Clarice Dall’Agnol

Cinema

Sir Paul vem aqui!!

por Pedro Cunha

Eu ia chamar esse texto de “Sir Paul Vem Aí”, mas me dei conta que ele vem aqui. Aqui, em Porto Alegre, no meu cantinho do planeta. A “Up and Coming Tour” chega ao Brasil no próximo domingo: no dia 7 o cavaleiro de Sua Majestade se apresenta aqui em Porto Alegre (sim, aqui em Porto Alegre. Se eu escrever umas cem vezes talvez a ficha caia…) e nos dias 21 e 22 em São Paulo. Se você, como eu, não consegue pensar em nada muito diferente disso, o post de hoje é para você.

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Paul no Rio, em 1990: maior público pagante da história, segundo o Guinness. Talvez a roupa mais brega, também.

Paul McCartney é músico, eu sei. Mas tem uma profícua relação com o cinema também. O IMDB registra 21 participações de Macca como ator. É creditado em produções como roteirista (cinco vezes), como diretor (quatro vezes) e como produtor (13 vezes). Mas, é claro, o maior número de citações é de participações em trilhas sonoras. Sabe quantas? Bem mais que isso. São, segundo o IMDB, 340 participações creditadas em trilhas sonoras. Nada mal, hein? Acho que o grande destaque, entre os trabalhos de trilha sonora de Mr. McCartney, é a canção composta em parceria com a então esposa Linda, “Live and Let Die”, para o oitavo filme de James Bond, o primeiro estrelado por Roger Moore: “Com 007 Viva e Deixe Morrer” (Live and Let Die, Guy Hamilton, 1973). É considerado um dos melhores filmes de James Bond e tem, com certeza, uma das melhores cenas de perseguição, a do bote.

O trailer original de “Live and Let Die” tem uma versão diferente da música (aos 48 segundos…)

Mas além dos já conhecidíssimos trabalhos de Macca como compositor eu queria chamar atenção para suas participações como ator, homenageado e personagem. Por isso escolhi cinco bons filmes sobre, dos e com McCartney e os seus colegas John, George e Ringo. Recoste-se na poltrona, aumente o volume e vamos lá!

5) Across the Universe (Julie Taymor, 2007)

Esse filme é um amorzinho. É o que quase todo mundo diz. E é uma proposta que dificilmente poderia dar errada: um musical com 30 canções dos Beatles, simples assim. A coragem dos produtores foi fazer com que as canções fossem reinterpretadas pelos atores do filme. Algumas versões ficaram muito legais, como a de “With A Little Help From My Friends” por Jim Sturgess. E vamos combinar: coragem regravar essa música, que tem DUAS versões definitivas já (tanto a de Ringo, a original, quanto a de Joe Cocker, imortalizada em Woodstock). Os personagens do filme tem seus nomes retirados de letras dos Beatles: Maxwell, Jude, Sadie, Jo-Jo, Prudence, Dr. Robert (um Bono Vox meio deslocado) e vários outros. O roteiro, de Dick Clement e Ian La Frenais é leve, despretensioso e muitas vezes previsível: passa-se nos anos 60, protesta contra a guerra do Vietnã e celebra a juventude. E quem se importa? O filme diverte, a produção é bem caprichada e as versões são bem boas, em sua maioria. A fotografia constrói bem a atmosfera de época e é quase artística em alguns dos “clipes” do filme, como “I Want You” ou “Strawberry Fields Forever”, uma das preferidas da minha namorada.

O que você fará se eu cantar fora do tom?

Viver é fácil de olhos fechados…

4) Os Reis do Iê Iê Iê (A Hard Days Night, Richard Lester, 1964)

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Esse é o primeiro filme dos Beatles e Lester, que também dirigiria “Help”, no ano seguinte, fez algo muito próximo de um documentário. Apesar do infame título em português o filme é divertido e a sequência de abertura, com as fãs perseguindo o então jovem fab four pelas ruas de Londres, tornou-se uma das mais copiadas da história do cinema. A trilha sonora do filme é maravilhosa, e foi composta por Lennon e McCartney em seus tempos mais férteis: um álbum inteiro escrito em semanas e com canções que se tornariam imortalizadas como “Can’t Buy Me Love”, “All My Loving”, “I Should Have Know Better”, “If I Fell”, “And I Love Her” e “She Loves You”. O filme ajuda a consolidar algumas das lendas da beatlemania, como a de Ringo ser o Beatle “engraçado” e George o Beatle “quieto”.

