Clarice Dall’Agnol

Cinema

Dr. Jivago

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por Pedro Cunha

A Sala Redenção, aqui em Porto Alegre, é vinculada à UFRGS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sempre promovem ciclos interessantes e fogem um pouco do trivial. Durante o mês de junho está em cartaz lá o ciclo “Imagens, Fragmentos e Cenas de Amor”. O tema é uma alusão a junho, mês dos namorados. Na sexta da semana passada eu estava de feriadão e fui ver quais eram as estreias da semana. Me deparando com “Príncipe da Pérsia” e “Marmaduke” resolvi conferir a programação da Sala Redenção aqui e me deparei com a possibilidade de assistir no cinema ao clássico “Dr. Jivago”. Eu adoro clássicos e sempre procuro as oportunidades de assisti-los no cinema. Não perdi a chance.

O filme de David Lean é baseado no romance do poeta e romancista russo Boris Pasternak, prêmio Nobel de literatura de 1958. O romance foi publicado em 1958 e é um retrato-denúncia das agruras pelas quais os russos passaram durante a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa de 1917. Em função dessas denúncias e acusado de “subjetivismo” Pasternak teve sérios problemas políticos na URSS e seu livro só pode ser publicado na Rússia em 1989, após a Glasnost de Gorbachev.

A épica história de Yuri Jivago é narrada por David Lean da maneira mais clássica e linear, o que cabe perfeitamente bem em um épico. A história começa quando da morte da mãe de Jivago, que adotado por uma família de amigos dos pais cresce destinado a tornar-se médico e a casar com Tonya, com quem cresceu junto. Eles representam a Rússia rica e aristocrática da nobreza e da burguesia próximos ao Czar. A Rússia proletária é representada pela família da jovem sonhadora Lara, filha da costureira e namoradinha de um operário que é ativista sindical e sonha em derrubar o corrupto governo de Nicolau II. As vidas de Jivago e Lara cruzam-se quase que por acaso quando ele, jovem médico, vai ajudar um professor da faculdade que, a pedido de um amigo, vai fazer um atendimento discreto a uma “amiga” que havia “passado mal” (entende-se que houve uma tentativa de suicídio ou aborto, o filme não deixa claro. A paciente acaba por ser a costureira mãe da bela Lara e daí para frente as vidas dela e de Jivago passam a cruzarem-se junto com a história da Rússia: ambos servem juntos durante a I Guerra Mundial, ele como médico e ela como enfermeira, quando o sentimento entre ambos cresce mas não se consuma já que Jivago, casado, preserva-se para a esposa Tonya e o jovem filho. Mais adiante as agruras da Guerra, da Revolução e da Guerra Civil vão fazer com que Jivago encontre-se e desencontre-se com Lara e Tonya uma série de vezes.

A narrativa de Lean é segura e sólida. O filme tem uma linearidade de começo-meio-fim que serve para que o espectador não se perca no meio da confusão política da Rússia das décadas de 10 e 20. Os 200 minutos de filme, com um direito a um intervalo e tudo, são de um tempo em que as histórias, de fato, passavam-se mais lentamente. A fotografia do filme divide-se em dois momentos muito claros: o primeiro, antes da Guerra e da Revolução, é urbano e em ambientes internos. Nessa hora o diretor abusa do recurso dos vidros e espelhos mostrando partes da cena. No segundo momento, quando os personagens vão para o interior, tudo muda. Lean usa quadros bastante aberto para mostrar a vastidão das paisagens russas. A sequência da viagem de trem, durante a qual Jivago observa pela janelinha do vagão as mudanças visuais, é linda. Os campos nevados (as locações foram no Canadá e na Finlândia) cortados pelo trem com a floresta ao fundo compõe com o sol, ora nascendo, ora se pondo, um quadro magistral. Fica ainda mais lindo se lembrarmos que não há photoshop ou qualquer tipo de manipulação das imagens. As duas tentativas de Jivago de fixar-se no campo, a primeira com Tonya e a segunda com Lara, também rendem sequências visualmente fantásticas: na primeira é o colorido das primaveras e das colheitas e, na segunda, o branco marmóreo, puro e estéril da neve e do gelo. Se o filme não tivesse enredo, elenco ou história valeria a pena no mínimo em função das imagens lindas.

