Clarice Dall’Agnol

Literatura

João Paulo

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imagem: Anelise Schutz

por Clarice Casado

– O João Paulo morreu…!

Foi a frase que ouvi ao entrar no shopping. Uma senhora transtornada falava ao celular, rodeada por duas ou três mulheres que a olhavam com olhares de pena. Uma delas tomou da mão da senhora o telefone, e passou a conversar com a criatura do outro lado da linha, explicando que a dita senhora estava no shopping tal, no lugar tal; provavelmente o sujeito do outro lado da linha iria buscar a senhora. A senhora dizia que não ia esperar, que queria ir embora, enquanto a moça dizia, não, não, a senhora não pode dirigir neste estado. Não sei se se conheciam. A mim pareceu que a moça era apenas uma boa alma que estava ali no momento em que a senhora recebeu a notícia da morte do João Paulo, pelo celular.

Não foram nem dois minutos que passei assistindo a essa triste cena. Eu estava saindo do estacionamento e entrando no shopping, sentei em um banco para guardar quatrocentas coisas em minha bolsa gigante (eu sempre saio do carro com milhões de coisas na mão, tudo caindo pelo chão), quando ouvi, no banco ao lado, o lamento perturbador da senhora.

Ela poderia ser minha mãe. Sim, deveria ter uns setenta anos. O João Paulo poderia ser seu marido, filho, neto, irmão, um primo ou um amigo querido, talvez. Não era pai e nem avô, porque ninguém chama o pai ou o avô pelo primeiro nome.

É incrível o que um acontecimento que se presenciou por dois minutos pode fazer com uma pessoa. Principalmente uma pessoa como eu, que absorve os sofrimentos alheios como se fosse uma esponja gigante, de franjinha loira e óculos com armação rosa bebê.

Os verdadeiros problemas da vida da gente geralmente surgem em uma terça-feira qualquer, quando você menos espera; assim, não se preocupe à toa. Essa frase não é minha. É de um discurso de um orador de Harvard que eu costumava levar para os meus alunos em minhas aulas de inglês. É uma espécie de alerta para que o sujeito não se preocupe todo santo dia com bobagenzinhas, ou não sofra por antecipação, como eu costumo fazer, porque os problemas de verdade, na vida, são aqueles que te sacodem completamente em um dia comum: aqueles que te tiram do prumo, que balançam todas as suas estruturas sem dó nem piedade. Esses, de regra, são os problemas que você não pode prever os mais difíceis de serem solucionados.

Eu passei o dia todo pensando naquela senhora, em seu João Paulo, e no triste desfecho da história. Na coitada da senhora, que estava calmamente passeando no shopping, quando o destino veio impiedoso, lhe dar notícia ruim pelo celular. Malditos celulares. Antigamente, ela poderia ao menos ter terminado o passeio antes de saber da morte do João Paulo.

Os meus pensamentos, é óbvio, se centraram em algo tão, tão lugar-comum, mas tão verdadeiro: você sai no início do dia e aquele seu dia comum pode terminar sendo totalmente incomum. Aquele pode ser apenas mais um dia normal, ou pode ser um dia que vai mudar a sua vida para sempre. Simples assim. A rotina pode matar alguém de tédio, mas a falta dela pode levar o sujeito à loucura.

Não sei quem era o João Paulo e nem o motivo de sua morte. Não sei se ele estava doente e a senhora já esperava a qualquer dia por aquela notícia, mas a verdade é que notícia de morte de alguém querido é sempre inesperada e horrorosa, não importando se já fosse esperada, ou se foi absolutamente de repente.

O fato é aquela senhora perdeu João Paulo em uma tarde qualquer de quarta-feira, e ela nunca esquecerá que no dia em que ele morreu, ela estava naquele shopping, comprando sei lá o que, ou apenas passeando, e ela para sempre vai lembrar disso quando colocar os pés de novo naquele lugar. Vai lembrar da moça que a ajudou, mas certamente não lembrará de seu rosto e nem de sua voz. Porque em sua memória daquele dia, o que ficará, para sempre, será apenas João Paulo.

Cinema

Renda-se você também

leonard-dicaprio-renda-se

por Pedro Cunha

Eu demorei, confesso. Mas não dá para resistir. Me rendi. Um ator que é indicado ao Oscar pela primeira vez aos 19 anos e depois disso mais duas vezes antes dos 40 não pode ser um qualquer. Não que a premiação da Academia seja um exemplo de justiça ao talento, mas ela não deixa de ser uma referência. Se esse não for motivo suficiente, vou elencar cinco motivos pelos quais você também já deveria ter se rendido a ele. A ele quem, você pergunta? Ora, quem mais seria? Um dos melhores (se não o melhor) atores em atividade em Hollywood, Leonardo DiCaprio, o Marlon Brando da nossa geração, como bem definiu uma amiga minha numa outra noite.

