Clarice Dall’Agnol

Literatura

Quando a sereia envelhece

Você olha e lamenta.
Não vê mais beleza.
Mede nos olhos a tristeza
de alguém que já não é.

A pele secou.
O peito murchou.
Pra você, ela passou da hora.
E seu rosto chora.

Mas há o canto.
Que, enquanto você olhava,
não percebeu.
Mas ouviu.
Lhe seduziu.
E você caiu.

No canto da sereia.
No conto do vigário.
Pra deixar de ser otário.

Acione todos os sentidos.
A beleza não está só no olhar.
Ela também ecoa na concha dos ouvidos.

Música

Up, do Right Said Fred

No mês do orgulho LGBT+, bora falar sobre um disco gay que eu adoro e que foi provavelmente a primeiro álbum gay que eu abracei de coração! Up, do Right Said Fred. 

A banda surgiu na Mtv com I’m Too Sexy e logo chamou atenção com aquele clipe que debochava do narcisismo do mundo da moda. O vocalista e o baixista eram dois carecas fortões e claramente não se levavam muito a sério. Tinha ainda espaço para um solo de guitarra emprestado da música Third Stone from the Sun do Jimi Hendrix. Foi o suficiente para chamar atenção de uma jovem bicha roqueira como eu. 

Ao contrário do que se pensa, os irmãos Richard e Fred Fairbrass não eram novatos na cena musical. O vocalista já havia tocado baixo com figurões como Mick Jagger e David Bowie, e o baixista já tocou guitarra ao lado de Bob Dylan – te mete! 

O sucesso do clipe fez com que a banda assinasse rapidamente um contrato com uma gravadora e eles se puseram a fabricar hits para fechar um álbum o quanto antes. Mesmo na correria, eles entregaram um disco conciso. Divertido, debochado e despretensioso, como o pop deve ser. Inclui ainda hits do Top Ten Europa como Don’t Talk Just Kiss, Deeply Dippy e Those Simple Things. 

A capa do disco é super minimalista, tem apenas “Right Said Fred, Up” escrito em vermelho e amarelo. Meio McDonald’s. Pra despertar a fome… sexual das pessoas, talvez? I’m Too Sexy foi sampleada recentemente pelo Drake na faixa Way 2 Sexy, gerando um novo interesse na música. Up está completando 30 aninhos e continua sendo um disco cheio de sons, cores e muito orgulho. 

Literatura

Sweet Caroline

Foto: Vanilson Coimbra

Para Kerollainy, a menina de areia e sonhos de Paraty.

Teus pezinhos dourados,
embalados pelo ritmo fiel das ondas,
Brincando de ser peixes
(De todas as cores, tu as imaginas).
Estou inventando a tua voz
(Em meio aos teus silêncios misteriosos de menina de areia).
Em duas trancinhas cor de mel com diversão,
E olhos cheios de metáforas,
E com o teu jeitinho compenetrado de brincar sozinha, e de carregar flores pela ilha verde e úmida,
Me resumiste toda a tua essência de algodão, e o frescor de dias que virão
(Na tua vida junto ao mar).
Queria ter te sussurrado que a poesia é o que explica todas as coisas –
Porém, apenas guardei com ternura teu beijo salgado
(E inesperado).
Quando no barquinho me disseste adeus.