de hoje em dia) para gravar o disco, o Protools. A faixa “Boots” abre a seleção de músicas, que misturam rock de estrada, eletrônico datado, pitadas de jazz e letras bacanas e despretensiosas. Em “Simple”, ele dá várias dicas bem humoradas de como não se estressar e manter as coisas simples: “don’t recognize a dealer with a broken face / don’t wash the cabbage if you’re in love with the caterpillar / don’t cross waters without a bridge / don’t cry for me nor argentina” (não identifique um traficante que tem a cara machucada / não lave a alface se você está apaixonado pela lagarta / não atravesse rios sem uma ponte / não chore por mim, nem pela Argentina).

A influência eletrônica de Daan se mostra mais presente a partir do segundo álbum do compositor, “Bridge Burner”, de 2002. O disco tem várias faixas dançantes que remetem a artistas distintos como Daft Punk, Kraftwerk, Garbage e The Real Tuesday Weld. O bacana é que Daan encurta a distância entre pólos opostos, produzindo uma música que consegue soar ao mesmo tempo moderna e antiquada, cool e kitsch. O single “Swedish Designer Drugs” colocou Daan em rotação nas rádios belgas pela primeira vez e criou uma certa expectativa em relação ao seu álbum seguinte. Em 2004, as lojas recebiam “Victory”, um álbum bem mais direcionado ao eletrônico datado. Sonoridades oitentistas, com arranjos que, por vezes, riem de si mesmo. Há um claro posicionamento de não se levar muito a sério, fazendo músicas para animar as pistas. Foi o que fez a faixa “Housewife”, que conseguiu garantir seu espaço nos clubs belgas. O disco não é tão criativo quanto os anteriores, mas firma a vontade do músico em se tornar um artista de música eletrônica.

Em 2006, Daan volta à ativa com “The Player”, um álbum eletrônico criativo que leva sua proposta musical ainda mais longe. São belas canções, que fundem sonoridades atuais com timbres que ninguém ousaria tirar do túmulo. A faixa “Type Ex”, primeiro single do álbum, deixa clara uma das influências de Daan nessa empreitada musical. Ele pega de onde o compositor francês Serge Gainsbourg parou no final dos 80. Um eletrônico kitsch, com letras às vezes geniais, às vezes bobas, com instrumentais que ignoram qualquer tendência atual, como demonstram os singles “The Player” e “Promis Q”, que têm sido bem recebidos nas paradas belgas.

Ponha as mãos nas músicas do cara da sua maneira preferida (Soulseek, Emule, Torrent, Amazon, etc), abra aquela cervejinha de cereja e tente entender o que se passa afinal na cabeça desses belgas.

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Literatura

Desaparecidos

desaparecidos

por Clarice Casado

Este é para todos aqueles que desapareceram da minha vida.
Sem deixar rastro. Sumiram, apenas.
Não morreram.
Sumiram.
Se foram.
A lugares longe e perto
Perto e longe
Não porque eu quis
Mas porque assim quis a vida
A vida corrida sofrida
Nada sabida
Sabido
Não sabido.
Paradeiro desconhecido.
Por aí
Pela vida afora.
Com outros amigos
Outra família
Outra rotina
Outra existência
Outros
Os colegas de escola
O porteiro do prédio que tratava minha mãe por Professora
O primeiro amiguinho do meu filho
O professor que amava Maria Callas
A amiga que deixou de ser
A fantasia de Emília
A desconhecida que achou que eu era atriz de novela
A máquina de escrever do meu Pai
O pão caseiro de uma avó
Os chás da tarde da outra avó
O namorado da prima
O coração de galinha com alho
O primeiro vestido de festa
O amigo do peito
A boneca morena de olhos verdes
A massagista confidente
As tardes frias de 1992
A faxineira que perdeu a filha
As histórias pra dormir da minha Mãe
Os passarinhos monogâmicos
O gosto quente de pinhão no inverno
O manobrista da faculdade
O menino que apanhou da minha irmã com uma garrafa térmica
Os filmes Super-8 do meu Padrinho
O Dr. Rodrigo Terra Cambará
O Picanha na Tábua
A aluna que morava com a avó
O pão de queijo da Albertina
O cara da banca de revista
A casa da Bordini
O cheiro de grama cortada da casa de praia do meu avô
O taxista que lia Nietszche
A Porto Alegre da década de 80
O amigão de infância
O batom com gosto de chocolate
A madrinha de Crisma
Os personagens da série que acabou de repente
As sapatilhas de ballet cor de pêssego
A menina que achava que meu irmão era chinês
O médico vidente
Onde estão
Onde estarão
Desapareceram
Desaparecerão?