3) Backbeat – Os Cinco Rapazes de Liverpool (Backbeat, Iain Softley, 1994)

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Este é seguramente, até hoje, o melhor filme sobre os Beatles. A história passa-se toda no início da carreira dos rapazes de Liverpool, mais especificamente na mítica viagem a Hamburgo, na Alemanha, que foi onde a banda começou a acontecer. Alguns episódios hoje um tanto nebulosos estão ali, em especial a presença de Stuart Sutcliffe, um amigo de Lennon que foi, durante um tempo, o quinto Beatle. O suposto envolvimento de Stuart com John é apenas insinuado no filme, já que até hoje ninguém nunca foi categórico quanto a isso. McCartney é retratado como aquele que, ainda jovem, era o mais profissional e focado dos Beatles. O detalhe do filme fica na trilha sonora: em função de questões de copyright não entrou nenhuma música dos Beatles, mas vários covers que são, até hoje, associados ao fab four como “Money”, “Please Mr. Postman” e, é claro, “Twist and Shout”. A banda que deu uma roupagem um pouco mais acelerada e 90´s para as canções, sem mexer muito nelas, foi formada para o filme e batizada de “Backbeat Band”, contando com Dave Pirner, do Soul Asylum, no vocal; Thurston Moore, do Sonic Youth, na guitarra; Mike Mills, do R.E.M., no baixo e Dave Ghrol, ex-Nirvana e futuro Foo Fighters, na bateria, entre outros.

Backbeat reinterpreta “Money”

2) The Magical Mystery Tour (John, Paul, George e Ringo, 1967)

Eu sei que foi um filme feito para a TV. Sei também que muitos consideram o pior dos filmes dos Beatles. Mas eu gosto. E gosto bastante. “The Magical Mistery Tour” foi um projeto quase pessoal de Paul e foi o mais enlouquecido e psicodélico dos filmes dos meninos de Liverpool. Uma banda fictícia (a Bonzo Dog Doo-Dah Band) faz uma excursão pelo interior da Inglaterra num ônibus amarelo. E não, não tente entender. Não há o que entender no filme. É uma colagem de clipes psicodélicos de algumas das melhores músicas dos Beatles. Lá estão, além da faixa-título, “The Fool on the Hill”, “Blue Jay Way”, “Your Mother Sould Know” e a canção-símbolo dessa fase psicodélica: “I Am the Walrus”. A tour do filme é para ser curtida sem preocupações com coerência, roteiro ou história. Roll up for the Mystery Tour!

Eu sou o homem-ovo. Eles são o homem-ovo. EU SOU A MORSA!! (Não entendeu? Não esquenta, ninguém entendeu. Nem eles, acho.)

1) O Submarino Amarelo (Yellow Submarine, George Dunning, 1968)

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Não poderia ser de outro ano. Essa animação é a celebração pura de 1968, o ano do verão do amor e do apogeu do movimento hippie e da contracultura. Plasticamente impecável, o desenho animado de longa metragem coloca os Beatles numa aventura no reino encantado de Pepperland, onde eles devem resgatar a Música e a Alegria. “O Submarino Amarelo” é o retrato de sua época. Alegre, psicodélico e apresentando ainda uma certa inocência, o sonho parecia muito vivo. As cores vivas e os personagens originais fazem com que o desenho soe, ainda hoje, atual. A trilha sonora, além das composições dos Beatles traz uma grata surpresa, que são os maravilhosos temas instrumentais de George Martin. As musicas de Martin casam estupidamente bem com as dos Beatles e mais ainda com o filme. Ele agrada crianças, adolescentes e adultos. A versão remasterizada, lançada faz pouco em DVD, é uma preciosidade. E há boatos de uma nova versão em 2012, usando recursos 3D e dirigido por Robert Zemeckis. Não tenho um bom pressentimento, mas enfim, resta esperar para ver…

Sir Paul se perguntava pelos seus 64… agora ele vem a Porto Alegre com 68!

