Em seu novo disco solo, Iggy Pop deixa de lado o peso do punk rock para se render aos ritmos do jazz, do blues e da bossa nova.
Logo na primeira faixa, o cantor deixa claro que “Préliminaires” é um álbum bem diferente do resto de sua carreira: Iggy Pop canta em francês “Les Feuilles Mortes”, um standard do jazz composto por Joseph Kosma e Jacques Prévert que ficou mais conhecido nas vozes de Edith Piaf e Nat King Cole. A versão de Iggy tem um vocal gainsbouriano e um arranjo moderninho e kitsch. O blues aparece em faixas como “He’s Dead/She’s Alive” e “She’s a Business”, aproximando as novas músicas do estilo roqueiro mais comum ao cantor.
Outra grande surpresa do disco é a cover de “How Insensitive”, de Tom Jobim, cantada no álbum em sua versão em inglês. Uma interpretação inspirada do cantor, que deixa claro que Iggy Pop poderia viver só de jazz e bossa nova, se assim quisesse.
“Préliminaires” foi inspirado no livro “Possibilité d’une île” do francês Michel Houellebecq. Movido pelo trabalho do escritor, o cantor buscou novas formas de expressar-se musicalmente, explorando um lado mais tranquilo de sua personalidade.
A capa do álbum foi desenhada pela iraniana Marjane Satrapi, mais conhecida pelo filme animado “Persepolis”, premiado em Cannes em 2007. Ela também assina as imagens do livreto de 38 páginas que foi criado para a edição deluxe do CD.
O primeiro single do álbum, “King of the Dogs”, é um jazzão estilo New Orleans que cabe perfeitamente na voz de Iggy. Na letra, o cantor assume o papel de um cachorro chamado Fox – personagem preferido do cantor no livro de Houellebecq – que se gaba de ter a bela vida de um cão e não a triste vida de um ser humano. A música ainda ganhou um divertido clipe interativo onde você pode escolher se o personagem do vídeo vai ser um cachorro catador de lixo, executivo ou motoqueiro. Divirta-se ao som jazzístico do rei do rock!
Deixas-me falar uma vida inteira
e nem de perto eu diria tudo
o que há de mim para ti –
Basta sussurrar.
Sabes meu preço:
é apenas o que me dê
acertos e noites bem dormidas.
De todas as histórias que ouvi
reinam absolutas e magníficas
as dos teus anjos protetores:
nem a ti mesmo pertences.
O que me move é o teu mundo –
Exato.
Das andanças de ontem
traz-me apenas o infinito.
Me bastas.
Vejo-te nos frutos,
reflexos de nós dois.
Vejo-te presente,
constante.
Vejo-te sempre aqui,
ao meu lado.
Do contrário,
apenas o vazio.
Com apenas uma pandorga na mão, ela contorna o mundo.
Corre feliz sem olhar para trás, deixa ela subir o mais alto que pode. Faz acrobacias, desafia o brinquedo a permanecer intacto. E ri das piruetas desajeitadas que ele performa em azul, amarelo, vermelho e verde. Não tem graça se não tem troça. Mas quando a pipa prende nas árvores, o sorriso se desmancha. Puxa, puxa e repuxa… e de nada adianta. A menina desanima. Senta no chão e chora. Mas por alguma razão inexata, talvez um mutirão de acasos, quando ela olha para cima, vê a pandorga livre riscando o céu. A menina sorri. E volta a correr, perseguindo a pipa com os seus olhinhos brilhantes. E corre tanto quanto pode, pois sabe que, em algum passante momento, o vento há de bater a seu favor.
Mais uma vez vamos começar um texto maldizendo as distribuidoras brasileiras e seus geniais planejamentos. “À Prova de Morte” foi feito e lançado nos EUA em 2007. Era parte de Grindhouse, um projeto conjunto de Tarantino e seu amigo Robert Rodriguez. O projeto todo era bem inovador e legal: produzir dois longas de terror e reproduzir as sessões duplas de matinê que existiam antigamente nos EUA. Rodriguez escreveu e produziu “Planeta Terror” (Planet Terror, 2007); Tarantino foi o responsável por “A Prova de Morte”. Não só fizeram os filmes juntos, com uma linguagem e uma fotografia comuns, como ainda produziram trailers falsos de outros filmes como “Machete”, “Werewolf Women from the SS” e “Thanksgiven”. Um assassino serial mexicano, nazistas e mulheres lobisomens (lobismulheres?) nos anos 70 e um assassino serial que mata no Dia de Ação de Graças. Só por aí dá para ter uma ideia do projeto e de como ele se caracterizava pelo conjunto e pelo próprio espírito de gozação. O mais genial da história toda, na minha opinião, é Tarantino e Rodriguez terem conquistado o mainstream de Hollywood e continuarem fazendo esse tipo de experiência, sem pensar em bilheteria, público ou crítica. Genial. Mas aqui no Brasil as distribuidoras não pensaram assim. Se acharam mais geniais que Tarantino e Rodriguez e lançaram “Planeta Terror” em novembro de 2007 e “À Prova de Morte” agora, em julho de 2010. Toda a ideia da sessão dupla, dos trailers falsos, tudo isso foi jogado privada abaixo. Afinal eles devem entender de cinema muito mais que Rodriguez e Tarantino, certo?
