Clarice Dall’Agnol

Música

Codeine Velvet Club

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por Cassiano Rodka

Às vezes, as melhores ideias surgem nos momentos mais ociosos: no chuveiro, esperando um ônibus ou, no caso de Jon Lawler, no intervalo entre o segundo e terceiro disco dos Fratellis.

Durante o hiato da banda, o guitarrista e vocalista decidiu juntar-se com a cantora Lou Hickey para criar um grupo que misturasse o background roqueiro dele com as raízes jazzísticas dela. E assim nasceu o Codeine Velvet Club.

O primeiro single da banda, “Vanity Kills”, foi também a primeira colaboração entre Jon Lawler e Lou Hickey. Lançada em 23 de novembro de 2009, a faixa trazia os dois artistas dividindo os vocais, o que seria uma característica das composições da banda. A combinação das vozes, aliás, é um dos pontos altos das canções e funciona muito bem, tanto em estúdio quanto ao vivo.

Com o lançamento do álbum homônimo da banda, veio o segundo single, “Hollywood”. A banda foi indicada ao MTVU Award na categoria de melhor videoclipe, chamando maior atenção do público e da mídia internacional e garantindo uma turnê nos Estados Unidos em 2010.

Recentemente, Jon Lawler decretou o fim do Fratellis, eliminando a possibilidade de um terceiro álbum. Ou seja, o Codeine Velvet Club deixa de ser apenas um projeto criado para passar o tempo e torna-se sua banda principal. O vocalista também declarou que a dupla já está compondo novo material para um segundo disco. Melhor assim, pois se o grupo entra em hiato, é capaz do compositor criar outra banda!

Literatura

Em tempos de Alice

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Eu não ia falar de Alice. Eu prometi que não iria falar de Alice porque toda santa criatura do mundo das artes está falando de Alice há alguns meses. A minha querida amiga e parceira de site, Marcella Marx, falou irretocavelmente de Alice, neste PáginaDois, em forma de poesia, como só ela sabe fazer. Mas não há como não falar de Alice. Principalmente depois que fui assistir à película fantástica de Tim Burton no último sábado, com minha filha Angelina. Fiquei em êxtase, acho que mais que a Angelina e mais do que todas as crianças da sala de cinema juntas! Amo Alice. Sempre amei Alice.

Portanto, no meu caso, decidi falar não porque todo mundo está falando, mas simplesmente porque Alice no País das Maravilhas foi parte importantíssima de minha infância. Como o foi, igualmente, parte da infância de muitas crianças na década de 80 e em décadas anteriores.

Minha geração conheceu Alice sob a forma da linda menina loira de Walt Disney, que corria feito doida atrás do Coelho Branco. Minha geração também assistiu à atriz Myriam Rios (muito bem cotada na época) interpretar uma Alice de cabelos escuros nos palcos, num belíssimo espetáculo do qual lembro até hoje detalhes. Canções maravilhosas que sei de cor ainda. Intitulava-se O Sonho de Alice e foi encenado no ano de 1982 (essa informação foi o Sr. Google que me forneceu).

Além disso, havia uma relação particularmente interessante entre a cronista que vos fala e a enigmática personagem de Carroll. Quando criança, provavelmente incentivada pelo espetáculo de Myriam Rios, montei, com meus irmãos e alguns primos, uma produção teatral caseira de Alice! Minha prima Roberta, que sempre foi uma mandona (tanto assim, que hoje trabalha na Polícia Gaúcha!), fez as vezes de nossa Alice. Ela praticamente decidiu sozinha que ficaria com o papel principal, e todos nós aceitamos, sob alguns protestos, porque um grupo precisa ter um líder, afinal! Eu, minha irmã Camila, meu irmão Cassiano (o Rodka, leitores!) e nosso primo Leonardo (onde andas, guri, que nunca mais te vi?) fizemos os outros personagens: as flores, a Lagarta, o Gato, o Chapeleiro Maluco, a Lebre, a Rainha, e, obviamente, o Coelho Branco. O Leonardo interpretou, sem dúvidas, o melhor Coelho Branco de toda a história de encenações de Alice! Agitadíssimo, como sempre foi, pulava tanto de um lado para o outro com um relógio despertador do avô dele durante o “espetáculo”, que enfureceu o velho a ponto de fazer com que ele gritasse da “plateia”, “Larga o meu relógio, guri!”. Incrível como esse tipo de lembrança fica viva e colorida na memória, como se tivesse acontecido há pouco tempo… Não preciso dizer que nossa família amou nossa despretensiosa produção teatral. Provavelmente, a tirar pelo que conheço da parte da família que assistiu à peça, para eles, deve ter sido “a melhor, mais linda, mais fantástica, mais perfeita e mais colossal encenação teatral de Alice já vista em todos os tempos e em todo o mundo!!!”.