Música

Gainsbourg Imperial

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por Cassiano Rodka

Em 2009, o compositor francês Serge Gainsbourg ganhou uma grande homenagem na cidade de São Paulo. O evento contou com uma exposição de fotografias e um show da Orquestra Imperial interpretando as músicas do compositor. A banda carioca apresentou um repertório escolhido a dedo pelo maestro Jean-Claude Vannier, um dos grandes parceiros de Gainsbourg, que também foi convocado a comandar a apresentação no Teatro Paulo Autran do SESC Pinheiros.

O clima normalmente despojado da Orquestra Imperial ganhou maior organização sob a mão ordeira do maestro e o resultado foi ótimo. A instrumental “Les Chemins de Katmandu” abriu o excelente setlist, que mesclou sucessos e faixas raras. Thalma de Freitas destacou-se com sua interpretação para “Contact”, cantada originalmente por Brigitte Bardot. O dueto “Bonnie and Clyde” foi cantado por Nina Becker e Stephane San Juan, membro francês da Orquestra e grande responsável pelo evento. Um dos grandes momentos da noite ficou por conta da participação de Jane Birkin, eterna esposa de Gainsbourg, ao lado de Caetano Veloso na linda interpretação de “Je Suis Venu Te Dire Que Je M’en Vais”. Caetano cantou ainda uma versão mais lenta para a bela bossa francesa “Baudelaire”, com direito à citação do samba “Siga” no finalzinho. O último bloco de canções foi baseado no álbum “Gainsbourg Percussions”, incursão gansbourgiana na sonoridade percussiva da música africana. Ou seja, prato feito para uma banda brasileira. “Couleur Café”, “New York-USA” e “Les Sambassadeurs” trazem uma boa dose de brasilidade ao palco, fechando com alegria a noite de celebração. Como ponto final da apresentação, Jane Birkin retorna sozinha ao proscênio e canta sua sempre emocionante versão a capella de “La Javanaise”, encerrando uma linda homenagem ao mestre da música francesa.

Se você, como eu, queria estar lá, mas não pôde, assista alguns dos melhores momentos no vídeo abaixo. E viva Serge Gainsbourg!

Cinema

Cuidado! Eles vem aí!!

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por Pedro Cunha

Eles quem? Boa pergunta. Durante muito tempo o cinema foi palco de grandes invasões dos mais diversos animais. De serpentes num avião a aranhas vindas da selva, de vermes assassinos a dobermanns treinados, quase todo tipo de animal já foi usado para aterrorizar as plateias dos cinemas. Talvez o primeiro deles tenha sido o clássico “King Kong” (MC Cooper, 1933), que já foi refilmado algumas vezes. No “Nosferatu” (F. W. Murnau, 1922) há uma cena fantástica com ratos. Animais já incomodaram no cinema muitas vezes e em tempos de “Piranha 3D” (Alexandre Aja, 2010) no cinema acho que vale a pena relembrarmos alguns dos principais sustos que nos foram pregados por animais selvagens no cinema…

Trailer de “Tubarão”, o pai de todos

Impossível não começar com o filme que definiu o gênero: “Tubarão” (Jaws, 1975) não só marcou um caminho que seria repetido até tornar-se clichê como também foi o primeiro grande sucesso de bilheteria de Steven Spielberg. O filme custou U$ 12 milhões e rendeu estrondosos U$ 470 milhões, permitindo que Spielberg fizesse, dali por diante, o que bem lhe entendesse. O filme tem uma narrativa tensa e o monstro, uma das estrelas do filme, só se revela muito no final. Isso e a histórica trilha sonora de John Williams fizeram com que o filme se tornasse um clássico, com mil e uma sequências (malsucedidas) e adaptações. A cena final, da explosão do tubarão, já foi alvo até dos mithbusters.