Saindo da polêmica distribuidora, vamos ao filme em si. “À Prova de Morte” é um filme difícil, muito difícil de definir. É um pulp movie, talvez, se esse conceito existir. Um filme B sem a pretensão de ser nada além disso. É um filme que não se leva a sério e que, nesse sentido, lembra “Um Drink no Inferno” (From Dusk Till Dawn, 1996), filme de Robert Rodriguez com roteiro de Tarantino. Circula na internet, inclusive, uma intrincada linha de tempo que liga “Um Drink no Inferno”, “Planeta Terror”, “Kill Bill” (volumes 1 e 2) e “À Prova de Morte” através de personagens e referências. Todos esses filmes se passariam, teoricamente, no mesmo universo. É dentro desse universo que podemos entender os personagens arquétipos de “À Prova de Morte”. O filme nos apresenta um dublê (chamado de “Dublê Mike” e magistralmente interpretado por Kurt Russel) misterioso que aparentemente é um serial killer que persegue e mata grupos de mulheres. O modus operandi dele é interessante: na medida em que ele simula acidentes de trânsito graves nos quais sobrevive não pode ser culpado pelas mortes que provoca. O filme nos mostra o dublê fazendo isso duas vezes, e na segunda as coisas não terminam como ele planejou, para dizer o mínimo. E eu não posso falar muito mais sobre o roteiro sem estragar o filme para quem for assistir.
A direção de Tarantino segue genial e segura. Os closes inusitados, os cortes propositalmente abruptos e a imagem propositalmente envelhecida dão ao filme o tom exato que Tarantino queria. Algumas cenas são primorosas: a cena do acidente de trânsito, que acontece quatro vezes por ângulos diferentes, para mostrar a morte de cada uma das meninas. A culminância da cena é a última morte, em que o pneu do carro do Dublê Mike passa pelo rosto da menina. É nojento. É aviltantemente nojento. E é fantástico, ao mesmo tempo. Nada que Tarantino já não tenha explorado em “Kill Bill”, por exemplo. Mas ainda assim é inusitado.
Como foi inusitada também a escolha de Kurt Russell para o papel de Mike, o Dublê. Russell, o eterno Snake Plissken de “Fuga de Nova Iorque” (Escape from New York, John Carpenter, 1981) e do ultra-trash “Fuga de Los Angeles” (Escape from LA, John Carpenter, 1996) vinha fazendo papeis menores em produções secundárias quando foi chamado por Tarantino para “À Prova de Morte”. Ele é perfeito para o papel. E não dá para dizer que Tarantino nunca fez nada parecido: John Travolta (com mais sucesso) e Pam Grier (com menos) foram “resgatados” pelo diretor respectivamente em “Pulp Fiction” (1994) e “Jackie Brown” (1997). Russell está perfeito no papel, por mais bidimensional que ele propositalmente seja. Quase dá para acreditar nele.
O filme é Tarantino puro, do início ao fim. Talvez seja o mais autorreferente dos filmes do diretor. Não é uma obra-prima, mas definitivamente tem todas as marcas do diretor e roteirista. Uma delas, aliás, exacerbada: o fetiche por pés femininos. Do início ao fim eles aparecem. Outra “tarantinice” é a trilha sonora: cheia de lados B americanos garimpados pelo diretor pacientemente e diversas citações a trilhas sonoras anteriores do diretor. A cena do bar mexicano, onde Tarantino faz uma ponta como Warren, o dono do bar, é recheada de diálogos típicos de Tarantino. Nesse mesmo bar há uma jukebox, cuja seleção é formada por muitas músicas que já constaram em trilhas sonoras do diretor. O filme todo é repleto de referências à história do cinema: cinema italiano, clássicos norte-americanos e filmes que não existem, como alguns que estão em cartazes fictícios no primeiro bar onde as meninas param para tomar margaritas.