Bom, o que importa, Alice aqui, Alice ali, é que pude viver, em algum momento de minha vida, em um mundo de Alice, sem sentir a menor culpa por isso. E quem nunca o fez, que atire a primeira pedra.

Cinema

Filmes de super-heróis

por Pedro Cunha

Antes de escrever sobre “Homem de Ferro 2”, eu quero fazer uma enoooorme digressão sobre filmes de super-heróis. Por mais que tentasse a sétima arte nunca tinha conseguido entrar de vez no filão dos super-heróis dos quadrinhos. Tirando fora os medalhões Super-Homem e Batman, da DC, nenhum filme de herói dava muito certo. Superman (Richard Donner, 1978) foi um bom filme com um elenco magistral: tinha Marlon Brando, Gene Hackman e um ótimo Christopher Reeve no papel que o definiu. Os Batman’s de Tim Burton (Batman, 1989 e Batman Returns, 1992), apesar do insosso Michael Keaton, tinham excelentes vilões. Jack Nicholson era considerado o Coringa definitivo (oquei, era.); Danny DeVito como o Pinguim e, especialmente, Michelle Pfeiffer como a Mulher-Gato eram ótimos também. Além disso, o diretor, melhor que qualquer outro, foi muito feliz em recriar a gótica Gotham City dos quadrinhos. Enfim, são três filmes em quinze anos. E são, caramba, o Superman e o Batman, os dois maiores ícones dos quadrinhos. A Marvel patinava no cinema com adaptações que beiravam ao ridículo. “Quarteto Fantástico” (The Fantastic Four, Oley Sassone, 1994) é uma verdadeira piada de mau gosto. Quase tanto quanto “Geração X” (Generation X, Jack Sholder, 1996). Esse é uma pérola que de vez em quando a Globo reapresenta na Sessão da Tarde. É um subgrupo dos X-Men que nos quadrinhos fazia muito sucesso na época…

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Bom, nos anos 90 mesmo as franquias que funcionavam conseguiram ser arruinadas. Joel Schumacher e seus terríveis Batman’s, “Batman Eternamente” (Batman Forever, 1995) e “Batman e Robin” (1997), conseguiram arruinar o homem-morcego. Além do Sr. Frio de pantufas de Schwarzenegger, fomos apresentados à Batmoça de Alicia Silverstone e ao Bat-Cartão de Crédito. Sim, você não leu errado. Os filmes acabavam por fracassar ao se perder tentando ser ao mesmo tempo um filme para os fãs, apresentando 50 anos de mitologia em duas horas, mas simplificando tudo para não perder o público “leigo”. Depois disso, apostar em filmes sobre heróis de quadrinhos parecia ser comprar uma briga certa com a legião de fãs dessa mídia.

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Ainda assim, a Marvel arriscou. Em 2000, entrou em cartaz “X-Men: O Filme” (X-Men, Bryan Singer, 2000). Lembro de ir assistir o filme no Cinemark do Bourbon Ipiranga com um amigo que, diferente de mim, não é fã de quadrinhos. Os X-Men tinham se tornado, nos anos 90, uma franquia milionária para a Marvel e crescido muito em popularidade. Wolverine se tornava um personagem pop tão importante quanto o Homem-Aranha e tornar-se filme parecia o caminho inevitável, assim como também parecia inevitável o fiasco de um filme que apresentaria um Magneto de colante vermelho e um Wolverine de amarelo e azul. Mas Bryan Singer, um diretor que jamais havia lido quadrinhos, matou a charada: mídias diferentes, linguagens diferentes. E mudou. Mudou e adaptou tanta coisa que o filme ficou bom e foi um estrondoso sucesso. O filme que custou U$ 75 milhões arrecadou fantásticos U$ 294 milhões. Os avanços recentes de computação gráfica e a falta de pudores de Singer, que pôs os X-Men em roupas de couro preto, ao invés das malhas coloridas, fizeram com que o filme funcionasse tanto para os fãs quanto para o público “normal”. O sucesso foi tão grande que, doce ironia, por algum tempo os personagens passaram a usar couro preto também nos quadrinhos.

