Clarice Dall’Agnol

Música

Parov Stelar: entre o passado e o futuro do jazz

parov_stelar_8

por Cassiano Rodka

Parov Stelar é, sem dúvida, um dos grandes nomes do nu jazz na atualidade.

Seus arranjos misturam, com ousadia, samples de jazz com batidas de house, downtempo e breakbeat. O resultado é um som de melodias refinadas que parece passear livremente em algum lugar entre o passado e o futuro do gênero.

O músico lançou recentemente seu terceiro álbum, intitulado “Shine”. Mais inspirado do que nunca, Stelar compôs 15 faixas que trazem o equilíbrio perfeito entre o jazz de raiz e os novos grooves, que o artista já provou que domina muito bem. Com muita elegância e sem medo de arriscar, o compositor austríaco traz canções que vão desde o clima lounge, como a sensual “Tango Muerte” e a tristonha “Happy End”, até as nascidas para a pista de dança, como o funky-soul de “Love (Part 1)” e o house-Woody Allen de “Charleston Butterfly”, com os belos vocais da convidada Gabriella Hänninen.

Seja para namorar perto da lareira ou para dançar até os pés pedirem trégua, a música de Parov Stelar serve de trilha sonora para todos os amantes do bom jazz.

Literatura

Fuga nº2: Céu

Fuga_nº2:_Céu

O balão era de um laranja tão vibrante
que era impossível perdê-lo de vista.

Metros e metros de uma subida incansável
de um laranja risonho e debochado.

Longos minutos de uma frustração berrante
ilustrada pelos olhos molhados de uma menina.

Imprimiu seu pensamento no vento,
ferindo ardorosamente alguns ouvidos da terceira idade.

E jurou vingança.

Literatura

Música dos outros

musicadosoutros.jpg

por Clarice Casado

Sinto falta da crônica. Foi assim que comecei neste ofício. Acabei me jogando pro lado do conto, e, ultimamente, umas arriscadas em poesia, e deixei de lado a velha e boa crônica. Uma boa história do cotidiano, aquela historinha aparentemente idiota, mas que pode ficar deliciosa se cair nas mãos certas (aí vem meu lado exibidinho, que estava adormecido nestes tempos de contos e poemas…). Leitores, apresento-lhes hoje uma, saída de dentro de um elevador. Sempre há boas histórias a serem contadas depois que se sai de um elevador… Preste atenção.

Cena: nove horas da manhã, elevador gigante de um prédio movimentadíssimo da Alameda Santos, em São Paulo. Personagens: a secretária passando batom e tomando café da manhã ao mesmo tempo, o motoboy de jaqueta preta surrada com mp3 a mil nos ouvidos, o executivo de terno Armani com perfume exagerado para aquela hora da matina, duas ou três estagiárias de direito comentando a prova de direito de civil e a balada da noite anterior, o motoboy de jaqueta preta surrada com mp3 a mil nos ouvidos, um cara de camiseta e calça jeans com jeito de publicitário checando mensagens no celular, e eu, professora de inglês em um escritório de advocacia. Variam as pessoas, mas os riquíssimos espécimes humanos são sempre os mesmos. De vez em quando tem também as ascensoristas leitoras ou conversadoras, que são sempre dignas de nota. Não estou fazendo gozação ao dizer “riquíssimos”, não. É material para mil e uma histórias…

Eu ia pro vigésimo andar e o elevador é demorado. Em poucos segundos, todo mundo já olhava torto pro tal motoboy com fones no ouvido. Ouvia sei-lá-o-que-no-máximo-volume, dava pra escutar quase que perfeitamente. Era chato. Muuuuito chato.

A secretária estava quase terminando de passar o batom quando o elevador parou com um solavanco, no sexto andar. “Ai, meu Deus, tenho claustrofobia”, foi só o que tive tempo de pensar, entre risadas nervosas das estagiárias. O executivo mega-perfumado pegou logo o telefone de emergência pra avisar a segurança. Mal largou o treco e se virou com cara de fúria e quase gritando pro motoboy, que aparentemente continuava a ouvir a sua música infernal, sem se alterar, “Desde quando eu sou obrigado a ouvir a sua música, hein? Não me basta ficar preso nesta porra, eu ainda tenho que ouvir o seu bate-estaca horroroso? Você só pode estar de gozação, meu irmão, você deve ser maluco!!!”. Eu nem me mexi, apavorada, enquanto o resto do pessoal se entreolhava, sem bem saber o que fazer.

