Clarice Dall’Agnol

Literatura

O pequeno lorde

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imagem: Anelise Schutz

por Marcella Marx

Certo dia conheci um pequeno menino que se recusava a fazer qualquer tarefa. Negava-se a sujar as mãos; pediam-no que fosse ao campo colher maçãs, mas nas pontas dos pés não ficava. Na cozinha, também trabalhar não podia pois sua vestimenta, sempre impecável, jamais poderia correr qualquer risco. Tentaram de tudo e nada do pequeno lorde aceitar, parecia que havia mesmo nascido para ser servido e mandar. Precisava vê-lo ceando, todo aprumado na cadeira e obedecendo ao ritual mais tradicional da etiqueta britânica. Sumiu o pequeno num belo dia de sol. Procuramos por tudo, fora e dentro e nada. Ele não teve dúvida, embarcou nas mais incríveis aventuras em outro reino e só foi encontrado muito tempo depois com as batidas e relinchadas de seu possante cavalo dentro do armário.

Cinema

Dos hypes e coisas afins

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por Pedro Cunha

Oquei, eu já fui a estreias no cinema. Oquei, eu já fui à estreia de Star Wars no cinema… era o Episódio I, me dá um desconto, eu não sabia ainda o que o George Lucas ia fazer com a sua cinessérie. Além do que valeu por ver a fauna, o povo fantasiadinho de jedi. A primeira estreia que eu vi no cinema, na verdade, foi “Batman” (Tim Burton, 1989). Eu tinha 11 ou 12 anos e foi uma sessão noturna, o que era novidade para mim também. Uma das minhas experiências cinematográficas mais marcantes, na verdade. Além dessas duas… hmm… difícil. Certamente há. Não estou contando filmes na semana de estreia. Eu me obrigo a ver qualquer um do Woody Allen na semana da estreia até porque sempre há grande risco que ele não sobreviva em cartaz até a segunda semana…

Toda essa divagação sobre estreias em função do hype da semana: “Eclipse” (The Twilight Saga: Eclipse, David Slade). O filme estreia nessa sexta mas houve sessões de pré-estreia em todos os dias da semana, eu acho (quer dizer, tecnicamente a “estreia” amanhã é meio meia-boca…). E o que me impressionou foi a devoção das pessoas na fila. Com pôsteres. Fantasiados. E chorando. Chorando muito. Não estavam chorando na frente dos seus ídolos, estavam chorando… na fila do cinema. Vendo as reportagens dá um pouco de vergonha alheia. E, se para a maioria das pessoas que estão na fila vale a justificativa de que “isso é importante para um adolescente” tem bastante gente nessas filas que não é adolescente faz tempo. E, não sei o que é pior, tem uns outros que ainda não são adolescentes.

O fenômeno vai se repetir dentro de algumas semanas com a estreia de “Harry Potter e As Relíquias da Morte – Parte 1” (Harry Potter and the Deathly Hallows: Part I, David Yates). E aí acho até que posso afirmar mais, porque sou fã da “saga” (palavra que anda batida demais…) do bruxinho. Fã de comprar o livro na pré-venda, para poder ler sem spoilers. Mas não consigo entender quem dorme na fila. Não consigo entender quem se fantasia para ir ao cinema. E não consigo entender quem joga quadribol na redenção (esses eu não entendo mesmo, enfim). Parece se estabelecer entre os fãs uma espécie de concurso para ver quem é o fã mais fã. Talvez seja isso.

Isso e uma indústria da devoção. E isso é alimentado pela indústria cinematográfica. Conseguir gerar uma “Saga Crepúsculo” ou uma “Saga Harry Potter” é ouro puro. Porque vai dar dinheiro, ponto. Não importa o filme ser bom, em uma semana ele se paga. Não importa se as pessoas vão falar mal ou bem do filme, importa é que elas vão vê-lo. E grande parte das pessoas vai vê-los no cinema mais de uma vez. Em tempos nos quais a indústria briga com a pirataria ter lucro certo, não importando o quão bom (ou ruim) seja o seu filme é algo que os estúdios não desprezam. Pelo contrário, constroem.

