Clarice Dall’Agnol

Literatura

Alice

alice

por Marcella Marx

Queria tomar uma poção e ficar bem pequenininha
e como Alice vagar por um mundo onde rosas podem ser pintadas de vermelho,
ouvir conselhos de uma sábia lagarta,
seguir o coelho e seu relógio – tic tac
sem nem sequer preocupar-me com as horas,
conhecer chapeleiros gentis que acreditem em mim
mesmo quando pareço perdida e demonstro toda minha insegurança.

Queria poder comer um pedacinho de bolo e crescer bastante,
tomar o espaço que me pertence
olhar de frente a rainha e ter toda a força de que disponho,
entender o vermelho e o branco como cores – diversas
cortar a cabeça de meus dragões sabendo que outras nascerão – e elas nascerão.

Queria sempre desejar voltar e voltar sempre
quando, como Alice, já não possa mais viver.

Música

The Cinematic Orchestra

TheCinematicOrchestra.jpg

por Cassiano Rodka

O nome já diz um bocado. Uma orquestra de 6 músicos que produz um som jazzístico com ares cinematográficos.

Criada por Jason Swinscoe, a banda inglesa The Cinematic Orchestra surgiu no final dos anos 90 misturando música eletrônica com improvisações de jazz. As músicas costumam ser compostas em cima de batidas e samples que Swinscoe cria como uma faixa base para os músicos improvisarem em cima.

A banda conta com PC (Patrick Carpenter) nas turntables, Luke Flowers na bateria, Tom Chant no saxophone, Nick Ramm no piano, Phil France no baixo e Stuart McCallum na guitarra.

Desde o lançamento de seu primeiro álbum, “Motion”, em 1999, a banda já começou a receber convites para fazer trilhas sonoras. Um de seus grandes projetos foi criar uma trilha para o filme mudo “Man with a Movie Camera”, do diretor russo Dziga Vertov. Trata-se de um documentário experimental que retrata a vida urbana na cidade de Odessa. A história na verdade é uma desculpa para o diretor testar diferentes formas de captar imagens com a câmera. A banda entrou em turnê tocando ao vivo a trilha para o filme em salas de cinema, resultando mais tarde em um CD e DVD com o material.

O segundo álbum surgiu em 2002 com o nome de “Everyday” e a participação da cantora de soul Fontella Bass no vocal da faixa título e do single “All That You Have”. Essa parceria deu bastante certo e garantiu a volta da cantora no terceiro disco da banda, o belíssimo “Ma Fleur”, de 2007. Outro destaque neste último álbum é o cantor canadense Patrick Watson, que entregou sua voz macia à quatro músicas, incluindo o single “To Build a Home” e um dueto com a vocalista do Lamb, Lou Rhodes, intitulado “Music Box”.

A música da Cinematic Orchestra é suave e melodiosa, perfeita para ser escutada em uma tarde de domingo ou um dia chuvoso. Ou para quem precisa de alguns bons minutos de calmaria depois de uma semana cheia.

Literatura

E fim

efim

por Clarice Casado

Eu não acreditava em nada desta besteirada de fim dos tempos, até a última quinta–feira. Sim, leitores, eu fui uma vítima do vulcão de nome impronunciável. Dentre lavas e feridas (todas emocionais), não enfrentei filas em balcões de companhias aéreas e nem colchonetes desconfortáveis em terminais de aeroportos. Não, nada disso. Dei sorte, até. Apenas não consegui sair do Brasil. Viagem de férias marcada, sonhos por lavas abaixo…

No início, nem liguei. Encarei a notícia como qualquer notícia que vem de longe: terremoto no Haiti, enchente no Rio, revolta armada em Mianmar. Longe dos olhos, longe do coração? O problema é que hoje em dia, por mais que você tente deixar as notícias longe dos seus olhos e dos seus ouvidos, não consegue. É aquele bombardeio na TV, no rádio do carro, pelo Twitter e afins, pela Internet do seu celular, pelos e-mails que todo mundo te manda: não há escapatória. Absorva a imensidão de informações, ou revolte-se totalmente contra a tecnologia: Vá morar na Islândia!

Fim dos tempos? Como eu dizia no primeiro parágrafo, essa expressão nada me falava… Inócua, inerte, insignificante. Bastou este vulcão fechar por cinco dias o espaço aéreo de grande parte do continente europeu para que eu desse um tiquinho do meu braço a torcer: leitores, esse vulcão é ou não é coisa de filme? Só está faltando o Bruce Willis ou o Will Smith para, no último minutinho, colocar um tampão ou algo parecido na boca do bicho-vomita-fogo salvando a Humanidade desesperada da falta de voos! O pior é que a coisa não é cinema, não. É bem real. E assustadora.