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O modelo mecânico “Bruce”, utilizado em “Tubarão”, batizou o tubarão vegetariano de “Procurando Nemo” (Finding Nemo, 2003)

Ficando ainda na água, “Piranha” (Joe Dante, 1978) é quase insólito de tão engraçado. E devidamente trash, como atesta o Selo Trash de Qualidade (também conhecido como produção executiva de Roger Corman, o imperador do trash). Se “Piranha” já é trash por natureza “Piranhas 2: Assassinas Voadoras” (Piranha Part Two: The Spawning) é sublime de tão trash. E, surpresa: dirigido por James “Avatar” Cameron! Foi o segundo longa produzido pelo diretor e muito pouco é necessário dizer sobre ele. São piranhas. Elas voam. Ponto. Diversão garantida!

Trailer de “Piranha”, de 1978

Um outro plot clássico é aquele que faz uma reflexão sobre como o descuido e o desleixo humano em relação à natureza podem acabar fazendo com que ela queira reagir. É o caso de “Alligator” (Lewis Teague, 1980) ou de “O Ataque das Formigas Gigantes” (The Empire of the Ants, Bert Gordon, 1977). Ambos os filmes foram, durante muitos anos, clássicos da Sessão das Dez, no SBT. “O Ataque das Formigas Gigantes”, aliás, segue um roteiro de H. G. Wells que deu origem a inúmeros outros filmes (inclusive a todos Tartarugas Ninjas…): pequenos animais expostos a substâncias radioativas crescem e tornam-se inteligentes, ameaçando os seres humanos. Mania que essa gente tinha de confundir radioatividade com fermento…

O Ataques das Formigas Gigantes. Pois é.

Ainda na linha “Sessão das Dez”, nos anos 80, dois telefilmes americanos costumavam atormentar nossas noites de domingo. “A Gangue dos Dobermanns” (The Dobermann Gang, Byron Chudnow, 1972) e a sua sequência, “A Volta da Gangue dos Dobermanns” (The Daring Dobermanns, Byron Chudnow) me fizeram ter muito, mas muito medo dessa raça de cães. Assim como um filme também me fez ter muito medo de um animal que, sei hoje, é extremamente dócil: “Orca, a Baleia Assassina” (Orca, Michael Anderson, 1977) é um filme de dar medo. A curiosidade do filme é a trilha sonora de Ennio Morricone. Um detalhe interessante. O filme é de 77 e visivelmente vai na trilha do “Tubarão” de Spielberg. Numa das cenas que mostram a selvageria das orcas os cetáceos atacam e dilaceram um tubarão branco, dando a entender que a orca é mais forte que o tubarão. A resposta foi dada em “Tubarão 2” (Jaws 2, Jeannto Szwarc, 1978) quando restos de uma orca aparecem na praia, destruídos pelo poderoso tubarão branco. Ah, e como eu descobri que a baleia assassina é dócil? Ué, você não viu “Free Willy” (Simon Vincer, 1993)? Eu sempre acredito no que aprendo no cinema…

“O Ataque dos Dobermanns”. Eu morria de medo.

Em termos de bizarro, nada supera aquele filme no qual Kevin Bacon vai a Perfection, uma pacata cidade do interior dos EUA para investigar estranhos tremores de terra, que justificam o título do filme em inglês (Tremors, Ron Underwood, 1990). Do meio para o final do filme revelam-se os causadores dos tremores, que justificam o título do filme em português: “O Ataque dos Vermes Malditos”. Sim, mais um título cheio de spoilers. Mas os ditos “vermes” tinham diversos tamanhos e podiam aparecer nos lugares mais inusitados…

Mais recentemente houve o hype trash “Serpentes a Bordo” (Snakes on a Plane, David Ellis e Lex Hallaby, 2006), com a improvável invasão de serpentes num voo que vai de Honolulu para Los Angeles. As serpentes foram deliberadamente soltas no avião para impedir um testemunho num tribunal, o que acabaria beneficiando um perigoso mafioso. Quem poderá impedir? Samuel L. Jackson, fazendo o papel de… Samuel L. Jackson, o BNMF mais BNMF do cinema americano.