Logo em seguida, Sam Raimi dirigiu o seu “Homem-Aranha” (Spiderman, Sam Raimi, 2002). O personagem maior da “Casa das Ideias” (como a Marvel é conhecida nos EUA) recebeu um tratamento carinhoso e um orçamento um tanto mais polpudo: U$ 139 milhões, quase o dobro de “X-Men: O Filme”. O resultado foi o ótimo filme com Tobey Maguire e a arrecadação de U$ 821 milhões, uma das dez maiores bilheterias de todos os tempos.

O resultado de “X-Men: O Filme” e de “Homem-Aranha” e de suas continuações criou uma trilha segura para novos filmes de heróis. A Warner tomou coragem e fez um reboot na franquia do Batman com o ótimo “Batman Begins” (Christopher Nolan, 2005), que custou U$ 150 milhões e rendeu U$ 372 milhões para a Warner/DC. Alguns filmes de gosto duvidoso vieram na esteira desses, como “Demolidor” (Daredevil, Mark Steven Johnson) ou “Mulher Gato” (Catwoman, Pitof, 2004), mas mesmo os leves e descompromissados como “Quarteto Fantástico” (The Fantastic Four, Tim Story, 2003) mantinham um nível mínimo de qualidade, aceitação e lucro que incentivava a indústria a seguir investindo no filão.

A Marvel, nesse momento, se colocava numa encruzilhada: até então seus filmes eram franqueados a outros estúdios, o que deixava a Marvel de mãos atadas e sem liberdade para decidir o que aconteceria com seus próprios personagens. A franquia X-Men pertence à Fox, a franquia Homem-Aranha, à Sony. A DC, editora rival, não tem o mesmo problema porque pertence à Warner, que tem seus próprios estúdios. A Marvel deu um passo adiante quando criou os Marvel Studios. A questão é que não poderia haver erro: era um investimento MUITO alto.

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O primeiro filme a ser produzido pela Marvel sem a interferência dos estúdios foi “Homem de Ferro” (Iron Man, Jon Favreau, 2008). Um orçamento modesto de U$ 140 milhões foi disponibilizado. Para efeito de comparação, “X-Men 3: O Confronto Final” (X-Men 3: The Last Stand, Brett Rattner, 2006) custou U$ 210 milhões e “O Motoqueiro Fantasma” (The Ghost Rider, Mark Steven Jhonson, 2007), um filme sobre um personagem muito menos importante, custou U$ 110 milhões. Homem-Aranha 3 (Spiderman 3, Sam Raimi, 2007), o mais fraco da franquia do aracnídeo, custou U$ 258 milhões. “Homem de Ferro” então era um filme que não podia errar. E não errou. Foi o filme de quadrinhos que unanimemente foi elogiado por “entendidos” e por “leigos”. O diretor Jon Favreau, mais conhecido pela condução em seriados como “Friends”, acertou a mão em cheio. A aposta em basear o personagem muito mais na linha Ultimate dos quadrinhos do que na linha regular livrou Favreau de ter que respeitar anos e anos de cronologia e deixou-o livre para construir um filme que é muito mais sobre Tony Stark do que sobre o seu alter-ego, o que foi um grande acerto. Talvez o maior acerto tenha sido no casting. Robert Downey Jr. parece ter nascido para interpretar o fanfarrão Tony Stark. Não fosse o personagem mais velho que o ator poderíamos dizer que tinha sido inventado para ele. Gwyneth Paltrow, como Pepper Pots, segura muito bem. O Obadiah Stane de Jeff Bridges é um vilão digno e típico das histórias em quadrinhos. A trilha sonora foi bem escolhida e o roteiro foi muito cuidadoso, com alguns “presentinhos” para os fãs de quadrinhos, como James Rhodes olhando para a armadura prateada ou o computador-mordomo chamado Jarvis. O filme foi um sucesso imenso e arrecadou U$ 585 milhões. A repercussão dele só não foi maior porque “Homem de Ferro” foi atropelado dois meses depois do seu lançamento por “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (Batman: The Dark Knight, Christopher Nolan, 2008), o filme que elevou os filmes de quadrinhos a um novo patamar, que foi reconhecido pela crítica séria de cinema, que teve uma das atuações mais viscerais da história do cinema (sim, o Coringa de Heath Ledger, como se eu precisasse dizer) e que arrecadou mais de U$ 1 bilhão, sendo uma das três maiores bilheterias da história do cinema.

