Clarice Dall’Agnol

Literatura

Passos

passos
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Se eu fosse lhes contar
a história dos meus passos,
eu precisaria de mil folhas
e vinte lápis.
Teria que estar
com a coluna em forma
e o braço direito bem forte.
Precisaria vasculhar a memória
e ir retirando tudo
(suavemente)
de dentro de mim.
Os passos que me importam,
porém, não são os meus.
São os dos habitantes de minha vida:
O saltito alegre de Angelina
O arrastar pensativo de Vito
O firme pisar de Márcio –
conheço-os todos.
De longe, sempre sei quem
está chegando.
Sem os passos deles, senhores,
não haveria o menor sentido
em contar-lhes, um dia, os meus.

Cinema

Abutres (Carancho, Pablo Trapero, 2010) e outras coisas mais

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por Pedro Cunha

Que o cinema argentino e uruguaio está bombando você já sabe. Que Ricardo Darín é um baita ator e tem olhos incrivelmente expressivos você já sabe. Que um filme pode se segurar fundamentalmente em cima de um bom roteiro e de atores competentes você também já sabe. Que janeiro e fevereiro são meses interessantes para os cinéfilos você certamente também já sabe. Sabe sim, já que nesses meses deságuam por aqui os favoritos ao Oscar e também os sempre interessantes indicados (ou quase) em língua estrangeira. E esse é o caso de “Abutres”.

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O filme de Pablo Trapero certamente só ganhou circuito comercial no Brasil em função de “O Segredo dos Seus Olhos” (El Secreto de Tus Ojos, J. Campanella, 2009) ter abocanhado a estatueta de melhor filme em língua estrangeira no ano passado. E combine isso com a presença em ambos de Ricardo Darín, o grande ator de sua geração na Argentina. Mas fora a presença de Darín e o espanhol com sotaque portenho “Abutres” tem pouca relação com “O Segredo dos Seus Olhos”.

“Abutres” é um roteiro que fala sobre podridão humana. Como bem comentou a @graziels, são personagens que não tem carimbo de “bonzinho” ou “malvado” na testa. O filme, a princípio, fala de advogados que exploram inocentes vítimas de acidentes de trânsito, ficando com boa parte das indenizações a que os acidentados teriam direito. Esses mesmos advogados também, algumas vezes, fabricam alguns acidentes para gerar as tais indenizações. Darín é Sosa, um desses advogados que se envolve com Luján (Martina Gusman), uma paramédica que faz plantões atendendo aos casos de acidentes durante a madrugada. Ela também tem seus segredos, como logo descobrimos.

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Sosa, o advogado (Darín), e Luján, a médica (Martina Gusmán): Quem são os Abutres?

O filme se passa quase totalmente em tomadas internas e noturnas, com pouquíssima luz natural, o que acaba reforçando a boa atuação principalmente dos dois protagonistas. O capricho na fotografia é possível de ser percebido nos detalhes, como na apresentação dos personagens. Da primeira vez em que aparecem nunca são retratados de frente, mas sim muito de perto, com atenção para detalhes de cabelos, nariz, orelha, boca e demais partes do rosto. Somos primeiro apresentados às partes, para depois conhecer o todo.

O filme é daqueles perturbadores. Mas é perturbadoramente bom, de vez em quando, um passeio pela podridão da alma humana. Outra reflexão que eu fiz foi pensando no Brasil: gostamos muito, as vezes, de nos menosprezar e achar que falcatrua e jeitinho são monopólios nossos. O filme mostra que não. Certas coisas, não tem jeito, são do interior do ser humano mesmo. Se vale a pena ver? Sem dúvida que sim. Mas não marque nada muito animado para depois…

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Bardem tentando ficar feio no novo filme de Iñarritu

Falando em temporada de Oscar, tem coisa boa em cartaz por aí. Ainda não consegui conferir “Biutiful” (Alejandro Iñárritu, 2010), do mesmo diretor de “Amores Brutos” (2000), “21 Gramas” (2003) e “Babel” (2006) e com Javier Barden, outro ator do qual eu gosto muito. Parece ser uma pedida bacana para quem está procurando algo para assistir. Além dele estão por aí também “Além da Vida”, o novo filme do Clint Eastwood com o Matt Damon (que não deve ser diferente dos outros filmes do Clint Eastwood com o Matt Damon) e “Entrando Numa Fria Maior Ainda” deve repetir as piadas dos dois anteriores, mas o elenco com Ben Stiller, Robert de Niro, Dustin Hoffman e Barbra Streisand é ótimo e deve segurar bem.