Há cobras no avião. Há. Cobras. No. Avião. Entendeu?

Então a recomendação é comprar a sua pipoca e ir para a sala mais próxima assistir as Piranhas em 3D. Não espere uma reflexão profunda sobre a existência humana. Espere sustos, uma plateia gritando e, enfim, piranhas. Muitas delas, voando na sua direção.

Literatura

Perfil

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imagem: Anelise Schutz

por Marcella Marx

Comecei a mirá-lo pelos sapatos. Gosto de ver como as pessoas se prendem ao chão. Eram negros e grosseiros, porém com ar pueril – um tanto parecidos com os antigos congas da época da escola. Combinavam com seu rosto redondo e grande; com seus olhos escuros e seus espessos lábios. O cabelo lhe escorria de quando em vez sobre o olho e ele o retirava abrindo os dedos das mãos como um leque, aproveitando para penteá-los ao mesmo tempo.
A voz preenchia todo o galpão, voz grave de acalento que repetia e repetia:
– no, no? Como se para verificar se compartilhávamos de seu entusiasmo.
Homem que encontrou a razão de ser o que é: louco por pessoas e pelo que as faz ser quem são. Buscador daquela exceção que revela a regra de cada um – ou, como ele mesmo se define, um escavador. A cada “no” percebia sua vontade de continuar falando e mostrando as estranhas descobertas e as possibilidades de seu fazer – um tradutor de abismos e incoerências.
Os lábios se moviam tortos para o lado direito da boca, revelando uma imperfeição curiosa que por alguma razão me fez vidrar. O vai e vai daquele lábio oblíquo, que será que esconde? Confessar é palavra que afirma odiar. Talvez porque os pecados confessos e as confissões declaradas embacem sua visão. Bom mesmo é caçar a gente, cavocar as contradições lá do íntimo. Fazer gerar o que é na mistura do que nós somos.

Música

Quando um gênio interpreta outro

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por Cassiano Rodka

O que acontece quando a enorme criatividade musical de Brian Wilson percorre as partituras de George Gershwin? Em “Brian Wilson Reimagines Gershwin”, o compositor responsável pelas pérolas dos Beach Boys dá nova vida aos clássicos de um dos maiores compositores norte-americanos.

O disco inicia com a releitura de Wilson para “Rhapsody in Blue”, que ficou bem a cara do músico, com arranjo composto por diversas vozes e cordas. Já dá para sentir o clima do álbum, que é bem light e divertido. Em muitos momentos, fica fácil esquecer que as músicas não são composições de Brian Wilson, pois a sonoridade e os arranjos do produtor são tão característicos que ele realmente consegue se apropriar dessas tão conhecidas melodias. As exceções são as canções “Summertime” e “I Loves You Porgy”, que não foram levadas para muito além de suas composições originais. Já outras, renasceram nas mãos de Brian Wilson, como o formato bossa nova dado a “‘S Wonderful” e a interpretação baladinha anos 60 de “I’ve Got a Crush on You”.

No fim das contas, “Brian Wilson Reimagines Gershwin” é exatamente o que promete: um disco de clássicos de George Gershwin reinventados pelas muitas cores da paleta de Brian Wilson.

Literatura

Uma outra New York City (Parte II – Hotelaria, moda e comidinhas)

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Falando agora no hotel onde nos hospedamos – aliás, um lugar pra lá de badalado – com serviço e atendimento impecáveis, cheio de artistas, jornalistas, gente do mundo da moda e do cinema. Estava hospedada lá no mesmo período ninguém mais, ninguém menos que a atriz norte-americana Meg Ryan, de quem sou fã há anos! When Harry Met Sally, Sleepless in Seattle e You’ve Got Mail são algumas de minhas comédias românticas preferidas. Volta e meia se encontrava gente famosa no barzinho do hotel, principalmente nos últimos dias, que antecederam ao Fashion Night Out, um conhecido evento de moda que precede a NYC Fashion Week. Vi Karl Lagerfeld e a maluca Courtney Love, que foi casada com o ícone do rock grunge dos anos 90, Kurt Cobain, líder do Nirvana.