1) Ele é um ator versátil. Ah, sim, ele é. Todo mundo, num primeiro momento, lembra dele como o galã de “Titanic” (Titanic, James Cameron, 1997) ou como o ícone teen de “Diário de um Adolescente” (The Basketball Diaries, Scott Kalvert, 1995). E ele de fato poderia ter sido só isso. Mas di Caprio sempre gostou de tentar coisas diferentes. Entre o seu grandiloquente Howard Huges em “O Aviador” (The Aviator, Martin Scorsese, 2004), o seu galante Romeu em Romeu + Julieta (Romeo + Juliet, Baz Luhrmann) e o seu divertidíssimo Frank Abagnale Jr. em “Prenda-me Se For Capaz” (Catch me If You Can, Steven Spielberg, 2002) temos diferenças oceânicas. Todos os personagens de DiCaprio são ricos, cheios de trejeitos, de maneiras diferentes de falar, de cacoetes e de manias. E nunca são os mesmos! Impossível confundir um com o outro…

2) Ele sabe interpretar. DiCaprio não é um rostinho bonito que só aparece e pronto. Depois do sucesso estrondoso na segunda metade dos anos 90 ele podia escolher ser apenas isso (Alguém pensou Tom Cruise? Alguém pensou Tom Cruise??). Mas ele nunca se acomodou. As suas atuações hoje são substancialmente melhores do que as de dez anos atrás, dando a impressão que DiCaprio é um ator que estuda. Tem realmente alguma dúvida quanto ao talento do rapaz? Corre lá no vídeoclube e retira “Foi Apenas Um Sonho” (Revolutionary Road, Sam Mendes, 2008). Aliás aproveita, esse é um dos melhores filmes de 2008 e Kate Winslet foi indicada ao Oscar por ele. E injustiçada, já que perdeu (oquei, ela perdeu para ela mesma em “O Leitor” (The Reader, 2008), mas esse é bem melhor…).

“Foi Apenas um Sonho”, DiCaprio sensacional e Kate Winslet, também maravilhosa

3) Todos os diretores que trabalham com ele viram fãs. E não estamos falando de quaisquer uns: Ele agrada aos diretores de blockbuster como Steven Spielberg (Prenda-me Se For Capaz) e James Cameron (Titanic). Ele agrada aos mais alternativos como Danny Boyle (The Beach, 2000), Sam Mendes (Foi Apenas Um Sonho), e Christopher Nolan (Inception, 2010). Até com o Woody Allen ele já trabalhou (Celebrity, 1998). Foi logo após a explosão de “Titanic” e o nosso nova-iorquino preferido encheu DiCaprio de elogios, mesmo ele tendo feito um papel secundário nesse filme, que é um dos (nem tantos) bons filmes de Allen dos anos 90.

Cenas com DiCaprio em “Celebridades”.

4) Ele procura projetos diferentes. Quando se chega num certo nível fama/grana/poder em Hollywood o ator pode fazer o que ele quiser. É muito confortável apostar em blockbusters e rechear a conta de milhões de dólares. Julia Roberts, Tom Hanks e tantos outros que o digam. Mas DiCaprio vai atrás de projetos diferentes. Procura os diretores com quem sempre quis trabalhar e se interessa por ideias que não são, muitas vezes, grana certa. É uma das coisas que acabam fazendo com que ele seja um ator interessante. Prova disso é logo depois de “Titanic” DiCaprio ter se engajado em projetos como “Celebridades” e “A Praia”, que de certa forma ajudaram a começar a desconstrução da imagem que o longa de Cameron havia grudado nele.

“Diamantes de Sangue” (Blood Diamond, Edward Zwick, 2006)

5) Ele caminha para tornar-se um “realizador”. Oquei, pode rir. Mas eu queria ver se, 30 anos atrás, alguém dissesse que Clint Eastwood seria mais reconhecido como diretor e produtor do que como ator. Essa ideia do ator que produz, dirige e participa de todo o processo de criação é um conceito que Hollywood gosta muito. Além de Eastwood, atualmente Sean Penn se encaixa também na descrição. DiCaprio é relativamente jovem, ainda não tem 40 anos, mas desde 2004 trabalha como produtor executivo, cargo que exerceu em “O Aviador”, dando uma mão para o Scorsese (oquei, e aprendendo com ele, também). E desde 2007 DiCaprio é também roteirista: é um dos três autores do roteiro de “The 11h Hour” (2007, Conners), um documentário sobre ecologia e um alerta sobre a degradação ambiental do planeta.

Trailer de “The 11th Hour”, documentário do qual DiCaprio é roteirista e narrador.

E se não bastasse tudo isso ainda é, segundo todo mundo que convive com ele, um cara muito boa gente. E se não fosse suficiente… bom, ele pegava a Gisele Bündchen! Dê uma repassada na filmografia do moço, que trabalha para burro (12 filmes nos últimos 10 anos), escolha desde “Gilbert Grape, Aprendiz de Sonhador” (What’s Eating Gilbert Grape, Lasse Hallströn, 1993) até “A Origem” (Inception, Chris Nolan, 2010) e tenha a certeza de um bom filme e de um ótimo trabalho de ator.