E alguém mais, além de mim, está roendo as unhas à espera da estreia de “Cisne Negro” (Black Swan, Darren Aronofsky, 2010)? Eu já tinha dito que o filme tem os cartazes mais lindos do ano. Mas o filme, além disso, tem arrebatado a crítica por onde passa. Natalie Portman levou o Globo de Ouro de Melhor Atriz, como esperado, já que sua atuação está sendo elogiadíssima. Não sei vocês, mas eu estou bem animado para esse filme…

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Portman, o “cisne negro”, com seu Globo de Ouro

Ainda o Globo de Ouro: Difícil ser mais previsível. “A Rede Social” (The Social Network, David Fincher, 2010) foi, como esperado, o papão da noite. Vamos combinar que o próprio Fincher (“Seven”, “Clube da Luta”, “O Curioso Caso de Benjamin Button”…) já fez coisa bem melhor. Não é que eu não goste do filme, eu só não consigo achá-lo a bolachinha mais recheada, como parece que a crítica gringa tem achado. Portman levou o de atriz, dizem, com justiça. E dizem que Collin Firth, por “O Discurso do Rei”, também. Resta esperar ambos os filmes estrearem por aqui…

Música

Os 10 melhores de 2010

por Cassiano Rodka

Nada melhor que começar o ano fazendo aquela famosa listinha de melhores do ano passado. Em 2010, tivemos belos shows no Brasil (Paul McCartney, baby!) e alguns bons lançamentos musicais também. Então aqui vão os 10 discos que fizeram meu 2010 mais 10! ;P

Eels – End Times
O primeiro grande disco que escutei em 2010 foi, sem dúvida, “End Times”. Seguindo o álbum “Hombre Lobo”, que explorava o tema do desejo humano, o Eels compôs um conjunto de músicas que versam sobre o que acontece quando o desejo não é realizado. As canções tristes e intimistas foram gravadas com uma produção caseira, dando destaque aos violões e vocais de Mark Everett em letras desesperançosas e cabisbaixas.

Eels – Tomorrow Morning
Não satisfeito em lançar um dos grandes álbuns do ano, Mark Everett apareceu com um segundo (e ainda melhor) disco em 2010. “Tomorrow Morning” fecha a trilogia de álbuns do Eels – que começou em 2009 com “Hombre Lobo” – com chave de ouro. Explorando um lado mais eletrônico, com arranjos de teclados e sintetizadores, Mr. E acertou na aposta, resultando em um disco diverso, com músicas que vão do experimental ao pop.

The Heavy – The House That Dirt Built
Uma das melhores bandas a surgirem nos últimos tempos, o Heavy mistura riffs de guitarra pesados com funk, jazz e hip hop. As letras são cantadas com maestria pelo vocalista Swaby, que sabe muito bem dosar sua voz com a emoção do soul e o desespero do rock. As influências vão desde Led Zeppelin até Ennio Morricone, misturadas criativamente pela banda em arranjos bem particulares.

Mike Patton – Mondo Cane
O que todo fã de Mike Patton sonhava finalmente tornou-se realidade! Ver Patton assumir o papel de crooner no maior estilo Frank Sinatra e soltar o gogó em canções clássicas parecia inevitável. Mas ninguém esperava que esses clássicos seriam em italiano! Nem que Mike contrataria uma enorme orquestra para acompanhá-lo! Pois bem, foi isso que ele fez e o resultado é divino! E, neste ano, o projeto Mondo Cane deve desembarcar no Brasil para tocar no Rock in Rio. Preparem-se!