Os minutos em um elevador parado não passam. É como se cada um tivesse 240 segundos, principalmente quando o cara que está ouvindo a música a mil faz de conta que não ouviu o outro louco corajoso que está gritando nos ouvidos dele. Eu não sabia se ficava quieta ou dava apoio pro doido, já que a música também estava me incomodando demais, mas é óbvio que fiquei quieta, quem me conhece sabe que eu não iria entrar no barraco. Foi a secretária que resolveu tocar no ombro do motoboy enquanto o executivo bufava, “Amigo…”, e o cara não se mexeu. Pior: sorriu. Pra que, hein? Me perguntei, enquanto o executivo lhe arrancava dos ouvidos os fones e ele partia pra cima do executivo, as estagiárias gritavam e o suposto publicitário chamava de novo pelo telefone a segurança. Foi nessa confusão de segundos que as portas abriram, e os dois brigões, agarrados, voaram pro lado de fora! A mulherada gritava e saía desesperada, e ao mesmo tempo o pessoal que esperava no sexto andar tentava separar os dois, uma loucura, um negócio de filme besteirol americano, ridículo…! Quando finalmente se desgrudaram, depois de palavrões, socos e pontapés, o motoboy já estava de novo com seu mp3 e fones nas mãos entrando meio fugido no outro elevador que chegava. O executivo, suado, descabelado, mas ainda perfumado, se recompôs de cabeça erguida, sob os nossos ainda assustados olhares. Deixamos que ele pegasse o próximo elevador sozinho.

Enquanto esperávamos, ficamos todos quietos. Talvez pensando que o cara tinha toda a razão. A secretária pensou que estava era muito atrasada e que nunca mais ia se meter na vida dos outros. As estagiárias continuaram lembrando da noite anterior. O motoboy já estava lá na Paulista com a Haddock Lobo. O executivo chegou gritando com todo mundo no escritório. O publicitário já tinha na cabeça o slogan da sua mais nova campanha, Vá com tudo!, e eu, bom, eu tirei da bolsa minha agenda bem rapidinho pra fazer anotações literárias.

Viu? Nada como a velha e boa crônica…

Música

Borboletas e furacões: Muse em SP

Muse_ShowemSP.jpg
imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Melhor banda ao vivo da atualidade, show de alta qualidade, músicos excelentes… É difícil não ler uma matéria sobre o Muse que não use esses termos. E é completamente justificável. O trio inglês faz de cada apresentação um espetáculo realmente emocionante e cheio de energia.

O show do Muse no HSBC Brasil apresentou um bom apanhado da carreira dos caras, baseando-se praticamente só nos singles da banda. O primeiro álbum, “Showbiz”, foi deixado totalmente de fora, possivelmente porque eles já tocam aquelas músicas há mais de 10 anos. Mas mesmo sem “Muscle Museum”, o set foi impecável, cheio de grandes hits roqueiros que a galera canta aos brados, desde os agudos de “Supermassive Black Hole” até o refrão de “Starlight”, cantada ao som das palmas que marcavam o ritmo bacaninha da música sob o comando do vocalista.

Matthew Bellamy, aliás, é um show a parte. Canta como poucos, toca muita guitarra e ainda por cima destrói no piano. Chega a dar raiva! Se entrega emocionalmente a cada música e sempre dá umas belas improvisadas nas guitarras. A surpresa no set ficou por conta de “Citizen Erased”, faixa queridinha dos fãs, mas que não estava mais sendo incluída nos shows da banda. Estouros de fumaça, bolas gigantescas pulando sobre a galera e um telão enorme também ajudam no visual da apresentação. Mas é a sinergia entre os membros da banda que realmente faz a festa acontecer. A execução das músicas é passional e o público corresponde. Quem estava lá, saiu de alma lavada. Um show para lembrar. Sempre.

