Clarice Dall’Agnol

Música

A dança das cadeiras de Medeski Martin & Wood

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por Cassiano Rodka

Pegando carona no Dia das Crianças, resolvi destacar aqui hoje um disco que eu adoro e que foi criado para o público infantil por um trio de excelentes músicos: John Medeski, Chris Wood e Billy Martin.

“Let’s Go Everywhere” foi o primeiro (e, por enquanto, único) álbum de canções infantis gravado pela banda Medeski Martin & Wood. Não que seja um disco que agrade exclusivamente os pequenos, muito pelo contrário, ele é perfeito para divertir toda a família.

Conhecido pelos seus grooves jazzísticos e experimentações musicais, o trio resolveu encarar o desafio de compor para a criançada. Assim, trouxeram para o projeto o conceito de uma jornada, tanto literal quanto figurativa, convidando os ouvintes a embarcarem junto nessa viagem.

As músicas surgiram de improvisações, garantindo um clima espontâneo para as músicas. Algumas das canções ganharam a participação dos filhos de Chris Wood e Billy Martin, como a faixa “Where’s the Music”, onde as crianças Nissa e Dakota perguntam em uníssono “onde está a música?” a cada parada da canção, lembrando um pouco a brincadeira da dança das cadeiras. Em “All Around the Kitchen”, as crianças citam as mais diversas comidas sob o barulho de instrumentos domésticos e o groove dos teclados de John Medeski. Já em “The Train Song”, os instrumentos criam uma melodia que brinca com os sons produzidos por um trem. Uma das minhas músicas preferidas é “The Squalb”, que conta a bem humorada história de um bichinho que vive nos bolsos das calças e cria aqueles “bolinhos de algodão” que encontramos às vezes lá fundo.

O clima de festa e brincadeira permeia o álbum todo, ficando fácil de render-se à sonoridade de “Let’s Go Everywhere”. Então ponham esse disquinho na vitrola e liberem a criança que existe em vocês! 😉

Literatura

Na chuva

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imagem: Anelise Schutz

por Marcella Marx

Ela saiu em meio a chuva com vontade clara de se encharcar.
– Ana, Ana. Gritou sua mãe.
– O guarda chuva!
Mas Ana ia longe e despreocupada com a água que a molhava sem perdão.
Seus pés afundavam-se nas poças e a lama acumulava-se na barra de sua saia.
Por seus cabelos longos e dourados escorriam gotas que entravam em sua blusa e escorregavam por seu corpo.
Ana continuava a correr, mas não corria da chuva, não naquela manhã.
Corria com ela.
Sua língua capturava o excesso de água que descia de seu rosto.
Uma rajada de vento e a chuva começou a cessar.
Ana também diminuiu seus passos, até parar.
– Ana, você veio!
Ela fez um gesto com a cabeça e mergulhou.

Cinema

Oliver Stone: de volta a Wall Street

por Pedro Cunha

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Jake Moore e Gordon Gekko: nova e antiga gerações de Wall Street

Conforme eu já havia avisado aqui Oliver Stone visitou mais uma vez Wall Street. Segundo o próprio diretor a vontade de retornar ao seu bem-sucedido filme de 1987 veio com a quebradeira de 2008. A crise das hipotecas imobiliárias que arrasou os EUA e o resto do mundo mostrou sua dimensão quando quebrou o Lehman Brothers, sólido banco de investimentos que funcionava nos EUA desde 1850. De lá para cá muitos norte-americanos perderam seus empregos e a recessão espalhou-se, em maior ou menor grau, por todo o planeta. Cinematograficamente falando a crise rendeu alguns frutos interessantes, como “Amor Sem Escalas” (Up in the Air, Jason Reitman, 2009). E agora a volta de Stone a um dos anti-herois mais interessantes dos anos 80: Gordon Gekko, uma espécie de encarnação de Wall Street que tinha como bordão um dos lemas da geração yuppie dos anos 80: “greed is good!”.

