“Existe o bom.
Existe o correto.
Porém, existe o bom que não é correto
e existe o correto que não é bom.”
Tenho dificuldade em te escutar como antes
– naturalmente
De te ouvir como algo intrínseco a mim
Teu mais diminuto sussurro
E quando te percebo hoje
Estás a gritar
A soltar tua voz tamanha de um só rompante
Te perco de mim
Bom seria te ouvir como antes
Antes de tudo a ti voltar
Calar meus caprichos
Sem qualquer receio do que devia ser
Seguir seus instintos sem muito menos véus
Despir-me do correto
No bom mergulhar
Em silêncio
Para entender o que me dizem as vozes
Aqui de dentro
Tantas a dançar
Repetindo e repetindo
O verão está terminando nos EUA. Com o fim do verão, nós temos também o fim da temporada dos filmes infanto-juvenis e o início da temporada dos filmes que tem alguma pretensão mais séria no Oscar e nas outras premiações do início do ano. Dando uma pesquisada, montei um calendariozinho com algumas das estreias interessantes deste segundo semestre. Ou, pelo menos, aqueles que eu tenho mais vontade (ou curiosidade) de ver:
O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, M. Night Shyamalan)
Estreia prevista: 20 de agosto de 2010
Num mundo fictício onde quatro nações dominam, cada uma delas, um elemento a nação do fogo rompe o equilíbrio e ataca as outras, buscando escravizá-las. Na nação dos andarilhos do ar surge então um “avatar”, alguém que surge com o poder de dominar os quatro elementos. O longa é baseado num mangá de sucesso, chamado “Avatar”, e promete, pelos trailers, estonteantes cenas de ação inclusive em 3D (transformadas depois, não geradas em 3D). Um filme de aventura e fantasia que parece, pelo que se diz, um belo espetáculo visual. O filme, que estreou nos EUA no início de julho está sendo malhado pela crítica: no Imdb tem nota 4.3 e no Rotten Tomatoes apenas 7% de avaliações positivas. Eu que já não sou muito fã do Shyamalan imagino que será uma bomba, mas vou querer ver no cinema. Hoje em dia, depois do horrível “Sinais” (Signs, 2002, uma das minhas maiores decepções cinematográficas), do previsível “A Vila” (The Village, 2004), do pretensioso “A Dama da Água” (The Lady of the Water) e do incompreensível “Fim dos Tempos” (The Happening, 2008) eu estou cada vez mais convencido que o genial “Sexto Sentido” (The Sixth Sense, 1999) é obra muito mais do talento do Haley Joel-Osment e da bela interpretação do Bruce Willis do que do diretor. Ou foi a sorte da vida dele, talvez. Enfim, pretendo ver “O Último Mestre do Ar” sem esperar absolutamente nada do filme. Ou pior: esperando uma bomba. As vezes é a melhor maneira de ir ao cinema…
Tron: Legacy (Joseph Kosinski)
Estreia prevista: 17 de dezembro
Como todo nerd que se preza eu sou fãzoca do original “Tron” (Steven Linsberger), de 1982. O filme é até meio revolucionário ao explorar o conceito de realidade virtual antes da grande popularização dos computadores e todo guri dos anos 80 era alucinado naquelas corridas de moto (que depois deram origem ao famigerado “jogo da cobrinha” nos celulares Nokia). O filme original ainda conta com o hoje oscarizado Jeff Bridges no papel principal. 28 anos depois essa sequência, produzida pelo diretor do original e dirigida pelo desconhecido Joseph Kosinski, tem Bridges novamente no filme e promete cenas de ação de tirar o fôlego. Como a estreia é mundial, ninguém tem falado sobre o filme, que está em pós-produção. Mas a expectativa é grande.
Tropa de Elite 2 (José Padilha)
Estreia prevista: 8 de outubro
Um dos maiores sucessos da recente retomada do cinema nacional tem a sua continuação nesse ano. Wagner Moura volta a viver o Capitão Nascimento, personagem que já faz parte da galeria dos tipos fundamentais da história do cinema brasileiro. Quinze anos depois do primeiro longa Nascimento agora é Secretário de Segurança do Rio de Janeiro e tem que lidar com políticos, intrigas e corrupção. Além disso busca aproximar-se do filho, com quem tem uma relação difícil. A trama do filme desenrola-se a partir do sequestro do filho do eterno capitão pelo crime organizado do Rio de Janeiro. Não sei se essa sequência vai conseguir a mesma repercussão do primeiro filme, que muito se deveu ao ineditismo, mas também pretendo conferir na tela grande.