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Falando em elenco, o filme é sustentado por três atuações fantásticas nos papeis-chave. Omar Sharif, o galã franco-egípcio que ainda está em atividade, vive o seu melhor momento. Depois de “Lawrence da Arábia” (1962), filme pelo qual David Lean ganhou o Oscar de Melhor Diretor e Sharif foi indicado como Melhor Ator Coadjuvante, Sharif viveu o papel-título em “Gengis Kahn (Henry Levin, 1965) e encontrava-se nas graças de Hollywod. Seu tipo físico encaixou-se perfeitamente para viver o médico, poeta, idealista e sonhador Yuri Jivago, que fez suspirar no cinema as moças na década de 60 (e na semana passada a minha namorada também, enfim). O Dr. Jivago de Sharif tornou-se um clássico e marcou o ator que contava então com 35 anos e que conquistou, com esse papel, o direito de encarnar tipos que não fossem tão somente os exóticos em Hollywood.

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Geraldine Chaplin, a filha de Charles, foi um grande acerto do casting. Além da participação, ainda criança, em “Luzes da Ribalta” (Limelight, Charles Chaplin, 1952) Geraldine tinha feito apenas dois filmes. Seu personagem talvez seja o mais cativante do drama de Pasternak: Tonya não tem a paixão fulgurante de Lara nem o idealismo heróico de Jivago, porém seu amor incondicional e sua fidelidade canina nos cativam durante o filme. Geraldine torna crível a figura da patricinha da alta sociedade russa que estudara em Paris e, em função da Revolução, instantaneamente tem que tornar-se uma dona de casa e tomar para si serviços que até pouco tempo antes eram feitos por empregadas e serviçais. Não é fácil cuidar do pai, do marido e do filho e ainda manter-se linda e sorridente, como Tonya Faz.

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A personagem mais forte do filme, sem dúvida, é Lara. Julie Christie tinha 24 anos e maravilhosos olhos azuis quando encarnou Lara e o fez com toda a energia que a personagem merece. Uma mulher obstinada e que sempre buscou suas paixões. A expressividade de Christie (apelidada, em função de seu bom humor, de “Girassol” por David Lean) pode ser percebida no olhar. São muitas as cenas em que os olhos de Lara nos dizem tudo o que deve ser dito. Era o início da carreira da atriz que seria definida por Al Pacino como “A mais poética de todas as atrizes”.

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O trio Sharif-Chaplin-Christie é muito feliz em suas atuações. A direção de Lean acerta na mosca o tempo e o andamento do filme. A fotografia é deslumbrante. A trilha sonora é marcante (e por vezes repetitiva com o Tema de Lara). Não, não é exagero. Estamos falando de um dos filmes que frequenta assiduamente as listas de melhores filmes de todos os tempos. Assisti-lo na tela grande? Não tem preço. Aliás, não tem mesmo: as sessões na Sala Redenção são GRATUITAS. Fica a dica.

(Falando em dica: além dos clássicos da lista eu não posso deixar de indicar “Once” (John Carney, 2006), que vai passar dia 11, sexta, às 19h. um dos filmes mais lindos que eu vi em 2010.)

Literatura

A menina do telhado

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imagem: Anelise Schutz

por Marcella Marx

Sentada sobre o telhado, ela saboreava uma maçã.
Lá de cima, usufruía de seu passatempo predileto: observar.
Chegava da escola, mal engolia o almoço e já se punha a escalar o parapeito da janela.
De lá até a primeira telha era um pulo.
A mãe gritava:

− Isoleta, desça já daí, venha fazer o dever de casa menina!

Mas Isoleta, entretida com os movimentos de Dona Maria aparando as rosas, nem sequer a ouvia.
Ia à feira com a mãe, e logo que passavam por uma barraca de maçãs, o cheiro a deixava com água na boca e vontade de estar lá em cima do telhado.

− Mãe, as maçãs!
− Meio quilo das mais vermelhinhas, por favor.

Ficava pensando que cenas incríveis poderia estar perdendo e apressava a mãe carregando as sacolas.
Certa vez, lá de cima, viu um homem velho caminhar lentamente carregando uma bengala e um pesado casaco de veludo marrom – em pleno verão!
Esta cena passou a se repetir todos os dias.
Era só Isoleta subir, que o homem atravessava a rua – sempre com seu casaco de veludo.
Dia desses, Isoleta decidiu ir ao encontro do homem e oferecer-se para ajudá-lo com a sacola
(puro interesse, ela queria mesmo era saciar sua curiosidade).

− Boa tarde, senhor. Posso ajudá-lo com a sacola?
− Obrigada.

E no caminho, conversaram. Ela contou sobre como o via todos os dias quando se sentava no telhado. E perguntou, meio envergonhada, porque ele usava um casaco tão quente no verão.
Daquele dia em diante, Isoleta passava suas tardes sentada numa confortável cadeira de balanço ouvindo belas histórias de bondes, pensões, viagens de navio e tantas outras coisas que nunca havia visto.