Aliás, essa indústria vai por um caminho meio bizarro. Cada notícia que eu leio me confirma ainda mais a triste ideia de que, para os executivos do cinema, lucro certo é só o que importa. Há boatos sobre um longa de “Friends”. Sim, eu sou fã da série. Ela teve 10 temporadas e eu acho que tudo que Ross, Rachel, Monica, Chandler, Joey e Phoebe tinham para dizer já foi dito. Já houve duas adaptações de “Sex and the City”. Já houve o longa de 24 Horas. O que vem por aí? “Glee: The Movie”? “Gossip Girls Uncut”? “House MD”? Mundo estranho esse no qual as pessoas vão ao cinema para ver o que veem na TV… Notícias dessa semana fecham a bizarrice que tem caracterizado a indústria cinematográfica. Está em produção a adaptação de “Mafia Wars” para o cinema. Sim, você leu direito: “Mafia Wars”, um aplicativo do Facebook, está virando filme. Pesquisando sobre a notícia descobre-se que a produtora Radar Pictures está procurando roteirista para começar a adaptação. O que virá depois? “Farmville: The Movie”? Veremos. Ou não veremos, enfim.

Música

O novo voo do Stone Temple Pilots

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por Cassiano Rodka

Parece que a onda do momento no mundo da música é mesmo renascer das cinzas. Em especial, se a morte de sua banda ocorreu nos anos 90. Depois de Faith No More, Soundgarden e Alice in Chains, agora é a vez do Stone Temple Pilots voltar (mais uma vez) aos palcos e rádios do planeta.

Nem todo retorno dá certo, mas alguns dão gosto de ver. E este é o caso com a banda de Scott Weiland, Eric Kretz e os irmãos Robert e Dean DeLeo. A reunião surgiu, na verdade, porque o STP ainda devia um disco à Atlantic Records. Apesar dessa obrigação, os integrantes declararam que estavam felizes em tocarem juntos novamente. O disco homônimo do Stone Temple Pilots não deixa a menor dúvida: a banda continua com vigor suficiente para criar belas canções de rock com poderosos riffs de guitarra.

O inconfundível vocal de Scott Weiland, como sempre, se destaca. Impossível não se contagiar com a melodia do single “Between the Lines” ou com a voz macia do cantor em “Samba Nova”. O trabalho de guitarra de Dean DeLeo continua invejável, fabricando riffs singulares, como o que compõe a faixa “Hazy Daze” e os divertidos licks agudos de “Hickory Dichotomy”. Em “Huckleberry Crumble” e “Bagman”, percebe-se a forte influência do Aerosmith no catálogo da banda, enquanto “First Kiss on Mars” e “Maver” fazem reverência aos Beatles. Os anos 60 sempre foram uma importante influência para o STP e, nessa seleção de músicas, isso fica mais claro do que nunca.

A banda está atualmente em turnê pela Europa, esgotando os ingressos de várias apresentações. Tive a oportunidade de assistir um show deles durante a divulgação do álbum “Shangri-La-Dee-Da” e só posso desejar que eles apareçam aqui no Brasil para trazer a excelente vibe da banda ao vivo. Quem sabe eles não arranjam um tempo na agenda para experimentar uma caipirinha?

Literatura

O Evangelho segundo Saramago

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“Entrarei no nada e me dissolverei em átomos.”

José Saramago

No ano de 1990, entre estudos para o vestibular e festinhas do último ano do colégio, eu conheci José Saramago. Sim, tive o prazer de ver o polêmico escritor português, hoje prêmio Nobel de literatura, falecido no último dia 18 de junho de 2010.