Apesar do furacão “Cavaleiro das Trevas”, “Homem de Ferro” foi um começo com pé direito para os Estúdios Marvel. E foi também um começo pretensioso. O próprio filme já mostrava que ele não se esgotava em si mesmo. Diferente de outros filmes que deixam ganchos para as próprias continuações, “Homem de Ferro”, para os fãs de quadrinhos, deixou algo muito mais interessante: a cena pós-créditos onde o primeiro choque acontece quando Samuel L. Jackson aparece encarnando Nick Fury e o segundo quando ele fala em “Iniciativa Vingadores”. Qualquer leitor de HQs da Marvel saiu do cinema dando pulinhos. Sim, ele disse Vingadores.

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O projeto Vingadores continuou em “O Incrível Hulk” (The Incredible Hulk, Louis Leterrier, 2008). Cinco anos antes, em 2003, a Marvel juntou-se à Universal para tentar lançar um dos mais populares personagens da editora, o Hulk, no cinema. “Hulk” (Ang Lee, 2003) não foi o que se esperava e fracassou, apesar de arrecadar quase o dobro do seu custo. Em 2008, a Marvel então faz uma aposta arriscada. Um reboot na franquia apenas cinco anos depois e com um diretor quase estreante, com apenas três longas no currículo. E não é que deu certo? “O Incrível Hulk” é um acerto em diversos níveis. Edward Norton é um Bruce Banner perfeito. Parece que era fã do personagem e que fez um baita lobby para entrar no filme. A Liv Tyler como Betty Ross foi… bem, a Liv Tyler. O que sempre torna um filme mais bonito. Tim Roth e William Hurt para os antagonistas também foram muito bem escolhidos. E o filme foi um primor de CG (computação gráfica). A cena de perseguição na favela carioca, no começo do filme, é assustadoramente real. As cenas do Hulk, principalmente a da Universidade, são muito boas. E o filme entrega aquilo que o fã do Hulk quer: calças roxas, Banner caminhando sozinho, na chuva e, principalmente, duas palavrinhas que Ang Lee negou aos fãs no outro filme: “Hulk esmaga!”. A cena pós-créditos, com Downey Jr. como Stark, mostra a já esperada integração entre os filmes.

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Logo após “O Incrível Hulk”, em 2008, a Marvel apresenta um cronograma: para 2010, “Homem de Ferro 2”. Para 2011, “Thor”. Ainda em 2011 “Capitain America: The First Avenger”, depois rebatizado simplesmente “Capitain America”. E para 2012… sim, “Avengers”, o filme que vai juntá-los todos.

Cinema

Homem de Ferro 2

por Pedro Cunha

* Para uma leitura mais aprofundada, recomendo conferir antes o histórico dos filmes baseados em quadrinhos que fiz no post anterior.

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Chegamos em 2010 e foi lançado, com muita expectativa, “Homem de Ferro 2”. O longa não conta com o elemento-surpresa que o primeiro contou: o diretor, Favreau, é o mesmo. O elenco-base também é o mesmo, com Downey Jr. e Gwyneth Paltrow. O que muda? Mudam os vilões. Mickey Rourke, renascido com o excelente “O Lutador” (The Wrestler, Darren Aronofsky, 2008), foi escalado para fazer o Chicote Negro, tradicional vilão do Homem de Ferro. Sam Rockwell foi o escolhido para fazer Justin Hammer, o “inimigo corporativo” de Tony Stark. O elenco-base ainda teve as adições de Don Cheadle como James Rhodes, o Máquina de Combate (bem melhor que o Terrence Howard no primeiro filme) e a sensacional Scarlett Johansson como Natasha Romanova/Viúva Negra.