Cinema

Dennis Hopper (17/05/1936 – 29/05/2010)

por Pedro Cunha

E o cinema perdeu Dennis Hopper, um ator talentoso e prolífico. Uma rápida consulta no IMDb nos mostra quatro trabalhos dele como roteirista, oito como diretor e espantosas 203 atuações em cinema e televisão. Hopper morreu aos 64 anos, mas se tivesse morrido aos 33 já teria seu nome gravado na história do cinema. Em 1969, lançou “Sem Destino” (Easy Rider), filme que dirigiu, co-roteirizou (junto com Peter Fonda) e estrelou no memorável papel de Billy. O filme rendeu duas indicações ao Oscar: Jack Nicholson, como ator coadjuvante, e Hopper e Fonda pelo roteiro original. Mas mais do que isso, o filme criou um paradigma. Qualquer road movie feito depois de 1969 tem “Sem Destino” como referência. Motocicletas, estradas, chapéus de cowboy e o deserto americano como cenário. Se você nunca viu o filme e imaginou a cena, tenho certeza que foi impossível não escutar o riff do Steppenwolf e o vocal rouco de John Kay gritando “booooorn to be wiiiiiiiild”. Sim, a trilha sonora do filme também é fantástica. Além do Steppenwolf, tem The Byrds com “Wasn’t Born to Follow”, The Jimmy Hendrix Experience com “If 6 Was 9” e outras canções que se tornariam símbolos da virada dos anos 60 para os 70. O fim do sonho, o fim da inocência e o início de uma década mais niilista, menos idealista, mais desiludida e um tanto mais cretina. “Sem Destino” está em qualquer lista que alguém faça de filmes que devem ser vistos, seja qual for o critério da lista. Se Hopper não tivesse feito mais nada, já estaria na história do cinema. Mas a questão é que fez. E fez muito.

Dez anos depois de ter “cometido” “Sem Destino”, Hopper participou de um dos projetos mais malucos e megalomaníacos da história da Sétima Arte: “Apocalypse Now” (1979), de Francis Ford Coppola, é um daqueles filmes cuja história continua sendo contada. Considerado por muitos (inclusive por mim) como o melhor filme de guerra de todos os tempos, foi o resultado de uma experiência a qual Coppola submeteu Hopper, Marlon Brando, Robert Duvall, Martin Sheen e o restante do elenco, tentando recriar para eles o inferno que a guerra significou. Mais uma vez, um trabalho que definiu um gênero. E mais uma vez, Hopper estava lá.

Se “Sem Destino” e “Apocalypse Now” são trabalhos seminais do cinema com a participação de Hopper, ele nos devia ainda aquela atuação soberba, aquela atuação pela qual ele merecesse ser reconhecido. Essa veio, sem sombra de dúvidas, em 1986 com “Veludo Azul” (Blue Velvet, David Lynch). O mestre Lynch, num de seus grandes momentos, viu em Hopper a encarnação de Frank Booth, um daqueles vilões com os quais temos pesadelos depois de ver o filme. Lynch mais uma vez nos leva a uma jornada a um subúrbio idílico sob o qual as coisas não são tão tranquilas quanto podem parecer num primeiro momento. Hopper injustamente não foi nem indicado aos grandes prêmios pela atuação nesse filme.

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Os anos 90 não foram exatamente a melhor época de Hopper: Ser King Koopa em “Super Mario Bros” (1993) nunca será o apogeu da carreira de ninguém. Mas apesar de serem verdadeiras bombas filmes como “Velocidade Máxima” (Speed, Jan de Bont, 1994) e “O Segredo das Águas” (Waterworld, Kevin Reynolds, 1995), foram grandes sucessos de bilheteria e público.

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O século XXI mostrou um Dennis Hopper que aventurava-se em papéis secundários no cinema e na TV, além de também aproveitar oportunidades em novas mídias. Emprestou sua voz, por exemplo, ao game “Grand Theft Auto: Vice City”, de 2002. Também em 2002, teve aquele que, em minha opinião, foi seu último grande papel: o terrorista sérvio Victor Drazen, na primeira temporada da série televisiva “24 Horas”.

Hopper faleceu no último dia 25 e ocupa na história do cinema um lugar importante. Roteirista e diretor de “Sem Destino”, ator de muitos trabalhos, sublime em “Veludo Azul” e muito regular com sua carreira repleta de vilões, Hopper nos deixa. Vai para onde quer que seja, paraíso ou inferno. Mas a impressão que eu tenho é que, seja para onde for, ele segue dirigindo moto, bigode na cara, vento no rosto. Easy Rider.

Música

Onde há Paul McCartney, há fogo!

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por Cassiano Rodka

É incrível como a adoção de um pseudônimo pode nos dar liberdade para fazermos coisas que não faríamos assinando com nosso próprio nome. Se para os Beatles assumir a identidade da banda Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band fez milagres na hora de compor, para Sir Paul McCartney isso aconteceu sob a alcunha de The Fireman.