“À Prova de Morte” é um filme complicado de se falar sobre. Mas eu gostei de classificá-lo como a melhor bobagem dos últimos anos. É cáustico, é descompromissado, é leve. E é genial, ao mesmo tempo. É diversão do início ao fim. Não me lembro da última vez em que saí do cinema gargalhando tanto, mesmo que não tenha entendido direito o porquê. Recomendadíssimo.
Me lembro da cena transparente, como se tivesse ocorrido ontem. Tão simples e confortante como o derramar da mão dentro de um pote de ervilhas. Nós dois e nossa importante tarefa daquele dia: podar as folhas de toda cerca viva que rodeava o conjunto de casas. Com tesouras pesadas e também um tanto desafiadas fazíamos aquele delicioso movimento repetitivo. Era só o tilintar das lâminas e o cheiro gostoso de mato recém abatido. Estranho como estes cheiros ficam impressos e despertam rápido e sem porquê. Sei que ficamos horas embalando nossa conversa ao navalhar das tesouras, sem pressa. Conversamos sobre como a vida ali fazia muitas coisas perderem seu valor costumeiro e outras ganharem nova estima. Coisas como fazer o que nunca se imaginou fazendo. E ele riu quando eu disse que no dia anterior havia passado a manhã sobre uma montanha de estrume e que não mais demorava horas para me trocar pois só tinha dois pares de calça. Apesar do meu universo ser tão diferente do dele o som do abrir e fechar das tesouras nos colocava frente a frente. No geral, falei muito mais de mim e ele me ouvia sem qualquer exigência. Foi daquelas conversas que acontecem poucas vezes e te deixam refletindo para o resto da vida.
Esse filme foi um projeto pessoal de Terry Gilliam, ex-integrante do Monty Python. Gilliam foi uma das grandes cabeças por trás do melhor momento da trupe inglesa. Foi roteirista e diretor de “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado” (Monty Python and the Holy Grail, 1975), certamente o filme do Monty Python que deixou o maior número de referências, desde os cavaleiros que dizem “Ni!” até as andorinhas do leste que voam para o oeste. Fora do Monty Python Gilliam sempre teve uma atração pelo fantástico e flertou seriamente com a ficção científica em “Brasil: O Filme” (Brazil, 1985) e em “Os Doze Macacos” (Twelve Monkeys, 1995). Seu trabalho mais recente que chegou por aqui foi “Os Irmãos Grimm” (The Brothers Grimm, 2005), onde mais uma vez o diretor/roteirista britânico namora a fantasia.
“O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus” é um filme daqueles com parto complicado. Depois de finalizado Gillian ficou mais de um ano procurando uma distribuidora para poder lançar o filme. E o fim da produção e a pós-produção também foram muito complicados. Vale lembrar que um dos protagonistas do filme era encarnado pelo já lendário Heath Ledger, que morreu de overdose antes do final das filmagens. Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell terminaram o papel de Ledger e doaram seus cachês à família dele. Qualquer avaliação sobre o filme, sobre continuidade ou sobre o próprio roteiro tem que levar isso em consideração.
O filme retrata o cotidiano de uma trupe formada por um velho monge, o Dr. Parnassus (Christopher Plummer), Valentina (Lily Cole), sua filha adolescente, um anão que acompanha o Dr. Parnassus presumivelmente a muito tempo e um companheiro de trupe, Anton (Andrew Garfield) que é visivelmente apaixonado por Valentina. A rotina da trupe é transformada quando eles encontram, presumivelmente por acaso, um desconhecido pendurado pelo pescoço embaixo de uma ponte. Retirado de lá por Anton e Valentina o homem (Heath Ledger) está desorientado e aparentemente sem memória. Acaba se juntando à trupe e, previsivelmente, formando um triângulo com Valentina e Anton.
O show do Dr. Parnassus consistia numa espécie de truque circense real: O Doutor entrava em transe e com isso energizava o “imaginário”, um espelho falso pelo qual as pessoas entravam em um mundo onde podiam vislumbrar e escolher entre seus maiores sonhos e desejos. A grande questão é que o “truque” é real. Como descobrimos com o desenrolar da história os poderes do Dr. Parnassus são uma dádiva do Diabo (Tom Waits), resultado de antigas apostas do Dr. com ele. Enquanto no Imaginário as pessoas fazem escolhas. As que escolhem pela luxúria, pelos prazeres carnais e mundanos acabam nas mãos do Diabo. As que escolhem os valores mais sublimes e nobres são almas que se salvam. O teor das apostas entre Parnassus e o Diabo é esse: enquanto o monge aposta no “lado bom” das pessoas o Tinhoso acredita que mais delas escolherão o “lado ruim”. Pelo menos isso foi o que eu entendi. O roteiro não é suficientemente claro nas questões envolvendo o Diabo ou o Imaginário.
