Clarice Dall’Agnol

Cinema

Round One… Fight!

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por Pedro Cunha

Sabe quando nos flagramos no cinema sem respirar? Quando percebemos que estamos quase arrancando os braços das poltronas? Quando nos damos conta que estamos com os ombros duros? Algumas cenas de ação são especialmente felizes em causar esse encantamento e, dentre elas, as cenas de luta são consideradas especiais. A primeira cena de ação memorável do cinema foi a histórica corrida de bigas em “Ben-Hur” (William Wyler, 1959). Aproveitando-se das grandes novidades que eram o “cinemascope” e o “technicolor”. Se nos anos 40 e 50 Errol Flynn deixou o mundo sem ar com seus filmes de piratas e capa e espada o gênero de ação foi redefinido na década de 1960. Dois diretores foram responsáveis pela quase recriação do gênero: Steven Spielberg, com “Tubarão” (Jaws, 1975), e George Lucas, com “Guerra nas Estrelas” (Star Wars, 1977). O filme de Lucas, do meio para o fim, desde a cena no compactador de lixo, tem um ritmo alucinante.

Desde os anos 80 os filmes de ação tem se destacado em função das cenas de luta. Herois e vilões da tela grande encheram nossos olhos em cenas que nos arrepiaram. A ideia hoje é comentar um pouco as melhores (como sempre, em minha opinião) cenas de luta da história do cinema. Então prepare-se:

5) Ash x Sua Própria Mão em “Uma Noite Alucinante” (Evil Dead 2, Sam Raimi, 1987)

O diretor Sam Raimi, antes de fazer sucesso com a franquia Homem-Aranha foi o responsável por uma das cenas de luta mais improváveis da história. O ótimo filme de “terrir” “Uma Noite Alucinante” tem excelentes momentos, como a dança dos mortos, mas nada supera a batalha de Ash, o personagem principal, contra a sua própria mão. As caras de Bruce Campbell, o ator que faz o protagonista, ajudam a tornar o clima ainda mais surreal.

4) Neo x Morpheus em “Matrix” (Irmãos Wachowski, 1999)

Matrix, o primeiro filme da trilogia, foi um dos filmes que definiu o cinema do século XXI. Algumas tecnologias e recursos de CGI que depois tornaram-se clichê surgiram nesse filme e se hoje parecem banais, onze anos atrás eram estupefacientes. A cena do dojô virtual na qual Morpheus (Laurence Fishburne) ensina para Neo (Keanu Reeves) como utilizar a matrix a seu favor foi composta por alguns minutos que mudaram a história do cinema. Atire a primeira pedra quem nunca imitou a mãozinha de Morpheus chamando Neo para a luta…

3) Luke Skywalker x Darth Vader em “O Império Contra-Ataca” (The Empire Strikes Back, George Lucas, 1980)

Bom era o tempo em que o bem era bem e o mal era mal, não? Pois então, o épico espacial de Lucas tem nesse filme, o segundo gravado, o seu melhor e mais sombrio. A cena de luta (crianças, lembrem-se, é 1980!!) abusa da CG e da iluminação, além de ter no seu final uma revelação surpreendente e uma das melhores frases da história do cinema: “Luke: eu sou seu pai!”. Confira: são quatro minutos de tirar o fôlego…

2) Noturno x toda a segurança do presidente dos EUA em “X-Men 2” (Bryan Singer, 2003)

O melhor filme dos X-Men gasta a sua melhor cena no início. Alan Cumming, que até então não fazia parte da franquia, interpreta o mutante azul que usa e abusa dos seus poderes de teleporte para ameaçar o supremo mandatário dos EUA. Eu, que gosto para caramba de quadrinhos e de X-Men, especificamente, acho a melhor cena de todos os filmes-X:

1) Beatrix Kiddo x O-Ren Ishii em “Kill Bill volume 1” (Quentin Tarantino, 2003)

Tarantino é mestre em cenas de ação. Pensando bem eu poderia fazer uma lista das melhores cenas de ação de Tarantino. Ou eu poderia fazer uma lista das melhores cenas de luta de Kill Bill. Ou ainda, poderia fazer uma lista das melhores cenas de luta SÓ do volume um. Confesso que quase, QUASE coloquei duas lutas do filme na lista. Ia colocar também a cena de Beatrix Kiddo contra os 88 Malucos (que não eram 88, apenas gostavam de ser chamados assim…). Mas Uma Thurman, Lucy Liu, um dojô japonês, neve e Santa Esmeralda… é a combinação exata de trashera e kitsch-brega que só Tarantino sabe dosar!

Literatura

Tempo passou

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imagem: Anelise Schutz

por Marcella Marx

Tempo passou.
Os desenhos feitos com giz de cera foram jogados fora.
E a vontade de fazê-los encoberta pela necessidade de fazer outras coisas.
A voz que cantava manhã até noite foi cessando,
cessando até se perder em meio a outros ruídos maiores.
Poucas fotos sem foco e já amarelas para guardar.
Mas… ela ainda gosta de sorvete de pistache.