Em uma tarde que poderia ser mais uma de estudos ou de conversas ao telefone com a minha melhor amiga, fui convidada por minha mãe, professora de língua portuguesa e literatura brasileira, para assistir a uma palestra que José Saramago daria no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Confesso, leitores, que não lembro detalhes da dita palestra, mas lembro-me muito bem que fiquei maravilhada pelo fato de estar assistindo um escritor famoso falar ali, bem na minha frente, uma simples adolescente gaúcha, que já na época amava livros e amava escrever, mas ainda não sabia bem como colocar todo aquele mundo interior que a perturbava tanto para fora.

A impressão que eu tive, naquelas poucas e preciosas horas passadas com um Saramago ainda entrando na melhor idade, foi a de uma catequese. Seu sotaque luso embalava os ouvintes, como se um canto melodioso fosse. Todos ali ficaram inevitavelmente encantados pela fala mansa – porém firme e categórica – do homem que viria a tornar-se o único prêmio Nobel de Literatura em língua portuguesa. Sim, uma catequese da melhor qualidade, ironicamente feita por um ateu convicto.

O tema da palestra, isso lembro-me bem, era a necessidade ou a possibilidade da sistematização do que Saramago chamou de uma “língua brasileira”. Pelas diferenças dialetais e ortográficas existentes entre o português “de Portugal” e o do Brasil, o que propunha Saramago era uma separação entre as duas “línguas”, não cultural, mas meramente linguística. Eu gostaria de ter assistido essa palestra hoje, aos 36 anos (na época, eu tinha 16), já tendo lido grande parte de suas obras, e o tendo estudado com profundidade na faculdade de Letras. Pena que não dá para voltar no tempo.

As lembranças dessa tarde na UFRGS vieram-me quando eu soube da morte de Saramago. Fiquei de fato muito triste. Eu ainda não tinha sentido a morte de alguém que não fosse meu parente ou amigo com tanta consternação. Pensei nos momentos em que li e reli Ensaio sobre a Cegueira, romance que mudou meu modo de ver a literatura, tanto como leitora, quanto escritora. Saramago é um dos escritores que influenciaram a minha escrita, não só na forma inovadora, como no jeitinho meio machadiano do autor de conversar discretamente com o leitor, que eu adoro e adoto até hoje. Quando se lê Saramago, sente-se claramente a presença do autor. Ele está ao seu lado o tempo inteiro durante a narrativa, acompanha-lhe como se fosse um guia. Isso não se encontra facilmente na literatura. E é tão bom, tão reconfortante saber que o autor não apenas está jogando a história no leitor, como se fosse um balde de água fria. Saramago tem esse dom: não assusta o leitor. Caminha ao lado dele, como um amigo, um companheiraço de anos.

O fantástico do mundo da literatura é que nada e ninguém morre de verdade. Na semana passada, comprei Caim, seu último livro, e encontrei de novo meu velho amigo. Reconheci-o totalmente nas páginas cheias de ironia dessa sua mordaz visão do Velho Testamento.

Foi-se Saramago, sim, porque não escreverá mais livros. Mas sua verve incomparável e sua peculiar maneira de contar histórias estarão para sempre mais do que vivas em seus livros, e eles estarão para sempre ao meu lado. Não perdi o companheiro, apenas se foi uma parte dele, a física. Discordo das palavras dele mesmo, que usei como epígrafe deste texto: Saramago não entrará no nada e nem se dissolverá, completamente, com a morte. Está ainda vivendo em suas obras, e assim permanecerá, pelo resto dos tempos.

Cinema

Toy Story 3

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por Pedro Cunha

Não faço parte da geração de crianças que conheceu Toy Story na infância. Quando Toy Story 1 (Toy Story, John Lasseter, 1995) eu tinha 17 anos e sinceramente estava muito mais ocupado com outras coisas. Não me lembro quando assisti, acho que foi na TV. Quando eu soube que Toy Story 3 seria lançado agora em 2010 não fui tocado no emocional. Mas enfim, Pixar é Pixar e sempre faz filmes interessantes. “Up – Altas Aventuras” (Up, Peter Docter, 2009), o filme anterior da Pixar, não só abocanhou o Oscar de longa de animação como também levou o de trilha sonora e foi indicado, pasmem, a melhor filme. Com algum merecimento: os primeiros 10 minutos de “Up” são parte mesmo do que de melhor foi feito em matéria de cinema no ano passado.

