Clarice Dall’Agnol

Literatura

Sonho

imagem: Cassiano Rodka

“Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo”

Renato Russo

Suava algo diferente quando despertou na manhã fria. Tinha sido o pior sonho. Sonho ruim é sempre pesadelo? Não queria se desprender dali, nem dele mesmo. Queria só desprender-se daquela avalanche de coisas que estava sentindo. “Acho que até chorei, sabe?”. Ainda estava um pouco lá, parecia recém ter saído da imagem. Coisa de doido. Sabe aquele negócio de sonhar que se está nu no meio da rua? Sabe? Quando a sensação do sonho é tão real que a carne dói? Que tudo dói? Que o pensamento dá voltas e nada se explica? Sabe? Isso mesmo. Foi bem assim.

Estava correndo de carro feito louco, em alta velocidade. E nunca corria. Nunca. Correr não era com ele. Mas naquele dia tinha que correr. Queria correr. Nem sabia a razão, só queria correr. Mas quem disse que ele era ele mesmo? Era um sonho. Em sonho é assim: ou você pode ser você mesmo ou o Gael García Bernal. Depende da sua vida naquele momento.

O barulho foi de cegar. “Já vi muito barulho cegar muita gente”. Mas igual àquele não dá pra esquecer. Ficou tudo tão quieto logo depois, que só se ouvia silêncio. Silenciado estava ele. Era tudo parado ao seu redor, era tudo girando ao seu redor. Era gente indo e vindo. Era gente congelada, porque em sonho tudo congela, às vezes. É assim mesmo.

Olhou para baixo e viu-se sem pernas. O grito veio forte demais pra que pudesse sentir. E a sensação era exatamente aquela que se tem uns segundos antes da montanha-russa despencar, pra quem tem medo de montanha-russa. Respiração parada, cortada. Coração fora do peito. Vendo o vermelho dele pulsando em sua frente. Só sabia que podia voltar. “Quero voltar”.

E voltou. Voltou. “Voltei!”. No exato instante em que descobriu que o sonho era sonho, naquele momento em que o despertar o aliviou, a sensação foi como a de beijar a boca de alguém que se quer muito. “Me beija”.

Música

Uma barata chamada Ween

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por Cassiano Rodka

Uma das minhas bandas preferidas é o Ween. Trata-se de uma dupla de irmãos (fictícia – na verdade, eles não têm nenhum parentesco) que compõem juntos desde os 14 anos de idade. Juntos, eles lançaram os discos que têm a maior diversidade de estilos que este mundo já ouviu – ou deixou de ouvir. Nos primeiros álbuns, Gente e Dean Ween usavam baterias pré-gravadas tosquíssimas como base e as acompanhavam com guitarra e baixo. Os vocais eram distorcidos e as letras versavam sobre os mais bizarros assuntos, desde piolhos até mononucleose. Claro que também havia espaço para canções de amor, como a ingênua “Don’t Laugh (I Love You)” e a romântica “She Fucks Me”.

Com o tempo, a banda foi amadurecendo – que termo bem xarope, né? – e os dois discos mais recentes dos caras, “White Pepper” e “Quebec”, mostraram-se um pouco mais “sérios”. Com o lançamento de “La Cucaracha”, o Ween parece ter chutado o balde e assumido o seu lado debochado e despretensioso novamente. O resultado é um álbum bastante divertido, onde clichés são usados como suporte para criar músicas originais.

O disco abre com a instrumental “Fiesta”, que parece a trilha de abertura de um seriado que conta a história de um mexicano que resolve se aventurar em Las Vegas. Um excelente começo! A segunda faixa talvez não tenha sido a melhor escolha para seguir o agito de “Fiesta”, pois “Blue Baloon” dá uma quebradinha e baixa o ritmo em um rockzinho com uma sonoridade bem clássica da banda, uma levada simpática e até meio boba, com efeitos bizarros de teclado e dedilhados de guitarra limpinhos. A terceira faixa foi a primeira música escolhida para representar o disco. Em julho, “Friends” havia sido lançada em um EP junto com outras 4 faixas inéditas para dar um gostinho do que viria por aí. É uma música especialmente inusitada, pois é um eurodance anos 90. Sim, um dance 90! É inacreditável e certamente pegou muito fã de surpresa. Me pegou completamente de surpresa! Mas como sou um simpatizante do gênero – pois acho que não tem música bagaceira como a dos 90 -, achei o resultado divertidíssimo! Tudo o que foi feito de melhor e pior dos anos 90 merece respeito. Pois bem, uma das palavras mais usadas pelo Ween em toda sua discografia é “friend” e, no refrão de “Friends”, eles resolveram se puxar: “A friend is a friend who knows what being a friend is”. Completamente retardado!