Literatura

Nossos anos incríveis

nossosanosincriveis
imagem: Anelise Schutz

por Marcella Marx

Os piões giram enquanto os meninos observam,
um a um vão parando até que todos cessam e a brincadeira recomeça.
Os meninos apostam.
Rolam bolas de gude em meio ao embalo de polegares astutos.
Os meninos riem.
Pipas levantam voo num emaranhado de prédios e carros.
Os meninos miram desejando também um dia voar.
Correm passando a bola um para o outro
e driblam até o gol.
Um menino ataca com sua peça, o outro recua,
os meninos observam o tabuleiro.
Embarcam juntos numa mesma viagem,
lá discutem e esboçam o futuro.
Os meninos se entendem.
Um dia, os meninos partem, cada qual numa direção,
encontram-se sempre porém, naquele lugar de onde partiram.

Cinema

Uma Noite em 67 (Renato Terra e Ricardo Calil, 2010)

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por Pedro Cunha

21 de outubro de 1967. No Teatro Paramount, no Rio de Janeiro, era disputada a final do III Festival da Música Popular Brasileira. Os festivais agitavam um cenário marcado, por um lado, pela grande novidade que era a televisão e, por outro, a explosão de uma nova geração da MPB que buscava o seu espaço com o ímpeto e a energia dos vinte e poucos anos e de quem tem muita coisa para provar e para dizer. Essa é a atmosfera que Renato Terra e Ricardo Calil quiseram recriar em “Uma Noite em 67”, documentário que está em cartaz em alguns poucos cinemas pelo Brasil.

O gênero documentário é o que mais conseguiu crescer e se firmar depois da chamada “retomada” do cinema brasileiro, em meados dos anos 90. Injustamente, porém, é um gênero que ainda não consegue firmar-se nas salas comerciais. Talvez pela falta de ousadia das próprias produtoras, que não fazem campanhas de marketing ou lançamentos mais agressivos como, por vezes, fazem de insossos longas de ficção nacional de qualidade duvidosa. “Doutores da Alegria”, de Mara Mourão, e “Do Luto à Luta”, de Evaldo Mocarzel, ambos de 2005, são exemplos de ótimos documentários que passaram praticamente batidos pelas salas de cinema.

Calil e Terra, em “Uma Noite em 67”, tem um trunfo muito grande: um enorme acervo de imagens originais da TV Record sobre o festival. Não só as apresentações dos artistas mas também muitas horas de entrevistas nos bastidores. Difícil errar o filme com todo essa material à disposição. E Calil e Terra, como era de se esperar, acertaram. Poderiam, porém, ter acertado mais.

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Ao lado dos argentinos Beat Boys, Caetano fez uma plateia inicialmente hostil ovacioná-los

Vamos primeiro falar dos acertos do filme. Os diretores acertaram ao confiar nas imagens originais. As apresentações, na íntegra, de performances de Roberto Carlos (Maria, Carnaval e Cinzas), Caetano Veloso (Alegria, Alegria), Chico Buarque e MPB-4(Roda Viva), Gilberto Gil e Os Mutantes (Domingo no Parque) e Edu Lobo (Ponteio) são emocionantes por si só. Ver esses cantores quando ainda eram jovens e inseguros é um dos pontos altos do filme. É estranho hoje pensar em Caetano ou Roberto sendo vaiados num palco, mas isso aconteceu em 67, no início de suas apresentações. Ver no rosto dos cantores o medo e a insegurança de quando eles ainda não eram “Caetano” e “Roberto” é muito legal. Da mesma foram ouvir suas entrevistas explicando suas músicas cheios de expectativas e dúvidas, também é interessante. Tão diferente de hoje em dia, quando qualquer coisa lançada por Chico, Caetano ou Roberto já tem público e já é sucesso de vendas (e no caso de Chico e Caetano, de crítica também). Nesse ponto outra grande sacada dos diretores: alternar os depoimentos e entrevistas dos artistas em 67 com seus depoimentos atuais. O ponto de vista dos próprios artistas sobre suas canções e sua participação no festival também mudou bastante, 40 anos depois.

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O Rei Roberto: sua mãe já era apaixonada por ele…

Os depoimentos dos envolvidos na organização do festival também ajudam a entender melhor o que o festival era, naquele tempo: um festival, um programa de TV. Os diretores, ao comporem o seu filme, tem uma intenção clara de desmistificar a tal “Era dos Festivais”. Evitam uma armadilha fácil: cair naquela nostalgia falsa e barata do “ahh, naquele tempo…”. Nesse sentido quem ajuda são os próprios depoimentos: Caetano, Chico, Gil, Roberto e Edu Lobo não parecem sentir nenhuma saudade de 67. Cresceram, de lá para cá. Amadureceram, fizeram outras canções e tocaram suas vidas. Não vivem eternamente no sonho de juventude daquele festival, quarenta anos atrás. Caetano, em algum momento, deixa escapar até um desejo de fugir de “Alegria, Alegria”, canção que segundo ele hoje em dia o incomoda um pouco. Essa impressão mais madura sobre o festival também evita vê-lo como um momento de manifestação política antiditadura, como é comum fazer com todos os festivais e com todas as manifestações culturais do final da década de 60. Nenhum dos artistas sequer fala nesse assunto, tanto nas imagens originais quanto nas entrevistas atuais. Se algumas daquelas canções, como Roda Viva, podem ser interpretadas com um profundo sentido político, talvez não tenha sido assim que foram concebidas. Talvez fossem, simplesmente, canções. Essa reflexão sobre o sentido (ou a falta de) dos festivais é a grande reflexão do filme.