Cinema

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 (Harry Potter and The Deathly Hallows – Part 1, David Yates, 2010)

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por Pedro Cunha

O Começo do Fim

Estou escrevendo 10 minutos depois de chegar do cinema, onde assisti a sessão de pré-estreia. Aliás, agradeço ao Shopping Bourbon Country: me inscrevi por e-mail numa promoção deles ontem e hoje fiquei sabendo que tinha ganhado ingresso, pipoca e refrigerante para duas pessoas na sessão das 21h da pré-estreia. Eu tinha me programado para assistir “A Laranja Mecânica” (The Clockwork Orange, Stanley Kubrick, 1971) de graça na Sala Redenção (http://tiny.cc/salaredencao), mas tendo ganhado o ingresso resolvi ir conferir o bruxinho.

David Yates assumiu a franquia Harry Poter no quinto filme da série, “Harry Potter e a Ordem da Fênix” (Harry Potter and the Order of the Phoenix, 2007). O diretor até então tinha apenas trabalhos na TV e assumiu uma grande responsabilidade: a franquia, apesar das bilheterias exitosas, era bastante irregular. Os dois primeiros filmes, “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (Harry Potter and the Sorcerer’s Stone, 2001) e “Harry Potter e a Câmara Secreta” (Harry Potter and The Chamber of Secrets, 2002) foram dirigidos por Chris Columbus e, como seria de se esperar, tinham um ar mais infantil. O terceiro filme, “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” (Harry Potter and the Prisioner of Azkaban, 2005) foi durante muito tempo o mais elogiado da série: além de contar com a direção do espanhol Alfonso Cuarón ainda tinha a fantástica estreia de Gary Oldman na franquia no papel de Sirius Black, o padrinho de Harry. O experiente Mike Newell foi responsável por “Harry Potter e o Cálice de Fogo” (Harry Potter and the Goblet of Fire, 2005) e não conseguiu satisfazer os fãs da série (não, eu não consigo usar “saga”…), que queriam a volta de Cuarón para os filmes seguintes.

O primeiro dos trabalhos de Yates com os bruxos, “HP e a Ordem da Fênix”, era um momento em que a trama fazia uma curva bastante aguda, tornando-se mais sombria e adulta. Yates conseguiu dar esse tom ao filme e fez algumas das adaptações necessárias, fazendo o “clamor” por Cuarón diminuir bastante. Seu trabalho seguinte, “Harry Potter e o Príncipe Mestiço” (Harry Potter and the Half-Blood Prince, 2009), foi o melhor da série até então. A cena da morte do mentor de Harry, Dumbledore, por mais que tenha sido mudada em relação ao livro, ainda assim ficou extremamente tocante. Yates conseguiu dar a esses filmes o tom mais gótico que eles deveriam ter e quando começou a produção dos últimos filmes quase ninguém além dos mais xiitas reclamava da presença de Yates na condução da franquia.

A divisão da trama do livro em dois filmes foi saudada por mim e por muita gente. Os livros são extremamente densos e muita coisa bem legal se perde pela necessidade de enxugar e transpor para a linguagem cinematográfica a obra literária. Com dois filmes o roteirista Steve Kloves, o mesmo responsável pela adaptação das obras anteriores, pode ser um pouco mais flexível trabalhar mais tranquilamente. A trama começa de onde para o filme anterior e desenrola-se alternando cenas de ação (a melhor, disparado, é o confronto com a serpente Nagini em Godric’s Hollow) e de introspecção focando quase o filme inteiro em apenas três personagens, os protagonistas da obra: Harry Potter (Daniel Radcliffe), Hermione Granger (Emma Watson, a melhor dos três) e Ronny Weasley (Rupert Grint). As relações de amizade dos dois amigos com Potter e a latente paixão entre Ronny e Hermione são excelentemente trabalhadas pelo diretor e pelos atores, que conhecem bem os personagens e os encarnam sem mistério. Se dessa vez temos pouco Alan Rickman, sempre excelente como Severo Snape, e nenhum Gary Oldman; somos brindados com a maior participação, até agora, de Ralph Fiennes como Lord Voldemort, o grande vilão da série. Além é claro da vilã mais odiada da série, Belatrix Lestrange, vivida por Helena Bonham Carter que está sublime (como se em algum filme ela não estivesse, enfim…)

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Não, não é a Amy Winehouse. É Bellatriz Lestrange, aquela que nós adoramos odiar

A produção continua caprichada, como nos últimos filmes. Predominam as cenas noturnas, os tons de cinza, azul-escuro e preto e os tons sombrios. Uma das sequências mais bacanas do filme é feita em animação, em tons de marrom, quando é contada a “História dos Três Irmãos”, a suposta origem das tais relíquias da morte. A trilha sonora de Alexandre Desplat (estreando na franquia) é muito discreta e vai nos tensionando aos poucos, como os próprios personagens. Um ponto positivo do filme é que mesmo quem já conhece a trama fica nervoso em determinados momentos. Eu não tenho certeza, no entanto, se as coisas na trama ficam suficientemente claras para aqueles que não leram o livro. E em determinado momento há uma frase dos personagens que me confunde. Se ele disse o que eu acho que quis dizer então há uma cena que não consegue passar o que deveria. Enfim, só saberei disso em julho do ano que vem, quando “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2” entrar em cartaz dando final a uma das cinesséries mais lucrativas de todos os tempos.

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Harry (Radcliff), Ronny (Grint) e Hermione (Watson): O filme é centrado nos três, que seguram legal.

Se vale a pena? Se você viu os filmes anteriores, com certeza vale. Se leu os livros e é fã da série, não é que valha a pena: é obrigatório.