Codeine Velvet Club – Codeine Velvet Club
No intervalo entre o segundo e terceiro disco dos Fratellis, o vocalista e guitarrista Jon Lawler juntou forças com a cantora Lou Hickey para criar uma banda. A ideia era misturar o background roqueiro dele com as raízes jazzísticas dela. Assim surgiu o Codeine Velvet Club, que agradou tanto o compositor, que fez com que ele largasse de mão os Fratellis e assumisse compromisso total com sua nova banda. Escutando o disco de estreia do Codeine, não resta dúvidas de que Jon Lawler fez a escolha certa.

Stone Temple Pilots – Stone Temple Pilots
Quando uma banda resolve voltar das cinzas, nem sempre o talento retorna junto. Mas felizmente esse não foi o caso do Stone Temple Pilots, que reapareceu com um disco cheio de bons riffs de guitarra e o inconfundível vocal de Scott Weiland. Infelizmente, o vigor encontrado no disco não tem aparecido com a mesma força nas apresentações ao vivo. Mas isso é outra história…

Nina Becker – Azul e Vermelho
A cantora Nina Becker, conhecida pelo seu trabalho ao lado da Orquestra Imperial, lançou em 2010 seu primeiro disco solo. Ou melhor, seus dois primeiros: “Azul” e “Vermelho” foram lançados simultaneamente. Para compor “Azul”, Nina escolheu um repertório de canções melancólicas e introspectivas, onde sua voz é o principal personagem. Usando como banda de apoio os músicos do grupo Do Amor, a cantora apostou em arranjos criativos e leves, perfeitos para acompanhar a maciez de sua voz. Já “Vermelho” é uma espécie de irmão mais alegre do disco “Azul”. Porém, diferentemente do outro, que demorou três anos para ser terminado, “Vermelho” foi concluído em apenas quatro dias em gravações ao vivo com os mesmos músicos. Duas canções, “Lá e Cá” e “Janela”, aparecem em ambos os discos em versões distintas, deixando claro que há elementos que costuram (e muito bem) um álbum ao outro.

Cee Lo – The Lady Killer
O single “Fuck You” certamente é uma das músicas do verão, deixando mais do que claro que Cee Lo é mestre na arte de compor bons hits pop. Depois de criar singles inesquecíveis com sua banda Gnarls Barkley, o cantor resolveu lançar esse disquinho solo que mescla influências dos anos 60, 70 e 80 em uma sonoridade atual e altamente viciante. Música chiclé, com certeza, mas daquelas que não perdem o sabor tão facilmente.

The Arcade Fire – The Suburbs
O terceiro álbum do Arcade Fire já constava nas listas de lançamentos musicais mais aguardados do ano e não decepcionou. A banda explorou outros lados da sua sonoridade, desde músicas mais alegres até momentos mais eletrônicos e experimentais. Os músicos parecem ter economizado nas muitas camadas de som que costumam utilizar, apostando em canções com mais espaço e menos instrumentos ao mesmo tempo. Funcionou!

Bonnie ‘Prince’ Billy & The Cairo Gang – The Wonder Show of the World
Sob a alcunha de Bonnie ‘Prince’ Billy, o compositor norte-americano Will Oldham lançou mais um grande álbum. “The Wonder Show of the World” traz o cantor fazendo aquilo que ele sabe fazer de melhor: um folk atual com belas melodias e ótimas letras. Para escutar tomando um bom vinhozim.

Cinema

O Concerto (Le Concert, 2010)

por Pedro Cunha

O que você faria para poder mudar um ponto específico na trajetória da sua vida? Que ponto seria esse? E como essa mudança se refletiria no resto da sua vida? Como se sentiria aquele atacante italiano se pudesse novamente bater o pênalti que perdeu? E aquele candidato que marcou errada uma alternativa na grade e não passou no concurso, se pudesse refazer aquela prova? E aquele cara que estava com o telefone sem bateria e por isso não viu o torpedo da menina, que sem resposta saiu com o outro… se ele pudesse ver a mensagem, será que o faria?