O Diabo foi quem aparentemente colocou Tony (o personagem de Ledger) no caminho de Parnassus, às vésperas do décimo sexto aniversário da menina. A menina estava, em função de uma aposta antiga entre Parnassus e o Cão, prometida para ele, no dia em que completasse dezesseis anos. Dois dias antes da fatídica entrega o Diabo novamente aparece para Parnassus, propondo uma nova aposta: o primeiro deles que conseguisse cinco almas ficaria com Valentina. Pelo menos para mim não ficou claro aqui o que o Diabo teria a ganhar com essa aposta, uma vez que tecnicamente ele já tinha o prêmio que poderia ganhar. Parnassus topa e essa última aposta sobre o destino de Valentina é o clímax do filme. O interessante é que Parnassus, o Diabo, Anton e Tony, todos dão a impressão de saber o que é melhor para Valentina. Mas ninguém nunca pergunta para ela o que ela quer.
Quando eu fui ao cinema eu não tinha ideia exata de sobre o que tratava o filme. Saindo do cinema eu não sei se tenho certeza de sobre o que ele trata. É um filme sobre escolhas, sem sombra de dúvidas. Mas a que conclusões ele chega? Eu não sei. É um filme, talvez, sobre acreditar na fantasia e na imaginação num mundo onde o real e o racional são tão torpes? Não sei, pode ser. O próprio Gilliam, falando sobre o filme, disse que o objetivo dele era “levar alguma fantasia a Londres”. Pode ser. Mas a mensagem não é passada tão claramente. O roteiro tem alguns furos, mas isso era esperado, pelo menos por mim. Perder um dos protagonistas e ter que refazer o roteiro durante as filmagens é como trocar o pneu de um carro em movimento: por melhor que você faça é impossível não perceber que algo aconteceu. Não é nada que torne o filme ruim, mas também prejudica um pouco a compreensão. E se eu não sabia nada sobre o enredo eu confesso que esperava bastante da parte visual do filme. O filme é bonito, sem sombra de dúvidas. O figurino é encantador. Mas eu esperava mais dos efeitos visuais. As cenas no Imaginário, principalmente, eu achava que poderiam ter sido mais ricas. O orçamento do filme, 45 milhões de dólares, não é tão enxuto quanto eu imaginei. A parte de computação gráfica poderia, portanto, ser um tantinho mais caprichado. Destaque aqui para as cenas do “jovem” Parnassus no monastério, a cena mais bonita do filme. O figurino, esse sim, impecável. Escolhas de um extremo bom gosto, com aquele ar de retrô-brechó-chique.
Sobre as atuações, a aposta de Gilliam na novata Lily Cole foi acertada. O rosto da menina tem uma beleza invulgar e ela consegue dar profundidade a um personagem que teria tudo para parecer caricato. Plummer faz um Parnassus muito bom. Durante o filme eu pensei (e um amigo depois me confessou que pensou a mesma coisa) que ele faria um Dumbledore muito bom, na “saga” (ando com nojinho dessa palavra) “Harry Potter”. E temos Heath Ledger. Ledger era um ator que vinha numa carreira sólida e em ascensão. Foi em “Irmãos Grimm”, do mesmo diretor Terry Gilliam, que Ledger apareceu como protagonista. Depois disso vieram os (justamente) muito elogiados “O Segredo de Brokeback Mountain” (Brokeback Mountain, Ang Lee, 2005) e “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight, Christopher Nolan, 2008). Esses dois papeis são fundamentais para entender por que Ledger pode ser considerado o James Dean dos anos 00s: não teve medo nem do papel de cowboy gay em Brokeback Mountain e muito menos de fazer o Coringa, um personagem dificílimo e que já tinha uma versão “definitiva” no cinema, por ninguém mais, ninguém menos que Jack Nicholson. Ledger não só fez o seu Coringa como tornou o de Nicholson quase… ridículo. A atuação dele em “O Imaginário…” (pelo menos na parte em que ele é ele mesmo) mostra que Ledger não morreu no auge. Ele ainda iria crescer como ator. O filme, não por acaso, pertence a ele. Pelo menos é o que diz o próprio Gilliam nos créditos, não dedicando o filme a Ledger, mas dizendo que o filme _é_ dele.