O filme começa com Gekko, numa interpretação inspiradíssima de Michael Douglas, saindo da cadeia depois de cumprir oito anos de pena em função de negociação com informações privilegiadas, o que aconteceu no filme de 1987. Uma das grandes sacadas da cena, infelizmente, me tinha sido antecipada pelo trailer. A cena termina com Gekko na porta da prisão sendo aguardado por… ninguém. O que restou para ele depois de ter sido um homem rico, poderoso e influente foi absolutamente nada. É a primeira das lições de moral que Stone coloca no seu filme.

A partir daí somos apresentados aos dois personagens em torno dos quais gravita o filme. O primeiro deles é Jake Moore. Jake é o executivo de Wall Street do século XXI: ele não deixa de ser arrojado e ganancioso, mas deixa muito claro, o tempo todo, que tem princípios. Sua grande ambição não é o próprio enriquecimento (ou pelo menos não só isso) mas sim financiar um sonho: uma refinaria de energia limpa na Califórnia que resolveria problemas ecológicos e energéticos. Um sonho verde, bem adequado aos anos 00. Seu mentor, Louis Zabel, é um banqueiro old school. Mas old school mesmo. Não dos anos 80, mas um daqueles dos anos 50, de gravatinha borboleta e tudo. O banco de Zabel, para o qual Moore trabalha, é uma alusão clara ao Lehman. A trama se desenrola com a quebra do banco de Zabel que, dignamente, suicida-se, numa alusão clara à Crise de 29, quando os executivos de Wall Street defenestravam-se desesperados em função da quebra dos seus patrimônios. A morte de Zabel, para mim, também representa no filme o fim daquele tipo de executivo, ético e responsável.

A segunda personagem central do filme é Winnie, a namorada/noiva de Moore. Winnie é jornalista e blogueira (odeio essa palavra!), um exemplo típico de trabalhadora da web 2.0 que escreve para um site de notícias independente. Totalmente anos 00, também. O detalhe é que a moça chama-se Winnie Gekko. Sim, é a filha de Gordon Gekko. A moça é o protótipo do que os americanos chamam de left/liberal: politicamente correta, engajada e responsável. Seu site é completamente independente e recusa qualquer vinculação a patrocínios, para manter a sua autonomia. Winnie guarda uma mágoa grande do pai em função da morte do irmão por overdose pela qual ela culpa o pai, que na época estava na cadeia.

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Gordon e Winnie Gekko: difícil relação e reconciliação de família também estão entre as questões morais do filme

A trama do filme, que eu não pretendo revelar, nos oferece dezenas de dilemas éticos e morais. Os personagens são arquetípicos, representando os velhos dilemas entre o enriquecimento fácil e o preço que se paga por ele, a ética e a responsabilidade, a família e o sucesso. Oliver Stone, um diretor político, coloca o dedo em cada ferida e remexe-as. As situações-limite testam os personagens e as suas convicções e certezas. O retrato dos EUA e da crise financeira é feito pela ótima Susan Sarandon, que representa a mãe de Moore. Enfermeira de formação ela larga o emprego para comprar casas, hipotecá-las e revendê-las por um preço maior, o que foi durante muito tempo o sonho do dinheiro fácil dos norte-americanos. Quando a bolha estoura e as hipotecas começam a vencer sem que a sra. Moore consiga pagá-las, o filho sugere que ela volte a ter um trabalho. Ela replica: “Mas eu tenho um trabalho… ah, você quer dizer um trabalho com um chefe, um horário, uma rotina??”. Interessantes os comentários de Jake sobre o trabalho anterior da mãe, como enfermeira, e como ele era um trabalho necessário para ajudar as pessoas. Novamente Stone e suas questões morais: a enfermeira humanitária havia sido transformada numa capitalista louca e selvagem. O roteiro é denso e por vezes um pouco arrastado, apesar de muito rico. São muitos diálogos e muitas reviravoltas durante o filme. Com exceção de Winnie Gekko todos os personagens, cada um no seu momento, parecem estar querendo passar a perna uns nos outros. A ideia é mostrar, na minha opinião, a selvageria e o vale-tudo do mercado financeiro. Várias falas de Gekko parecem respostas ao próprio Gekko do filme de 87 e nesse sentido há um resgate bem legal na cena do jantar em Wall Street, que eu não vou entregar para não estragar a surpresa de quem for ver o filme.