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Gil, com Os Mutantes, conta a história do “Domingo no Parque”

Por outro lado o filme deixa a desejar justamente no aspecto mais documental. Foram 12 as canções finalistas do Festival, por exemplo, e o filme nem ao menos cita outras canções que não as cinco primeiras colocadas e “Beto Bom de Bola”, de Sérgio Ricardo. Elis Regina e outros artistas também cantaram naquela noite, o que o filme solenemente ignora. O próprio episódio de Sérgio Ricardo, que parou de cantar em meio a vaias, bateu boca com a plateia e lançou o violão no público fica mal entendido no filme. Não há uma explicação, que poderia ajudar, sobre o crescente daquela briga dele com o público que vinha desde as eliminatórias. Também falta uma explicação sobre o próprio comportamento da plateia durante não só aquele, mas todos os festivais, com suas vaias e aplausos. Há alguma coisa sobre a maneira como Caetano encarou as vaias para “Alegria, Alegria” e sobre toda a polêmica que existia na época a respeito de eletrificar ou não a música brasileira com as guitarras. Nesse sentido o filme poderia ser um pouco mais documentário, um pouco mais didático. Outra falta que senti no filme foi o de depoimentos de participantes que fossem coadjuvantes, como o maestro, algum câmera, algum dos músicos, o operador de vídeo. Esses depoimentos poderiam enriquecer o filme ao contrastar com os dos hoje medalhões da MPB.

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Sérgio Ricardo destrói o violão antes de atirá-lo ao público, com quem bateu boca por causa de “Beto Bom de Bola”

“Uma Noite em 67” é um filme que emociona. As performances (em especial, para mim, as de “Roda Viva”, “Domingo no Parque” e “Alegria, Alegria”) são arrepiantes e os diretores acertaram em cheio em colocá-las na íntegra, sem cortes ou interrupções. Os 85 minutos do filme passam sem que a gente perceba e são bem conduzidos pelos diretores. Um dos pecados comuns nos documentários é na hora da montagem, quando não raro temos a transformação do filme numa colcha de retalhos, o que não acontece aqui. Um filme que emociona, repito, e que definitivamente vale a pena ser visto por aqueles que gostam de música.

PS: Sei que existem (muitos) vídeos das apresentações desse festival no YouTube. Optei, deliberadamente, por não linká-los aqui. Quem for ver o filme merece ter a experiência completa, sem tira-gosto, na minha opinião…

Cinema

Wall Street: Poder e Cobiça (Wall Street, Oliver Stone, 1987)

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por Pedro Cunha

Em tempos de remakes e continuações pré-programadas, Oliver Stone vem, em pleno 2010, nos oferecer uma continuação para um filme de 1987. Enquanto “Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” (Wall Street: The Money Never Sleeps, 2010) não fica pronto, eu resolvi rever o primeiro filme. É engraçado rever um filme de 1987, mas ele é muito, muito Oliver Stone.

Oliver Stone é um cidadão engajado e um diretor marcado por temas políticos. Seu primeiro filme engajado a ganhar notoriedade foi “Salvador: O Martírio de Um Povo” (Salvador, 1986), onde ele critica a intervenção norte-americana em El Salvador. A história, baseada claramente em fatos reais e em personagens reais, é chocante e tristemente atual. Logo em seguida Stone fez um dos melhores filmes sobre a Guerra do Vietnã já filmados: com “Platoon” (1986) ele ganhou os Oscars de filme e diretor, além do respeito da Academia e dos grandes estúdios. Foi com essa moral que ele pode enfim roteirizar e dirigir “Wall Street” em 1987.

O fim dos anos 80 era marcado pelo apogeu do estilo “yuppie”. A expressão surgiu do inglês como um acrônimo para “Young Urban Professional” ou “young upwardly-mobile Professional”, para designar os jovens americanos de vinte e poucos anos que ascendiam economicamente muito rápido devido à especulação financeira em Wall Street. A quebra da bolsa e a crise de 1987 fizeram com que Stone se interessasse pelo tema e resolvesse fazer o filme.