“O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus” é um bom filme que poderia ser melhor, na minha impressão. Mas é um filme que absolutamente vale a pena ser visto. Primeiramente porque ele foge do usual, o que hoje em dia é muito difícil de encontrar no cinema. E depois porque é a despedida de Heath Ledger, um ator que vai fazer falta para qualquer um que goste de cinema.
“You don’t look different but you have changed,
I’m looking through you, you’re not the same.”
“I’m Looking Through You”, RUBBER SOUL, The Beatles
Não há nada mais permanente que memórias de viagens. Eu sempre digo que não há investimento de vida melhor do que viajar. São aqueles segundos lembrados, sabe? Detalhezinhos nunca esquecidos. O lugar especial visitado, a história engraçada para contar aos amigos, o restaurante perfeito, a comidinha mais que especial, a bebidinha inesquecível, os regalos incomparáveis… E as memórias. Sim, as memórias. A melhor parte, sem a menor sombra de dúvida.
Em dezembro 2009 eu estive em Londres com meus filhos e meu marido. Uma viagem muito esperada e planejada. Dentre outras várias coisas que queríamos fazer naquela linda e próspera (em todos os sentidos: socioeconômico, cultural, histórico) terra, tínhamos um objetivo muitíssimo especial: aquela seria uma jornada em busca dos Beatles. Sim, os quatro rapazes de Liverpool, de quem somos fãs incondicionais, eram parte essencial de nosso roteiro.
Antes de irmos, tratei de pesquisar o que poderíamos ver em Londres que nos ligasse ainda mais aos nossos ídolos. Fiz um pequeno “roteiro Beatles”, que incluía algumas atrações imperdíveis: uma galeria especializada em fotos (a renomada Getty Images), duas lojinhas com memorabília da banda, uma delas localizada em um minúsculo Café temático na saída da estação de metrô St. John’s Woods e, como não poderia deixar de ser, a Abbey Road e seu famoso cruzamento, que aparece na capa do álbum de mesmo nome, com os quatro Beatles atravessando a rua onde até hoje fica o Abbey Road Studios, no qual foram gravadas grande parte das músicas da banda.
Londres respira e transpira cultura por todos os poros. Nossa passagem pela Getty Images em busca de fotos dos Beatles foi apenas uma pequena parte da “fanática” jornada. A galeria é famosa por clicar o pessoal do mundo artístico. Tinha muita coisa legal, mas acabamos comprando uma foto apenas dos Beatles, colorida, linda, que hoje reina absoluta em nossa sala de casa.
Foi por acaso que descobrimos que a National Portrait Gallery estava com uma exposição temporária intitulada The 60’s Exposed: from Beatles to Bowie. A National Gallery ficava a poucos passos do nosso hotel, localizado na St. Martins’s Lane, rua charmosa na chiquérrima e trendy região de Mayfair. Ficamos doidos! Chegamos cinco minutos depois do fechamento da exposição: tentamos entrar, mas como a pontualidade britânica não é apenas um mito, a única foto que vimos foi uma gigante (e linda!) de Paul e John juntos bem na entrada. Já valeu ter ido. Mas ainda deu tempo de visitarmos a lojinha da exposição, e foi perfeito, porque pudemos comprar algumas réplicas das fotos expostas, bem como alguns souvenirzinhos graciosos e um livro com fotos de Astrid Kirschner, fotógrafa austríaca que registrou os anos iniciais de John, Paul, George e Ringo juntos. Um achado. O livro traz, na sua maior parte, fotos dos bastidores das gravações de A Hard Day’s Night, em cujo set de filmagem George Harrison conheceu Pattie Boyd – modelo famosa na época e figurante do filme – com quem se casou pouco tempo depois. Pattie tornou-se icônica após ter servido de inspiração para algumas das canções de amor mais belas de todos os tempos: Something, de Harrison; Layla e Wonderful Tonight, de Eric Clapton, com quem também foi casada.
Uma surpresa que não estava no roteiro foi passar, por acaso, pela estação de metrô Mary Le Bone, onde foi gravada a cena inicial do mesmo A Hard Day’s Night, na qual uma multidão de fãs alucinadas corre atrás dos guris de Liverpool!