Literatura

Aqui, hoje

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“And If I say I really loved you
And was glad you came along
Then you were here today.
Uh, uh, uh, for you were in my song.”

“Here Today”, Paul McCartney
“Esta noite, eu finalmente entendi a Beatlemania”. Foi a frase que ouvi de meu Padrinho, Jorge, após o show de Sir Paul McCartney em Porto Alegre, no último dia 7 de novembro de 2010. Um dia para ficar na história do rock’n’roll. E também na história de Porto Alegre, do Brasil e na história da minha família, uma família beatlemaníaca.

Eu nunca tinha ido a um show em estádio. Tenho pavor de multidões, então, sempre evitei qualquer tipo de aglomeração. Dia desses, fui a uma final de campeonato de futebol – especificamente um GreNal, o clássico do futebol gaúcho – e isso me deu um pouco mais de coragem.

Quando eu soube que Paul McCartney viria ao Brasil, e tocaria em Porto Alegre, prometi ao meu filho mais velho, Vito, de 11 anos (um dos mais jovens beatlemaníacos do mundo!), que nós iríamos a esse show, chovesse ou fizesse sol! E fez sol. E como fez sol no último dia 7 de novembro de 2010. Um sol escaldante de 32 graus instalou-se na cidade para receber o mais “comportado” e hoje mais aclamado dos Beatles, na minha terra natal. Em Porto Alegre, quando faz calor, é calor meeeeesmo. Quem é porto-alegrense sabe muito bem disso. E quem é porto-alegrense não esquecerá facilmente esse 7 de novembro de 2010. Na minha memória, ao menos, vai ficar gravado como o dia mais quente de minha vida. Um dia de aquecer não só o corpo, mas principalmente a alma e todas as emoções. De fritar o coração, de escaldar os nervos, de ferver os ouvidos e garganta. Tudo por obra da melhor música já feita nos últimos tempos.

E para Porto Alegre fomos, de avião, na manhã do lindo domingo que foi o dia 7 de novembro. Eu, Vito e o Márcio, aquele colorado fanático, meu marido. Chegando em Porto, encontramos meu irmão, o Cassi Rodka, que todos vocês conhecem bem (ele postou nessa semana belíssimas impressões dele sobre o show na seção Música deste P2, confiram!). O Cassi estava com nossos ingressos, retirados com antecedência no Estádio Beira-Rio, casa de tantos momentos maravilhosos para o nosso time, o Internacional de Porto Alegre, que agora abrigaria com carinho um dos quatro garotos de Liverpool. Assim, convidamos o meu mano para nos acompanhar nos nossos deliciosos momentos “pré-show”.

Assim, fomos para o hotel, onde também estavam hospedados Paul, banda e equipe toda. A emoção era gigante. Meu filho não conseguia conter o entusiasmo e a ansiedade, pois torcia por poder dar de cara com seu ídolo. Almoçamos no hotel, que estava cheio de fãs do lado de fora e também no lado de dentro, pessoal que se hospedou lá apenas para tentar “tirar uma casquinha” de Sir Macca! Minha irmã, Camila, também chegou depois por lá, e, juntos, ficamos de “tocaia”, no lobby do hotel, pois havia rumores de que Paul sairia logo para o Beira-Rio. A banda desceu antes, e conseguimos autógrafos e fotos com os fabulosos músicos de Paul: Abe Laboriel, baterista; Brian Ray e Rusty Anderson, guitarristas, e Paul “Wix” Wickens, tecladista. E nada dele! Esperamos, impacientes, até que um burburinho começou a indicar que ele estava por descer de seu quarto para o lobby. Os seguranças armaram um cordão de isolamento e pediram que não ultrapassássemos. Ai, ai, ai!! Ele estava chegando! Vito estava emocionadíssimo. Nós cinco começamos a combinar quem iria filmar, quem iria tirar fotos, e quem iria tentar pegar um autógrafo. Depois de uns quarenta minutos de espera, o elevador se abre, e Sir Paul aparece, fingindo surpresa (colocou as mãos na boca). De óculos escuros, sorrindo e acenando amigavelmente para todos. Um cara pra lá de simpático. Aliás, um dos jornais locais o chamou, muito apropriadamente, de “Sir Simpatia”. Cercado por seguranças, passou desfilando pelo lobby, enquanto o povo gritava e clicava sem parar! Meu irmão conseguiu tirar fotos e apertar a mão dele (sim!), e meu filho e meu marido fizeram ótimos filminhos. Eu estava decidida a apenas olhar, sim, observar, porque é o que faço de melhor nesta vida, depois de escrever, claro(!). Já na rua, os fãs que estavam do lado de fora foram à loucura, e Paul continuou sendo mega caloroso com todos. O autógrafo, infelizmente, não deu para pegar. Ah, mas já valeu demais. Só vê-lo de pertinho já foi muito emocionante.

Em seguida, começamos a nos organizar para sair para o estádio. Eram ainda quatro horas da tarde, e o show só começaria às nove, mas meu irmão, um frequentador de shows veterano (já esteve cara a cara com Mike Patton!), recomendou que fôssemos cedo. Lá chegando, ainda ficamos algum tempo aguardando a abertura dos portões dentro de nosso carro, pois o calor estava de matar.