O projeto nasceu em 1993, quando McCartney juntou forças ao produtor Youth, conhecido por seu trabalho na banda industrial Killing Joke e no grupo eletrônico The Orb. A ideia do ex-Beatle era sair completamente de sua área de segurança – o rock – e experimentar novos caminhos musicais. Tudo começou quando Paul passou algumas músicas de seu álbum “Off the Ground” para Youth criar remixes bem distintos das versões originais. McCartney se entusiasmou com o resultado e entrou no estúdio com o produtor para criar novas músicas a partir daqueles novos mixes. E assim foi criado o disco de estreia do duo The Fireman, “Strawberries Oceans Ships Forest”. Bem experimental, o disco encaixa-se no estilo chamado de ambient eletronic, ou seja, música eletrônica para escutar sentado.

O segundo disco, “Rushes”, saiu em 1998. Dessa vez, a dupla não partiu de músicas de McCartney, criando as canções desde o princípio no estúdio. O resultado agradou mais à crítica e aos músicos do que o primeiro disco, mas as faixas de, em média, 10 minutos definitivamente não eram feitas para o rádio.

Dez anos depois, Youth e McCartney resolveram se reunir mais uma vez em estúdio para a gravação um novo álbum. Em 2008, surgiu o terceiro e mais recente álbum da dupla, “Electric Arguments”. Mais acessível que os antecessores, o disco é um pouco menos eletrônico e conta com vocais em suas músicas pela primeira vez. Segundo Paul, as canções eram criadas através de muita improvisação, inclusive as letras. A influência de música eletrônica ainda aparece presente, principalmente nas faixas que fecham o disco, incluindo o single “Lifelong Passion”. O álbum foi extremamente bem recebido pela crítica, sendo considerado um dos melhores lançamentos do compositor depois dos Beatles pela Rolling Stone. Com a boa recepção, mais duas músicas foram lançadas como single: “Dance Til We’re High”e “Sing the Changes”, que ganhou videoclipe.

Fui pego de surpresa quando escutei “Electric Arguments” pela primeira vez, pois o que encontrei nas músicas não era o velho Paul McCartney de sempre, mas sim uma interessantíssima nova versão do compositor. As músicas têm belas melodias em arranjos ensolarados e contemporâneos. O experimentalismo continua presente, mostrando que a banda gosta de levar suas composições além do lugar comum, adicionando belas molduras às já bonitas pinturas.

O álbum pode ser escutado na íntegra no site do The Fireman: http://www.thefiremanmusic.com/home

Literatura

Camadas

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Às vezes tenho a impressão de que a vida vai tomando forma em camadas. De tempos em tempos, uma nova camada se sobrepõe à outra, sem substituí-la ou alterá-la. Ela adiciona-se às anteriores, preenchendo espaços e dando forma a algo maior.

Por exemplo, você frequenta um bar há anos e, de repente, descobre que a garçonete é irmã da sua vizinha. E o dono do bar esteve em todos os mesmos shows de jazz que você compareceu nos últimos dez anos e vocês só se conheceram ontem. E foi ele quem comprou aquele disco que você estava na dúvida se levava pra casa ou não e, em questão de minutos, alguém apareceu na loja e levou. Era ele! E ele acaba de contar que mora na Rua Cândido Silveira, em um prédio onde você fazia natação aos 12 anos. E amanhã, em uma conversa informal, você vai descobrir que a vizinha irmã da garçonete também nadava lá. Parou quando viu uma criança bater a cabeça na piscina e você lembrará daquele sangue misturando-se ao cloro e chegará à conclusão que vocês eram colegas. E se perguntará por onde anda o garoto que machucou a testa… E algum dia talvez você descubra que ele foi o cara que vendeu o disco que você queria ao dono do bar. Ou que ele foi casado com a garçonete irmã da vizinha durante os anos em que você frequentou o bar sem conhecê-la. Ele pode ser, ainda, aquele baixista que você e o dono do bar aplaudiram de pé (em cadeiras nem tão distantes) há dois anos atrás, quando ainda não se conheciam.

Tudo vai acontecendo ao mesmo tempo; são diversas páginas sendo escritas a cada dia, mas a gente só consegue ler algumas poucas. E há um certo prazer em ler novos capítulos que remetem a velhas histórias e que preenchem, misteriosa e lentamente, isso tudo que chamamos humildemente de vida.