A direção de Stone é segura e ele sabe o que tirar da câmera. Achei o filme muito, mas muito bonito. Uma homenagem bem legal à cidade de Nova York: muitas, mas muitas skylines da cidade. E bem diferentes das óbvias, aquelas clássicas do Rio Hudson. Muitas tomadas do centro da cidade em ângulos bem inusitados mostrando os edifícios e arranha-céus de Manhattan. Os takes com os prédios vistos de cima para baixo e de baixo para cima dão uma sensação um tanto claustrofóbica que reflete bem as agonias de viver e trabalhar na Big Apple. Aliás, falando em Big Apple, vale a pena dar uma conferida no texto da Clarice sobre Nova York, aqui: https://paginadoisblog.wordpress.com/2010/10/04/uma-outra-new-york-city-parte-i-o-bairro-e-a-arte/

Deixei para falar sobre todas as atuações no final. Cinematograficamente falando, para mim, é o que o filme tem de melhor. Stone fez um trabalho muito bom na direção dos atores. Shia LaBeuf segura legal como Jake Moore. O filho do Indiana Jones consegue nos convencer que um jovem corretor de Wall Street pode sim ter uma alma e uma consciência. E Winnie Gekko, um papel difícil, ficou com a linda Carey Mulligan. Além de ser linda ela já tinha ido muito bem em “Educação” (An Education, Lone Scherfig, 2009). Winnie Gekko é densa e difícil e Mulligan tira de letra, além de estar linda. E eu já disse que ela está linda? Pois então, ela está linda. Fazendo esses dois funcionarem Stone conseguiu dar andamento tranquilamente para o seu filme. Os coadjuvantes todos estão muito bem, também. No início do filme há o sempre competente Frank Langella, fazendo o banqueiro Louis Zabel. Do meio para o fim há Susan Sarandon, como a mãe de Moore (que não tem nome, enfim). E Josh Brolin faz Bretton James, o banqueiro inescrupuloso que foi ao mesmo tempo responsável pela prisão de Gekko e pela falência e suicídio de Zabel. Bretton é o vilão do filme e ajuda Stone a montar a sua armadilha: todos nós acabamos, denovo, confiando e nos entregando ao Gordo Gekko de Michael Douglas, que está sensacional no papel. Gordon Gekko é um filho da mãe de marca maior, nós sabemos disso. Mas acabamos confiando e gostando dele.

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Brolin, Stone, Douglas, LaBeuf e Mulligan (já disse que ela está linda?)

“Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” faz um belo díptico com seu irmão mais novo de 87. Não é um filme leve, é um filme de Oliver Stone. Esse tipo de filme, que enseja reflexões e questionamentos, tem cada vez menos espaço. O que é uma pena, diga-se de passagem. O fim do filme me deu a impressão de que o diretor estava com preguiça de amarrar tudo e quis terminar o filme de uma vez, optando pelo caminho mais fácil. Se o filme não tem o brilhantismo dos melhores trabalhos de Stone como “Assassinos Por Natureza” (Natural Born Killers, 1994) ou “Platoon” (1986) passa longe também das coisas apagadas como “Alexandre” (2004) e “World Trade Center” (2006) que o diretor vinha fazendo ultimamente. Com certeza valeu o ingresso e deixou alguns questionamentos, o que é ainda mais importante.