No filme Charlie Sheen faz o papel de Bud Fox, o jovem impetuoso que está disposto a tudo para subir na vida. Dizem que Tom Cruise foi cotado para o papel, mas acredito que o agora eterno Charlie Harper tenha sido a melhor opção além de ter interpretado o papel muito bem ainda tinha que contracenar com seu pai, Martin Sheen, no papel do sindicalista Karl Fox, pai de Bud. O jovem ambicioso ser o filho do velho sindicalista foi uma sacada legal de Stone, assim como o óbvio apelo ao escolher o nome para o sindicalista. Bud Fox está disposto a vender a mãe (ou o pai, enfim) para conseguir a admiração de Gordon Gekko, o megainvestidor que ele quer que o adote como aprendiz. Gekko é um dos grandes papeis da vida de Michael Douglas. Gekko é o arquetípico investidor dos anos 80, disposto a cortar gargantas e subir em cima de tudo e todos para conseguir o que quer. Todo o filme gira em torno da disputa moral entre Gordon Gekko e Carl Fox, que fazem os arquétipos opostos: Gekko é a ganância do capital enquando Carl representa o proletariado e a consciência do coletivo. É interessante ver como o debate entre as forças do capital e as forças do trabalho, entre a ética e o sucesso a qualquer preço continuam atuais. Talvez até por isso Stone, após a crise de 2008, tenha decidido resgatar Gekko e fazer essa continuação.

O elenco principal é fantástico. E o incrível é que os estúdios queriam Warrem Beatty e Tom Cruise nos papeis principais. Michael Douglas foi uma terceira escolha, depois das recusas de Beatty e de Richard Gere, o preferido de Stone para o papel. Hoje em dia é complicado tentar pensar em Gordon Gekko com outro rosto que não o de Michael Douglas. Sheen tem em Bud Fox talvez seu melhor papel no cinema (oquei, com exceção de Topper Harley em “Top Gang”…). Pena que seu personagem, pelo jeito, não está no novo filme. O papel que ele fez deve ficar, pelo que entendi no trailler, com o personagem do Shia LaBeouff, de quem eu gosto bastante também. Só quem destoa no elenco é Daryl Hannah, que parece que não tinha a menor vontade de estar ali. Ou então não entendeu a sua personagem, talvez.

No fim das contas “Wall Street” é um filme que envelheceu bem. Vinte e três anos depois muitas das perguntas que foram feitas durante o filme poderiam ser repetidas quase sem alteração de contexto. Gordon Gekko poderia ser Carlos Slim, Eike Batista, Donald Trump ou Roberto Justus, que se transformam em estrelas num mundo que cada vez mais concorda com o bordão eternizado por Gekko: “Greed is good!”. Pensando bem, dá para entender facilmente porque Oliver Stone decidiu fazer a continuação do filme…

Cinema

A Origem (Inception, Christopher Nolan, 2010)

por Pedro Cunha

“Se um tanto de sonho é perigoso, não é menos sonho que há de curá-lo, e sim mais sonho, todo o sonho. É preciso conhecer totalmente os nossos sonhos, para não sofrermos mais com eles”

Marcel Proust em “Em Busca do Tempo Perdido”

 

É a primeira vez que eu começo um texto sobre um filme com uma epígrafe. Mas não tenha dúvidas, o filme merece. E merece também todo o confete que tem sido despejado sobre ele. Na verdade se Nolan exigisse traje de gala para cada um que fosse ao cinema ver o seu filme eu não acharia, depois de vê-lo, que ele estaria exagerando. O filme vale. Mas disso todo mundo suspeitava, vindo de quem veio.

Chris Nolan é um dos meninos de ouro da Hollywood de hoje. Ele apareceu para o mainstream com um filme no mínimo diferente: “Amnésia” (Memento, 2000). O próprio Nolan escreveu o roteiro, adaptado de um conto de seu irmão, Jonathan. O filme é um thriller de suspense onde o personagem de Guy Pearce é atormentado por uma doença rara que afeta a memória recente. Nolan caprichou na montagem do filme para passar ao espectador a mesma impressão que tem o personagem, construindo um filme que, em termos de montagem, é bastante surpreendente. Nolan se arriscou e fez um filme que poderia ser uma colagem ininteligível e que, em vez disso, se tornou badalado no circuito alternativo e lhe deu notoriedade. “Amnésia” custou cerca de 9 milhões de dólares e rendeu quase 40 milhões de dólares, fazendo com que Nolan aparecesse para os grandes estúdios. Seu filme seguinte, “Insônia” (Insomnia, 2002), já contou com um orçamento bem mais robusto (U$ 46 milhões) e respondeu positivamente nas bilheterias, arrecadando U$ 113 milhões e colocando Nolan numa categoria rara: um cineasta que se paga sem grandes campanhas de marketing ou sagas já existentes em outras mídias. Falando em personagens pré-existentes, o desafio seguinte de Nolan era reavivar a franquia Batman. Os dois filmes anteriores do morcego, feitos por Joel Schumacher, foram desastrosos e enterraram não só o Batman mas também os filmes de heróis em geral. Conseguiria Nolan, um diretor de filmes “realistas” e “pequenos”, levar o projeto de reavivar o Batman adiante? “Batman: o Retorno” (Batman Begins, 2005) zerou a franquia e mostrou que o diretor poderia atingir os grandes públicos, para a felicidade dos produtores. Nolan escalou um elenco sério e consagrado de atores reconhecidamente talentosos para o filme, alguns em papeis principais, outros mais secundários: Michael Caine fez o mordomo Alfred, Liam Neeson viveu Henri Decard, Gary Oldman foi o comessário (ainda detetive) Gordon, Ken Watanabe encarnou Ra’s Al Ghul e Lucius Fox foi interpretado por Morgan Freeman. Para o protagonista Nolan achou Christian Bale que recentemente havia feito o bom “Psicopata Americano” (American Psycho, Mary Harron, 2000). Bale deu conta do recado e se não é ainda o Batman/Bruce Wayne dos sonhos com certeza superou os antecessores Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney. “Batman: o Retorno” arrecadou mais de U$ 370 milhões e, mais importante do que isso, tornou Batman um produto sério e respeitável novamente. “O Grande Truque” (The Prestige, 2006), o filme seguinte de Nolan, foi uma volta à linha dos seus filmes anteriores, com mais uma atuação de Bale. O diretor lançou em 2008 a sequência de “Batman: O Retorno” e “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight) colocou, definitivamente, o nome de Nolan na história do cinema: o filme arrecadou estrondosos U$ 1 bilhão e contou com uma das grandes atuações de todos os tempos na telona, Heath Ledger como o Coringa. Ainda que não tivesse falecido logo depois do filme o Coringa de Ledger conseguiu um feito e tanto: é, indubitavelmente, melhor e diferente em relação ao Coringa de Jack Nicholson, de “Batman” (Tim Burton, 1989). “Batman: O Cavaleiro das Trevas” conseguiu andar numa linha muito tênue e ser unanimidade: sucesso de público, foi aclamado também pela crítica.