Falando em moda, o SoHo é cheio de coisas que não se vê por aqui: Custo Barcelona, badalado estilista de moda espanhol, tem um Outlet na Spring Street que estava vendendo roupas por 19 dólares… Sim, uma saia que custava, originalmente, 200 dólares, saiu por 19! Isso, só no SoHo. Experimente ir para a 5th. Avenue pra ver o que acontece com sua grana…! No mais, pode-se encontrar de tudo em matéria de cosméticos: desde as tradicionais Sephora, francesa e a M.A.C, canadense, que enlouquecem as mulheres do mundo todo, até a moderninha Tara Tarantino e a Face Stockholm, que tem uns produtinhos de banho bárbaros. As lojas de roupas se espalham gloriously pelas ruas mais badaladas do bairro: Spring, Mercer, Greene, Broome, Bleecker, Crosby, Wooster, Laffayete, Canal e por aí vai. Vale a pena conferir o máximo de lojinhas diferentes que o seu ânimo – ou a sua grana – aguentarem!

Fechando a jornada com chave de ouro, comidinhas e bebidinhas do outro mundo… Alguns restaurantes cool e deliciosos indicados, aliás, pelo guia A Nova York de Carrie, Miranda, Charlotte e Samantha, são dignos de nota: Da Silvano, na 6th Avenue, é um italiano com comida da charmosa região da Toscana, moderninho, com mesinhas na calçada e excelente comida. Comi uma das melhores pastas al pesto da minha vida lá, coroado por uma saborosa sobremesa chamada Panacotta, feita com queijo mascarpone e chocolate – divina…! Ainda italian, o Il Cantinori, um dos preferidos de Francis Ford Coppola, é um achado. Fica na 10th Street, um pouquinho fora do SoHo, mas poderia estar dentro dele, porque segue o espírito do bairro. A maior surpresa ficou por conta do concorridíssimo, moderníssimo e “ecletíssimo” Cafeteria, também indicado pelo guia que já mencionei. O Cafeteria é uma mistura de diner com barzinho, mesinhas na calçada e gente super fashion e com muita personalidade. Comemos muito, muito bem mesmo, saladas deliciosas e sanduíches impecáveis, o tal BLT (bacon, lettuce and tomato), com bacon, tomate e alface, uma verdadeira maravilha gordurosa, mas extremamente bem feita, como se o tivesse sido feito em um restaurante três estrelas do Michelin! Com uma cerveja ótima, claro, porque o calor estava de matar…

Ainda falando de comidinhas, o restaurante do nosso hotel, o Mercer’s Kitchen, era igualmente impecável: o melhor menu de breakfast que já vi em minha vida: perfeitas buttermilk pancakes, French toasts, eggs Benedict e saborosas carnes (sim, eles comem carnes no café), salsicha de frango com gengibre e especiarias e o maravilhoso Nieman ham (presunto grosso, que mais parece uma fatia de carne suína!), estrelas do café da manhã. Isso sem mencionar o capuccino dos caras, espumante e perfeito, concorrendo em pé de igualdade com os servidos na Itália. Ah! Ainda, dignos de nota, no bar do restaurante, a Ginger Margarita dos caras, feita com gengibre e salzinho especial na borda do copo e o Mojito feito com suco de abacaxi, além dos ingredientes tradicionais da bebida. E a soft crab salad, algo muito diferente e saboroso, que acompanhou nossos drinks.

Muito importante, finalmente, para quem ama gastronomia (meu caso!), é  dar uma passadinha básica no Dean&DeLuca, uma espécie de delicatessen, mercadinho chique de comidas, que é já tradicional por lá, bem grande e muito, mas muito completo. Tem de tudo, desde frutas e comidas prontas, até peixes, frutos do mar, temperos diferentes, cafés, pães, algo de enlouquecer qualquer pessoa que aprecie um pouquinho que seja a arte de comer…

Ficou com vontade? Ainda dá tempo de passar um perfeito final de ano nesse melhor e mais suculento pedaço da Big Apple…! Enjoy!