Música

O estranho e irresistível mundo de Tom Waits

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por Cassiano Rodka

Folk, jazz, blues, soul, indie, rock. Tom Waits passeia por diversos gêneros sem nunca amarrar sua mula em nenhum deles. O compositor cria os instrumentais de suas canções como se preparasse o palco para uma peça de teatro. No proscênio, estão as suas letras. Sua inconfundível voz rouca e grave narra a vida de personagens peculiares (fictícios ou baseados em pessoas reais) em um tom ao mesmo tempo misterioso e debochado. Tom Waits é, essencialmente, um contador de histórias.

Misturando sua admiração pela música de Frank Sinatra, Bob Dylan e Louis Armstrong com sua paixão pelos escritos de Jack Kerouac, William Burroughs e Raymond Chandler, Waits criou um estilo de cantar que mescla frases melodiosas com monólogos falados. Assim, o cantor dá voz a personagens como a prostituta da música “Christmas Card from a Hooker in Minneapolis”, que envia um cartão de Natal a um ex-namorado contando como ela está bem sem ele, mas revela, ao final da canção, que as coisas não vão tão bem assim para ela. Impossível não se envolver também com o personagem de “What’s He Building?”, um homem que alimenta um fascínio por um vizinho misterioso que está construindo algo que ele precisa saber o que é…

Essa habilidade de criar canções que ambientam histórias garantiu que Waits fosse chamado para compor trilhas sonoras. A primeira foi a convite de ninguém menos que Francis Ford Coppola, para quem o compositor gravou as músicas de “One from the Heart” em 1982 e ganhou indicação ao Oscar. Além de compor, Tom foi convidado a atuar em diversos filmes do diretor desde então, incluindo “Rumble Fish” (em 1983) e “Dracula” (em 1992). Mais recentemente, o cantor se destacou por sua atuação no filme “O Imaginário do Dr. Parnassus” de Terry Gilliam. No filme, ele assume o papel do Dr. Nick, uma manifestação do Diabo.

Entre um filme e outro, o cantor começou a escrever peças em parceria com sua esposa, Kathleen Brennan. Além do roteiro, a dupla assina também as trilhas, que são gravadas em estúdio, resultando em ótimos discos conceituais, onde cada música é parte de um grande relato. O primeiro desses álbuns foi o excelente “Franks Wild Years”, que conta a história de um acordeonista nascido em uma pequena cidade que sonha em conquistar o mundo com sua música. Um pouco autobiográfico, talvez.

Na década de 90, Tom Waits já possuía um fiel séquito de fãs e a crítica especializada era só elogios. Em 1992, ele levou o seu primeiro Grammy para a casa: o de Melhor Álbum Alternativo por “Bone Machine”. O feito seria repetido em 2000, mas dessa vez na categoria de Melhor Álbum Folk Contemporâneo por “Mule Variations”. Seu lançamento mais recente é o disco “Glitter and Doom Live”, que registra um dos shows da turnê do cantor pelos Estados Unidos em 2008.

A discografia de Waits é extensa, então, para quem ainda não conhece o compositor, recomendo aqui 5 dos meus preferidos, que mostram diferentes facetas do músico:

– Nighthawks at the Diner (1975)
– Blue Valentine (1978)
– Rain Dogs (1985)
– Franks Wild Years (1987)
– Mule Variations (1999)

Literatura

Uma outra New York City (Parte I – O bairro e a arte)

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Eu amo New York City muito antes de existir Sex and the City. Digo isso, porque sou muito fã da série, mas não quero ver ninguém pensando que eu sou mais uma daquelas garotas da “geração Carrie Bradshaw”, que ama NYC, sapatos caros, bolsas mais caras ainda, moda e Cosmopolitans. Eu adoro tudo isso, sim (com exceção dos Cosmos, porque sou mais uma “Margarita girl”!), mas não porque me foi imposto pelo célebre seriado de TV. Eu amo NYC desde os meus doze anos, mais ou menos. Portanto, há MUITO tempo. Tudo começou quando eu iniciei meus estudos de inglês em uma tradicional escola de inglês de Porto Alegre, minha terra natal. A cada lição, o contato com a língua e os costumes do povo norte-americano me faziam ficar mais fascinada por NYC, que, para mim, era a representação mais viva e pulsante de tudo aquilo que eu estava aprendendo em minhas aulinhas de inglês. Em pouco tempo, um dos meus maiores sonhos de adolescente era visitar, um dia, a Big Apple. Na oitava série, eu escrevi uma redação intitulada Nova York: sonho (im)possível. Lembro-me direitinho do título e de como fiz um legítimo appraisal da minha cidade ideal. Só não lembro que nota tirei.