A fila do Gramado VIP, onde ficamos, andou sem maiores problemas. Entramos no Beira-Rio por volta das seis da tarde, e foi uma imagem fantástica. O estádio já estava bem lotado, mesmo faltando três horas para o início do show. Encontramos meu Padrinho, de quem já falei no início desta crônica, e também na crônica “No Submarino Amarelo”. Ele foi o responsável pela Beatlemania na nossa família. Ele estava com a minha tia Maria Augusta, e suas quatro filhas, minhas primas Luísa, Laura, Isabel e Lívia estavam espalhadas por outras áreas do estádio (infelizmente, por conta da loucura que foi a venda de ingressos, não conseguimos ficar juntos, mas certamente estávamos todos juntos em pensamento, cantando e chorando de emoção e felicidade!).

Estávamos todos muitos felizes por estarmos ali. O show ainda nem havia começado, e eu já me sentia totalmente contagiada pelo clima do espetáculo que estava por vir. Eu e meu filho fomos a uma banca que vendia camisetas do show, porque ele queria muito ter uma lembrança (ele adora lojinhas de “souvenirs”). Comprou uma linda camiseta preta, onde se lia “Paul McCartney Up and Coming Tour Brasil”, com uma bandeira do Brasil ao fundo e uma foto do Paul por cima.

E chegou a hora! Após a abertura, feita por uma banda chatinha pra caramba, os telões começaram a exibir imagens com Paul e os Beatles em diversas fases de suas vidas e carreiras, com algumas músicas deles tocadas em mixagens diferentes. Muito bonito, legal demais. Quando as imagens cessaram, as luzes se apagaram. Ao se acenderam novamente, a banda entrou, com Paul à frente. Coração em disparada, senti que minha alma se destacou do meu corpo, e eu parecia que eu podia ver meu rosto em êxtase! Uma sensação inigualável e inesquecível…

Quando ouvi os primeiros acordes de “Venus and Mars”, a canção que abriu o espetáculo, fui invadida por uma felicidade imensa e incomparável. Já dei à luz dois filhos: não há êxtase maior. Mas ouvir Paul McCartney a alguns metros de distância arrepiou-me desde os fios dos cabelos até as pontinhas dos dedos dos pés. Meu filho, que estava já confortavelmente postado na garupa de meu marido, trocou comigo um olhar mais do que cúmplice, com um sorrisinho de canto de lábios que só ele sabe dar: ele estava me dizendo (porque ele sempre fala comigo pelo olhar), “Mamãe, o cara tá aqui!”.

Depois de tocar as duas primeiras músicas, ele deu um empolgado “Boa noite, Porto Alegre! Boa noite, Brasil!” (pronunciando, “Boa noitchi”!), seguidos de um gigantesco grito da plateia inteira, emocionada, gritando, pulando, traduzindo a essência da Beatlemania. E não foi só isso que ele falou em português: se esmerou para dizer muita coisa para a plateia em nossa língua, mas se esmerou mesmo, como se tivesse ensaiado com muito afinco, um bom aluno, sem dúvida! “Bah, tchê”, “Tri legal”, “Vamos lá, gaúchos” (dizia “gaútchus”), foram as frases que levaram a multidão à loucura. Outras frases: “Essa música eu fiz para a minha gatinha Linda” (antes de tocar “My Love”), e “Essa música eu fiz para o meu amigo John” (antes de “Here Today”, linda música, letra de levar às lágrimas), e ainda “Essa é para o meu amigo George”, que disse antes de cantar “Something”, que foi um dos momentos mais emocionantes para mim, já que George é o meu segundo beatle favorito, e “Something”, umas das minhas canções preferidas. Na hora de “Something”, ao fundo, no telão do palco, apareciam imagens de George, lindas! Mais ao final, entoando um “Ah, eu sou gaúcho”, os fãs ainda fizeram com que Paul repetisse a frase! Demais, demais, demais!

E assim, em uma sucessão de canções cuja ordem sabíamos de cor, já que o Cassi tratou de nos enviar o “set list” há mais de um mês, cantamos, gritamos, dançamos, pulamos e choramos, em uma catarse coletiva como eu nunca tinha visto em minha vida. Meu filho parecia perplexo. Seus olhinhos pareciam cansados e ao mesmo tempo incrédulos: “Mamãe, o cara está MESMO aqui!”. Meu marido aguentou bravamente o guri nas costas, durante quase todas as três horas de show, cantando emocionado “Band on the Run”, “Live and Let Die” e “The Long and Winding Road”, suas músicas preferidas.

Pulei e gritei demais em “Back to the U.S.S.R”, “Helter Skelter” e “O-Bla-di-O-bla-da” (que foi tocada pela primeira vez no Brasil, de acordo com informação dada pelo próprio Paul) e vibrei e me emocionei demais particularmente em “Something”, “I’ve Just Seen a Face”, “Blackbird”, “Here Today”, “Let it Be”e “Hey Jude”, que provocou um dos momentos mais bonitos do show, com o povo todo acendendo isqueiros e celulares e cantando, de acordo com o que Paul pediu, novamente em português, “Só os homens!”, e “Só as mulheres!”, e “Everybody now!”. Um espetáculo à parte!