Mas será que não é só informação em excesso e em altíssima velocidade? Ou a coisa está mesmo enfumaçada para o nosso lado? Nós, sábios mortais? Nós, inventores dos aviões e da Internet e do fast food e do lixo infinito e do lixo eletrônico? Os vulcões erupcionam há séculos… A diferença é que antes, ninguém sabia de tanta coisa tão rapidamente e com tantos detalhes. Dá medo.

Não sei nada de geologia. Não sei tanta coisa assim de geografia, apesar de ter sido uma aluna aplicada nesta matéria na escola. Porém, de uma coisa tenho certeza: é muito mais fácil parar este “mundo velho sem porteira” do que eu imaginava. Estamos nas mãos da fúria indomável da natureza? É bem provável. E o pior é que, nessa história, não vai ter mocinho para nos salvar. E fim.

Literatura

Coisinhas

coisinhas
imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

É nesses abraços-sanfona que variam às cenas do filme.
E nesses beijos que surgem por entre as taças de vinho branco.
Nessas músicas que cantas com tua vida exposta.
E nas danças que ondulas sob o holofote dos meus olhos.

É nesse cuidado zeloso que condena meus espirros.
E nesse seriado que nos une em uma só risada.
Está nesse apuro louco de não errar o passo.
E estar sempre forte, preparado e ereto.

Está na minha camiseta que veste teu corpo.
E nos teus minutos em que estou no proscênio.
Na tatuagem que cruza teu peito.
E no leal abraço de quem sempre retorna.

É aí nessas coisinhas
que encontro teu
mais puro
amor.

Música

O italianíssimo mundo cão de Mike Patton

Mike Patton - Mondo Cane.jpg

por Cassiano Rodka

Depois de longos anos de espera, o tão falado projeto de músicas italianas de Mike Patton finalmente vai sair do forno. No dia 4 de maio, o disco “Mondo Cane” chega às lojas com 11 clássicos da música italiana dos anos 50 e 60 entoados por Patton e uma orquestra.

Para construir esse álbum, o cantor gravou três shows do Mondo Cane na Itália e escolheu os melhores momentos para incluir na seleção. Mas o álbum não é exatamente um disco ao vivo, as faixas foram montadas com os vocais de um show, os violinos de outro, o trompete de outro e por aí vai. Foi como um quebra-cabeças onde Patton escolhia as melhores peças para chegar a uma imagem ideal. Alguns vocais e efeitos foram adicionados no estúdio mesmo, ou seja, o produto final soa como uma gravação de estúdio e não um ao vivo. Para quem tem acompanhado os shows desse projeto – que vêm acontecendo desde 2008 -, essa pós-produção pode causar um certo estranhamento, pelo menos de início. Confesso que logo que ouvi a primeira faixa, a bela “Il Cielo In Una Stanza”, estranhei bastante as muitas vozes trabalhadas no lugar do emocionante vocal ao vivo do Patton. Mas depois que passa o primeiro estranhamento, fica cada vez mais fácil se apaixonar pelas faixas do disco.

Algumas músicas ganharam muito por serem trabalhadas em estúdio, como a divertida “Che Notte!”, que tem muitos instrumentos e samples dividindo espaço ao mesmo tempo, ficando muito mais clara na gravação. Ao vivo, ela soava um tanto bagunçada. “L’Uomo Che Non Sapeva Amare” também ganhou em estúdio, com uma mixagem bacana que destaca bem cada instrumento da canção.

As canções que mais me agradaram desde o início foram aquelas que conseguiram manter o clima ao vivo, sendo apenas melhor trabalhadas e mixadas no estúdio, mas sem exageros. É o caso de “20 KM AI Giorno”, “Ore D’Amore”, “Quello Che Conta”, “Urlo Negro” e “Ti Offro Da Bere”.

Já algumas músicas ficaram um pouco exageradas, com muito overdub, matando um pouco a emoção da performance ao vivo. Os vocais aparecem bem destacados e têm muitos efeitinhos também, o que nem sempre funciona. “Scalinatella”, que é belíssima nos shows, ficou meio artificial, com um vocal meio debochado até. Não funcionou bem. Mas, tirando uma escorregadela aqui e ali, o disco é apaixonante. Tenho certeza que, após escutar a última faixa, a linda “Senza Fine”, você vai imediatamente voltar ao início do álbum e ouvi-lo mais uma vez.

Especula-se o lançamento de um DVD com um concerto na íntegra, incluindo algumas preferidas dos fãs que não entraram no disco, como “Storia D’Amore”, “Lontano, Lontano” e “Yeeeeeeh!”. Considerando que as apresentações contam com 22 canções, dá para imaginar que futuramente teremos um Mondo Cane II, incluindo as 11 músicas restantes.