E agora? Para onde ir depois disso?

(atenção: o texto abaixo pode conter spoilers, ou seja, informações sobre a trama ou o conteúdo da história que podem frustrar aqueles que, como eu, gostam de não saber nada sobre o filme que vão assistir. Veja o filme e depois leia com gosto…)

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Dom Cobb, o Extrator

Nolan optou por realizar um sonho. O roteiro de “A Origem” era uma ideia dele mesmo na qual trabalhava desde os seus 16 anos. Depois de tanto burilar talvez tivesse chegado a hora de transformar o sonho em realidade. Ou a realidade em sonho, enfim. “A Origem” tem um roteiro denso. A quantidade de informação contida nos detalhes cuidadosamente calculados do filme incita o espectador a assistir o filme novamente. Nolan bebeu muito na fonte da psicologia e da interpretação dos sonhos. Há Jung para todos os  lados no filme em objetos, lugares e palavras. Nolan brinca com a ideia dos arquétipos: os personagens do filme, além do nome, todos eles são definidos pela função que desempenham: há “O Extrator”, “O Arquiteto”, “O Turista”, “O Falsário”, “O Alvo”, “A Sombra”, “O Químico” e tantos outros. O próprio filme segue um modelo tradicional de “filme de roubo”: o surgimento de uma missão, a montagem de uma equipe, o planejamento do golpe e por fim a execução. Cobb, o protagonista, (O Ladrão) é um especialista em entrar no subconsciente das pessoas e extrair informações escondidas lá. É um negócio que paga bem. Mas ele precisa de ajuda. Precisa de um Pesquisador, o responsável por conhecer o seu alvo em detalhes, para tornar os sonhos críveis. E também de um Arquiteto, aquele que vai conceber o sonho onde o roubo vai acontecer. Cobb recebe uma proposta de negócio irrecusável: se conseguir o que seu empregador deseja ele será inocentado da acusação de assassinato que pende sobre sua cabeça. Mas o seu empregador quer algo diferente: ele não quer extrair uma informação de alguém, mas sim inserir uma ideia na cabeça de uma pessoa. Ao contrário do que pensam alguns dos envolvidos Cobb afirma que é possível, mas tem que compor um time maior: precisará de um Químico, para manter o Alvo sedado, já que terá que trabalhar por muito tempo, e de um Falsário, especialista em incorporar outras pessoas em sonhos. Além disso Cobb tem que lutar contra A Sombra, o espectro de sua esposas morta que o persegue e cada vez que ele entra no sonho de alguém. Além da dificílima tarefa de inserir uma ideia na cabeça de alguém Cobb ainda tem que lidar com o seu próprio subconsciente sabotando-o o tempo todo. Quem percebe isso é Ariadne, uma jovem talentosíssima cooptada por Cobb para ser A Arquiteta na missão. Ariadne percebe o problema de Cobb e esforça-se para ajudá-lo a sair do labirinto tramado pela sua própria mente. Não por acaso A Arquiteta tem o nome de Ariadne, a princesa grega que segurou o novelo de lã e auxiliou o herói Perseu a sair do labirinto em Creta.

 

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Ariadne, a Arquiteta

 

Nolan monta a trama vagarosamente. Primeiro apresenta os personagens e familiariza-nos com eles. Depois apresenta a missão. E o terceiro momento, que toma toda a segunda metade do filme, é uma espetacular sequência de cenas de ação. É nesse momento que Nolan mostra que é um diretor completo: faz um filme de personagem onde os atores tem oportunidade para atuar e ao mesmo tempo faz um estupendo thriller de ação. As cenas de luta (em especial a cena em gravidade zero no hotel) são, repetindo um clichê, de tirar o fôlego. A superposição das camadas de sonho e os diferentes tempos, nas diferentes camadas do filme, Nolan dosa a tensão e quando nos damos conta o filme está frenético. É um caminhão desgovernado estrada abaixo, sem freio. Ao som de Piaf, Je ne regrette rien o filme aproxima-se do final. E o final, ao melhor estilo Nolan, não resolve a trama. Ou resolve, enfim. Isso é com cada um.