O sonho, que eu não sabia se um dia se tornaria realidade, acabou se tornando. Estive em NYC não apenas uma, mas muitas vezes, já. A primeira foi em 1999. Depois, já fui com meu marido, com um filho, com os dois filhos, e, na semana passada, novamente, só com meu marido.

Nessa última vez, e é dela que quero falar hoje, tive a oportunidade de conhecer uma NYC diferente: a NYC do SoHo. Sempre fiquei pela turística Midtown ou pela chiquérrima área do Uptown. Dessa vez, porém, foi muito especial.

O SoHo é um mundo à parte na grande, multicultural e fascinante cidade de New York. O SoHo é uma mistura perfeita de tudo que eu mais gosto: é culturalmente interessante, é chique, é alternativa, é gastronomicamente fabulosa.

No SoHo, se pode ir facilmente de uma galeria de cartoons raros (Animazing Gallery, Greene Street) à outra, de fotografias e livros do mundo musical (Morrison Hotel). Adquirimos, por exemplo, um desenho original de Snoopy e Charlie Brown feito pelo próprio Schultz, bem como um outro dos Simpsons pelo próprio Matt Groening!

Mais adiante, na rua do nosso hotel (um dos mais trendy de NYC, o The Mercer), a Mercer Street, foi emocionada que comprei uma foto de Eric Clapton clicado por sua musa inspiradora e esposa, Pattie Boyd, a Layla da famosa canção de Clapton. Além disso, o pessoal da galeria, extremamente gente boa, me prometeu enviar um exemplar do livro de Pattie autografado, já que ela estaria na galeria para um evento na semana seguinte. O livro, que li no início do ano, fala da vida de Pattie com o Beatle George Harrison e com Eric Clapton (ela foi casada com os dois); dos bastidores das trajetórias pessoais e artísticas dos Beatles e de Clapton, e da culturalmente agitada e fervilhante Londres das décadas de 60 e 70.

Isso sem falar na rua das galerias de arte do SoHo, a West Broadway, que é uma Broadway às avessas. Esqueça os turistas, o Times Square, os anúncios luminosos e gigantes, os manjados musicais, as horrorosas lojinhas de souvenirs: a West Broadway é cult, é trendy, é moderna, é “descolada”, para usar uma gíria bem paulistana. Na West Broadway, as galerias tomam contam da rua, de ponta a ponta, literalmente, entremeadas por uma lojinha cool aqui (a brasileríssima e linda Rosa Chá, de biquínis, está localizada ali) e um restaurante chiquezinho ali, como é o caso do Downtown Cipriani. Nessas galerias, encontram-se Picassos, Mirós, Andy Warhols e Chagals a precinhos, por assim dizer, bem mais razoáveis do que se esperaria de artistas tão renomados. Há gravuras e desenhos deles, um mais legal que o outro. Até o artista pernambucano Romero Britto estava lá, entre os grandes. Aliás, o povo de New York deve estar mesmo curtindo Britto, porque o aeroporto de La Guardia tem uma loja só com obras dele.

Além da “arte oficial” do SoHo, a das inúmeras galerias, há a arte das ruas, dos carinhas que fazem desenhos, caricaturas e pinturas a céu aberto, “fotografando” os locais, os visitantes e suas fantásticas roupas, cabelos e agires, em uma dança fabulosa de cores, cheiros e humores, que se resume em uma só palavra: multicultural.

Ah! Pelas ruas, também se vendem livros raros e scripts originais de filmes e séries de TV, o máximo!

