Clarice Dall’Agnol

Literatura

Exótico

Ilustração: Cassiano Rodka

Um passarinho me contou
Que nada do que você disse
Tem nexo ou relevância

O passarinho também me falou
Que era tudo baseado em crendice
Um discurso em dissonância

O passarinho ainda me confessou
Que achou tudo uma chatice!
Um blá-blá-blá de pura ignorância!

O passarinho, por fim, me revelou
Que, em meio a tanta caretice…
Melhor chamar a ambulância.

Música

Histoire de Melody Nelson, Serge Gainsbourg

Um disco ou um livro? Histoire de Melody Nelson é a obra prima de Serge Gainsbourg. Um álbum conceitual onde cada música é um capítulo que conta a história do encontro acidental do narrador com uma garota por quem se apaixona, a jovem Melody. Acidental mesmo, ele atropela a bicicleta dela com o seu Rolls Royce. 

A história espelha um pouco do que estava acontecendo na sua vida real. O cantor francês conheceu a atriz inglesa Jane Birkin no set do filme Slogan. Não foram com a cara um do outro. Mas não por muito tempo. Ambos ficaram curiosos pela personalidade de cada um e, muito aos poucos, foram inesperadamente se apaixonando. O romance inspirou a história do disco. 

Originalmente, Serge queria musicar um poema do livro Lolita, de Vladimir Nabokov, mas como um certo cineasta – Stanley Kubrick – tinha comprado os direitos para fazer um filme, não deu certo. Mas em vez de desistir, o compositor criou sua própria personagem, Melody. A inspiração veio do segundo nome de sua musa: Jane Mallory Birkin. 

Para criar as músicas, ele convidou o maestro Jean-Claude Vannier, com quem ele já havia trabalhado em trilhas sonoras e que foi imprescindível para criar o clima cinematográfico do disco. A narração foi feita por Serge, que já tinha essa maneira meio falada de cantar. E as partes de Melody ficaram por conta de Jane Birkin. O resultado é um disco com uma atmosfera misteriosa, ora sensual, ora trágico, que tem um desfecho tão abrupto quanto o encontro inicial dos dois personagens. 

A versão de 40 anos que saiu em vinil conta com fotos inéditas e histórias da gravação, além de versões alternativas das músicas e uma faixa inédita: Melody Lit Babar, que Gainsbourg resolveu deixar de fora, pois acreditava que era muito felizinha e quebrava o clima do disco. De fato, ele tinha razão. Mas escutar essa faixa inédita atualmente é como encontrar um capítulo perdido de Lolita. 

Literatura

Descalça

Ilustração: Cassiano Rodka

Ando descalça. Sinto nas solas dos pés o toque da terra. Como um apoio materno, mantendo-me ereta. Sem me apontar caminho ou direção. A andança é minha. Se tropeço, apoio duro do chão. Quando levanto, sinto a terra na mão. Um beijo molhado de barro que me alenta a reatar o movimento. Cada passo, na lama ou no cimento, entrelaça um novo caminho, que você chama de destino. Eu chamo de opção. ​​​​​​

Literatura

Café

Foto: Isabel Dall’Agnol

À minha prima Clarice.
Nossa amizade é assim.
Como o café que tanto amamos.
Tu és assim.
Como o café que tanto amo.

Mergulha tua essência
nessa água ardente.
Desmancha em sabor.
Derrama-se em cor.

Aroma que seduz.
Esquenta a alma.
Com calma.

Sossego em confusão.
Companhia à solidão.
Motivo de diversão.

Não deixo.
Não nego.
Não canso.

Nosso devaneio
é forte.
Ponto intenso.
Sempre puro.

E segue…
Enfim…
Sem fim…

Daí, que não esvazio
teu fundo.
Tua existência
é eterna.
Faz magia no tempo.

Música

Saúde, de Rita Lee

Quando se fala em músicas censuradas no Brasil, a gente logo pensa em Chico Buarque e Caetano Veloso. Mas foi descoberto que a artista mais censurada foi Rita Lee. Além de letras que criticavam a Ditadura, a cantora falava de protagonismo feminino. E essa coisa de mulher que gosta de sexo era um escândalo! Na época do disco Saúde, Rita e Roberto compuseram em torno de 30 músicas e só 9 foram liberadas para entrar no álbum. Com alterações.

Uma faixa chamada Afrodite teve que mudar o título para Banho de Espuma. Apesar do nome Afrodite permanecer no refrão. (Acho que se passaram, né?) Duas frases da música tiveram que ser trocadas: “em qualquer posição” virou “com toda disposição”; “Bolinando com água e sabão” virou “Esfregando com água e sabão”. Só não via sexo ali quem não queria. A música Favorita, que trazia Roberto de Carvalho nos vocais, também causou por ter a “erótica” frase “Me sinto dentro do túnel do amor”. Um escândalo! A faixa Galinhagem só precisou ser rebatizada: virou Tititi. Barriga da Mamãe teve que ser toda retrabalhada, aí ficou para o disco seguinte. É uma pena que algumas das faixas censuradas acabaram sendo apagadas para economizar fita. Coisas da época!

Tatibitati passou batido pela censura (provavelmente pelo tom infantil da letra) apesar dos versos “brincar de médico é melhor que boneca”. Mutante é uma balada onde Rita se vê como a verdadeira mutante, aquela que seguiu mudando e não ficou atrelada ao passado. A faixa Atlântida nasceu de uma jam chapada de meia hora que depois eles editaram e virou aquela preciosidade de música. Mother Nature é uma versão em inglês de Mamãe Natureza, faixa do terceiro disco solo de Rita, que só foi incluída porque eles estavam sem material, já que a censura bloqueava tudo.

O disco inovou na produção também, trazendo baterias eletrônicas, como na faixa-título, um disco-rock que traz possivelmente a frase mais emblemática de Rita Lee: “Enquanto estou viva, cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz”.

Não tenha dúvidas disso, Rita! E muita saúde pra ti!

Literatura

Em concha

Foto: Vanilson Coimbra

“Dame una noche de asilo en tu regazo
Esta noche, por ejemplo, dejemos al mundo afuera
Abre tus brazos, ciérralos conmigo dentro”

(“Asilo”, Jorge Drexler)

Depois de teres serenado,
É teu ninho de fogo que desejo:
Uma ou mais horas de abrigo na tua pele láctea,
Sem que o tempo
entre nós se interponha,
– Sabes que te daria tudo.
E me perderia em teus enevoados limites,
Abraçaria teus horizontes em flor,
Buscaria o que não posso ter,
Aqueles teus segredos anoitecidos,
A névoa oblíqua que se derrete na tua praia,
O verde absorto dos teus olhos quando me deixam,
As entrelinhas dos teus poemas
(Por que me confundes?).
Por ti,
O impossível.