O ponto alto de nossa “excursão Beatles” ainda estava por vir: Abbey Road. Estávamos muito ansiosos. Em um dia cinzento (como o são, em sua maior parte, os dias em Londres) e muito, muito frio, pegamos o metrô na Trafalgar Square em direção à estação St. John’s Woods, de onde sairíamos, a pé, até a Abbey Road. Não preciso dizer que as crianças amaram andar de metrô, e a diversão começou ali.
Descendo do metrô, meus filhos, provavelmente dois dos beatlemaníacos mais jovens do mundo (!), mal conseguiam segurar a ansiedade. Confesso que meu coração também começou a enlouquecer à medida em que andávamos pelas ruas geladas (havia neve rala depositada nos jardins das casas) e pacatas que estavam nos conduzindo ao tão aguardado destino. Entramos em uma rua da qual não me recordo o nome, e andamos até o final dela. Foi quando demos de cara com a placa: ABBEY ROAD NW8 – City of Westminster. Logo à frente, o famoso cruzamento! Alguns fãs iam e viam, atravessando a movimentada rua diversas vezes, parando e posando para fotos. Os carros, acreditem, paravam, pois, penso eu, quem dirige regularmente por ali deve estar acostumado com o agito constante da região “sagrada”!
Nós, obviamente, também cruzamos a rua várias vezes, para conseguirmos fazer fotos bem legais. Quanta emoção naquele lugar! Fiquei imaginando o exato momento em que nossos ídolos ali pisaram, em algum momento de 1968. A lenda urbana de que Paul McCartney teria morrido em acidente de moto e sido substituído por um sósia foi reforçada nesta capa de Abbey Road, pelo fato de que Paul, por ter aparecido descalço, estaria mesmo morto (mortos eram enterrados descalços). Outras “pistas” da morte de Paul também foram identificadas por fãs “confirmando a tese”, como o fato de Paul estar de olhos fechados e haver um carro fúnebre estacionado na foto da capa do álbum. Loucuras de beatlemaníacos…! Várias outras pistas malucas como essas foram encontradas em capas de outros álbuns e nas letras das músicas. A verdade é que essa mitologia da morte do Paul rendeu muita grana aos Beatles, sem dúvidas, e Paul está vivo até hoje (!), tendo iniciado, pelo que ouvi dizer, sua última turnê mundial em 2010, que terá duração de dois anos. Houve boatos de que viria ao Brasil agora em abril, mas infelizmente foram apenas rumores do cyberspace… Vamos aguardar, quem sabe ele não dá mesmo uma passadinha por aqui?
Pois bem, na Abbey Road, tiramos muitas fotos e assinamos, emocionados, o famoso muro branco da gravadora, diariamente “batizado” por mensagens de fãs de todos os cantos do mundo. Meu filho, que tem Paul como o seu beatle preferido, escreveu “Paul Forever” e “Vito Something”, em referência à canção de mesmo nome, que ele adora, composta por George Harrison. Minha filha desenhou sua inicial, “A”, com um coraçãozinho ao lado, e me pediu para escrever “Dear Prudence”, o título de sua canção favorita, do White Album. Foi o máximo da emoção.
Deixamos a Abbey Road a caros custos: acho que, por nós, ficaríamos ali o dia todo… Na volta, passamos no mini Café temático Abbey Road Café, localizado na entrada da estação St. John’s Woods, com milhões de souvenirs de todos os tipos: chaveiros, canecas, camisetas, posters, CDs, livros, adesivos, bonés, um paraíso para qualquer aficcionado pelos Beatles.
No dia seguinte, ainda tivemos fôlego para visitar a Beatles Store, na Baker Street, que era muito maior e ainda muito mais completa que a do Abbey Road Café. Na Beatles Store, além de tudo que havia na outra, pudemos encontrar também itens de colecionador: réplicas de placas com discos de platina e ouro e dos instrumentos musicais dos rapazes, discos de vinil autografados, bonequinhos de todos os tipos e também alguns souvernirs vendidos na época de maior sucesso da banda, lancheiras, roupinhas antigas, mil coisas muito interessantes e caríssimas! Compramos mais algumas coisinhas legais, dentre elas, um conjunto de bonequinhos deles como apareceram no filme Yellow Submarine, em porcelana, com número de série e tudo. Ainda, meu filho comprou uma réplica do baixo de Paul e de uma guitarra, que não lembro se do John ou do George. Saímos mais do que satisfeitos, não preciso nem dizer.
A Londres dos Beatles mudou-nos para sempre. Foi uma experiência inesquecível, e só há uma palavra que pode descrevê-la: memorável.