Você acha que acabou, leitor? Espere então para ler mais sobre a “minha” outra NYC no próximo capítulo dessa deliciosa crônica…

Literatura

E a casa fala…

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Antes de fechar a porta pela última vez, observo a casa vazia.
Posso perceber alguns pedaços de vida por entre os tabuões da sala. Há nossa presença nas manchas das paredes. Beijos úmidos no mofo do sofá. Olho tão atentamente que percebo a poeira lentamente se pondo sobre a mobília, tratando de esconder cada traço de história. Pelo hábito imposto pelo tempo, toco o interruptor de luz. O lustre sem lâmpadas ignora. Tranco a porta e parto.
E a casa se cala.

Cinema

A sessão perfeita

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por Pedro Cunha

Eu não canso de repetir que as pessoas que questionam os lugares marcados no cinema serão, em determinado momento da história, tão ridicularizadas quanto são hoje aqueles que diziam que a Terra era plana ou os que achavam que o cometa Halley trazia a destruição e o fim do mundo. Oquei, talvez nem tanto, mas algo perto disso. Quem é que pode achar que há algum problema em saber já de antemão quais são os lugares disponíveis e, se for o caso, desistir da sessão em função deles? Outra: quem já foi ao cinema acompanhado e teve que sentar separado sabe com certeza dar valor aos lugares marcados.

Outra coisa que será devidamente estudada a seu tempo é a preferência das pessoas em entrar na fila mais longa só porque na mais curta (às vezes inexistente) não será atendido por uma pessoa e sim por uma máquina. A máquina mágica de compra de ingresso no cinema é extremamente indutiva: não tem como se confundir. Você escolhe o filme, a sessão e os lugares. Paga com o cartão, digita a senha. Os ingressos são impressos e saem pelo buraquinho ali embaixo. Pronto. Já contei, uma vez, 25 pessoas na fila do caixa e nenhuma no caixa eletrônico que, sim, estava funcionando: eu comprei meu ingresso ali. O filme era “Onde Vivem Os Monstros” (Where the Wild Things Are, Spike Jonze, 2009), para não dizer que eu estou chutando.

E já que estamos falando dos hábitos de ir ao cinema, eu sonho com o dia em que não permitirão mais pipoca no cinema (minha namorada me matará quando ler isso, mas tenho a impressão que ela não costuma ler meus textos…). Pipoca faz barulho. Ainda mais quando consumida, como de hábito, com a boca aberta. Desnecessário, não? Uma rede aqui de Porto Alegre, o Cine Guion, durante muitos anos proibiu a pipoca. Além disso quando vendiam as tradicionais balas Azedinhas eles as tiravam do pacotinho tradicional, daquele plástico mais duro, e colocavam as balas num saquinho de plástico molinho, que não fazia barulho. Legal, né? Pois é, nem lá. Até o Guion se rendeu. Pipoca, azedinhas e tudo mais. Mas haverá um dia em que tudo isso será considerado muito estranho.

Nesse mesmo dia também, tenho certeza, vão criminalizar o bate-papo e o celular no cinema. Quem entrar numa sessão de cinema vai saber se portar numa sessão de cinema. Qualquer barulho advindo de um telefone celular durante uma sessão de cinema será advertido com um pequeno choque elétrico na poltrona. Reincidência levará a abertura de um buraco no chão onde o infrator será jogado num fosso cheio de jacarés famintos. Oquei, não precisa isso. Digamos apenas que o infrator reincidente levará uma quantidade estipulada de chibatadas nas costas. Pena que ainda não chegamos nesse nível de civilidade.