Cinema

Robin Hoods

por Pedro Cunha

Está em cartaz, ainda não tive tempo de assistir, o “Robin Hood” (Robin Hood, 2010) de Ridley Scott. Quando eu soube dessa versão eu fiquei um pouco surpreso: achei que nada mais havia a ser dito ou mostrado sobre o bom ladrão de Sherwood… Intrigado, fui pesquisar quantas vezes Robin Hood já foi encarnado no cinema antes de sê-lo por Russel Crowe. E me espantei: eu sabia que o personagem era popular, mas não tanto. Existem, por baixo, mais de dez versões de Robin Hood. Desde a primeira, estrelada em 1922 por Douglas Fairbanks, passando pela atual obra da parceria Ridley Scott/Russel Crowe. Olhando a lista com um pouco mais de atenção, cheguei à conclusão de que eu já assisti uma penca de versões do herói inglês. E, enquanto não consigo assistir ao senhor Crowe, vou listar aqui os cinco melhores filmes sobre Robin Hood da história do cinema (é claro, na minha humilde opinião…)

5) A Louca, Louca História de Robin Hood (Robin Hood: Men in Tights, Mel Brooks, 1993)

Ah, vá… Mel Brooks quase sempre é bom. Ou, enfim, era. O cara hoje já está com 84 anos e continua na ativa. Esse filme, de 1993, é uma paródia divertida e descompromissada, cheia de piadas de duplo sentido e produzida quando a praga do politicamente correto ainda não havia se consolidado como normatizadora da moral. Anacronismos, absurdos e números musicais deixam a história do amigo de Will Scarlet O’Hara (uma sátira ao tradicional Will Scarlet) e do Pequeno John uma bobajada muito divertida de assistir. O próprio Brooks participa como o Rabino Tuck, uma paródia judaica do tradicional personagem Frei Tuck. Isaac Heyes como o companheiro muçulmano de Robin várias vezes rouba o filme. É, enfim, um filme divertido e que vale com certeza uma tarde de semana sem nada para fazer…

Confira um clip com alguns dos bons momentos do filme:

4) Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões (Robin Hood: Prince of Thieves, Kevin Reynolds, 1991)

A caprichada versão de Kevin Reynolds, um diretor que gosta de um épico (“Rapa Nui”, 1994; “Waterworld”, 1995; “O Conde de Monte Cristo”, 2002; “Tristão + Isolda”, 2006…), se pretendia definitiva. Kevin Costner, o galã da virada dos anos 80 para os 90, vinha de uma sequência de trabalhos médios e alguns até muito bons (“Os Intocáveis”, 1987; “Campo dos Sonhos”, 1989; “Dança com Lobos”, 1990) era o cara indicado para o papel e “vestiu” muito bem o manto de Robin Hood. O roteiro de Pen Denshaw é redondinho (até demais) e o elenco de apoio (Mary Elizabeth Mastrantonio como Marian, Christian Slater como Will Scarlet, Alan Rickman fazendo o vilão, o Xerife de Nottingham, e Morgan Freeman fazendo Morgan Free… ops, quer dizer, Morgan Freeman fazendo Azeem, o parceiro mouro de Robin) sustenta legal o filme, mas o que marcou meeeesmo a produção foi a trilha sonora: “(Everything I Do) I Do It For You”, a grudenta balada de Bryan Adams tocou exaustivamente nas reuniões dançantes, nas entradas das meninas nas festas de 15 anos, nos elevadores e salas de esperas dos dentistas pelo mundo todo…

Olha aí o clipe do Bryan Adams, cheio de cenas do filme:
http://www.youtube.com/watch?v=ZGoWtY_h4xo

3) Robin e Marian (Robin and Marian, Richard Lester, 1976)

Alguém teve a coragem de mudar o título, enfim… e mais do que isso, na verdade. Sean Connery já era quase um cinquentão quando encarnou o herói da floresta de Sherwood. Mas, enfim, ele é Sean Connery, um tremendo ator que sempre faz um bom trabalho, e melhor ainda quando é um mocinho. Lady Marian, que se torna mais importante ainda nessa versão, foi nada mais nada menos que Audrey Hepburn, que tamém já andava perto dos cinquenta anos. Vamos combinar que não precisaria mais, né? Pois há Richard Harris, sempre competente, como Ricardo Coração-de-Leão, o rei dos ingleses. Richard Lester, diretor de duas versões de “Os Três Mosqueteiros” (a de 1973 e a de 1989), de Superman II (1980) e de “Os Reis do Ié Ié Ié” (A Hard Day’s Night, 1964), o primeiro longa dos Beatles, conduz uma história de herói, como ele sabe fazer.