Quando foi cheganda a hora de Paul tocar e cantar as duas últimas músicas do show, “Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e “The End”, eu juro que comecei a ficar com vontade de chorar, porque a minha alegria era muito imensa, e também porque eu não queria que o espetáculo acabasse jamais… Eu nunca pensei que fosse tão fantástico assim assistir a um show em estádio lotado. Principalmente quando este show foi orquestrado por um de meus ídolos, Paul McCartney. Foi como se eu tivesse tomado um banho gigante de uma chuva leve e super refrescante, uma chuva que me fazia massagens sutis no espírito.

Saí de lá com um alívio imenso, como se eu tivesse tirado o peso do mundo de meus ombros: “Don’t carry the world upon your soulders!”. Meu irmão Cassi me disse que só ao final do show eu sentiria fome, cansaço, sono, vontade de ir ao banheiro, tudo junto. Ele tinha razão. Durante o show, foi como se o corpo parasse por três horas. Só a mente trabalhou, irracionalmente, fazendo um desenho de cores e sons nunca antes por mim vistos. Fazia tempo que eu não me divertia tanto assim, fazia tempo que eu não ficava tão feliz assim. Fico revivendo os momentos do espetáculo, e isso me faz um bem imenso. Foi como eu tivesse entrado uma pessoa, e saído outra. Depois do dia 7 de novembro de 2010, minha vida nunca mais será a mesma. Será mais leve. Disso tenho uma certeza muito presente. E crescente.

Thanks a lot, Sir Paul McCartney.

Cinema

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger, Woody Allen, 2010)

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por Pedro Cunha

Todo mundo tem um restaurante preferido. Aquele restaurante que a gente conhece cada mesa, mas tem uma preferida, que quando está ocupada acaba nos deixando com um sentimento quase que de assalto. Nesse restaurante o garçom nos trata pelo nome e não pergunta qual a bebida que nós queremos. Ele pergunta como vão as coisas no trabalho e sobre aqueles amigos que vem sempre junto, porque eles não vieram dessa vez e essas coisas. Na hora de pedir nós já conhecemos cada um dos itens do cardápio. E mesmo que já saibamos exatamente o que vamos pedir, sempre damos aquela passada de olhos no cardápio para ver se tudo continua certo ali. Quando chega o prato nós já sabemos o que vem. Já sabemos como cheira, já sabemos o gosto que tem. Ao colocar o primeiro pedaço na boca a satisfação que sentimos é a satisfação da repetição: é comer algo que gostamos muito e que já sabemos exatamente quais sensações irá nos despertar. Pois então, é mais ou menos assim que eu vou assistir a qualquer filme novo do Woody Allen.

“Você Vai Conhecer o Homem da Sua Vida” (um título que não tem relação com o filme e que, argh, dá a impressão de uma comédia romântica das mais vagabundas), o quadragésimo quinto filme dirigido por Woody Allen, não tem data de estreia prevista no Brasil. Quando eu vi no jornal que haveria uma sessão de pré-estreia em Porto Alegre, nem pensei duas vezes. Garanti o ingresso e fui feliz, tendo uma boa ideia do que ia ver.

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Allen dirige Naomi Watts pelas ruas de Londres

O filme passa-se em Londres, mais uma vez, como em “Match Point” (2005), “Scoop – O Grande Furo” (2006) e “O Sonho de Cassandra” (2007) . Depois deles o diretor foi à Espanha em “Vicky Cristina Barcelona” (2008) e voltou à sua Nova Iorque em “Tudo Pode dar Certo” (2009). As paisagens, os parques e os prédios de Londres já são manjados pelo diretor/roteirista, que consegue ambientar a história na cidade sem aquele olhar de turista, o que eu achei que não aconteceu, por exemplo, no filme de Barcelona. O roteiro trata dos assuntos tradicionais de Allen: relações humanas, metafísica e busca pela felicidade e completude. O roteiro segue a vida de dois casais: um de idosos, Helena (Gemma Jones) e Alfie (Anthony Hopkins) e outro formado pela filha deles, Sally (Naomi Watts) e seu marido Roy (Josh Brolin). Ambos os casais estão em crise: Helena e Alfie separaram-se recentemente porque ele teimava em não aceitar a velhice. Como consequência Helena, não vendo mais sentido na vida, tenta o suicídio. Já Sally e Roy vivem uma crise em função da carreira dela como marchand estar decolando enquanto a dele como escritor não conseguir passar de um primeiro romance promissor seguido de várias decepções. Cada um dos quatro personagens principais vai conhecer uma pessoa que, de alguma maneira, mexerá com o seu status quo: Alfie vai enamorar-se de uma atriz/modelo/etc com metade da sua idade, Charmaine (Lucy Punch). Sally começa a trabalhar com Greg (Antonio Banderas), dono e gerente de uma galeria que esbanja charme. Roy, pela janela do apartamento, descobre Dia (Freida Pinto), uma musicista recém mudada para o prédio vizinho a quem ele espiona. Helena, por sua vez, conhece Cristal (Pauline Collins), uma vidente charlatã que faz as vezes de terapeuta/auto ajuda para a velha Helena.

Quatro vidas que serão transformadas de diferentes formas. Quem se dá bem? O que é melhor, apostar no sobrenatural? Num amor idealizado? No sucesso profissional a qualquer custo? Na ilusão? É essa a pergunta que Allen tenta responder. Não, não vou entregar a resposta, não se preocupem. Mas a trama desenvolve-se bem de acordo com as tramas do narigudo, com algumas situações inusitadas que tornam-se reviravoltas e forçam os personagens a fazerem escolhas difíceis.