Toy Story, a franquia, já é história no cinema. O primeiro filme da série, em 1995, inaugurou uma nova era nas animações: as animações feitas em computador. Sem exageros o lançamento de Toy Story teve um significado para as animações semelhante ao lançamento de “Branca de Neve e Os Sete Anões” (Snow White and the Seven Dwarves, 1937). Ambos são filmes que definiram padrões de gênero. Paradoxalmente Toy Story faz isso contando a história de um antigo boneco de cowboy, Woody (voz de Tom Hanks), que fica ofuscado pela chegada de um novo brinquedo na casa de seu dono, Buzz Lightyear (voz de Tim Allen), o astronauta tecnológico. Os brinquedos acabam ficando amigos, como dizendo que a inovação tecnológica e a tradição podem conviver e ambos podem ganhar com isso.

Toy Story foi o cartão de apresentação da Pixar para o mundo. Depois dele vieram “Vida de Inseto” (Bug’s Life, 1998), a sequência que não deixou o nível cair “Toy Story 2” (1999), “Monstros SA” (Monsters INC, 2001), “Procurando Nemo” (Finding Nemo, 2003), “Os Incríveis” (The Incredibles, 2004), “Carros” (Cars, 2006), “Ratatouille” (2007), “Wall-E” (2008) e “Up – Altas Aventuras” (Up, 2009). São 10 filmes em 15 anos, sem deixar o nível de qualidade cair. Se “Carros” pode ser considerado o ponto mais baixo nessa sequência “Procurando Nemo” é considerado por muitos como a melhor animação de todos os tempos e “Wall-E” tem passagens em que deixa de ser um filme de animação e passa a ser um filme de arte sem, incrivelmente, deixar de agradar as crianças.

Toy Story 3 foi uma gestação complicada. Se entre o 1 e o 2 apenas quatro anos se passaram tivemos que esperar mais 11 anos pelo 3. A primeira data de lançamento do filme, 2004, foi atrasada diversas vezes em função de brigas e dissidências na equipe criativa. A demora acabou sendo positiva: o filme pôde incorporar a nova tecnologia 3D desde a época da produção. Diferente de “Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, Tim Burton, 2010) ou “Fúria de Titãs” (Clash of the Titans, Louis Leterrier, 2010), que foram convertidos para 3D depois de realizados (uma maneira educada de dizer que transformaram a nova tecnologia em caça-níqueis para cobrar ingressos mais caros), Toy Story 3 foi inteiramente pensado em 3D. É um detalhe que torna o filme interessante: não é um filme de sustos, de imagens que saltam no nosso rosto. É um filme onde o 3D ganha um destaque discreto, dando vivacidade e um maior grau de realismo para o filme todo. É um filme muito bonito, e o 3D ajuda a construir isso.

O roteiro tem duas linhas de interpretação, como é comum nos desenhos da Pixar: uma mais linear, para as crianças, e uma mais profunda, que acaba agradando os mais crescidos. Andy, o dono dos brinquedos, cresceu. Está na hora de ir para a faculdade. E ele tem que decidir o que fazer com os seus brinquedos: trancá-los no sótão, jogá-los no lixo ou doá-los a uma creche. Andy havia decidido deixar seus brinquedos preferidos (Buzz Lightyear, Jessie, a vaqueira, Senhor e Senhora Cabeça de Batata, o Dinossauro, o Porquinho, os 3 ETs e o Cachorro-Mola; os brinquedos conhecidos dos outros filmes) no sótão e levar o especial, o cowboy Woody, junto com ele para a faculdade. Uma confusão faz com que todos os brinquedos acabem indo para uma creche, onde tem que lidar com uma “gangue” de brinquedos antigos da creche que monopoliza as crianças mais velhas, deixando os brinquedos “novatos” nas garras das crianças mais novas, que quando brincam acabam destruindo os brinquedos.