Por entre as pedras que desabam morro abaixo, ele caminha. No disparo de uma manada de búfalos, ele se encontra na direção oposta. De encontro à avalanche, passo a passo, de mansinho, ele continua. Sob o sol quente, ele sua. Contra o vento frio, ele aperta a manta e o casaco. Em uma marcha rumo a algum lugar que o espera, o soldado anda desarmado. Sua parada solitária e invisível ganha os aplausos inaudíveis de ninguém. É uma procissão só sua onde não há santos ou salvadores. Abaixo da chuva de granizo, sem proteção ou razão, ele para. Assustado, ele se pergunta: “por quê?”. E as respostas parecem não chegar. Não há nada além dele e as marcas de sapato que sua sombra encobre. Mas, assim como ele, molhados, escoriados, frágeis e insistentes, os porquês começam a surgir. E são tantos, que preenchem de mansinho o vazio ao seu redor. Um a um, vão se empilhando, dando forma a algo que remete uma escada. A fragilidade ganha aspecto sólido e o seu impulso o leva ao primeiro degrau. Equilibrado entre amor e pura teimosia, sentindo a continuidade dos porquês nas solas dos pés, ele segue.
Quando o professor Emmet Brown mostra para o jovem Marty McFly seu DeLorean envenenado ele está fazendo mais do que mostrando a sua máquina do tempo: ele está criando um ícone dos anos 80. Atire a primeira pedra quem nunca quis o DeLorean com as portas que abriam para cima… Pois na primeira cena em que o carro aparece o professor Brown explica para Marty o funcionamento do Capacitor de Fluxo, a peça engenhosa que faz o trabalho todo. E mostra para Marty uma data aleatória qualquer afirmando: “Poderíamos conhecer o futuro!!”. A data? 5 de julho de 2010. É, meus amigos, o futuro chegou. E é por isso que essa semana eu vou fazer a lista dos melhores (sempre na minha opinião, enfim) filmes ou cinesséries sobre viagem no tempo! Afivele seu cinto de segurança, prenda a respiração e vamos lá:
5) O Feitiço do Tempo (GroundhogDay, Harold Ramis, 1993)
Bill Murray e Andie MacDowell estão nessa comédia leve e despretensiosa. E quantas vezes nós não precisamos de um filme despretensioso. Murray é Phil, um repórter televisivo que vai ser responsável pela cobertura do “Dia da Marmota” numa cidadezinha do interior. O que poderia ser pior do que ir cobrir o Dia da Marmota? Ficar preso no dia da marmota! É o que acontece com ele. Phil, de alguma mágica maneira, acaba preso naquele dia e sempre que vai dormir acorda na mesma manhã. O que faz com que ele comece a calcular como agir durante o dia, em especial em relação à Rita, personagem de MacDowell. Ramis, que depois dirigiria “A Mafia no Divã” (Analyze This, 1999) e “A Máfia de Volta ao Divã” (Analyze That, 2002), faz uma direção leve como uma boa comédia (não, não vou por o adjetivo romântica aqui!!!) deve ter. É daqueles imperdíveis na sessão da tarde, ainda mais com esse friozinho.
4) Peggy Sue: Seu Passado A Espera (Peggy Sue Got Married, Francis Ford Coppola, 1986)
Peggy Sue (Kathleen Turner) é uma senhora de meia-idade típica dos EUA. Desistiu de carreira e estudos para ser mãe e dona de casa e é “feliz” assim. É, “feliz”. Pelo menos é o que muita gente pensa. Na verdade passa por um divórcio complicado com Charlie, seu namorado desde os tempos da escola que a trocou por outra, e enfrenta uma depressão bem complicada. Para se animar Peggy Sue, que era cheerleader e a menina mais popular da classe, organiza um reencontro da turma de high school. Para se sentir melhor Peggy usa uma roupa um número menor para parecer mais magrinha e acaba passando mal e desmaiando na festa. Quando acorda, a surpresa: de alguma maneira ela voltou para a sua adolescência e pode recorrigir sua vida, desde as decisões que ela considera erradas. Será mesmo que pode?
3) Te Amarei Para Sempre (The Time Traveler’s Wife, Robert Schwentke, 2009)
Nomes enganam. Eu jamais iria assistir esse filme no cinema não fosse a crítica do Huyer, amigo e ex-aluno (http://fakeline.wordpress.com). O filme é lindo, um dos melhores de 2009. O roteiro, adaptado de um romance por Bruce Joel Rubin, conta a história de Henry (Eric Bana, quando adulto), um homem que tem uma espécie de doença ou condição que faz com que ele dê saltos no tempo de maneira aleatória, incontrolável e inesperada. Ao contrário de outros viajantes do tempo Henry sempre aparece nu e sem qualquer tipo de recurso. Numa dessas viagens ele conhece a menina Claire Abshire (Rachel McAdams), a quem vai reencontrar em diferentes momentos da vida dela, durante suas viagens. O interessante é que quando ela o conhece “em tempo real” ele ainda não a conheceu, porque só viajará para a infância dela depois disso. É possível desenvolver uma relação assim? Sério, veja esse. Um dos melhores de 2009 e com certeza um dos mais lindos.
2) O Exterminador do Futuro e O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (The Terminator e Terminator 2: Judgement Day, James Cameron, 1984 e 1991)
Ele não podia ficar de fora, não é? Apesar do horrível terceiro filme e do médio quarto, os dois primeiros filmes não podiam ficar de fora dessa lista. Acredito que todos conheçam o plot original: num futuro não muito distante (1998 era esse futuro…) as máquinas dominariam o mundo. Um bravo núcleo de resistência humana, liderado por John Connor, resistia bravamente. O que as maquinas fizeram? Enviaram o T-100 (Arnold Scharzenegger), sua máquina de matar mais letal de todas, ao passado para matar a mãe de John, Sarah Connor (Linda Hamilton) . A resistência humana envia um agente, Kyle Reese (Michael Biehn), para proteger Sarah da letal máquina de matar. No segundo filme temos uma Sarah Connor completamente surtada e um John Connor (Edward Furlong) meio marginal que duvida seriamente da mãe, já que ela diz para ele que ele será um messias importante no futuro. Quando o T-100 aparece novamente Sarah pira: é o robô que quase a matou. Mas dessa vez Schwarzza está do lado dela: o inimigo é o T-1000 (Robert Patrick), robô de metal líquido ainda mais mortífero (e terrivelmente chato de matar). O filme é adrenalina do início ao fim e nos intervalos entre as cenas de ação tem tiradas muito legais, com John Connor “humanizando” o T-100, entre outras coisas ensinando para ele os clássicos “Hasta la vista, baby” e “I’ll be back”. A trilha sonora, puxada por “You Could Be Mine”, dos Guns N’ Roses, também é fantástica. O Exterminador do Futuro é um dos raros casos no qual a sequência é melhor que o filme original. E isso que o filme original é bom. Para mim são, juntamente com “O Segredo do Abismo” (The Abyss, 1989) , os melhores filmes de Cameron.
1) De Volta Para o Futuro I, II e III (Back to the Future I, II e III, Robert Zemeckis, 1985, 1989 e 1990)
Sim, eu não podia deixar de fora. A trilogia de Marty McFly, o papel icônico de Michael J. Fox, é o melhor filme já feito sobre viajem no tempo. Com alguma folga, inclusive. O cientista maluco “Doc” Emmet Brown (Christopher Lloyd) contrabandeia plutônio de terroristas líbios e transforma um DeLorean 1985 numa máquina do tempo. Acidentalmente seu amigo, o jovem Marty, vai parar em 1955 onde intromete-se entre… seus pais! Ao mesmo tempo em que tem que preocupar-se em voltar para 1985 Marty tem também que fazer com que seu pai e sua mãe fiquem juntos, já que se não consegui-lo ele próprio vai deixar de existir (a fotografia onde as pessoas vão sumindo é icônica, tanto quanto o DeLorean. No segundo filme Marty vai ao futuro tirar o seu filho de uma encrenca. Estando por lá ele resolve trazer para o passado um almanaque de resultados esportivos, para tirar alguma vantagem… Claro que tudo dá errado e o almanaque vai parar nas mãos de Biff Tanen (Thomas Wilson), “inimigo” da família que usa o almanaque para construir um império financeiro. Nesse filme a missão de Marty é resgatar o famigerado almanaque para fazer com que tudo volte ao normal. O destaque do filme são os múltiplos papeis de J. Fox, que faz Marty, seu filho e também sua própria filha. Já no terceiro filme Marty vai parar no século XIX, em pleno velho oeste e seu grande problema é conseguir energia para fazer o DeLorean voltar a funcionar. Aqui o professor Brown arranja uma namorada e os encontros inusitados são com os tataravós dos McFly, também interpretados por Michael J. Fox, em sua melhor forma. Enfim, os três filmes são imperdíveis. E ainda por cima tem aquele skate voador do segundo filme, que tornou-se um objeto de desejo quase tão venerável quanto o DeLorean…