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2) As Aventuras de Robin Hood (The Adventures of Robin Hood, Michael Curtiz e William Keighley, 1938)

Eis o filme que inspirou absolutamente todos que vieram depois, inclusive os outros quatro da minha lista. E não precisaria dizer mais nada que não fosse que o filme é estrelado por Errol Flynn. Flynn tornou-se o símbolo do galã de capa e espada nos anos 30 e 40, tendo feito papel de espadachim, pirata, mosqueteiro e todos os do gênero. Seu Robin Hood definiu todos que vieram depois. Seus trejeitos, seu sorriso e até seu bigodinho. Outro destaque do filme é o figurino que, assim como Flynn, também tornou-se o modelo a ser seguido por todos aqueles que voltaram à história de Robin Hood. E a Lady Marian da vez é nada mais nada menos que Olivia de Haviland, a Melanie de “… E o Vento Levou” (Gone with the Wind, Victor Fleming, 1933). Filmaço que ajudou a definir o gênero “Aventura” no cinema. Recomendadíssimo.

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1) Robin Hood (Robin Hood, Wolfgang Reitherman, 1973)

Oquei, xingue-me. Mas sim, eu estou falando da versão da Disney. Vale lembrar que o critério de elaboração dessa lista é o quanto esses filmes são importantes PARA MIM. É uma lista pessoal e subjetiva, portanto. E essa animação dos anos 70, bastante caprichada para a época, é um dos desenhos que nortearam a minha infância. Conforme a sua tendência do período, a Disney transformou todos os personagens em animais antropomorfizados, colocando neles aquele charme que só as criaturas da Disney têm. Um desenho alegre, um Robin heroico, uma Lady Marian “mocinha para ser salva” (ambos raposas), um Xerife de Nottingham (um lobo) realmente mau e um João Sem Terra (um leão, talvez) ganancioso e cruel. Tudo que uma criança precisa: heróis bondosos e com relacionamentos saudáveis e vilões cruéis e gananciosos. Um desenho assim ajuda, inclusive, a formar caráter.

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Ao mesmo tempo em que fiquei elaborando essa lista e vendo quantas vezes Robin Hood foi (bem) levado às telas, fiquei também pensando que o sr. Scott, que já nos deu tantas coisas boas como “Os Duelistas” (The Duelists, 1977) “Alien” (1979), “Blade Runner” (1982) ou “Thelma e Louise” (1991) poderia tentar, ao invés de repassar uma história mais do que recontada, nos apresentar alguma novidade que pudesse encantar em vez de se somar a uma lista já grande de todos que levaram Robin Hood ao cinema. Posso até estar enganado, mas tenho sérias dúvidas se o filme de Scott poderia entrar entre os três primeiros da minha lista…

Literatura

EBB

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imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

I remember
Should I dare trust my memory?
It seduces me
creating possibilities to overcome its limits
going back and forward continuously.
So unreal
tempting and betraying.
Imaginary is my universe.

I remember
waves that strongly break on the shore and keep on stretching over the sand…
till they return, carrying dreams to the great sea.
Endless movement
action
reaction
again and again
life.
Unpredictable is the sea.

Literatura

Layla

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imagem: Clarice Casado

por Clarice Casado

“Layla, you’ve got me on my knees.”

Eric Clapton

A coisa engraçada sobre cachorros é que eles são incondicionalmente capazes de dar amor. Isso é apenas uma constatação à qual foi difícil eu chegar.

Não sou uma (como diz-se em inglês) dog person (essa expressão é praticamente intraduzível). Isso quer dizer que efetivamente não sou “chegada” a cachorros. Hoje em dia nem posso dizer que não gosto deles, não é nada disso. Não tenho nada contra a raça canina. Só não me agradam as atitudes habituais dos cães: latir, pular, mordiscar chinelos e roupas, cheirar tudo o que veem pela frente.

Talvez isso esteja mudando. Isso, o fato de eu “não ser chegada” a cães. No último dia das Mães, me convenceram, aqui em casa, a ter um cachorrinho. Entreguei-me. E veio a Layla. Como na belíssima canção de Eric Clapton. Meu marido batizou-a, acho que para me fazer feliz, porque Layla é a minha canção preferida desde os quinze anos (eu, uma beatlemaníaca! Sorry, Liverpool mates…!).

O fato é que tenho que admitir que a gorducha Layla, uma buldogue inglesa de cinco quilos, está mudando minha imutável opinião sobre os caninos. Layla late, mas pouquíssimo; cheira quase nada, até tenta mordiscar os meus chinelos, mas na terceira tentativa pára, porque eu a ignoro, e o principal: não pula em mim. E nem em ninguém. Mesmo porque seu “corpinho” avantajado não permitiria… Jamais pula em mim, o que me deixa mais do que aliviada – e honrada! Respeita-me, a pequena cadela. Detesto essa palavra. Porque no Brasil ela tem, também, conotação pejorativa.