Wall Street 2: O Dinheiro Nunca Dorme (Wall Street 2: Money Never Sleeps)
Estreia prevista: 24 de setembro
Oliver Stone já declarou em entrevistas que o filme, no qual ele já pensava a algum tempo, começou a deslanchar mesmo depois da grande crise de 2008. Ele traz de volta Gordon Gekko, novamente encarnado por Michael Douglas e um personagem icônico dos anos 80 e da geração yuppie de Wall Street. O filme traz um jovem ator do qual eu gosto muito, Shia LaBeuff, como o jovem corretor que tem que escolher entre as lições de Gekko e o dinheiro fácil ou a relação que tem com a filha de Gekko, a lindinha Carey Mulligan, que odeia o pai e quer o namorado longe dele. Stone é um diretor que gosta desses temas polêmicos e costuma tratá-los com profundidade, então vamos ver o que ele nos apresenta…
You Will Meet a Tall Dark Stranger (Woody Allen)
Estreia prevista: 17 de dezembro
Um filme de Woody Allen que vai estrear no Brasil só dois meses depois do lançamento!! Bom, em se tratando de Woody Allen eu sou completamente suspeito, já que talvez seja o cineasta de quem eu mais gosto (é diferente de achá-lo o melhor, enfim). Mas é fato que no fim dos anos 90 e começo dos 2000 o diretor nova-iorquino andou numa onda meio baixa e muita gente questionou se a fonte havia secado. “Match Point” (2005), talvez seu melhor filme, na opinião dele mesmo, marca o início de uma nova fase, que inclui filmar em novos lugares. “You Will Meet a Tall Dark Stranger” foi rodado em Londres, como “Match Point”, “Scoop” (2006) e “O Sonho de Cassandra” (Cassandra’s Dream, 2007). O elenco conta com Anthony Hopkins, Antonio Banderas e Naomi Watts. O roteiro parece tratar das relações entre dois casais insatisfeitos com suas vidas mundanas e que a partir daí buscam sentido para as suas vidas. Ou seja, é Allen puro, e lembra o recente (e ótimo) “Tudo Pode dar Certo” (Whatever Works, 2009).
O terceiro álbum do Arcade Fire já constava nas listas de lançamentos musicais mais aguardados do ano. Agora que “The Suburbs” chegou às lojas, ele certamente vai fazer parte de outro tipo de lista: as de melhores discos de 2010.
O álbum abre com a faixa-título “The Suburbs”, que mostra uma guinada diferente no caminho do Arcade Fire. A música traz um lado bem alegre da banda em uma melodia bastante assobiável e um refrão cantado em agudos a la David Bowie. No geral, o disco traz faixas mais pop, mas sem deixar de lado o experimentalismo característico do grupo. É só ouvir “Rococo” e a fofa “Wasted Hours” para comprovar que a banda soube balançar bem a sua sonoridade com um lado mais acessível. Em “Modern Man”, por exemplo, o andamento quebrado da canção dá um toque de estranheza a uma melodia que agrada facilmente os ouvidos.
A banda parece ter economizado nas muitas camadas de som pela qual ficou famosa, deixando algumas músicas respirarem um pouco, com mais espaço e menos instrumentos. Mas há também faixas como “Empty Room”, que fazem uma visita ao som mais típico da banda, com violinos hipnóticos e instrumentação densa. A seleção de músicas é ótima, mas creio que o disco ganharia mais se a banda houvesse escolhido apenas umas 12 faixas dentre as 16 que compõem o álbum, ele acabou ficando um pouco extenso demais. Mas nada que atrapalhe a degustação desse delicioso disco.
“The Suburbs” deixa claro mais uma vez por que o Arcade Fire é considerado por muita gente como uma das melhores bandas que surgiram nos últimos tempos: belas melodias, boas ideias musicais e uma vontade imensa de produzir algo novo.
Nasceu sob o signo de Peixes, no Dia Internacional da Mulher. Sem igual era o jeitinho com que dava os parabéns a cada mulher que lhe ligava em seu aniversário. Recebia e oferecia, o que, aliás, sempre fez com perfeição. Era só dela a maneira especial com que celebrava o aniversário, com um imperdível chá da tarde para as amigas e para a família.