O filme tem um roteiro arrumadinho. Mais uma vez, o filme fica bom por focar no ser humano Tony Stark e nos seus problemas (o Paládio, a bebida, a insegurança, a relação mal resolvida com o pai…) muito mais do que no herói de armadura, seu alter-ego. Mas é uma sequência e se perde um pouco tentando seguir nas pegadas do primeiro filme. As tiradinhas de humor acabaram ficando um pouco além do limite (no primeiro filme foram na medida certa). Downey Jr. continua fantástico, fazendo um Tony Stark que agrada quem não conhece o personagem e impressiona quem lê os quadrinhos. A cena dele bêbado com a garrafa na mão é muito boa. Outro ponto alto do filme é a trilha sonora. AC/DC pegando forte e diversas citações rock ‘n’ roll, como The Clash e Queen. O CD da trilha sonora é uma belíssima coletânea para dirigir na estrada, por exemplo (mas tome cuidado com as multas por excesso de velocidade…). A melhor cena de ação do filme é a cena de luta em Mônaco. A “estreia” do Chicote Negro foi bastante impactante e todo mundo prende a respiração na medida em que ele avança em direção ao carro. A armadura na maleta é outra referência bacana aos quadrinhos. A última cena de batalha, na minha opinião, decepciona um pouco. As duas armaduras, Homem de Ferro e Máquina de Combate, juntas, tomam um suador do Chicote Negro e dos drones. Além de a cena ser à noite, o que sempre facilita para o pessoal da CG… Os efeitos durante o dia são mais difíceis, mas são melhores também.

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Uma das coisas interessantes do filme foi explorar a relação do Stark com o pai. Quando o pai fala com ele nos vídeos é impossível não perceber uma referência ao “Superman” do Donner, quando Jor-El (Marlon Brando) falava para seu filho através de uma gravação. A preocupação de Favreau em rechear o filme de referências sem deixá-lo hermético para os “não iniciados” em histórias em quadrinhos é um dos pontos altos do filme.

Falando das coisas nem tão boas assim, uma que me incomodou bastante no filme foi a Viúva Negra. Não dá para avaliar muito a atuação da Scarlett Johansson porque a personagem ficou completamente bidimensional. Não tem background, não tem história, não tem passado. Não tem uma opinião, sequer. Ou esse personagem vai aparecer mais em algum dos outros filmes da Marvel ou então sua inclusão foi completamente desnecessária e sem sentido. Quando eu li que a personagem estaria no filme logo lembrei da trama de “Os Supremos Vol. 2”, onde a Viúva é na verdade uma espiã russa que se envolve (chegando a tornar-se noiva) com Stark a fim de sabotar o Homem de Ferro e os Vingadores. Nem quis me inteirar muito sobre o roteiro para que a possibilidade da traição da Viúva Negra pudesse me “surpreender”, se fosse o caso. Claro que isso ainda pode acontecer nos próximos filmes, mas nem a sempre excelente Scarlett Johansson conseguiu salvar a personagem.

O filme é bom, no fim das contas. Um filme de ação muito legal, com carros, mulheres e homens bonitos, boas tiradas. Mas ficou um gostinho de já-te-vi e pelo menos para mim uma preocupação muito grande em se parecer com o primeiro filme. Vamos ver o que nos reserva “Homem de Ferro 3”, que já está garantido com Favreau e Downey Jr. Mas antes dele ainda vem “Thor”, que está prenunciado na cena pós-créditos de “Homem de Ferro 2”. O projeto de “Thor” está nas mãos de Kenneth Branagh, um nome bem apropriado para um filme mitológico. “Thor” será vivido por Chris Hemsworth (o jovem Kirk do novo Star Trek) e seu pai Odim, o Senhor de Asgard, será nada mais nada menos que Anthony Hopkins. “Thor” sai em 2011. E ainda em 2011 sai “Captain America”, cujo roteiro está sendo finalizado por David Self. Chris Evans (que curiosamente viveu o Tocha Humana nos dois longas do Quarteto Fantástico) será o Capitão América e Hugo “Agente Smith” Weaving vive seu antagonista, o Caveira Vermelha. Todos eles estão escalados para “The Avengers”, em 2012 e com produção executiva de Favreau. “Homem de Ferro 2” serviu para organizar cronologicamente algumas coisas: o filme se passa após “Homem de Ferro” e ao mesmo tempo de “O Incrível Hulk”, já que no escritório de Nick Fury há um jornal com a manchete falando do ataque do Hulk na Universidade Culvier. Pela cena pós-créditos, Thor é o próximo. E vamos ver se teremos uma sequência épica de filmes ou dois bons filmes que acabaram resultando numa sequência vergonhosa…