Esse tema já foi amplamente discutido no cinema, que se dá ao luxo de brincar de viagem no tempo. “Corra, Lola, Corra” (Lola Rennt, Tom Tykwer, 1998), “O Feitiço do Tempo” (Groundhog Day, Harold Hamis, 1993) e “Melinda e Melinda” (Melinda and Melinda, Woody Allen, 2004) são exemplos dessas brincadeiras temporais. O filme sobre o qual eu vou falar hoje de certa forma também brinca com ansiedades e sonhos frustrados. Mas de uma maneira drasticamente mais humana.

“O Concerto” (Le Concert, Radu Mihaileanu, 2010) é um filme francês que conta a história de Andreï Filipov (Alexeï Guskov), um maestro russo que nos tempos soviéticos sofreu perseguições pelo governo Brejnev e por isso caiu em desgraça no seu momento máximo. Seu grande trauma foi a interrupção do Concerto para Violino de Tchaikovsky por um comissário do Partido Comunista. A queda foi brusca: Filipov, que era o regente da Orquestra do Teatro Bolshoi, tornou-se faxineiro do Bolshoi. Sua orquestra foi “expurgada” dos músicos judeus e ciganos que passaram a trabalhar em bicos e subempregos. 30 anos depois, enquanto limpa o escritório do diretor do Bolshoi que constantemente humilha-o, Filipov tem a sua chance de ouro: ele intercepta um fax do Teatro Châtelet, em Paris, que convidava o Bolshoi para uma apresentação na capital francesa.  Por que não reunir sua antiga orquestra e terminar, enfim, aquele concerto? Dentre as exigências feitas pelo maestro está a presença da francesa Anne-Marie Jacquet (Mélanie Laurant)  como solista, uma virtuose conhecida por jamais ter tocado Tchaikovsky. Durante o filme descobrimos que a escolha de Filipov não foi meramente técnica ou musical…

O roteiro peca em vários momentos pela falta de verossimilhança. Se o regime comunista desmoronou faz mais de 10 anos porque o tal maestro não poderia ter uma carreira exitosa no ocidente? Os russos do filme também são EXTREMAMENTE estereotipados. O fato de o diretor ser romeno e de os romenos não terem boas recordações dos russos talvez colabore para isso. Mas a questão é que esses detalhes ficam em segundo plano quando as atuações de Alexeï Guskov e, principalmente, de Mélanie Laurant (que já esteve ótima em Bastardos Inglórios, BTW) vão nos seduzindo e durante o filme passamos a não dar tanta bola assim para esses pequenos furos do roteiro.

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Alexeï Guskov, o maestro, e Mélanie Laurent, a solista

Os demais personagens russos fazem um um núcleo cômico formidável onde, repito, os estereótipos pululam: o judeu dinheirista, o cigano ladrão, o mafioso novo-rico, o alcoólatra afetivo… esse, em especial, colabora para o filme: Dimitri Nazarov interpreta Sasha, o motorista de ambulância e músico que é o melhor amigo de Filipov. Seu jeito esfuziante e expansivo faz o contraponto ao traumatizado comportamento de vítima do velho maestro. As piadas sobre o Partido Comunista, tanto na França quanto na Rússia, também dão o tom do filme. E são parte do que ele tem de bom.

O melhor do filme é, sem sombra de dúvidas, a cena do concerto, que o diretor reproduziu inteiro. A música maravilhosa de Tchaicovsky inundando o Châtelet daquela forma improvável faz com que fiquemos com a respiração suspensa por alguns instantes. É o momento final, no qual enfim o filme se torna uma declaração de amor à música e à arte. Enfim, é um filme que encanta. E cujo final, por incrível que pareça, surpreende. Será que Filipov, 30 anos depois, consegue fazer seu gol? Será que valeu a pena esperar? Será que tudo isso tem um sentido? São as perguntas que o diretor tenta responder no filme…

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Mélanie Laurent, de novo. Por quê? Ah, vá, ela é linda!