Foi das poucas mulheres no mundo que conseguiu fazer com que um homem por ela se apaixonasse à primeira vista. Encantava os filhos e netos contando a história de como tudo se deu, na casa da melhor amiga. O amado a viu descendo a escada e pensou, “Com essa morena, eu me casava hoje”. Precisava mais? Precisava. E teve mais, muito mais. Fizeram filhos, netos e bisnetos. Fizeram festas, e fizeram risos, e reuniões de família, e tiveram sempre a casa lotada de pessoas queridas, de comida, de música, de livros, e de bom vinho: ela amava um bom vinho. Fizeram amores e passaram por dores doídas, mas nada que o nascimento de um neto não curasse. Nenhuma ferida é tão eterna assim.
Até que chegou a hora em que o homem que tanto a amava se foi. Como se foram vários queridos seus. Difíceis tempos. Tempos em que a vida pareceu parar. Mas não parou. A vida é curta, mas muito longa. Tempos superados por mais netos, montes de netos. Por mais encontros, mais carinhos, mais amores, casamentos, formaturas, Natais alegres e divertidas entradas de Ano Novo, verões inesquecíveis com os filhos, jogos de canastra, histórias para dormir sobre bonecas mágicas e casinhas todas cercadas de flores para os netos, tardes recheadas de maragatos e memórias, churrascos memoráveis em família, contos engraçados sobre suas empregadas para os bisnetos.
Um dia, comunicou à família que sua companheira fiel de tardes de sábado e cinema a convidara para desbravar o mundo: iriam para a Europa. Lá sei foi a corajosa pisciana. Conheceu os mais belos lugares, até que em certo ponto da viagem, precisou separar-se da amiga. Decidiu, então, ir sozinha para Paris. Precisava mais? Precisava. Sozinha em Paris, sem ter com quem dividir experiências. Mas ela contou que mesmo assim, foi maravilhoso. Em um dos dias passados na cidade-luz, resolveu desgarrar-se da excursão para apreciar sozinha a Torre Eiffel. E foi um colosso. A imagem mais colossal da imensa torre que alguém pode ter tido na vida. Desceu da emblemática construção de ferro tão maravilhada e envolta em pensamentos de dias passados em família, que perdeu-se no caminho de volta. Chovia muito, e tentou comunicar-se com algumas pessoas, por meio de um francês aprendido no colégio, mas foi em vão. Ninguém lhe deu ouvidos, até que um homem resolveu ajudá-la, quando mostrou-lhe um cartão com o endereço de seu hotel. O sujeito chamou-lhe um táxi, e assim chegou com segurança em seu destino.
Essa foi uma história que ela queria que fosse escrita. Aqui está. E foi a melhor história que ela contou, até dia desses, quando veio, assim, sem aviso algum, e sem a ninguém incomodar, dizer que tinha resolvido viajar de novo. Pegou a família toda de surpresa… Antes de partir, porém, muito sensata, comunicou a todos: “Desta vez, queridos meus, não me perderei. Meu novo destino conta com guias experientes e conhecidos. Gente minha, que há muito não vejo e não sinto. Será inesquecível, tanto quanto foi essa minha jornada de oitenta e sete anos. Gosto muito de vocês”.
Sempre começa pelo sorriso. Quando ouço o nome dela, é aquela gargalhada sonora que eu escuto. Das gavetas da memória, é esta imagem que eu inevitavelmente por primeiro encontro: Um rosto sorridente que distribui – sem que a gente sequer perceba – uma alegria contagiante. Sempre foi assim e agora não será diferente. Uma risada que se faz presente, mesmo que distante, que ecoa até em pensamento. Um bom humor latente que enche de cores as mais diversas e inesquecíveis histórias. Páginas e mais páginas de momentos que ela viveu e passou adiante. Histórias que cada um de nós guarda em uma estante dentro da gente. Todas começam de maneira diferente, mas terminam com um mesmo rompante: Um sorriso. Sonoro, confortável, persistente. Uma risada tão alta e contagiante, que cala qualquer tantinho de tristeza nascente.