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Música

A história do Magazine

magazine

por Cassiano Rodka

Considerado um dos grupos precursores do pós-punk, o Magazine retornou em 2009 para uma turnê pela Inglaterra que teve rapidamente seus ingressos esgotados. Os shows foram gravados e transformaram-se em um lançamento (DVD+CD) muito bacana que deixa claro por que a banda foi tão influente para músicos como Thom Yorke e Morrissey.

O Magazine foi formado em Manchester pelo vocalista Howard Devoto logo depois que ele largou o Buzzcocks. Cansado de compor apenas músicas punk, Devoto procurou formar um grupo de músicos que levasse suas composições a novos territórios musicais. Assim, ele recrutou o guitarrista John McGeoch, o baixista Barry Adamson, o tecladista Bob Dickinson e o baterista Martin Jackson, cada um com um background musical bem diferente, indo da música clássica à experimental.

Dessa mistura, surgiu o primeiro single e, até hoje, o maior hit da banda: “Shot by Both Sides”, lançado em 1978. A canção ainda trazia muita herança do punk e o seu riff crescente garantiu que a banda também ascendesse, ganhando espaço no programa Top of the Pops.

Com a entrada de Dave Formula no lugar de Bob Dickinson, a banda gravou seu primeiro álbum, “Real Life”. Um clássico do que viria a ser chamado de pós-punk – um gênero com base no punk, mas voltado a experimentações, principalmente eletrônicas. O álbum, na verdade, mergulha em uma grande variedade de estilos, misturando-os com naturalidade. Cada instrumento ganha força especial graças aos excelentes músicos que formavam a banda. Desde o baixo pulsante de “Definitive Gaze” até os os teclados etéreos de “Parade”, o disco prende a atenção do ouvinte com suas várias camadas de sons. As letras de Devoto são um show à parte, verdadeiras poesias que ele praticamente declama sobre os instrumentais em melodias meio cantadas, meio faladas.

Para a gravação do segundo álbum, “Secondhand Daylight”, o baterista John Doyle substituiu Jackson, completando o que é considerada a formação clássica da banda. O disco saiu em 1979 com um som ainda mais experimental e eletrônico que seu antecessor. O single “Rhythm of Cruelty” não conseguiu fazer tanto barulho quanto o hit “Shot by Both Sides”, mas agradou fãs e críticos. Uma resenha positiva da revista Rolling Stone assegurou uma turnê pelos Estados Unidos e Canadá.

No ano seguinte, a banda já preparava seu terceiro disco, “The Correct Use of Soap”. Antes do álbum chegar às lojas, o Magazine lançou dois singles para criar expectativa: a atmosférica “A Song from Under the Floorboards”, com letra inspirada no romance existencialista “Notas do Subterrâneo” de Fiódor Dostoiévski, e a inesperada e divertida cover de “Thank You (Falettinme Be Mice Elf Agin)”, da banda funk Sly & the Family Stone. Logo que foi lançado, o álbum foi considerado pela crítica da revista New Musical Express como o grande clássico da banda. A recepção dos fãs e da mídia não poderia ser mais positiva, mas o som do Magazine não era digerível para um grande público e portanto não chegava muito alto nas paradas musicais. Cansado das baixas vendas, o guitarrista John McGeoch largou a banda e juntou-se a Siouxsie and The Banshees.