Num plano mais linear o filme segue com os brinquedos tentando fugir da creche e voltar para a casa de Andy. O destaque aí é para os brinquedos novos, os “vilões” do filme: o líder dos brinquedos, o ursinho “Lots’o”, um amargurado por ter sido abandonado pela sua criança, e seus amigos, dentre os quais o destaque, impagável, é o metrossexual Ken. Noutro plano Toy Story 3 é um filme sobre crescimento e amadurecimento. Seja de Andy, que tem que se desvincular dos seus brinquedos, seja dos próprios brinquedos, que tem que se acostumar com a ideia de que Andy não vai mais brincar com eles. Duas das melhores cenas do filme são o retrato dessa transição: a primeira, onde a brincadeira se confunde com a realidade e nós “a enxergamos” com os brinquedos tendo movimento e vida próprios. O próprio Andy não aparece na cena, ele não está nesse plano. Já a última cena, quando Andy conscientemente doa seus brinquedos para a menina Bonnie, é diferente: A brincadeira entre eles dessa vez tem os brinquedos inertes, sem vida, nas mãos das crianças, que tornam-se as protagonistas da brincadeira. Toy Story 3 poderia ser um filme que emocionasse por fazer parte de uma franquia muito querida. Mas não é. É um filme sensível e que emociona por si. Todos nós nos sentimos Andy, em algum momento da vida, precisando crescer e cortar laços que nos prendiam. Todos nós também já fomos Woody, o verdadeiro protagonista, aquele que se nega veementemente a desistir do amigo. Toy Story 3 é um filme sobre valores, lealdade e amizade, que vale a pena, sem sombra de dúvidas, ser assistido.

Cinema

Filmes de Copa do Mundo

por Pedro Cunha

Em tempos de Jabulani, vuvuzelas e bafana bafana talvez você não aguente mais futebol, esporte, Copa do Mundo ou África do Sul. Bom, se for o caso, a minha coluna de hoje talvez te deixe um pouco mais irritado. Já que eu gosto bastante desse clima, resolvi fazer uma seleção de cinco filmes com essa temática, para quem quer continuar no embalo da terra do Mandela. Lembrando que a lista é pessoal e os critérios são completamente subjetivos, ou seja, sinta-se à vontade para não gostar e reclamar. Listas, afinal, servem para isso, não?

5) Pelé Eterno (Aníbal Massaini Neto, 2004)
Esse é um filme para quem gosta mesmo de futebol. E é um filme que tira todas as dúvidas sobre Pelé ter sido ou não o maior jogador de todos os tempos. O filme segue a trajetória linear dos documentários-biografias que contam a vida de alguém desde a infância até determinado ponto (até porque Pelé ainda não morreu). Há depoimentos de colegas, familiares e amigos e muitas cenas raras, como as da final da Libertadores da América de 1962, vitória do Santos de Pelé sobre o Boca Júniors por 2×1. Na época do lançamento do filme, foi dado grande destaque à reconstituição eletrônica de um gol que, segundo o próprio Pelé, seria seu gol mais bonito, contra o Juventus de SP no Estádio da Rua Javari. Interessante é ver como seis anos podem tornar algumas coisas datadas, em especial quando se trata de computação gráfica. “Pelé Eterno” é um filme para quem não gosta de futebol manter-se distante. Mas, para quem gosta de futebol, é um bom filme.

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4) Duelo de Campeões (The Game of Their Lives, David Anspaugh, 2005)
Um dos arquétipos de filmes esportivos: uma equipe realmente fraca, mas de boas pessoas, se realmente focada e guiada por ideais nobres pode derrotar um adversário poderoso, porém arrogante. Mesmo se no final a equipe não se sagrar campeã, ela voltará para casa com a missão cumprida e a lição aprendida. Essa história é contada tendo como protagonista a seleção norte-americana de futebol na Copa de 1950, no Brasil. Foi quando ocorreu a maior façanha da história do futebol dos EUA: a vitória de 1×0 sobre a Inglaterra em Belo Horizonte. Apesar da vitória sobre a poderosa Inglaterra os norte-americanos foram eliminados na primeira fase depois de sofrerem derrotas para Espanha e Chile. O filme é protagonizado por Gerard Butler, que começava a adquirir experiência sobre comandar minorias aguerridas que seriam derrotadas por inimigos superiores.