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O ótimo Josh Brolin observa, pela janela, a linda Freida Pinto

Allen sempre foi um bom diretor de atores. Nesse filme o destaque, na minha opinião, é Josh Brolin, que tem se mostrado um ótimo ator. Seu desempenho em “Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme” (Wall Street – Money Never Sleeps, Oliver Stone, 2010) é uma das melhores coisas do filme e ele também é ótimo em “Milk – A Voz da Igualdade” (Milk, Gus van Sant, 2008). A interpretação dele para Roy deixa transparecer os conflitos internos do personagem e consegue nos fazer torcer por ele, mesmo quando suas ações são eticamente questionáveis. Anthony Hopkins está divertidíssimo e extremamente convincente, como de costume. Gemma Jones faz uma velha excelente. Chata na medida, impossível não lembrar, em vários momentos, das nossas próprias mães, sogras ou avós. Agora, quem rouba o filme para mim é Lucy Punch, a prostituta Charmaine. Seu acentuado sotaque britânico e a cara de barata tonta que ela faz durante o filme todo são geniais. A atriz de 33 anos é mais um daqueles achados de Allen, que gosta de procurar para seus filmes atores fora do grande escalão. Naomi Watts e Antonio Banderas, os “medalhões” do elenco, juntamente com Hopkins, também estão ótimos.

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Anthony Hopkins não mastigou ninguém no filme, mas Lucy Punch roubou-o

Falar sobre a condução do filme, o enquadramento ou a fotografia seria repetitivo. É um filme de Allen clássico. Não um dos melhores, é verdade. Mas também longe de ser um “Woody Allen ruim, se é que isso existe”, conforme disse a Zero hora ontem. Acho que não é um filme que eu recomendaria de olhos fechados para qualquer um, mas se você gosta de Woody Allen… bem, você sabe o que vai encontrar. É bem isso mesmo.

Música

Paul, o beatle gaúcho

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

São 21h do dia 7 de novembro e o estádio Beira Rio encontra-se tomado por fãs de Paul McCartney de todas as idades. Mais ou menos 50 mil pessoas aguardam a entrada do músico inglês. No telão, diversas imagens contam a história do beatle ao som de remixes de canções compostas por ele. Depois de uns dez minutos, Paul entra no palco com sua banda e recebe todo o carinho que merece.

O show tem início com um medley de três músicas da época de McCartney com os Wings. A curta baladinha “Venus and Mars” não pode ser mais apropriada para abrir o set, com seus versos que dizem “Sitting in the stand of the sports arena/Waiting for the show to begin” (“Estou sentado na pista do estádio/Esperando o show começar”). Ela encaixa em “Rock Show”, exatamente como no disco de 1975, fazendo o público tirar o pé do chão. Logo em seguida entra “Jet”, convidando a galera a levantar as mãos a cada grito de “JET!”.

Na primeira conversa com o público, Paul mostra toda sua simpatia em português: “Oi! Tudo bem? Boa noite, Porto Alegre! Boa noite, Brasil!” A música que segue é “All My Loving”, primeira música dos Beatles a aparecer no setlist, levando todos à loucura. A letra é cantada em coro por todo o estádio. “Obrigado, gaúchos!”, agradece o músico.

“Letting Go” dá uma acalmada na galera, com seu ritmo marcado por guitarras mais lentas. Paul volta a arriscar o seu português: “Esta noite vou tentar falar português. Mas vou falar mais inglês”, brinca. O riff de abertura de “Drive My Car” chama novamente o coro de 50 mil vozes. Imagens de carros e dos Beatles em ação aparecem nos telões. Seguindo no clima estradeiro, a gaita de boca do tecladista Paul Wickens puxa “Highway” (do projeto de Paul com Youth, The Fireman) para meu deleite pessoal, pois sou fãzaço do disco “Electric Arguments”.

Depois é a vez de mais uma da época de Paul com o Wings, “Let Me Roll It”, do clássico álbum “Band on the Run”, relançado em edição especial neste ano de 2010. A canção termina com uma citação instrumental de “Foxy Lady”, de Jimi Hendrix. McCartney senta ao piano de cauda e traz as primeiras lágrimas a este que vos escreve ao tocar a bela “The Long and Winding Road”. Paul volta ao clássico álbum do Wings  com o divertido som do pianinho roqueiro de “Nineteen Hundred and Eighty-Five”. Depois é a vez de “Let ‘Em In”, única faixa do disco “Wings at the Speed of Sound” a ser tocada.

“My Love”, uma das preferidas de meu sobrinho, é dedicada aos casais presentes em bom português: “Eu escrevi esta música para a minha gatinha, Linda. Mas esta noite ela é para todos os namorados.” Após a balada, Paul pega o violão para mandar o countryzinho de “I’ve Just Seen a Face”, acompanhado com palmas do público. Um pedido de “toca Raul” quebra o silêncio após a música, mas Paul opta por mais uma faixa dos Beatles, a bela “And I Love Her”. “Mas bah, tchê!” exclama o músico ao terminar a canção, para delírio da gauchada.