Falando em suposições de como as salas de cinema serão no futuro, podemos também especular um pouco sobre a presença de crianças. O bom senso nos diz que há filmes e sessões que são adequados para crianças, outras não. O bom senso ainda nos diz também que os pais conhecem seus filhos e sabem o quão preparados eles estão para ver um filme de determinado gênero ou duração. Infelizmente bom senso não foi uma das qualidades distribuídas pelos Deuses com generosidade: a grande maioria das pessoas não dispõe dele. O que faz com que seja necessária, num futuro não muito distante, uma legislação severa sobre a presença de crianças no cinema, regulando que tipo de filmes elas podem assistir e, principalmente, em quais sessões elas NÃO podem ir. Oquei, nesse meu mundinho ideal os pais farão um exame psicotécnico para poderem ter filhos, mas só para garantir vamos ter uma legislação específica para o cinema também.

E já que eu tirei o dia para reclamar do cinema, da educação dos frequentadores do cinema, dos hábitos das salas de cinema e de tudo mais, por que não reclamar também dos horários dos cinemas? Às vezes o mesmo filme está em cartaz em seis ou sete cinemas diferentes. “Que bom!”, você pensa. “Vou poder ver o filme tranquilamente!”. Pois é. Mas em todos Os sete cinemas as sessões começam num intervalo de 40 minutos. Por exemplo, se uma sessão começa às 19h a sessão mais “distante” dela começa às 19h40min. O que significa que entre 19h40min e 21h, no mínimo, não há sessão. Porque não escalonam melhor isso? Por que não, nos diferentes cinemas, colocar o filme as 19h, as 19h30, as 20h e as 20h30min? Tudo é uma conspiração, eu sei. Tudo é para evitar que eu vá ao cinema e que eu veja um filme novo. Mesmo que hajam filmes bons e interessantes no cinema eles tramam arduamente para me impedir de vê-los. Assim, é claro, eu não vou ter um filme novo sobre o qual escrever essa semana. Eu sabia!! Tinha que ter uma causa para tudo!!!

PS: Talvez você duvide, mas eu não odeio cinema. Na verdade eu gosto tanto do cinema que levo ele a sério. Talvez a sério demais, enfim, mas aí são esses problemas dos apaixonados…

Cinema

O certo e o duvidoso

por Pedro Cunha

Segunda-feira, feriado. Enquanto aqui no Rio Grande do Sul comemorava-se a “epopeia farrapa” (sic) eu decidi tentar a sorte no cinema. A pobreza da programação e a rigidez dos horários me proibiram de ir ao cinema na noite dessa segunda, juro: os (poucos) filmes bons em cartaz eu já tinha visto e os maomeno que eu poderia ver não estavam passando em horários razoáveis. Resultado: apelar para a coleção de DVDs, que está ficando cada vez mais gordinha, aliás.

A bola da vez foi Woody Allen. Dá um desconto, vá. É meu diretor favorito. Não quer dizer que seja o melhor, na minha opinião, mas sim que é aquele que eu mais gosto. São coisas diferentes, sim. Mas enfim, escolhi rever um filme que eu tinha assistido faz bastante tempo e gostado muito na época: “Poderosa Afrodite” (Mighty Afrodite, 1995).

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Há quem diga que a década de 90 do Allen foi para esquecer. Eu não posso concordar com isso. Claro que ela não é tão regular quanto a década de 80 de Allen, mas também não é sempre que um diretor consegue emplacar, em menos de 10 anos, filmes como “Zelig” (1983), “A Rosa Púrpura do Cairo” (The Purple Rose of Cairo, 1985), Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters, 1986), “A Era do Rádio” (Radio Days, 1987) e a memorável participação de Allen em “Contos de Nova Iorque” (The New York Tales, 1989). Mas a mal falada década de 90 de Allen também tem muita coisa boa: eu adoro o “Misterioso Assassinato em Manhattan” (Manhattan Murder Mistery, 1993) e gosto muito de “Tiros Sobre a Brodway” (Bullets Over Brodway, 1994) e de “Celebridades” (Celebrity, 1998). “Desconstruindo Harry” (Desconstructing Harry, 1997) e “Todos Dizem Eu Te Amo” (Everybody Says I Love You, 1996), o musical de Allen, são bons filmes também. No conjunto, convenhamos, difícil alguém ter TANTOS filmes bons quanto o narigudo de Nova Iorque.