Setlist do show:
Knights of Cydonia
Hysteria
Bliss
Map of the Problematique
Supermassive Black Hole
Butterflies and Hurricanes
Citizen Erased
Feeling Good
Bass Jam
Invincible
New Born
Starlight
Time is Running Out
Plug in Baby

Bis:
Stockholm Syndrome
Take a Bow

Literatura

Os passantes se desvendam em procissão

passantes

por Marcella Marx

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles ;
L’homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l’observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

Il est des parfums frais comme des chairs d’enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
– Et d’autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l’expansion des choses infinies,
Comme l’ambre, le musc, le benjoin et l’encens,
Qui chantent les transports de l’esprit et des sens.

“Les Fleurs du Mal”, Baudelaire

Os passantes se desvendam em procissão restando sobre o chão pegadas invisíveis a cada parada invertem o compasso seguindo largando no vento algo só seu. Me encontro a recolher os vestígios a guardar as folhas caídas a memorizar seu aroma a fisgar o olhar roubado a colecionar murmúrios e a ordenar as palavras ao vento. E sigo assim desvendando caminhos.

Música

The Jazz Devil is back!

Barry_Backtothecat.jpg

por Cassiano Rodka

Quem é Barry Adamson? Barry Adamson é o cara!

Iniciou a carreira tocando baixo no Magazine (os pais do pós-punk – ainda escreverei sobre eles aqui) e fazendo parte dos Bad Seeds, banda de apoio de Nick Cave. Depois seguiu para uma carreira solo que aproximou o jazz de gêneros mais populares, como o rock, o pop e o hip hop. Apaixonado por cinema, Barry sempre teve uma relação próxima com trilhas sonoras, então podemos frequentemente perceber sonoridades ambientais típicas do cinema nas suas canções. Sem falar nas altas doses de sensualidade das guitarrinhas wah-wah espalhadas pelas suas faixas mais funkeadas.

Recentemente, ele lançou o seu mais novo álbum, “Back to the Cat”. Depois de um disco um pouco sem foco (“Stranger on the Sofa”), Barry voltou a explorar o seu lado mais jazzístico e funky, mas sem deixar de lado seu gosto pela música contemporânea, mantendo os seus toques eletrônicos e o seu pezinho no rock.

A volta ao suingue é muito bem vinda, produzindo pérolas como “The Beaten Side of Town” e “Civilization”. As faixas instrumentais, como sempre, estão caprichadíssimas, com destaque para “Shadow of Death Hotel”, uma das melhores músicas do disco. “Walk on Fire” é outra das minhas preferidas: guitarrinha funky, batida safada e um excelente refrão que fica na cabeça. Um possível single. O primeiro single, aliás, é um jazz-rock com ecos de Violent Femmes intitulado “Spend a Little Time” e pode ser baixado de graça no last.fm. Outra que implora pra ser single – e provavelmente vai conseguir – é “Straight ‘Til Sunrise”, um jazzinho-pop que evoca melodias de Burt Bacharach.

Barry Adamson é imprescindível na coleção de todo bom apreciador de jazz. Então corre atrás do disco novo e põe pra rodar no seu gramofone!

Literatura

Resumo de avó

resumodeavo

por Clarice Casado

Para Beatriz

Brilhantes olhos azuis
Sorridentes
Abraço de aeroporto
Totosinhos mil
Decorações de Páscoa e Natal
(as mais lindas da cidade)
Organiza, recolhe, organiza
Pinta a casa com mil cores
Usa os correios
como ninguém:
o tradicional, cartas e adesivos
e o eletrônico, quem diria…
Lê, estuda, faz, acontece
Ensinou, agora aprende
Entra, sai, entra e sai
Conta histórias
Conta sonhos
Fala com plantas
Planta.
Colhe.
Plantou Clarice:
colheu Vito e Angelina.

Literatura

Calendário

_Calendário_

Me cansa o calendário.
Amontoado de compromissos mascarados.
Em pele de dias, semanas e meses, prefiguram-se.
Em números repetidos, espalham-se na quina da mesa.
E me observam e riem baixinho,
zombando da minha tamanha
perda de tempo.

Mas há de chegar o dia
em que o dia não mais importa.
E a folha arrancada amassada na lixeira
será já foi e quiçá
quem sabe?