Dois gêneros musicais reincidentes da banda estão presentes também em “La Cucaracha”: o bom e velho country do Ween aparece em “Learnin’ to Love”, com um solo eletrônico maluco cheio de vocais sintetizados, e o reggae ganha seu espaço em “The Fruit Man”. Dean Ween, o guitarrista, assume os vocais na pesada “With My Own Bare Hands”, mostrando o lado mais agressivo da banda. Em “Sweetheart”, ele retorna ao microfone com um rock que poderia estar num disco do Eric Clapton – mas com uma letra menos pornográfica, é claro. “Shamemaker” é uma das faixas mais bacaninhas, um punkzinho com sotaque inglês que imagino que vá ser uma das queridinhas do público nos shows ao vivo. Mas o grande destaque mesmo fica para a última faixa, “Your Party”, um clássico instantâneo, com saxofones a la “Careless Whisper” e cantada por um marido que agradece – junto à sua esposa – a maravilhosa festa dada por um amigo. Não é uma festa comum, não, preste atenção na letra… Uma boa ideia, aliás, para escutar esse disco: convidem os vizinhos, aumentem o volume e caiam na fiesta!

Literatura

Maio

maio
Foto: Vanilson Coimbra

Sentir seu corpo frio foi o pior. Reconhecia-o sempre pelo calor. Gelou. O que doía era não poder explicar. Ter que calar-se quando precisava gritar. Da multidão que chegava para olhar o cadáver dela, beijando-lhe ora a mão, ora o rosto, não queria nada. Não esperava nada. Não ouvia nada. Na lembrança, a dor cortante do dia em que se tornaram elas.

Literatura

Sou eu

soueu
imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Eu sou aquele que passa na rua. Meu passo se aperta porque estou surgindo em letras, derramando-me pelos cabelos. Sinto que estou escorrendo pelos ombros e quero chegar lá antes que me perca. Eu sou o moço da banca de revistas e a atendente da livraria estudantil. Estou na parada de ônibus, esperando. Sou eu no letreiro do lotação. Sou eu no botão da sinaleira e sou eu descendo a lomba, feliz por me ver saindo pelos poros, vertendo nanquim pelos dedos. Eu sou cada pegada e sou o caminho. Sinto cada soco das palmas dos meus pés no peito. Queira eu que chegue antes de me esfolar pelo asfalto e escorrer pela sarjeta. Eu sou o rumo verdadeiro e a estrela polar. Uma bússola que aponta para onde sou. Entre os restos do fim do expediente e os primeiros minutos da noite, sou eu. Eu sou cada palavra que verte da minha testa e se esparrama pelo chão. Sou eu quem pisa afoito em cada uma delas, querendo carregar na sola do pé cada sílaba, cada feto de ideia. Sou eu aqui nestas palavras e, aqui, serei sempre eu. E ninguém mais é. Mesmo. Só eu sou eu.

Literatura

Tirano

tirano

por Marcella Marx

No espelho não conseguiu enxergar sua imagem. Quanto mais se aproximava dela, mais aumentava a distância, até perder-se no imenso. Cego de luz, ria sem escutar o grunhido agudo de sua voz ressoando por entre os cômodos. Levou as mãos ao rosto e não sentiu os espinhos perfurarem seus dedos, nem o sangue que escorria. Os lábios escancarados em riso fizeram com que o líquido espesso se depositasse nos cantos da boca. Logo a penetrou, e ele nada experimentou do sabor agridoce. Os anos o obrigaram a sentar sem saber bem onde. Dali da latrina imunda, odor algum percebia. Não ouviu quando dois meninos entraram pela porta e levaram sua máquina de escrever e seu polígrafo. Quando já descansado, levantou-se e seguiu deixando um rastro vermelho pelo chão.

– Quando teremos notícia do coronel?
– Está recolhido em sua casa de campo preparando a nova lista.
– Mais uma?
Fez um sinal afirmativo com a cabeça.
– Por que não fazemos os testes aqui mesmo?
– Ele prefere realizar lá, diz que precisa estar mais concentrado para impedir erros.

Duas fortes pancadas anunciavam a chegada de dois de seus homens.
Apoiado à mesa, escutou as batidas e deu ordem para que entrassem; sempre deixava as portas abertas.

– Coronel, trouxemos o último nome da lista.

O homem ergueu os olhos, e não viu a mulher com a criança embrenhada em seus braços paradas a sua frente.
Deu ordem de execução.