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imagem: Cassiano Rodka

Sozinho ao violão, ele toca a sua inesquecível “Blackbird”. Ao fundo, uma paisagem digital mostra uma enorme árvore perto de Paul enquanto uma lua desce em frente ao telão. Logo depois vemos uma Terra descendo enquanto Paul toca “Here Today”, composta e dedicada – em português, é claro – a John Lennon: “Eu escrevi esta música para meu amigo John”.

O clima se anima novamente com “Dance Tonight” com Paul tocando mandolin sobre uma bateria eletrônica enquanto o baterista Abe Laboriel Jr. faz dancinhas engraçadas ao fundo. “Mrs. Vandebilt” dá continuidade ao clima animado, com o público cantando em coro o divertido coro de “ô-ê-ô” até o final em ritmo de polka. “Eleanor Rigby” ganha vida com a maestria do tecladista Paul Wickens reproduzindo as cordas da música e o ótimo backing vocal do baterista Abe Laboriel Jr.

Com um ukulelê em punho, McCartney toca a singela “Ram On”, de seu segundo disco solo e continua com o instrumento para interpretar “Something”, dedicada ao seu compositor, George Harrisson, que aparece ao lado de McCartney em diversas imagens no telão. “Esta próxima música é para meu amigo George”, diz o músico à plateia. “Brigado, gaúchos!”, diz ele antes de tocar mais uma do Fireman, “Sing the Changes”, que soa muito bem ao vivo e é ilustrada por imagens de Barack Obama no telão. Ao final da canção, ele mais uma vez experimenta a língua brasileira: “What do you think of my ‘português’? Vou tentar falar português.” E repete várias vezes a palavra “português”, dando ênfase ao som do “R” brasileiro, tão incomum a um inglês. E chega a hora do grande clássico do Wings, “Band on the Run”.

Antes de “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, ele convida todos a cantarem junto, destacando que é a primeira vez que ele toca a canção em solo brasileiro. “Tri legal!”, comemora o músico ao fim da cantoria. A música que segue é outro destaque do álbum branco dos Beatles, “Back in the U.S.S.R.”, capaz de tirar do chão qualquer fã da banda. O público grita “Paul! Paul! Paul!” e o músico brinca fingindo que o coro está muito baixo e ele não ouve. Logo em seguida convida todos a repetirem seus gritos de “Oh, yeah!”, “Y-ha”, Yeah yeah yeah”, etc. até ele gritar “Enough!”, o que a plateia acaba repetindo também: “Enough!”

A última hora do show é quase exclusivamente dedicada aos sucessos dos Beatles. O dueto com John Lennon “I’ve Got a Feeling” ganha os vocais do guitarrista Rusty Anderson e do baterista Abe Laboriel Jr. no lugar de John. Em “Paperback Writer” Paul diz que vai tocar a música com a guitarra original que usou na gravação da canção. Outra homenagem a John Lennon surge em “A Day in the Life”, composição de John (tirando a parte do meio, que é assinada por McCartney) que ganha interpretação do músico com direito a citação de “Give Peace a Chance” no final.

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imagem: Cassiano Rodka

De volta ao piano, Paul McCartney dedilha os acordes da delicada “Let It Be”, acompanhada em coro pela plateia, com direito a isqueiros e celulares acesos para o ar. “Live and Let Die”, criada para o filme homônimo de James Bond, surge de mansinho e explode (literalmente!) em um show de labaredas no palco e fogos de artifício no céu. Depois de tamanha comoção, só mesmo o clássico “Hey Jude” para unir as vozes de 50 mil pessoas em um interminável coro de “nananas”. Paul coordena a cantoria: “Agora só os homens. Ok, agora só as mulheres. Todos!”. E a cantoria continua enquanto Paul deixa o palco.

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imagem: Cassiano Rodka

Balançando uma bandeira do Brasil, McCartney retorna ao palco sob um coro de “Ucho, ucho, ucho, o Paul é gaúcho”. A resposta dele? Para surpresa de todos, Paul vai até o microfone e grita “Ah! Eu sou gaúcho!”. O primeiro bis começa com dois singles que não entraram em nenhum álbum dos Beatles, mas mesmo assim tornaram-se grandes clássicos: “Day Tripper” e “Lady Madonna”. Para completar, a clássica do Let It Be “Get Back” tira mais uma vez todos do chão cantando em uníssono o refrão “Get back to where you once belonged”.

No segundo bis, o músico retorna com seu violão para tocar a balada “Yesterday”, possivelmente o maior coro da noite – tirando os nananas de “Hey Jude”. Depois é vez de Paul provar que é um dos pais do heavy metal mandando a maravilhosa barulheira caótica de “Helter Skelter”. Antes de continuar, o músico agradece a presença de todos e lê alguns dos cartazes na plateia. Brinca com um cara que diz querer tocar bateria com ele: “Nós já temos um baterista. Vamos deixar para outra vez”, canta rapidamente um “Parabéns a Você” a uma garota que diz estar de aniversário e depois convida duas gurias para subirem no palco, pois elas pedem que ele autografe o braço delas para tatuarem a assinatura. O músico topa e pede que elas subam. Depois de uma certa dificuldade, elas sobem e realizam o sonho.