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Arthur, o Homem dos Detalhes

 

O elenco foi pinçado a dedo pelo diretor. Cobb é vivido por Leonardo DiCaprio. Antes eu suspeitava, hoje eu tenho certeza: é o melhor ator em atividade em Hollywood. O Pesquisador, Arthur é Joseph Gordon-Levitt. O ator que tornou-se conhecido por “(500) Dias Com Ela” ((500) Days of Summer) faz um papel completamente diferente, e coloca-se como uma espécie de contraponto de Cobb. Ellen Page, a eterna Juno, faz Ariadne, a Arquiteta. O resto da equipe é composta por Ken Watanabe (Saito, “O Turista”, o empresário que encomenda a inserção) e pelos menos conhecidos (mas ótimos) Tom Hardy (Eames, “O Falsário) e Dileep Rao (Yussuf, “O Químico). Cillian Murphy faz “O Alvo” e o sempre bom Michael Caine é o padrasto (ou sogro, enfim. Isso eu não achei claro) de Cobb. A oscarizada Marion Cotillard faz Mal, a projeção do inconsciente de Cobb da sua ex-mulher morta. O quão difícil é interpretar um personagem que não existe? Quão unidimensional tem que ser um personagem não é uma pessoa, mas sim a projeção que outra faz dela? Sem sombra de dúvida deve ser difícil, mas Cotillard tirou de letra. Além do elenco inteiro ser ótimo a direção de Nolan consegue tirar de cada um deles o que tem de melhor.

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Eames, o Falsário; Robert Fischer, o Alvo

 

Ainda, a trilha sonora: Hans Zimmer, né? As composições próprias dele dão o tom do filme, entremeando-se com a onipresente Piaf, que canta durante todo o filme. Há na presença da voz de Piaff, intermitente, durante o filme inteiro, uma referência à personagem de Marion Cotillard, que ganhou o Oscar pelo papel da cantora francesa? Isso é uma pista de onde termina a realidade e começa o sonho? Ou é simplesmente uma coincidência? Existem coincidências nos sonhos? A trilha de Zimmer, em especial nas cenas de ação, que se passam nos três planos de sonhos diferentes (A Cidade da Chuva, O Hotel, A Fortaleza na Neve. Locais arquetípicos, novamente.). Como explicado no filme, em cada camada de sonho o tempo funciona numa velocidade diferente. O que fez com que Zimmer (e Nolan junto, talvez?) brincassem, como pode-se ver aqui: http://www.brainstorm9.com.br/entretenimento/a-origem-e-o-segredo-da-trilha-sonora/ (agradecimentos ao Mau Oliveira pelo link).

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Mal Cobb, a Sombra

A fotografia e os efeitos visuais também são caprichadíssimos. O mundo onírico tem uma luz muito própria. Ela é difusa, um pouco sem origem alguma. Nos sonhos das pessoas destacam-se às inúmeras referências à Escher, o artista da simetria e da ilusão. A ilusão, como todos sabem, consiste em enxergar o que não existe. A ilusão nada mais é do que uma trapaça que confunde o cérebro, como os personagens do filme também fazem.

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A luta em gravidade zero no hotel já está na história do cinema.

O fim do filme retoma algumas das questões que estão na obra autoral de Nolan desde “Amnésia”, passando por “Insônia” e ainda em “O Grande Truque”. Uma dessas questões é o próprio fazer cinematográfico. Nada na vida é muito diferente de um filme, como o próprio Batman já mostrou em “O Cavaleiro das Trevas”. Sobre isso o Ticiano Osório escreveu um texto bem bacana na Zero Hora (http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a3001096.xml&template=3898.dwt&edition=15272&section=999 ). E a principal questão de todas, talvez:  o que é a realidade? O que existe além da nossa própria percepção? Há como ter certeza da sanidade e da realidade? Qual o limite do sonho e da fantasia? Até que ponto o mundo em que vivemos é uma criação de nós mesmos? Eu não sei. Leonard, em Amnésia, não sabe. Cobb, em “A Origem”, também não. Desconfio que o Nolan sabe. Só sabendo mesmo ele poderia brincar tanto com isso da maneira que ele faz.

 

PS: “A Origem” estreou em circuito comercial dia 16 de julho. Até o último final de semana o filme, que custou U$160 milhões já havia arrecadado mais de U$480 milhões. Nolan acertou na mosca, de novo.

Música

Amanhece um novo dia para o Eels

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por Cassiano Rodka

“Tomorrow Morning” chega hoje às lojas, encerrando a trilogia de discos que o Eels lançou no período de um ano e meio. Tudo começou em 2009 com “Hombre Lobo”, uma coleção de 12 músicas que falavam sobre amor e desejo. Em janeiro de 2010, E lançava a sequência, “End Times”, um disco sobre divórcio e separação. Agora, fechando a trilogia, o compositor apresenta as 14 músicas de “Tomorrow Morning”, que versam sobre o período entre o fim de um romance e o iminente início de outro.