Em 1981, o Magazine recrutou Ben Mandelson para gravar as guitarras daquele que seria o seu último disco. “Magic, Murder and the Weather” foi lançado um mês depois do vocalista Howard Devoto anunciar que estava fora da banda. Com a saída de Devoto, o Magazine foi extinto e o álbum chegou às lojas quase como um epílogo. O ritmo funkeado explorado na cover de “Thank You (Falettinme Be Mice Elf Agin)” reaparecia com força em faixas como o single “About the Weather” e “So Lucky” enquanto o reaggae e o dub reverberavam em canções como “The Great Man’s Secrets” e “This Poison”. No geral, o álbum se mostrava mais ensolarado e menos sombrio que o usual, mas o clima entre os membros era de frustração e o disco acabou sendo o seu epitáfio.

No início de 2009, o silêncio de 28 anos do Magazine foi quebrado com o anúncio de uma turnê britânica. Os shows resultaram no DVD/CD “Real Life + Thereafter”, que apresenta os músicos em ótima forma tocando as canções que marcaram os seus 4 anos de carreira. Junto à formação clássica da banda, temos a adição do guitarrista Noko (que tocou com Devoto no grupo Luxuria) no lugar de John McGeoch, que faleceu em 2004. O lançamento é um ótimo registro, tanto para fãs quanto para quem ainda não conhece a banda. Infelizmente, não há versão nacional do produto, mas vale a pena ir atrás dele na sua importadora preferida. A banda anda também conversando sobre a possibilidade de gravar material para um novo álbum. Então talvez essa história não termine por aqui.

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Cinema

O Segredo dos Seus Olhos

por Pedro Cunha

Prólogo

Antes de qualquer coisa gostaria de agradecer por esse espaço, onde pretendo dividir com vocês um pouco dessa paixão que eu tenho por filmes e cinema. Desde que recebi o convite do pessoal do PáginaDois estou ansioso pelo momento de começar. A ideia é que esse espaço funcione da seguinte maneira: toda quinta-feira haverá uma resenha de filme. Quando possível um filme novo, quando eu não tiver ido ao cinema, um filme antigo (ou nem tanto). Toda quinta, sem exceção. A partir de junho, nos outros dias da semana, farei pequenas atualizações (ou nem tão pequenas, costumo ser um pouco prolixo…) como em um blog, com novidades e comentários sobre cinema em geral. Enfim, obrigado a todos pela oportunidade. Acomode-se na sua poltrona, desligue o celular e respire fundo: a seção vai começar…

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O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, Juan José Campanella, 2009)

Escolhi esse filme para começar com o pé direito. Foi certamente o filme de 2010 que mais me marcou, que mais me emocionou. O filme de Campanella entrou em cartaz no Brasil cheio de premiações internacionais e uma semana antes de levar o Oscar de melhor filme estrangeiro, batendo o (excelente) alemão “A Fita Branca” (Das Weisse Band, Michael Haneke, 2009), que havia por sua vez vencido a Palma de Ouro em Cannes. Com eu já tinha visto o filme do Haneke e gostado bastante dele, o já elogiado filme argentino entrou na minha lista de obrigatórios. Campanella era um diretor do bom “O Filho da Noiva” (El Hijo de La Novia, 2001) e de vários capítulos de séries como “30 Rock”, “Law and Order” e “House”. Campanella, além de dirigir, é o autor do roteiro do filme. E talvez seja melhor começar por aí.

“O Segredo dos Seus Olhos” tem um roteiro muito, mas muito bem costurado. Seria injusto dizer que o roteiro conta bem uma história. Porque ele conta duas. O grande charme do filme é justamente esse: são duas histórias. São duas histórias assimétricas, duas histórias diferentes e duas histórias que, num primeiro momento estão completamente desconectadas. O roteiro de Campanella flui e não comete aquele que é um dos grandes pecados dos filmes que contam mais de uma história, que é não conseguir encaixá-las harmonicamente. O filme flui, e flui tão bem que a direção de Campanella fica, num primeiro momento, quase invisível. Quase. Porque é um primor de trabalho. A escolha de cada ângulo de câmera, a construção de cada cena é cuidadosa. Um espetáculo à parte é a já famosa cena do estádio. O falso plano-sequência de Campanella mostra, naquele momento, o quão cuidadosa foi a direção durante todo o filme.