Com o inverno vem o frio, a rinite, a lareira e os vinhos. Com o inverno vem os fondues, as mantas, os casacos e as notícias de nevascas de 15 minutos no interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. E com o inverno vem, também, o Festival de Cinema de Gramado, tão tradicional quanto brincar de dragãozinho cedo da manhã no inverno.
O Festival de Gramado talvez seja o mais tradicional do Brasil. Ele surgiu em 1973 e durante a década de 70 foi um dos responsáveis por tornar Gramado, (mais) uma cidadezinha de colonização alemã no interior do Rio Grande do Sul em um polo de atração turística. Celebridades do cinema nacional desfilavam suas mantas, gorros e casacos por lá e algumas delas, nem tão celebridades, desfilavam também sem nem tanta roupa, até para buscar alguma notoriedade. Nos anos 70 e 80 alguns importantes filmes da história do cinema brasileiro foram premiados por lá: Em 73 “Toda Mulher Será Castigada” (Arnaldo Jabor), em 82 “Pra Frente, Brasil” (Roberto Farias), em 85 “A Marvada Carne” (André Klotzel) e em 86 “O Homem da Capa Preta” (Sérgio Rezende). No final dos anos 80 e início da década de 90 o Festival sentiu, como todo o cinema nacional, a forte crise que se abateu sobre o setor com a extinção da Embrafilme. O festival correu sério risco de extinção. A solução encontrada para mantê-lo existindo acabou saindo melhor do que o soneto: transformar o festival em festival internacional. Num primeiro momento, latino-americano. Depois Íbero-americano. E por fim, simplesmente, “latino”, permitindo a presença de filmes em línguas francesa e italiana, além do espanhol e do português. O nível das produções apresentadas elevou-se bastante. Alguns filmes como o mexicano “Como Água Para Chocolate” (Como agua para chocolate, Alfonso Arau, 1992) e a coprodução Cuba/México/Espanha “Morango e Chocolate” (Fresa y Chocolate, Tomáz Alea, 1994) depois de exibidos em Gramado foram exibidos em outros importantes festivais e nomeados para premiações como o Goya, o Bafta e até o Oscar. Marisa Paredes, Javier Barden e Pedro Almodóvar estão entre os nomes que foram premiados em Gramado a partir dessa guinada no festival. O problema passou a ser outro: a diversidade e qualidade dos filmes latinos estava deixando os brasileiros de fora. Em 1994 apenas um Kikito, estatueta representando um fictício deus da alegria, foi parar em mãos de brasileiros. A partir de 1996 a premiação separou filmes brasileiros de filmes estrangeiros, para que a produção brasileira pudesse também ser premiada. De lá para cá o festival, como a cidade de Gramado, profissionalizaram-se. Se lá nos anos 70 tínhamos pessoas vinculadas ao cinema e cinéfilos circulando pela cidade hoje em dia há o negócio das celebridades. Os patrocinadores do evento montam barracas e promoções e excursões escolares sobem a serra gaúcha para ver os filmes e caçar as “celebridades”, que hoje em sua maioria são as estrelas de telenovelas globais. Não por acaso nos últimos festivais as celebridades mais badaladas foram Sandy e Xuxa, que por sinal recebeu em 2009 um prêmio especial pelo conjunto de sua “obra cinematográfica” (sic).
Apesar de ter se tornado um evento para promover principalmente o turismo de inverno e forrar os bolsos do comércio local, que majora absurdamente os preços de qualquer coisa, o Festival de Gramado ainda mantém aquilo que o criou: o cinema. Nos últimos anos bons filmes nacionais e estrangeiros tem feito as suas estreias em Gramado: “A Festa da Menina Morta”, de Matheus Nachtergale, foi exibido no Festival em 2008, assim como o bom “Juventude”, de Domingos de Oliveira. “O Banheiro do Papa” (Enrique Fernández e Cézar Charlone) não foi premiado em 2007, mas César Troncoso recebeu pelo filme o kikito de melhor ator em longa latino. O crescimento de dois segmentos que antes eram ignorados ajudaram o festival a manter o nível: os curta-metragens e os documentários. Em alguns dos últimos anos as mostras de documentários e de curtas chegaram a ofuscar os longas.