Layla, little darling, não te chamarei de “cadela”, de jeito nenhum. Layla é a nossa educadíssima “cachorrinha”. E acho que sempre será, mesmo quando estiver com os vinte e cinco quilos que espera-se que ela vá ter…

Virginia Woolf escreveu sobre o cocker spaniel Flush, Graciliano Ramos imortalizou a cachorra Baleia e seu triste fim na literatura brasileira, e mais recentemente o jornalista norte-americano John Grogan mostrou ao mundo todo a sua vida com o trapalhão Marley.

Hoje, portanto, resolvi dedicar algumas linhas para a pequena e calma Layla, para quem eu canto Layla todas as noites, e que faz tudo no lugar certo, senta ao nosso lado quietinha, late pouco, respeita nossos móveis, recolhe-se sozinha para dormir, o que faz durante a noite toda, sem chorar, ouvindo a rádio CBN. É, afinal, uma verdadeira lady inglesa. Nada menos se poderia esperar de alguém com sangue britânico.

Cinema

Alice no País das Maravilhas

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por Pedro Cunha

Tim Burton. É, isso mesmo. O californiano de 52 conseguiu atingir um nível na sua carreira em que a simples menção do seu nome já torna qualquer projeto um sucesso imediato. Ele já tem plateia e bilheteria garantidos, não importa o que faça. E isso é um mérito que ele tem pela frutífera carreira que construiu. Depois de alguns curtas, algumas animações e bons trabalhos para a TV, Burton começou a chamar atenção com “Os Fantasmas Se Divertem” (Beetlejuice, 1988). O filme trazia alguns elementos que se tornariam clássicos na obra de Burton: o bizarro, as referências ao além, a ousadia e os personagens outcasts, aqueles que não conseguem se enquadrar no mundo no qual deveriam estar inseridos. Com um orçamento de 13 milhões de dólares, Burton apoiou-se num elenco confiável: além de um Michael Keaton ótimo no papel-título, tinha os bons Alec Baldwin e Geena Davis. O filme faturou mais de 73 milhões de dólares e virou franquia de bonequinhos e desenhos animados, além de ter lançado para o mundo uma atriz de 17 anos que seria um dos hypes dos anos 90, Winona Ryder. Antes mesmo do sucesso de “Os Fantasmas se Divertem”, Burton já tinha sido escalado para dirigir “Batman” (1989). O filme foi um sucesso estrondoso, arrecadando U$411 milhões, mais de 12 vezes o custo dele próprio. Além disso, o Coringa de Nicholson foi eternizado (bem, foi até 2008 quando Ledger tratou de deseternizá-lo, enfim) e a Gotham City de Burton, sombria e, bom, gótica, foi um dos pontos altos do filme, tanto que Burton foi convidado para conduzir a sequência “Batman: O Retorno” (Batman Returns, 1992). Entre um Batman e outro, em 1990, Burton lançou o seu trabalho mais poético e talvez mais seminal. Um trabalho que talvez seja o que o define ainda hoje, 20 anos depois. “Edward Mãos de Tesoura” (Edward Scissorhands, 1990), o conto de fadas gótico que mistura Frankenstein, Prometeu e Homem de Lata de “O Mágico de Oz”, é um dos filmes que definem os anos 90. A fotografia de Stefan Czapsky, que se tornaria parceiro constante de Burton, ajudou a tornar o filme um clássico. E Johnny Depp, tornou-se a persona do próprio Burton, seu ator de confiança.

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Burton cruzou os anos 90 fazendo bons trabalhos e provando-se prolífico, com o drama “Ed Wood” (Ed Wood, 1994), a debochada comédia “Marte Ataca!” (Mars Attack!!, 1996), a ótima animação “O Estranho Mundo de Jack” (The Nightmare Before Christmas, 1993) e mais um conto de fadas, “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (Sleepy Hollow, 1999). Na primeira década do século XXI emplacou mais um conto de fadas lindo, “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” (Big Fish, 2003) e voltou a experimentar a animação, com o bom “A Noiva Cadáver” (Corpse Bride, 2005). Em todos eles, o Tim Burton do gótico, do bucólico, do excluído e do estranho aparece, em maior ou menor grau.

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É por aí que começa a aparecer um Tim Burton com a pretensão de revisitar obras consagradas na telona. “O Planeta dos Macacos” (Planet of the Apes, 2001), remake de um dos grandes clássicos da ficção científica, é sofrível e “A Fantástica Fábrica de Chocolates” (Charlie and The Chocolate Factory, 2005) volta à ideia do conto de fadas Burtoniano. Apesar de um filme bom, “A Fantástica Fábrica de Chocolates” é daqueles filmes que assistimos e ficamos nos perguntando se a refilmagem era mesmo necessária…

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Tudo isso para chegar em Alice. Quando foi noticiado que Burton tinha assumido o projeto de refilmagem do clássico de Lewis Carroll, todos começaram a especular e projetar como seria a gótica Alice de Burton, a pirada Alice de Burton. E para ver o frisson que ele causou, basta dar uma folheada nos jornais e revistas do primeiro semestre de 2010: Alice (a Alice de Burton, já antes de ser lançada) dominou todo tipo de tendência e referencial, de desfiles de moda à Turma da Mônica Jovem.