Literatura

Carta

carta
imagem: Anelise Schutz

por Marcella Marx

Felipe,
Estaria mentindo se te dissesse que sempre acreditei.
Mas a vontade que desse certo foi maior que minha dúvida.
De alguma maneira em nossa vida estamos sempre buscando consertar as coisas; digo, se sabemos que algo não vingou e desconfiamos do porquê, então uma certa teimosia bate.
E vamos até o fim para que seja diferente. Foi assim comigo.
E foi incrível ver o que fizeste de ti.
És um menino que enxerga longe, muito além de mim.
Quando digo floresta, tu imaginas o cheiro dos eucaliptos depois da chuva, os vários tons de verde e os sons do vento.
Quando escrevo mar, tu zarpas numa linda caravela cortando as ondas.
Se eu te peço que respires fundo e que te concentres, tu mergulhas do alto de uma cachoeira.
Foi nessa busca por compreender o teu mundo que aprendi a te ensinar.
Obrigada.
Marcella

Cinema

Os Melhores de 2010

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por Pedro Cunha

2010 chega ao final e foi, cinematograficamente falando, um bom ano. Melhor ainda para mim, que se não consegui ir às telonas com a frequência que eu gostaria fui agraciado com o convite para escrever no PáginaDois, o que me obrigou a ter alguma frequência nos cinemas e, mais gratificante ainda, a constantemente estar pensando sobre cinema. Já que no clima de final de ano pipocam as listas de melhores e piores, vou apresentar a minha também. Como sempre, cinco filmes. Dez são demais e cinco é uma homenagem bacana a “Alta Fidelidade”, também…

5) Tropa de Elite 2 (José Padilha, 2010)

Um trailer que não prometia nada. Aliás, um trailer que prometia coisas ruins. Quando o Capitão Nascimento olhava para a câmera e a voz em off dizia “E dessa vez é pessoal” a sensação era que uma mistura de Rambo, Braddock ou Stallone Cobra era o que ia acontecer. T2 parecia ser uma sequência caça-níqueis de um dos grandes filmes brasileiros desde a chamada “retomada” (meados dos anos 90, sem a Embrafilme), que foi, é verdade, mais destaque pelas polêmicas ao seu redor do que pelo (bom) filme em si. E enfim veio T2. Um filme mais elaborado que o anterior. Um filme mais político que o anterior. Um filme menos violento, fisicamente, que o anterior. E um filme, por incrível que pareça, MELHOR que o anterior. Tropa de Elite 2 não só superou o primeiro Tropa como tornou-se, em tempos de internet e pirataria, o filme brasileiro mais visto de todos os tempos com mais de 11 milhões de espectadores, superando “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (Bruno Barreto), que era soberano nas bilheterias brasileiras desde 1976…

4) À Prova de Morte (Death Proof, Quentin Tarantino, 2007)

A participação de Tarantino no projeto Grindhouse, com Robert Rodriguez, só entrou em cartaz em Porto Alegre devido ao estrondoso sucesso de “Bastardos Inglórios” (Inglorious Basterds, 2009) e com absurdos três anos de atraso. Um filme despretensioso e que foi feito para ser kitsch e trash. Um filme com uma trilha sonora escolhida a dedo como só Tarantino sabe fazer. Um filme com cenas pesadas de violência. Mas tão, tão pesadas que chegam a ser… engraçadas. O filme dialoga com “Planeta Terror” (Planet Terror, Robert Rodriguez, 2007), seu duplo em Grindhouse, e com outros filmes de Tarantino e Rodriguez como Kill Bill (Tarantino, 2003 e 2004) e “Um Drinque no Inferno” (From Dusk Till Down, Rodriguez, 1996) através de alguns personagens repetidos e situações insólitas. Kurt Russel como assassino serial está excelente e onde todos esperavam que o destaque fosse Rosario Dawson quem apareceu foi Zoe Bell, dublê que já tinha trabalhado com Tarantino em diversos filmes e que em “À Prova de Morte” faz o papel de… Zoe Bell. A sequência final do filme é tão acachapante que se sai do cinema ao mesmo tempo chocado e as gargalhadas…

3) Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, Woody Allen, 2009)

Mais um Woody Allen. Um que fala sobre relacionamentos. Um que se passa em Nova Iorque. Um que tem um protagonista intelectualmente genial mas cheio de neuras. Um protagonista que apesar do sucesso acadêmico tem problemas (seríssimos) nos relacionamentos humanos. Você acha que já viu esse filme? Acha que já o viu várias vezes? Pois é, eu também achava. Mas “Tudo Pode dar Certo” é um pouquinho… diferente. Talvez por causa de Larry David, que sobe fazer um personagem Woody Allen ótimo sem fazer uma tentativa de cópia do próprio Woody Allen. Talvez por Evan Rachel Wood, que faz muito bem um personagem difícil porque extraordinariamente simples. Talvez porque seja a volta de Allen à Nova Iorque depois de uma fértil temporada de quatro filmes europeus. Ou talvez porque, quando se trata de Allen, eu seja sempre suspeito. O fato é que a mensagem do filme, repetida e explicada, o fato de David natural e organicamente quebrar a quarta parede, a trilha, a fotografia e os planos-sequência estarem naturalmente encantadores ajuda “Tudo Pode dar Certo” a ser, para mim, um dos filmes do ano.

 

2) A Origem (Inception, Christopher Nolan, 2010)

Difícil dizer mais alguma coisa sobre esse filme. Tanto já foi dito, tanto já foi escrito, tantas teses já foram defendidas… O fato é que Inception poderia marcar a afirmação de Nolan como “gente grande” se essa já não tivesse vindo antes, praticamente desde “Amnésia” (Memento, 2000), o primeiro longa dele. “A Origem” foi definido na Zero Hora da semana passada como um “blockbuster cabeça” (não lembro  se foi o Roger Lerina ou o Ticiano Osório, desculpem!), que é uma definição que eu gostei bastante. É um filme de ação que tem um argumento denso, um roteiro sólido, um elenco sensacional (que inclui Di Caprio, um dos maiores atores em atividade em Hollywood), efeitos de primeira, fotografia caprichada e uma trilha sensacional. Nada no filme está lá por acaso. Daqui 20 ou 30 anos teses continuarão sendo escritas sobre o pião no final do filme e o fato dele cair ou não. “A Origem” é o “Blade Runner” (Ridley Scott, 1982) de nossos dias. Até inovações e experimentações técnicas o filme traz, como a já famosa cena da luta no hotel em gravidade zero. Eu não sei vocês, mas fazia muito tempo que eu não ficava duas horas literalmente grudado na cadeira.

 

1) O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, Juan José Campanella, 2009)

E o melhor do ano, para mim, é argentino. “O Segredo dos Seus Olhos” conta duas histórias: um thriller policial de suspense e uma linda história de amor. As histórias se misturam organicamente, sem forçação. Os três protagonistas tem atuações primorosas: Guillermo Francello, o assistente do oficial, é engraçadíssimo. Ele faz um contraponto cômico importantíssimo para que a história não fique tensa demais. Ricardo Darín, um dos melhores atores argentinos de sua geração, faz Benjamín Espósito, o inspetor policial aposentado que busca resolver os casos deixados abertos no seu passado. Tanto no sentido profissional quanto no sentido pessoal. E há Soledad Villamil. Quem viu o filme sabe que não é necessário dizer mais nada além de citar Soledad. Tecnicamente o filme tem uma cena maravilhosa, o famoso plano-sequência do estádio de futebol. Mas a presença dessa cena, histórica, quase que eclipsa o filme muito, mas muito bem feito. Enfim, o filme do ano. Em um ano de ótimos filmes.