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3) Barbosa (Jorge Furtado, 1988)
Mais um filme sobre a Copa de 1950, mas dessa vez um curta. A Copa de 1950 talvez seja o maior trauma esportivo brasileiro e Antônio Fagundes tenta exorcizá-lo voltando no tempo e impedindo que ele aconteça. O curta é interessante e o desfecho bastante inusitado. O filme tem 12 minutos e pode ser assistido na íntegra em http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=150#. O projeto porta curtas, aliás, é uma iniciativa muito legal da Petrobrás que disponibilizou online (e legalmente) uma quantidade enorme de curtametragens…

2) O Milagre de Berna (Das Wunder von Bern, Sönke Wortmann, 2003)
A Copa, dessa vez, é a de 1954. A segunda Copa pós-Segunda Guerra Mundial foi a primeira da Alemanha Ocidental, destroçada pela guerra. Uma seleção nacional de um país que não podia, naquele momento, ter orgulho nacional. Um time destroçado de um país destruído. Aos trancos e barrancos, os alemães classificaram para a final onde enfrentariam aquela que já era, para muitos, a dona daquela Copa: a Hungria de Puskas. A Hungria estava invicta há quatro anos e, naquela Copa, havia feito 25 gols em quatro jogos. Um filme sobre superação e também sobre orgulho. Antes de um filme de esporte, um filme legal de se assistir.

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1) Todos os Corações do Mundo (Two Billion Hearts, Murilo Salles, 1995)
A FIFA produz, desde 1958, um filme oficial sobre a Copa do Mundo. “Todos os Corações do Mundo” é o filme oficial da Copa de 94, nos EUA. Essa é uma Copa muito especial para a minha geração, a que está na casa dos 30 e alguma coisa: foi a primeira vez que testemunhamos o Brasil chegar a uma final e ainda por cima vencemos. O filme conta com imagens que para nós já são clássicas: Dunga e a mão crispada, comemorando o gol de pênalti na final, Baggio com as duas mãos na cintura e olhando para o chão depois de perder o pênalti, Romário malandramente se esquivando para que o chute de Branco entrasse contra a Holanda e aquela que é a imagem mais forte, acho, da copa: Bebeto e seu gol embala-nenê, que marcou a vitória brasileira sobre os EUA em pleno 4 de julho.

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Tecnicamente falando “Todos os Corações do Mundo” é um documentário sobre esporte. E nesse sentido é muito bom. O som das torcidas nas arquibancadas, as expressões dos jogadores, os pequenos e sutis movimentos são ricamente captados por muitas (e bem colocadas) câmeras. O trabalho de mixagem e edição também é primoroso, assim como a montagem, que pode destruir um filme como esse, e, no caso, ajuda a torná-lo bom. Um detalhe que torna o filme engraçado são os uniformes, que eram o que existia de fashion e moderno em 1994 e hoje parecem muito, mas muito datados. Quem duvida que dê uma googlada por “USA 94” e veja, por exemplo, a camisa azul-estrelada da seleção norte-americana.

A nota triste do filme vem na dedicatória ao zagueiro colombiano Escobar. A Colômbia chegou aos EUA como uma das favoritas ao título e decepcionou. Escobar fez um gol contra no jogo contra os EUA que ajudou a desclassificar a Colômbia. Ao regressar ao seu país o zagueiro foi executado em um bar em função do ocorrido. O esporte, as vezes, é levado a sério demais.