Mas enfim, deixando o lado tiete e indo de novo à “Poderosa Afrodite”: é um filme que envelheceu bem, muito bem. O roteiro é muito simples: um casal (Allen e Helena Bonham Carter) de intelectuais nova-iorquinos, ele jornalista esportivo e ela marchand, resolve ter um filho pulando a parte chata da gestação, que poderia ser prejudicial para a carreira dela. Adotam uma criança. Quando o menino começa a demonstrar uma inteligência incomum o jornalista resolve ir atrás da mãe genética da criança, surpreendendo-se ao descobrir que a moça (Mira Sorvino, no papel que a lançou e que lhe rendeu o Oscar de Atriz Coadjuvante) não passa de uma prostituta e atriz de filmes pornográficos, que é tão simpática quanto estúpida.

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Mira Sorvino, a prostituta Linda Ash e Woody Allen, o jornalista esportivo Lenny

Se num primeiro momento o roteiro parece ser mais uma daquelas histórias de relacionamentos problemáticos de Allen ele acabou achando uma solução brilhante para torná-lo diferente: transformou o filme numa tragédia grega. Mesmo. Com direito a coro e corifeu, fazendo o papel de narradores e de fios condutores da trama. Alguns personagens clássicos gregos fazem pontas: Tirésias, o adivinho cego, Édipo, Jocasta e a impagável Cassandra (“Prevejo desastre! Prevejo catástrofe! Pior… prevejo advogados!!”). A condução pelo coro foi uma sacada realmente genial. E também a trajetória do próprio coro, que no início do filme é grave e solene e no decorrer do longa vai se soltando até nos proporcionar um espetáculo de canto e dança nos créditos finais. A escolha de fazer os personagens de Allen e de Bonham Carter em determinados momentos dialogarem com o coro (e principalmente com o ótimo corifeu de F. Murray Abraham, um ator mais conhecidos por papeis secundários na TV do que por grandes participações no cinema.

A direção e o roteiro de Allen são quase que marcas registradas. Atuações sólidas baseadas em longos diálogos e planos sequência a exaustão. Os tradicionais parceiros de produção (Santo Loquasto) e de fotografia (Carlo Di Palma) mantém a discrição de seus trabalhos inclusive nas difíceis cenas do coro em campo aberto, filmadas num anfiteatro localizado na Itália. Cenas ao ar livre sempre são difíceis, e essas ficaram muito boas.

Murray Abraham comanda o coro grego, a grande sacada do filme

Em termos de atuações, há que se destacar Mira Sorvino, sem sombra de dúvida. Sua Linda Ash é uma prostituta tão doce que todos corremos o risco de Lenny, o personagem de Allen, que acaba se interessando por ela. A Sorvino está tão bem no papel que é realmente difícil entender a sumida que ela deu no cinema. Helena Bonham Carter é, como sempre, excelente. É legal vê-la jovem e ver que o talento todo, que hoje é tão evidente, já estava ali. Já Woody Allen… bom, ele é Woody Allen. Alguns diriam, fazendo o papel de Woody Allen. O próprio ficaria incomodado com o comentário e diria que aquele não é ele, mas sim um dos poucos personagens que ele consegue fazer. Mas algumas piadas do filme, como a da casa nos Hamptons, são claramente baseadas em histórias da vida do próprio Allen, como podemos descobrir no excelente livro “Conversas com Woody Allen”, do jornalista Eric Lax.

“Poderosa Afrodite” é um típico filme de Woody Allen. Diverte de maneira inteligente e tem uma coletânea de “quotes” da qual eu já tinha esquecido. Um humor fino e cheio de referências que vai sempre bem, pelo menos para mim. Resta esperar, agora, que as estreias melhorem um pouco a grade dos cinemas. E se não melhorarem, bom, sempre tem mais alguns filmes do narigudo mais antissocial de Nova Iorque para a gente ver de novo…

A cena dos créditos, com o showzinho do coro