O trabalho dos atores do filme é (mais) um dos pontos altos. Soledad Villamil e Ricardo Darín seguram o filme muito bem. O trabalho da produção para modificar as idades dos atores também foi muito legal, já que as duas histórias do filme têm um hiato de algumas décadas entre elas. Darín e Villamil interagem de uma maneira muito natural e os diálogos entre eles saem rápidos e precisos (Aliás, abre parênteses: Como a língua espanhola soa bem… qualquer diálogo parece mais inteligente e mais ferino em espanhol… fecha parênteses). Guillermo Francella por muito pouco não rouba o filme com o seu Sandoval, o contraponto cômico do filme. Além dos três, todos os atores estão bem. E todos foram muito bem pensados para os seus papéis.

“O Segredo dos Seus Olhos” é um filme que conta uma eletrizante história de suspense. “O Segredo dos Seus Olhos” é um filme que conta uma linda história de amor. E faz as duas coisas ao mesmo tempo. O filme, no fim das contas, é sobre fortes sentimentos humanos. Vingança, amor, ódio, inveja, rancor, esperança e solidão, todos eles aparecem. E aparecem em medidas humanas. Os sentimentos que o filme argentino põe na tela não são super nada. Cada um de nós, vendo o filme, vê que poderia sentir aquilo, daquela maneira. Por isso o filme é tão fantástico. Por isso é o melhor do ano e um dos melhores de todos os tempos.

Se em vez de Buenos Aires a locação do filme fosse em Glasgow, se Irene Hastings e Benjamín Espósito se chamassem Claire e Malcolm, se o jogo fosse do Glasgow Rangers em vez de ser do Huracán e se o título original fosse “The Secret of Your Eyes”, o filme teria sido candidato sério aos prêmios de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Montagem e talvez Melhor Fotografia. Como o filme é argentino, levou o prêmio de Filme Estrangeiro. O segundo, aliás, dos argentinos, que já tinham levado por “História Oficial” (La História Oficial, Luiz Puenzo, 1985). E por ser argentino serve também para chamar a nossa atenção para a recente ótima safra de filmes argentinos e uruguaios.

Música

Quem escuta confirma: Holy Fuck!

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por Cassiano Rodka

A banda Holy Fuck surgiu com o intuito de criar música eletrônica sem o uso de qualquer instrumento musical comum ao gênero. Ou seja, em vez de construir batidas e melodias em laptops e sintetizadores, os músicos tocam instrumentos analógicos ao vivo, como bateria, baixo, teclado, pedais de efeito e até brinquedos.

O som que resulta desse mix é bastante interessante, pois traz a estrutura hipnótica do eletrônico com o som orgânico de uma banda de rock fazendo um show. As músicas não tem estruturas bem definidas, surgindo sempre de grandes jams entre os músicos.

No dia 11 de maio, a banda de Toronto lança seu terceiro disco, intitulado “Latin”. Sob forte aclamação da crítica e de músicos renomados como Thom Yorke e Lou Reed, o álbum promete ser um dos grandes do ano de 2010. Então mantenha os ouvidos abertos e prepare-se para exclamar: Holy Fuck!!

Literatura

Ritualística noturna

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Ao Vito,
notável.

Me chama
Me pede um boa noite na cama
Deita
Levanta
Arruma as cobertas
Ajeita milimetricamente os travesseiros
Onde está o travesseiro verdinho?
Pega o macaco Maquito
Coloca os controles remotos no pufe, lado a lado
Levanta de novo
Escolhe o canal da TV
Acerta o volume ideal
Deita novamente
Trocamos mil beijos
Pergunto se escovou os dentes
Sorri, sabendo que não
Insisto
Às vezes, cumpre a chata tarefa
Às vezes, cansaço…
Sorri, novamente
Levanta mais uma vez
Alimenta a tartaruga Tortuga
Apaga a luz do aquário
Deita:
Boa noite, diz
Boa noite, digo
Mais beijos, mil beijos
Hoje, me disse sorrindo:
Querida
Hoje, disse que me amava:
Te amo, Mamãe
Quebrou o ritual
Fez-me feliz.