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“Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, Tim Burton, 2010) dificilmente conseguiria cumprir com a expectativa que gerou. A produção custou salgados 200 milhões de dólares que já se pagaram com folga: o filme entrou em circuito dia 5 de março e até agora já faturou 980 milhões de dólares (lembrando que ingressos 3D são mais caros, o que inflaciona um pouco essa cifra na relação bilheteria/quantidade de espectadores…). Sem dúvida um sucesso comercial. Mas o filme é bom?

Desde o início fica claro que o roteiro de Linda Woolverton não pretendia ser fiel a nenhum dos dois livros de Lewis Carroll, seja “Alice no País das Maravilhas” ou “Através do Espelho”, a sequência. Woolverton misturou elementos de ambos os livros e criou ainda alguns mais. Muitas das decepções vieram de gente que esperava que Burton simplesmente recontasse a história de Carroll. Mas a história de Burton não é a do pedófilo britânico. Apesar disso, no filme estão todos os clássicos do universo de Alice: o Coelho Branco, a Lebre Maluca, a Lagarta com o narguilé, o Gato de Cheshire, as cartas de baralho… todos estavam lá (e maravilhosamente bem construídos, em termos de CG e figurino. O figurino, aliás, um espetáculo à parte. Figurino, direção de arte e fotografia foram, talvez, os grandes destaques do filme. Johnny Depp, o fiel escudeiro de Burton, foi escalado para fazer o Chapeleiro Louco. Helena Bonham-Carter, sem dúvidas a atriz mais à vontade no filme, faz a Rainha Vermelha, que incorpora muitas coisas da Rainha de Copas dos livros. Anne Hathaway é a Rainha Branca, a inimiga sem-sal da Rainha Vermelha. Os castelos de ambas são lindamente construídos (detalhe para as esculturas nas plantas no jardim da Rainha Vermelha, numa referência, eu achei, a Edward Mãos-de-Tesoura…), e as cenas de ação não quebram a continuidade. E daí? Bom, daí que fica faltando alguma coisa. O filme, a despeito da crítica tê-lo colocado abaixo do cocô do cachorro, é bom, mas só bom. Começa a faltar alguma coisa com Mia Wasikowska, a jovem atriz escolhida para o papel-chave do filme, o papel de Alice. A Alice dela é uma adolescente que não se encaixa na sociedade vitoriana. Tentando fugir de um casamento arranjado (com um rapaz ruivo) ela acaba caindo no buraco do coelho e voltando ao País das Maravilhas, onde esteve quando criança apesar de acreditar, até então, que aquilo havia sido um sonho. País das Maravilhas afora, Alice busca descobrir a sua própria identidade e livrar-se de ter o destino condicionado pelo que esperam dela. Seu “mentor” nesse sentido, a lagarta Absolem, é um dos personagens de CG mais legais do filme, fora o fato de ouvirmos Severo Snape falando cada vez que ele abre a boca. A Alice de Wasikowska é quase tão sem gracinha quanto a Rainha Branca de Anne Hathaway, um personagem sobre o qual a única coisa que sabemos é que tem um juramento de não matar seres vivos. Entre seus altos e baixos, chama um pouco a atenção o Chapeleiro Louco. Apesar da boa atuação de Depp, o personagem parece ter crescido um tanto artificialmente (comeu bolinho demais, será?) para dar mais espaço para Depp, que torna-se o par romântico de Alice.

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“Alice no País das Maravilhas” está longe de ser o horror que alguns críticos descreveram, mas não será, certamente, um dos destaques na filmografia de Burton. Um filme lindo visualmente (coisa que ele já fez), mas com um roteiro linear e previsível. Não há surpresa ou reviravolta durante os 108 minutos de filme. O final é aquele que imaginamos com 10 minutos de filme. E falta um pouco de carisma a Wasikowska também. A Alice da animação da Disney, de 1951, é mais Alice do que ela. Mesmo Natalie Gregory, a Alice da série de TV de 1985, é mais interessante que a Alice do filme de Burton. Que ainda assim vale a pena ser visto. Não necessariamente em 3D, já que esse é daqueles filmes “adaptados” para 3D, e não feitos para isso, o que torna bastante dispensável pagar mais caro pelo filme. Vale a pena ser visto? Sim, vale. Mas para ver mesmo. Sem pensar muito, apenas fruir a estética do filme.

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