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Literatura

Redenção

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imagem: Anelise Schutz

por Clarice Casado

Não há nada mais sagrado que o profano. Essa, para mim, é a frase que resume o futebol. Como arte, ou como religião, do jeito que quiserem tratá-lo: futebol é religiosamente artístico, fanaticamente incompreensível. Irracionalmente emocionante. Futebol é um paradoxo ambulante: sagrado e profano. E tenho dito?

Tudo isso, leitores, é por que arrastei-me para um campo de futebol. Sim, eu decidi que era hora de encarar. Eu, que dele nada entendo. Eu, que com ele tenho uma clássica relação de amor e ódio. Eu, que fui praticamente obrigada a saber dele. Já falei de futebol aqui, algumas vezes. Falei dele em forma de poesia, falei em forma de prosa, falei dele como forma de amor incondicional. Mas nunca tinha sentido um jogo. Não tinha colocado os pés em um estádio lotado, 40 mil pessoas entoando o mesmo grito. Tenho pavor de multidões. Porém, resolvi encarar.

E comecei bem, escolhi o clássico do futebol dos Pampas: o GreNal. Até quem não é gaúcho sabe da rivalidade irracional existente entre os dois grandes times do Rio Grande do Sul. Em dia de GreNal, tudo é guerra.

À medida em que fui me aproximando do estádio, podia ouvir ao longe sons de tambores e de vozes cantando: eram as torcidas organizadas, ainda fora do estádio, entoando seus gritos de guerra. Algo tribal, mesmo. Muitos dos gritos de torcida são quase ininteligíveis. Como aqueles mantras tribais, sabem como é? Você não compreende, mas se envolve totalmente por eles.

Quando pisei no estádio, com minha família, ansiosa, meu coração bateu descompassado ao ver a massa vermelha em festa. Muita gente me dizia, me contava, me cantava, emocionada, da sensação inigualável de entrar pela primeira vez em um estádio lotado. Eu não entendia. Foi instantâneo: entrei, e minha vida, a partir dali, mudou. Não porque passei a amar o futebol, ou a entender suas regras, mas porque comecei a compreender melhor o amor irracional e incondicional do torcedor por seu time do coração. Rendi-me.

Nas horas que se passaram, eu, espectadora por excelência, naquela tarde excepcionalmente cinza na sempre ensolarada Porto Alegre, observei de perto os tipos humanos que desfilaram ao meu redor. Por todos os lados, homens, mulheres e crianças movidos por um sentimento em comum, de luta, de euforia mesclada com tristeza e angústia, de êxtase. Ouvi atenta os gritos das torcidas organizadas, testemunhei os rituais de cada torcedor antes do início do jogo. Sinal da cruz, benzeduras, rezas. Religião? Que nada, muito mais forte que isso. Fanatismo? Talvez. Mas nada ao ponto de ser caso de internação em clínica psiquiátrica. Arte? Da melhor qualidade. Porque arte, em sua essência conceitual, provoca estranhamento. Choca, muitas vezes. Traz sentimentos dúbios, faz rir e chorar. Se futebol não for arte, desisto hoje de fazê-la.

Em um jogo de futebol, não é apenas questão de ganhar ou perder, é muito mais que isso: é sentir, é exacerbar sentimentos, é gritar, é dizer palavrões o tempo inteiro, é o extravasamento de si próprio. Nos momentos desconcertantes das faltas, nas falhas indignantes do árbitro, nos gritos de fúria, nas palmas elogiosas aos jogadores, no arrasador silêncio que sucede o gol do adversário, no emocionante coro de milhares a incentivar o time, no inigualável instante do gol.

Eu arrisco dizer que, em um estádio lotado, vale tudo. O seu subconsciente se revela de maneiras tais que vão muito além da sua própria compreensão. É mais ou menos o que ocorre nos sonhos. Em sonho, há aquele derramamento de angústias, aquela realização de desejos contidos e inconfessáveis. No futebol, dentro de um estádio lotado, sonha-se acordado. O que ali acontece, ali fica. O seu segredo estará para sempre guardado por 40 mil sonhadores.