Literatura

Desatino

desatino

por Clarice Casado

Sabe, eu te amo.
Demais.
Eu sei disso
porque fico perturbada ao cubo
toda vez que brigamos.
Minha vida para, simplesmente.
Não consigo pensar,
não consigo fazer.
não consigo ser.
Enquanto não se dissipar
a negra nuvem,
fico maluca.
Desoriento-me.
Consigo sentir o coração
dizendo manhas
e contando as feridas.
Imagino-me destacada,
não me reconheço.
Anseio pelo conforto
dos dias passados.
Acreditas em milagres?
Eu, rainha do acaso –
Afaga-me, apenas.
Não deixes que eu sofra
por todos os pedaços de ti.
Não me digas
que não entendes meus versos.
Machuca-me ouvir.
Sejas sempre tu,
mas não esqueças
de me incluir nas entrelinhas.
E assim, vou seguir te amando
(com ou sem desatinos)
sempre esperando que o gelo derreta.
Só queria que tu soubesses.

Literatura

Correspondências parte 5

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por Marcella Marx

“João,

… a mulher possui incontáveis atrativos e oculta-se sob mil véus… Aliás, na mulher de trinta anos agitam-se indecisões, temores, dúvidas e tempestades que jamais ocorrem no amor de uma jovem… ela pode fazer-se jovem, representar todos os papeis, ser pudica, e inclusive tornar-se mais bela com a infelicidade. Entre as duas há a incomensurável diferença entre o previsto e o imprevisto, a força e a fraqueza.

Já não mais tenho as certezas que me moviam há alguns dias. Ontem, enquanto lia Balzac, procurando desvencilhar-me de Ana, grifei em vermelho algumas linhas e, como que para incorporá-las de uma vez, precisei escrevê-las também aqui para ti.

Sim, um acontecimento ocorrido nos últimos dias tem a ver com minha mudança e preciso dividi-lo contigo. Fiz uma ligação para meu editor que está em viagem à Europa, ia anunciar o rompimento de meu contrato, porém uma voz delicada e perturbadora impediu-me. Acredite, ouvi a voz de Ana. Antes que a ligação fosse transferida, desliguei. Tentei ligar depois diversas vezes mas, sem sucesso, fui atendido por outras vozes. Desde então, passo as horas sentado e buscando encontrar um novo caminho.

Talvez aceite o convite da pensão em São Vicente, quem sabe tu poderias vir comigo, preciso de tua ajuda.

Agradeço e me despeço com ainda muito a dizer.

Nos encontramos…

Vinicius”

Música

O peso e o suingue do The Heavy

theheavy_sixteen.jpg

por Cassiano Rodka

Desde que escutei o single “No Time”, fiquei bastante curioso para conhecer o som do quarteto inglês The Heavy. Mal sabia que estava prestes a encontrar minha nova banda preferida.

“No Time” traz um riff pesado e funky no maior estilo Led Zeppelin que se repete hipnoticamente sobre uma batida roqueira e dançante. Já é o suficiente para sentir o corpo balançar involuntariamente. Mas é quando a voz cortante e cheia de soul do vocalista Kelvin Swaby entra na mistura que o bicho pega de verdade e aí não tem volta: você está fisgado pelo The Heavy!

A banda nasceu em Noid, uma pequena cidade inglesa perto de Bath, cidade natal do vocalista. Kelvin Swaby cresceu em meio a dez irmãos e muito reggae, hip hop, two tone e Prince – influências claras no vocal e nas composições do cantor. Quando ele conheceu o guitarrista Dan Taylor, logo ficaram amigos, dividindo o gosto por rhythm and blues e pelos filmes de Jim Jarmusch. Juntos, formaram a base musical do The Heavy. A dupla compôs todo o material que deu forma ao excelente álbum de estreia “Great Vengeance and Furious Fire”, lançado em 2007 já com o baixista Spencer Page e o baterista Chris Ellul na formação.

O disco apresentou os dois primeiros grandes singles da banda, “That Kind of Man” e “Coleen”, duas boas amostras da mistura de rock sessentista, soul, jazz, funk, ska e pop do grupo. Algumas faixas ganharam espaço em seriados de TV, em especial na série “Entourage”, que já utilizou três músicas da banda em sua trilha.

No segundo semestre de 2009, a banda lançou seu segundo álbum, “The House That Dirt Built”, que conseguiu fazer mais barulho que o primeiro. O single “How You Like Me Now?” ganhou grande exposição em um comercial da Kia que foi ao ar durante o Super Bowl e a performance da música no programa de David Letterman foi tão intensa que o apresentador pediu que eles repetissem o número, algo que nunca havia acontecido antes.