A programação completa para o festival, que está acontecendo desde o dia 6 de agosto e vai até o próximo sábado, dia 14 , encontra-se em http://www.festivaldegramado.net/2010/programacao.php. Uma dica, para quem pretende subir a serra: as sessões da manhã são gratuitas e muito, mas muito menos concorridas que as sessões noturnas, apresentando os mesmos filmes. O inconveniente é que pela manhã algumas vezes há excursões escolares no Palácio dos Festivais. Verdade seja dita: nas vezes em que lá estive nas sessões matutinas o comportamento dos estudantes sempre foi bom. Fica difícil opinar e dar dicas sobre os filmes do festival já que um dos critérios para a exibição em Gramado é o ineditismo: o filme tem que estrear em Gramado antes da sua estreia comercial. Mas um dos atrativos desses festivais, pelo menos para mim, é justamente essa: sentar na poltrona do cinema para assistir filmes, curtas e longas, sem ter a menor ideia do que me espera. Também é legal assistir aqueles filmes conceituais e os curta-metragens, que em geral não temos oportunidade de ver na tela grande. Para quem gosta de cinema, Gramado está pronta para recebê-los, com chocolate quente, fondue e café colonial superfaturado e bom cinema. Cinema ruim também, mas faz parte.
Um dos mais talentosos e polêmicos ícones da música francesa ganhou uma merecida e caprichada cinebiografia. Sob a direção do estreante Joann Sfar, a vida de Serge Gainsbourg tornou-se um conto com toques surrealistas que certamente agradaria o compositor.
Joann Sfar é um artista gráfico e resolveu contar a história do cantor criando tanto um livro ilustrado quanto um filme, ambos intitulados “Gainsbourg – Vie héroïque”. Sua visão de criador de histórias em quadrinhos certamente teve uma forte influência na maneira de retratar a vida do compositor nas telas. Além de criar uma bela animação para a sequência de abertura, o diretor deu vida a personagens fantásticos que servem como alteregos de Gainsbourg e dão um toque de conto de fadas ao filme.
Inicialmente, o projeto foi criado com a ideia de que a filha do cantor, a atriz Charlotte Gainsbourg , interpretasse seu pai. A atriz topou e participou de seis meses de ensaios até desistir do papel por considerar muito emocionalmente doloroso. Sfar chegou a pensar em desistir do filme, mas mudou de ideia quando conheceu o ator Eric Elmosnino. Além de ser muito parecido fisicamente com Gainsbourg, o ator soube pegar muito bem os trejeitos do cantor.
As boas interpretações se estendem a todo elenco, incluindo algumas das vááárias belas mulheres de Gainsbourg: a modelo Laetitia Casta está perfeita como Brigitte Bardot e a atriz Lucy Gordon não deixa por menos como Jane Birkin, seu último papel no cinema. Lucy cometeu suicídio logo após as filmagens, entristecendo os amigos e rendendo mídia para o filme. Outro grande destaque é o ator Doug Jones, que ficou famoso por seu trabalho de expressão corporal interpretando criaturas como o Fauno (do “Labirinto do Fauno”), o Surfista Prateado (do “Quarteto Fantástico 2”) e Abe Sapien, o homem-peixe do “Hellboy”. No filme, Doug assume o papel de um dos alteregos de Gainsbourg, chamado de “La Gueule”, algo como “O Nariga”. La Gueule é um lado boêmio e pândego do cantor, que insiste em levá-lo ao caminho da fama e fortuna.
Sobre o projeto, Joann Sfar escreve em seu livro: “Não quis fazer um filme sobre a carreira de um cantor; mas sobre um poeta que decidiu conquistar a França ao apropriar-se da língua francesa. Não trata-se de uma biografia, mas de um relato épico.”
Para quem admira sua música ou quer conhecer um pouco de sua vida, “Gainsbourg – Vie héroïque” é um filme de primeira. Ou, em bom francês: afoudet!
O Uruguai é um país pequeno e pobre. Tem uma área de 176 mil quilômetros quadrados, uma população total de cerca de 3 milhões e meio de pessoas e um PIB de 37 bilhões de dólares. Para efeito de comparação: O Rio Grande do Sul tem uma área de 281 mil quilômetros quadrados, uma população de 11 milhões de pessoas e um PIB de pouco mais de 100 bilhões de dólares. Ou seja: o Uruguai é menor, menos populoso e mais pobre que o Rio Grande do Sul. Se o Uruguai fosse um estado brasileiro, seria o oitavo ou nono mais rico, disputando posição com Pernambuco e Goiás. Quando pensamos no Uruguai, em geral pensamos nos free shops da fronteira, nos alfajores, nos kit-kats, nos vinhos mais baratos, na Conaprole. Ou então no glamour de Punta del Este no verão, no Conrad, na Casa Pueblo e na foto nos dedinhos saindo da areia. Mas dificilmente associamos o Uruguai ao cinema. Bom, deveríamos.