Depois das canções intimistas e melancólicas de “End Times”, Mr. E anunciou que “Tomorrow Morning” seria um álbum mais para cima. De fato é, mas se você espera um álbum pop e ensolarado, está no caminho errado.

O disco inicia com “In Gratitude for This Magnificent Day”, uma faixa instrumental composta com sons invertidos, tecladinhos repetitivos e notas dissonantes. É, de fato, um bom prenúncio do que vem pela frente: minimalismo, experimentalismo e muitos teclados em uma embalagem pop e levemente melancólica. “I’m a Hummingbird” traz a inconfundível voz de E cantando sobre uma inusitada colagem de teclados, algo incomum no repertório do Eels. Melancólica na melodia, mas esperançosa na letra, a faixa deixa claro que esse é realmente um álbum bem diferente dos outros da banda. O mesmo ocorre em “The Morning”, cuja sonoridade remete ao segundo álbum da trilogia, “End Times”, mas cuja letra mergulha na mensagem de um novo dia do disco: “In the morning/When the birds are still asleep/You can feel it/No cars are on the street/It’s anybody’s day/It could go any way/Why wouldn’t you want to make/The most of it?” (Pela manhã/ Quando os pássaros ainda dormem/Você consegue sentir/Não há carros nas ruas/Pode ser o dia de qualquer um/Tudo pode acontecer/Por que você não iria querer/Fazer o melhor dele?)

A primeira música a trazer o prometido clima up do disco é a quarta faixa, “Baby Loves Me”, baseada em um loop de duas notas tocado no teclado e uma letra divertida em que E canta frases como “Record company hates me/The doctor says I’m sick/The bad girls think I’m just too nice/And the nice girls call me dick/But Baby loves me/And she’s smarter than you/My baby loves me/Unlikely, but true” (A gravadora me odeia/O médico diz que estou doente/As garotas más dizem que sou muito bonzinho/E as boazinhas dizem que sou um idiota/Mas minha namorada me ama/E ela é mais esperta que vocês/Minha namorada me ama/É difíci de acreditar, mas é verdade). O clima apaixonado se mantém na faixa seguinte, “Spectacular Girl”, em uma melodia pop que foi escolhida para ser o primeiro vídeo tirado do álbum.

“What I Have to Offer” traz novamente o clima melancólico remanescente de End Times, mas com uma letra mais reflexiva e positiva. “This Is Where It Gets Good” leva o som do disco para uma área mais experimental. Com uma batida eletrônica e teclados moog minimalistas, E canta com um efeito carregado na voz durante os 2 primeiros minutos. Depois samples de cordas que ignoram completamente o tom da canção adicionam-se ao mix, causando um efeito ora belo, ora estranho que se estende por 4 minutos instrumentais até o fim da música. “After the Earthquake” é uma vinheta instrumental que funciona quase como um interlúdio, algo bastante comum nos álbuns do Eels. Depois dela, “Oh So Lovely” surge tocada em um cravo acompanhado de instrumentos de sonoridade medieval – não sei como não foi parar na trilha do Shrek, já que a banda apareceu nas últimas 3 trilhas do filme. Essa caberia muito bem em mais uma.

“The Man” é um bem humorado exercício em autoconfiança, uma faixa divertida que certamente vai ganhar coro dos fãs nos shows e aposto também em um videoclipe. Em “Looking Up”, Mr. E cria um gospel moderno, usando diversas vozes ao som de palmas, um baixo pulsante e tecladinhos moog. “That’s Not Her Way” traz as guitarras de volta à frente do som em uma balada que remete à sonoridade de “Hombre Lobo”, o primeiro disco da trilogia. O mesmo acontece em “I Like the Way This Is Going”, que traz possivelmente a letra mais fofa do disco, uma declaração simples e apaixonada, que é a marca registrada do vocalista. “Mystery of Life” conclui o álbum (e a trilogia) com direito a refrão de lalalás e uma letra que enaltece o mistério que é viver e acordar a cada dia com novas possibilidades.

A versão deluxe de “Tomorrow Morning” traz um EP com 4 faixas bônus, entre as quais se destaca a divertida “Let’s Ruin Julie’s Birthday”, que remete aos discos antigos da banda, em especial “Daisies of the Galaxy”.

Com certeza, um dos discos do ano!

Literatura

Pó mágico

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imagem: Anelise Schutz

por Clarice Casado

Mais uma para o Vito,
senhor de sabedorias inigualáveis

Disse-me, categórico:
Sinto pena das coisas que não posso mudar
Sufoca-me, por vezes, o meu próprio ser
Algo inunda-me sem que eu possa compreender
Olho-te, profundo
e sabes exatamente o quero dizer
e o que estou a sentir
Aconchegas-me em teu colo
Percebes a minha dor
Tu, minha guardiã
Tu, que a mim sempre nutrirá
Afagará
Explicará
Ensinará
Compreenderá
Estará.