O disco ainda conta com três ótimos singles: o agitado psychobilly de “Oh No! Not You Again!”, o jazzrock dançante de “No Time” e o soul safado de “Sixteen”, que sampleia com maestria a clássica “I Put a Spell on You” do Screamin’ Jay Hawkins. Na verdade, as músicas do álbum são tão boas que daria para imaginar perfeitamente cada uma delas ganhando um single e um videoclipe, desde o surf rock tranquilo de “Look Like That” (cantada pelo guitarrista Dan Taylor) até a belíssima balada “Stuck”, que fecha brilhantemente a seleção de músicas.

Ao longo do disco, novos ritmos aparecem na já vasta gama de estilos da banda: em “Long Way from Home”, o country aflora em uma deliciosa balada com direito a piano e riffs a la Jack White; “Short Change Hero” traz uma curiosa mescla de hip hop com toques do irresistível western de Ennio Morricone; e, por fim, o reggae é o tempero principal de “Cause for Alarm”, mostrando uma outra faceta do vocal de Swaby. Não há um só momento entediante durante a audição de “The House That Dirt Built”, o que faz do álbum um dos discos mais contagiantes que escutei nos últimos tempos.

Ao vivo, a banda não deixa nada a desejar. A simpatia de Swaby conquista facilmente a plateia e a excelente performance dos músicos garante a empolgação do público do começo ao fim da apresentação. Dá uma escutadinha e deixe-se encantar pelo inigualável som do The Heavy.

Literatura

Minha primeira melhor amiga

minhaprimeiramelhoramiga

por Clarice Casado

Para a Luciana, que até hoje é amiga de sua primeira melhor amiga.
Para a Angelina e a Raquel, que estão se iniciando na arte da amizade.

Não lembro dela, mas pode hoje morar ainda em algum lugar do interior do Rio Grande do Sul.

Ela pode estar casada, ou sozinha, ou com filhos. Ou viúva. Pode gostar de ler, como eu. Ou até escrever, como eu. Pode ser dona de casa. Passar o dia cuidando dos filhos dela, que nunca conheci. E provavelmente nunca vou conhecer. Pode adorar ler histórias para os filhos, como eu. Pode estar cozinhando para o marido. Ou pode estar criando roupas e acessórios para meninas. Roupas lindas, com flores e laços de fita.

Pode idolatrar os Beatles, como eu. Ou pode ser uma garota mais Rolling Stones. Pode ser ainda uma alta executiva de uma alta empresa no topo de um alto edifício na altíssima cidade de Nova York. E nem ter muito tempo de ser assim tão ligada em música e em livros.

Ela pode ter ganhado peso. Ou pode ter perdido. Pode ter feito plástica. Pode ter aplicado botox e ter passado creminhos no rosto e nos olhos religiosamente nos últimos dez anos. Ou pode aceitar-se totalmente como é. Tanto faz. No final das contas, somos iguais: mulheres de trinta e alguns anos, sempre em busca de algo sobre o qual nada sabemos.

Ela pode rezar todas as noites. Ou pode jamais rezar. Pode amar e pode odiar. Pode sofrer de tensões pré-menstruais terríveis, ou pode passar por tudo isso ilesa.

Pode gostar de festas e jantares, ou pode querer ficar entocada cuidando dos filhos todas as noites, até que eles um dia passem a ir às próprias festas sozinhos e esqueçam totalmente daquela de quem um dia tanto precisaram.

Ela pode ter ainda muitos anos pela frente. Ou pode estar com um câncer maligno e não saber. Pode se exercitar todos os dias. Ou preferir passar as manhãs dormindo.

Pode levar os filhos todos os dias na escola. E pode chorar de vez em quando (sem que eles percebam), quando os vê se afastando dela rumo ao portão da escola, puxando a mochilinha de rodas. Pode sorrir rapidamente no exato momento em que eles se viram para dar um último “tchauzinho”. Ou ela pode nunca acompanhar os filhos à escola: não porque não queira, mas porque a esta hora já está trabalhando.

Ela pode brigar regularmente com o companheiro. Ou pode estar com ele há vinte anos sem nem sequer saber o que seja uma discussão.

Ela pode dar gorjetas. Ou não. Pode gostar de banhos de chuva. Ou não. Pode fazer as unhas todas as semanas. Ou não. Pode gostar de celebrar os aniversários. Ou não. Pode amar ver desenhos na TV com os filhos. Ou não. Pode sempre visitar a avó no hospital. Ou não. Pode fazer leituras diárias de si mesma. Ou não. Pode um dia vir a ler esta crônica. Ou não.

Ainda assim, será sempre a minha primeira melhor amiga.