Literatura

Renascer é preciso

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“Renascer é preciso”, disse ele mais uma vez. E deitou-se no chão em posição fetal, desprovido de roupas e desnudo de preocupações. Sentiu o calor liquefeito da placenta preencher pouco a pouco o imenso vazio ao seu redor. Viu-se aquecido e protegido, abraçado fortemente pelo silêncio. Depois de alguns instantes, seu repouso foi interrompido pelo incômodo descascar de sua pele. As primeiras rachaduras são as mais dolorosas e causam espasmos. Eles, por sua vez, causam mais rachaduras. O corpo entrou em chamas e desfez o enorme casulo. Em meio a cinzas de si mesmo, levantou-se o outro. Olhou o mundo pela primeira vez e sentiu-se como um papel em branco, pronto para receber em seu corpo as marcas de uma nova história.

Cinema

Tropa de Elite 2

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por Pedro Cunha

Eu fui ao cinema na última segunda-feira para assistir “Tropa de Elite 2” (José Padilha, 2010) tendo quase certeza do que eu iria encontrar. E achando, aliás, que não seria grande coisa. Tinha dois receios grandes. O primeiro deles é o tradicional receio das sequências. “Tropa de Elite”, de 2008, foi um dos maiores acontecimentos da história do cinema nacional e parecia uma história contada sem programação de sequência. Um 2 agora, dois anos depois, gritava “CAÇA NÍQUEIS” nos meus ouvidos. E o segundo receio é que eu tenho uma implicância grande com o primeiro filme por um motivo que, sendo justo, pouco tem a ver com ele, que é a leitura rasa e equivocada que a maioria das pessoas faz do filme e que promove o Capitão Nascimento a herói e repete aquela cantilena de “bandido bom é bandido morto, tem mais é que atirar em todos eles mesmo”. Esse discurso me incomoda e, sendo justo, ele não é o discurso do primeiro filme, mas sim uma leitura que tiram dele. O trailer do filme, que eu já tinha visto umas vezes, não prometia nada diferente do primeiro. Pelo contrário, parecia anunciar mais do mesmo, requentado e reprocessado. Pois é, parecia.

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Vai encarar? André Mathias, o “Aspira”, está de volta, agora comandando um esquadrão

Pois bem, eu fui. E a primeira coisa que eu tenho que dizer é que “Tropa de Elite 2” se justifica plenamente. Padilha fez o roteiro em conjunto com Bráulio Mantovani, um dos expoentes da nova geração do cinema brasileiro. Mantovani foi roteirista em Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002), Última Parada 174 (Bruno Barreto, 2008) e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (Cao Hamburger, 2006), alguns dos filmes de maior repercussão na última década no Brasil. O roteiro é mais encorpado do que no primeiro Tropa e dá a impressão que Padilha, injustamente acusado de “fascista” após o primeiro longa, decidiu ser muito claro nesse segundo. A hiperviolência que por vezes foi exagerada em 2008 não está ausente, mas sua presença é mais discreta. Está lá, para quem gosta, mas de uma maneira bem mais suportável.

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Nascimento e o filho: relação complicada e amadurecimento do personagem

Sem entrar em detalhes do roteiro para evitar muitos spoilers (mas já aviso: HÁ SPOILERS NO TEXTO), Padilha já no começo faz a crítica à recepção que o primeiro longa teve. Numa das primeiras cenas do filme, após uma desastrada operação antimotim em Bangu I, Nascimento entra num restaurante para confrontar o secretário estadual de segurança pública. A cena começa nos políticos, que conversam entre si e chamam Nascimento de “louco”, “celerado” e “alucinado” em função da chacina de diversos presidiários pelo BOPE. Quando o próprio agora Tenente-Coronel Nascimento entra no restaurante os políticos assistem, incrédulos, o restaurante inteiro levantar e aplaudir o policial. Ainda com cara de tacho eles próprios abraçam e dizem ser “uma satisfação” ter Nascimento ali. Para mim a cena é uma clara alusão ao tratamento de herói nacional que o então Capitão Nascimento recebeu depois do primeiro filme.