O rock continua com a preferida de Mr. Jimi Hendrix, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise)”. O som de uma das guitarras não sai e eles têm de recomeçar. Assim como “Venus and Mars” é perfeita para o início do show, “Sgt. Pepper’s” é perfeita para o encerramento com seus versos “We hope you have enjoyed the show (…)/We’re sorry but it’s time to go” (“Esperamos que vocês tenham gostado do show/Desculpem, mas chegou a hora de irmos embora”). A música encaixa em “The End” acompanhada pela belíssima animação feita para a música para o jogo Beatles Rock Band. E assim o concerto termina com Paul McCartney cantando uma das grandes verdades que ele escreveu durante sua carreira: “And in the end, the love you take is equal to the love you make” (“E no final, o amor que você recebe é igual ao amor que você faz”).

Música

O dia em que apertei a mão de um beatle

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por Cassiano Rodka

O domingo do dia 7 de novembro amanheceu ensolarado e o clima na cidade de Porto Alegre era de puro agito. Sir Paul McCartney estava prestes a fazer o primeiro de três shows de sua turnê Up and Coming no Brasil.

Minha irmã e parceira de PáginaDois, Clarice Casado, chegou neste mesmo dia de São Paulo para a capital gaúcha junto com o marido Márcio e o filho Vito, um beatlemaníaco de apenas 11 anos. Para se hospedar em Porto Alegre, escolheram o mesmo hotel de Paul McCartney, o Sheraton. Meu sobrinho estava determinado em ver o ídolo, então fui convidado a participar de um autêntico mergulho à beatlemania, como no filme “I Wanna Hold Your Hand”, de Robert Zemeckis. Nem hesitei em topar a aventura!

Os três me buscaram de carro e fomos para o hotel onde uma multidão já estava a postos na entrada, esperando por uma aparição do beatle. Ao descermos do carro, flashes registraram a nossa chegada. Hein? Pois é, acho que as pessoas ficam tão ansiosas que fotografam qualquer um que aparece, é um sarro!

Ao entrar no saguão, já dava para perceber que não éramos os únicos hóspedes beatlemaníacos. O lobby estava cheio de pessoas, incluindo os argentinos do The Beats, banda cover dos quatro rapazes de Liverpool. Enquanto tomávamos um cafezinho, Rusty Anderson, o guitarrista do Paul McCartney, apareceu no saguão. Distribuiu autógrafos, tirou fotos e depois foi almoçar. Mais tarde, foi a vez do simpático baterista Abe Laboriel Jr. aparecer carregando instrumentos para os músicos partirem para a passagem de som. Ele conversava muito amigavelmente com os fãs que estavam por ali e foi aí que resolvi dar um oi para os dois membros da banda e registrar o momento. Ao meu sobrinho, só interessava o Paul. A minha outra irmã, Camila, já havia se juntado à nossa função a essas alturas e fez os dois cliques abaixo.

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Ao lado do baterista Abe Laboriel Jr.
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Junto ao guitarrista Rusty Anderson

Quando Sir Paul McCartney estava prestes a deixar o hotel para ir até o Beira Rio, os seguranças instalaram algumas barreiras e combinaram com as mais ou menos 20 pessoas que estavam ali dentro que podiam tirar fotos, mas nada de se jogar no cara. Todos concordamos e ficamos ao longo das barreiras esperando a descida de Paul McCartney. Cada vez que a porta do elevador abria, os olhinhos brilhavam e as máquinas preparavam o seu flash. Mas desciam hóspedes, cozinheiros, seguranças e nada do Paul. Até que rola a confirmação de que ele está vindo. O pessoal faz uma contagem regressiva de sua chegada baseada nos andares que o elevador marca. E, ao chegar no térreo, finalmente vemos Mr. Paul McCartney surgir arrancando gritinhos das garotas presentes. Ele faz um movimento exagerado de surpresa e muito simpaticamente passa abanando para todos. Eu tiro algumas fotos e depois baixo a máquina. Ao ver o beatle se aproximar a um metro de distância de mim, sei que só preciso fazer uma coisa: estender o meu braço em direção a ele e apertar a mão em agradecimento. Um cumprimento singelo a um cara que moldou a cara do rock. Uma reverência respeitosa a um músico que criou algumas das mais belas melodias que o mundo já ouviu. Um aperto de mão que humaniza o mito no contato da mão áspera e traz o sonho para a realidade. Paul não é um deus, ele existe e está aqui em Porto Alegre. É um ser humano dotado de uma simpatia que contagia multidões, maestro de uma sensibilidade que consegue orquestrar sorrisos em uma plateia de 50 mil pessoas. Um músico que traduz as emoções humanas em partituras assimiláveis tanto para crianças quanto para idosos. Por isso tudo, estendo minha mão a ele:

Obrigado, Paul.

Literatura

Michael

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imagem: Anelise Schutz

por Marcella Marx

“… And Michael said unto me: ‘why art thou disquieted with such a vision? Until this day lasted the day of His mercy; and He hath been merciful and long-suffering towards those who dwell on the earth.”

The Book of Enoch by Anonymous

Ajoelhado ele desejava saber rezar, mas sua cabeça estava vazia e os pensamentos eram tantos que o emudeciam. O excesso de luz e as trevas de seus olhos bem fechados. Ele podia gritar, entretanto não tinha pra quem e nem sabia para qual direção. Suas mãos e pés tateavam um chão desconhecido.
Foi quando a voz de sua irmã brotou lá de dentro, entoando a canção.
– São Michael celeste herói dai-nos força e coragem…
As palavras soaram e ele acompanhou sua irmã.