Os uruguaios têm experimentado, nessa primeira década do século XXI, um crescimento muito grande na produção cinematográfica. Esse crescimento é quantitativo e qualitativo. E é também espantoso.O novo cinema uruguaio não dispõe de grandes prêmios ou leis de incentivo à cultura. É um cinema, portanto, de autor. Um cinema que se foca nos diálogos e no desenvolvimento dos personagens. Não espere “Avatar”. Não espere “Harry Potter”. Não haverá grandes efeitos especiais. Também não espere “Se Eu Fosse Você” (Daniel Filho, 2006) ou “A Mulher Invisível” (Cláudio Torres, 2009), as produções brasileiras que tem tentado seguir a estética e o modelo das comédias românticas (argh!) de Hollywood. Os uruguaios não têm dinheiro nem estrutura para fazer isso. Suspeito eu que também não tem vontade…
O objetivo hoje é dar umas boas dicas de cinema uruguaio. O que tem de bom para assistir feito recentemente na terra de Jorge Drexler e Eduardo Galeano.
O filme que deu início a essa nova estética uruguaia de cinema foi “25 Watts”, de 2001. Os roteiristas e diretores Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, ambos com 26 anos, encantaram as plateias de diversos festivais. Ganharam prêmios em Gramado, Bogotá, Buenos Aires, Valência, Havana, Lima e uma série de outros importantes festivais. O filme, numa primeira descrição, é simples demais: retrata 24h na vida de três adolescentes num subúrbio de Montevidéu. Não é um filme adolescente, por mais que pareça. E dizer mais que isso sobre o filme pode estragar a experiência de quem for assisti-lo. A fotografia em preto e branco ajuda a tornar um pouco mais crua a realidade de um Uruguai que não encontramos nos calçadões da Gorlero, em Punta. É um Uruguai de verdade. E é um daqueles filmes sensíveis ao ponto de, falando da própria aldeia, falar do mundo todo. O subúrbio é de Montevidéu, mas poderia ser de Porto Alegre, São Paulo ou Paris.
“Coração de Fogo” (Corazón de Fuego) foi lançado em 2002. Dirigido por Diego Arsuaga, que é também um dos roteiristas, o filme retrata o interior do Uruguai a partir de uma trama simples, novamente: dois velhos trabalhadores das linhas férreas uruguaias, um garoto e um professor decidem “salvar” um último trem uruguaio, que havia sido vendido para servir de cenário a uma produção hollywoodiana. Com o trem funcionando decidem fugir para o Brasil e contam com a ajuda de muita gente pelo caminho. Há todo um simbolismo no filme sobre não se render e não se vender, que vale como metáfora para o próprio cinema uruguaio. O filme também foi bastante premiado nos principais festivais, como Gramado, Lima, Valladolid e Montreal. Além disso ganhou o Goya de melhor filme estrangeiro, uma espécie de Oscar espanhol. As atuações dos protagonistas, Héctor Alterio, Federico Luppi e José Soriano também foram bastante (e merecidamente) premiadas.
O mais premiado dos novos longas uruguaios é um dos quais não posso falar muita coisa, porque ainda não assisti. Horrível, eu sei. Mas não poderia deixar de indicar “Whisky” (2004), a feliz continuação da parceria de Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella. Não só continuação como fim da parceria, já que Rebella suicidou-se tragicamente em 2006. “Whisky” ganhou o Goya, o prêmio de roteiro original em Cannes e os Kikitos de melhor filme latino, melhor filme latino na escolha da audiência e melhor atriz para Mirella Pascual, que também foi premiada pelo filme em Buenos Aires, Lima, Tokyo e Guadalajara, entre outros.