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Fortunato, o apresentador/político corrupto caricaturalmente construído pelo ótimo André Mattos

A discussão a que o filme se propõe fica mais ampla com a introdução de outros personagens importantes, dos quais o fundamental é Fraga, ativista dos direitos humanos e deputado (dizem ser inspirado em Marcelo Freixo, um deputado do RJ). O ator Irandhir Santos está bastante a vontade no papel e segura bem demais ao lado de Wagner Moura, que sabemos que não é fácil. Fraga e o seu humanismo fazem o contraponto ideal para a truculência de Nascimento, que enxerga o mundo em preto e branco e dividido em bem e mal. Ambos os personagens, no início do filme, são um pouco caricatos demais. Felizmente tanto um quanto o outro são um pouco suavizados no decorrer do filme. A relação de Fraga e Nascimento com o filho do comandante do BOPE também é um dos detalhes interessantes do filme. Além deles temos o apresentador “isso é um absurdo!!” histriônico de tevê, no maior estilo Datena, brilhantemente encarnado por André Mattos. Fábio (Milhen Cortaz), o policial corrupto do primeiro filme, está de volta muito mais nocivo, fazendo parceria com Russo (Sandro Rocha). Os corruptos se dão conta que com a saída do tráfico das comunidades, afugentado pelo BOPE, abre-se espaço para uma série de outros negócios tão (ou mais lucrativos) do que receber propina do tráfico. É o surgimento das milícias, que hoje são um problema tão grande ou maior que o tráfico. O panorama fica ainda mais amplo quando Padilha coloca os políticos na roda. O secretário de segurança do Rio, o próprio governador e todos os seus assessores aparentemente sem função completam um quadro que é complexo, definitivamente. O discurso final do próprio Nascimento na CPI das Milícias, convocada por Fraga, é tremendamente didático: a solução apontada pelo militar passa longe da lógica simplista “bandido/cidadão” que era bastante esperada por alguns. O filme consegue passar essa mensagem de difícil reflexão sem deixar de lado a catarse do bem contra o mal, que tanto fez pelo primeiro filme. A cena na qual Nascimento espanca o secretário de segurança já está na lista das cenas mais antológicas da história do cinema brasileiro.

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Fraga: ativista de direitos humanos e contraponto do Tenente-Coronel Nascimento

A direção de Padilha dá ao filme um ritmo hollywoodiano. Há quem diga isso em tom de crítica, o que não é meu caso. A levada as vezes é frenética, como nas ótimas cenas de ação, e por outras vezes alivia, nas cenas mais pessoas, para nos dar um tempo para respirar. Os efeitos visuais e o som são de qualidade extrema, fazendo valer o investimento em técnicos americanos de efeitos. Em termos visuais a cena do início do filme, no presídio Bangu I (onde Seu Jorge, o arroz de festa do cinema brasileiro, faz uma ponta como presidiário), com a narração de Nascimento no fundo, poderia valer o filme, se ele não fosse substancialmente bom. Poderia valer pelo filme também a atuação madura e segura de Wagner Moura. Sem a farda preta do BOPE seu Nascimento ganhou mais profundidade e deixou de ser tão bidimensional quanto no primeiro filme. Tornou-se mais humano e, portanto, mais próximo de nós.

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Nascimento sem farda: surpresa, ele é humano!

“Tropa de Elite 2” conseguiu em uma semana a marca quase absurda de 2,9 milhões de espectadores. O recordista de todos os tempos do cinema nacional, “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (Bruno Barreto, 1976) corre seríssimos riscos de ser batido, já que foi visto no cinema por 10,7 milhões de pessoas. Essa audiência toda quer dizer alguma coisa: o público quer ver, pensar e discutir esse problema. Porque essa é a melhor qualidade do filme, ao meu ver: ele não traz uma resposta pronta. Ao jogar um monte de questões no ar e terminar com uma cena panorâmica do Congresso Nacional, ele dá o que pensar. “Tropa de Elite 2” talvez seja o maior filme da história do cinema brasileiro. E consegue isso sem deixar de ser um dos melhores, qualidades que não andam juntas tão comumente.