“O Banheiro do Papa” (El Baño del Papa, 2007) é uma co-produção Uruguai-Brasil, com direção e roteiros do uruguaio Enrique Fernández e do brasileiro (nascido no Uruguai) César Charlone, conhecido no Brasil como diretor de fotografia de “O Homem da Capa Preta” (Sérgio Rezende, 1986), “Todos os Corações do Mundo” (Murilo Salles, 1995), “Cidade de Deus” (Fernando Meirelles, 2002) e, mais recentemente, de “Ensaio Sobre a Cegueira” (Blindness, Fernando Meirelles, 2008). Uma das coisas que mais se destaca no filme é a maravilhosa e naturalista atuação de César Troncoso como Beto, um homem pobre e simples que ganha a vida como contrabandista em Melo, no Uruguai, trazendo gás e outras coisas de Aceguá, no Brasil. Beto trabalha duro para contentar a esposa, dona de casa, e a filha, uma adolescente que sonha em sair daquele fim de mundo para estudar jornalismo e “ser alguém na vida”. A cidadezinha toda toma-se de expectativa quando anuncia-se, em 2002, a vinda do Papa João Paulo II a Melo. Todos na cidade pensam em faturar com a vinda de dezenas, centenas de milhares de pessoas para ver o Santo Padre. Enquanto a maioria das pessoas investe no mais simples, comida, Beto resolve construir um banheiro. Afinal de contas, se toda aquela gente comer, a comida vai ter que ir para algum lugar depois… Beto investe todas as economias da família, que eram destinadas aos estudos da filha, na construção do tal banheiro. E na medida em que se aproxima a vinda do Papa, aumenta também a expectativa das pessoas simples de Melo quanto à vinda dos turistas. Além da atuação de Troncoso o filme vale, de novo, por mostrar um Uruguai diferente daquele que estamos acostumados a ver. O Uruguai do interior, dos uruguaios de verdade. Uma gente muitas vezes sem esperança e sem perspectivas. Mas que teima em continuar. A fotografia de Charlone, como de costume, está linda e é mais um dos atrativos do filme. “O Banheiro do Papa” não foi nem de perto tão premiado internacionalmente quanto “Whisky”, mas teve uma repercussão muito grande aqui no Brasil. Ganhou prêmios em Gramado (Roteiro, Ator [César Trancoso], Atriz [Virgínia Mendez] e melhor filme, tanto da crítica quanto do público) e no Grande Prêmio de Cinema Brasileiro (Filme, Roteiro, Fotografia e Ator[César Troncoso]), o nosso Oscar. E aqui em Porto Alegre, em especial, ficou várias semanas em cartaz.
Por fim, para fechar a lista (sempre com cinco filmes), indico “Gigante” (Adrián Biniez, 2009). “Gigante” conta a história de Jara (Horácio Camandulle), corpulento segurança de um supermercado apaixonado por Júlia (Leonor Svarcas), faxineira do mesmo supermercado. Jara acompanha Júlia pelas câmeras de segurança do supermercado, sem que ela saiba que ele exista. O filme é quase um documentário, acompanhando o dia a dia de Jara, sua convivência com a família, com os colegas de trabalho e seu bico como segurança de boate. É mais um filme intimista e naturalista, é mais um filme que foi muito bem recebido na Europa: muitos prêmios em Berlim, incluindo o de melhor filme de estreia para Horácio Camandulle.
Enfim, o Uruguai tem muito mais a oferecer do que doce de leite, assado de tira, alfajor, Eduardo Galeano ou Jorge Drexler. A explicação para como os uruguaios conseguem, em condições tão adversas, manter uma produção de tanta qualidade pode estar na teimosia, na irredutibilidade dos uruguaios. Vimos isso recentemente na Copa do Mundo, onde uma desacreditada seleção uruguaia avançou, aos trancos e barrancos, até as semifinais desbancando favoritos como a França e peitando a vice-campeã Holanda nas semifinais. O Uruguai é Luisito Suarez tirando aquela bola com a mão no fim do jogo. O Uruguai é Sebastián Abreu batendo pênalti com cavadinha nas quartas de final da Copa do Mundo. O Uruguai é Forlán, melhor jogador da Copa, colocando na trave uma bola aos 46 minutos do segundo tempo contra a Holanda. “Nunca duvide de um uruguaio”, disse o jornalista Ariel Rodriguez. E não duvidemos. Lembremos, inclusive, que eles já tem um Oscar: o de melhor canção por “El Otro Lado del Rio”, de Jorge Drexler, do filme “Diários de Motocicleta”. Tentaram proibi-lo de cantar. Mas ele, uruguaio, venceu a proibição. Confere aí: