Clarice Dall’Agnol

Cinema

Mais quatro indicados

por Pedro Cunha

Os filmes se acumularam! Vou pedir desculpas a todos e prometer, no decorrer do semestre, analisar mais detalhadamente alguns deles. Mas para resenhar todos antes do Oscar, que é domingo, vou fazer um bastantão hoje. Vou falar sobre quatro, eu disse QUATRO filmes! “Minhas Mães e Meu Pai”, “Bravura Indômita”, “Inverno da Alma” e “127 Horas”. Vamos que vamos!

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are Alright, Lisa Cholodenko, 2010)
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Indicado em quatro categorias: Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo); Melhor Atriz Coadjuvante (Annette Bening); Melhor Roteiro Original (Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg)

A história da família formada por duas lésbicas (Annette Bening e Julianne Moore) e seus filhos (Mia Wasikovska e Josh Hutcherson), resultados de inseminação artificial com um doador anônimo começa a se transformar quando a menina, Joni, atinge a maioridade e, instigada pelo irmão, busca conhecer o pai biológico (Mark Ruffalo). A chegada do pai abala antigas certezas e questiona o conceito de família do século XXI. A diretora e roteirista Lisa Cholodenko produziu um filme pautado nos diálogos e nos estereótipos familiares, questionando alguns e, ao final do filme, chegando numa solução bastante conservadora. O filme tem algo de pessoal, uma vez que a diretora e roteirista é militante do movimento lésbico e tem um filho, resultado de inseminação artificial com doador anônimo. Muitas vozes do movimento LGBT não gostaram do filme. Eu gostei, mas naquelas. Os atores estão bem, mas nenhum deles encanta. Apesar das quatro indicações recebidas o filme corre o sério risco de sair do Kodak Theatre de mãos abanando.

Bravura Indômita (True Grit, Joel & Ethan Coen, 2010)
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Indicado em dez categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor (Joel e Ethan Coen), Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Edição de Som, Mixagem de Som, Melhor Ator (Jeff Bridges), Melhor Atriz Coadjuvante (Hailee Steinfeld), Melhor Roteiro Adaptado

“Bravura Indômita” é uma refilmagem de um western clássico de 1969, dirigido por Henry Hattaway e estrelado por John Wayne, Glen Campbell, Robert Duvall e Dennis Hopper. Os irmãos Coen, queridinhos da Academia, empilharam indicações. A história é uma das arquetípicas do faroeste: a busca de vingança após a morte de um membro da família. O filme tem uma produção caprichadíssima (não por acaso as indicações nas categorias de Direção de Arte, Fotografia e Figurino), como de praxe no caso dos Coen. Outra característica deles, a boa direção de atores, se faz presente: Jeff Bridges (o US Marshall Rooster Cogburn), Matt Damon (o Texas Ranger LaBeuf) e Hailee Steinfield (a decidida e cabeça-dura Mattie Ross) funcionaram muito bem e a todo momento demonstram o sarcasmo e o humor negro, tão característicos dos Coen. O sempre bom Josh Brolin está ótimo como Tom Chaney, um dos vilões, e se afirma como um dos competentes atores da atualidade. Achei um filme divertido e bem naquele climão meio “western realista” que o Clint Eastwood definiu em “Os Imperdoáveis” (Unforgiven, Clint Eastwood, 1992). É filme para ver comendo pipoca. Ah, e as indicações? Acho que pode levar algum dos prêmios de arte. O figurino está caprichado e a fotografia usa e abusa do pó, da luz e dos tons pasteis do western. Bridges, tentando ganhar o prêmio pelo segundo ano consecutivo, corre por fora. Hailee Steinfield tem um páreo duro contra Melissa Leo e Amy Adamns. E os Coen… bom, a academia gosta deles. Não dá para dizer que eles não tem chance.

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Hailee Steinfield, Matt Damon e Jeff Bridges, dando vida aos diálogos ácidos dos Coen

Inverno da Alma (Winter’s Bone, Debra Granik, 2010)
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Indicado em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (John Hawkes), Melhor Atriz (Jennifer Lawrence) e Melhor Roteiro Adaptado (Debra Granik e Anne Rossellini)

“Inverno da Alma”, o terceiro filme de Debra Granik, foi muito bem recebido pela crítica. O filme se passa em alguma cidade do interior dos EUA onde uma menina de 17 anos (Jennifer Lawrence) tem que tomar conta da família (dois irmãos e uma mãe doente) em função da ausência do pai, envolvido com tráfico de drogas. A menina tem de ir atrás do pai em função dele ter dado a casa e o terreno onde a família vive como garantia da sua fiança e ter desaparecido depois disso, não comparecendo nas suas audiências. A menina então tem que buscar o pai num submundo podre ao mesmo tempo em que tenta a todo custo evitar a desagregação da família. O filme é tenso e funciona todo em torno da personagem de Lawrence. A menina tem 21 anos e segura legal o rojão. Uma atuação tecnicamente perfeita e bem escudada por John Hawkes, que faz o papel de seu tio. Justas as indicações para ambos (mas acho que nenhum deles leva, deram azar… competir com Natalie Portman e Christian Bale nesse ano está complicado.). O filme angustia e não tem uma mensagem otimista. A luta pela preservação da família é levada praticamente para o nível animal, de instinto de sobrevivência. O desfecho, se não é feliz, pelo menos é esperançoso.

127 Horas (127 Hours, Danny Boyle, 2010)
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Indicado em seis categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Edição, Melhor Canção Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Ator (James Franco) e Melhor Roteiro Adaptado (Danny Boyle e Simon Beaufoy)

“127 Horas” é um filme de Danny Boyle, e isso é perceptível nos primeiros minutos do longa. A narrativa rápida, o ritmo de videoclipe, as imagens fragmentadas e a desconstrução do som e da imagem, marcas registradas dos trabalhos anteriores de Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário, A Praia, Por Uma Vida Menos Ordinária, Trainspotting…), estão lá. Mas Boyle escolheu uma história real bastante complicada para adaptar: um jovem alpinista e explorador de cânions sofre um acidente e fica isolado sozinho dentro de um cânion no meio do nada. “E sai um filme disso?”, você se pergunta. Sim, sai. E o filme de forma alguma é parado ou monótono, apesar do protagonista passar 90% do tempo do filme no mesmo lugar. Aí aparecem os talentos de Boyle, como diretor, e de James Franco. O ator que já havia vivido Harry Osborn nos três filmes da série “Homem-Aranha” (Sam Raimi) já tinha mostrado alguma maturidade na ótima interpretação de Scott Smith em “Milk – A Voz da igualdade” (Milk, Gus van Sant, 2008). “127 Horas” poderia ser uma bomba se a atuação de Franco comprometesse. Mas o que acontece é justamente o contrário: o trabalho do ator faz com que o filme fique ainda melhor. Há momentos emocionantes. Há momentos de prender a respiração. Há momentos tensos. E tudo isso sem o protagonista sair do mesmo lugar. Méritos para Boyle e para Franco, que podem levar as estatuetas de Diretor e Ator (a categoria de melhor ator, para mim, é a mais difícil de prever…). Os prêmios de edição e trilha sonora (aqui a concorrência é forte) não seriam injustos, também. Filmaço, daqueles de prender na cadeira do início ao fim. Os cenários do filme em canyonville, nos EUA, são deslumbrantes e o diretor sabe tirar proveito dele para fazer um filme que além de bom é incrivelmente lindo.

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Danny Boyle orienta James Franco na única locação do filme

Literatura

Plural

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imagem: Anelise Schutz

por Marcella Marx

Ela entra pela sala chutando os sapatos
A outra pé ante pé
Aquela apoia-se nas mesas, derruba os bibelôs
Esta flutua por entre os móveis
Ela possui cabelos negros
A outra da cor da lua
Aquela voa com asas de mefisto
Esta de cisne
Ela expele espinhos
A outra plumas
Aquela pulsa a cada toque
Esta permanece contida
Ela envolve, engole, ataca
A outra acata, mastiga, espera
Quando aquela acorda
Esta dorme
Porém as duas residem em ti

Cinema

O Vencedor (The Fighter, David Russell, 2010)

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por Pedro Cunha

SETE INDICAÇÕES:

Melhor Filme

Melhor Diretor (David Russell)

Melhor Edição

Melhor Ator Coadjuvante (Christian Bale)

Melhor Atriz Coadjuvante (Amy Adams)

Melhor Atriz Coadjuvante (Melissa Leo)

Melhor Roteiro Original

“O Vencedor” é um filme sobre boxe. Os filmes sobre esse esporte são um subgênero relativamente importante em Hollywood e costumam fazer boas bilheterias. Por vezes também bons filmes, como o clássico “Touro Indomável” (Raging Bull, Martin Scorsese, 1980) e o mais recente “Menina de Ouro” (Million Dollar Baby, Clint Eastwood, 2004). A propósito o filme de Scorsese é melhor do que o de Eastwood, mas perdeu o Oscar para “Gente Como a Gente” (Ordinary People, Robert Redford, 1980). Já o de Eastwood venceu a estatueta, derrotando o favorito “O Aviador” (The Aviator, 2004) de… Scorsese. O ítalo-nova-iorquino definitivamente não tem sorte com boxe.

Boxe e Oscar à parte, “O Vencedor” conta a história real de Micky Ward, boxeador norte-americano que tardiamente se tornou campeão mundial. Micky teve origem numa família pobre no interior dos EUA e desde a infância teve como modelo seu meio-irmão, Dicky Eklund, ex-boxeador que teve como grande louro da carreira ter disputado (e perdido) uma luta contra “Sugar” Ray Leonard, histórico campeão de boxe. Dicky é o treinador de Micky e sua mãe, Alice Ward, faz o papel de empresária.  Os problemas pessoas de Dicky e a falta de tino de Alice afundam a carreira de Micky, que na maior parte das suas lutas era utilizado como “trampolim” por outros boxeadores, que procuravam lutas fáceis para subir nos rankings e ganhar cotas maiores. Uma derrota vexaminosa faz com que Micky pense seriamente em largar o boxe e continuar no seu emprego de pavimentador de ruas, mas ele recebe um novo estímulo poderoso ao envolver-se com Charlene Fleming, que torna-se sua namorada. A decisão de Micky e de seu pai de arranjar um novo empresário, com apoio de Charlene, apesar de deixar a mãe/empresária bastante contrariada, faz com que Micky consiga algumas lutas que era capaz de ganhar. A prisão de seu irmão em função de seus problemas pessoais acaba ajudando também, uma vez que agora Micky conseguia tranquilidade e regularidade para treinar. Além disso, para várias pessoas, ele passava a ser o centro das atenções ao invés de seu irmão. Lidar com a mágoa da mãe (e das váááárias irmãs) tendo o auxílio e a confiança da nova namorada, do pai e do treinador tornava-se mais fácil. A ascensão de Micky Ward começa a ser posta em cheque quando, às vésperas da improvável luta pelo título na qual ele chegou, seu irmão é solto da cadeia e quer voltar a treiná-lo. Aqui o filme chega na sua encruzilhada: Micky deve voltar aos caprichos da mãe e do irmão problemático ou dar as costas às pessoas que o apoiaram e acreditaram nele quando nem ele acreditava mais?

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Mark Wahlberg é Micky Ward e Christian Bale é Ricky Deklund

“O Vencedor” é um título menos apropriado que o original em inglês, que poderia ser traduzido como o lutador e poderia ser uma chave tanto para Micky, o protagonista, quanto para seu irmão Dicky. Começando pelo que mais se destaca no filme, a atuação de Christian Bale como Dicky é impressionante. Bale prova que é mesmo um dos grandes atores da atualidade e sua transformação física para viver Dicky Eklund assusta. É um ator meticuloso e que constrói seu personagem a partir dos pequenos detalhes: cacoetes, expressões faciais, pequenos gestos. Dicky Eklund não seria um personagem difícil de fazer. Difícil é fazê-lo da maneira como Bale fez, sem cair em estereótipos e exageros. Bale pinta, junto com Geoffrey Rush, como um dos favoritos ao Oscar de coadjuvante. E se levar o prêmio não será sem merecimento, numa carreira que já está polvilhada de bons trabalhos como na série Batman (Batman Begins, 2005; e The Dark Knight, 2008, ambos de Christopher Nolan), em “O Grande Truque” (The Prestige, Christopher Nolan, 2006) e em “Psicopata Americano” (American Psycho, Mary Harron, 2000). Falar mais sobre o trabalho de Nolan (e há bastante mais a ser dito) pode estragar a trama, para aqueles que ainda não viram o filme.

Além de Bale, destacam-se as atuações de Amy Adams, como Charlene, e Melissa Leo, como Alice. A namorada e a mãe de Micky Ward disputam emocionalmente o “controle” do rapaz e as duas atrizes, com atuações sólidas e bem diferentes, brilham nos papeis. Se eu tivesse que escolher Melissa Leo levava a estatueta (até esse momento ainda não vi Bonhan-Carter, uma das minhas atrizes preferidas, em “O Discurso do Rei”).

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Melissa Leo ajuda a levar o personagem de Wahlberg ao fundo do poço. Amy Adams ajuda a resgatá-lo

Mark Wahlberg encarna Micky Ward com uma contenção não só adequada como necessária: para que os frenéticos personagens de Melissa Leo e Christian Bale possam aparecer Wahlberg teve que fazer um Micky discreto, esmagado pela pressão de ser o “irmãozinho” de Dicky e a única esperança da família toda (que não é pequena) de tirar o pé da lama. A crítica, na minha opinião, não tem dado ao trabalho de Wahlberg nesse filme o reconhecimento que ele merece.

Russell, o diretor, mostra a sua visão na história logo na primeira cena. Enquanto Micky, de costas, trabalha, o foco todo fica em Dicky. Teoricamente ele está ali também para trabalhar, mas ele só está junto, falando sobre os velhos tempos e sobre sua luta contra “Sugar” Ray Leonard. Ele cumprimenta todas as pessoas na rua, todos são simpáticos com ele, todos parecem gostar dele. Mas quem está ali dando duro, trabalhando e não chamando a atenção é Micky. A cena de abertura descreve, portanto, boa parte do que é o filme além de ser um filme de boxe. Até porque tratando-se de um filme de boxe, “O Vencedor” não é mais do que um filme comum, uma história de superação. É na relação entre a família, os irmãos e os amigos que “O Vencedor” se torna um bom filme.

Literatura

Itália, come ti amo

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Das relações de amor que tenho com cidades e países, a com a Itália é, sem dúvidas, a mais especial. Porto Alegre e o Rio Grande do Sul são a minha terra natal, representam o amor materno, me dão aquela sensação de segurança e acolhimento sem igual. Já São Paulo e eu somos ligadas por aquele amor manso que surge depois da maturidade, o amor que permanece. New York City é o amor doido, apaixonado, capaz de loucuras, aquele que até se acalma com o tempo, mas ressurge com força toda vez que nos vemos novamente! A Itália (sim, no caso dela, preciso falar do país como um todo, e não de uma cidade específica) é o amor de avó: aquele amor carinhoso, que te põe no colo, te faz cafuné e te dá um doce. Justamente porque a Itália, como bem disse dia desses meu pai, é, de fato, a nossa “pátria avó”, porque é de lá que vieram nossos antepassados, de um povoado chamado Fastro, na província de Belluno, região do Veneto, no norte do país.

Lá estive apenas duas vezes, e a sensação que tenho é que a conheço tão bem, que parece que nos vemos todos os anos. Nesta segunda e última vez, nas férias, fui com meu marido, Márcio, e também com meus pequenos ítalo-germano-gaúcho-paulistanos, Vito e Angelina. Aliás, em nossa entrada na Itália, pela linda Milano, o agente alfandegário, após examinar os passaportes de meus filhos, perguntou se morávamos lá! A alfândega italiana é a mais simpática, despreocupada e rápida do mundo: ninguém ali acha que você é capaz de querer morar ali, e, se quiser, que fique, “Benvenuto!”. Os italianos são exatamente isso: a sua filosofia de vida se resume a comer um monte, beber um monte, viver um monte, e com intensidade. Assim, quando eu entro na Itália, eu digo, “Ciao, nonna, te voglio tanto bene!”. E mergulho fundo nela, sem vontade de voltar tão cedo à superfície.

Nessa nossa viagem, fomos abraçados com amor por todas as cidades por onde passamos, em nosso possante carro que mais parecia um micro-ônibus, que nos conduziu aos mais belos lugares, passando por impressionantes estradas e vales nevados, lindas parreiras ressecadas pelo inverno rigoroso, belíssimas árvores das mais diversas cores de frio (cinza, laranja, amarelo-queimado, marrons, bege, branca…), estonteantes cidadezinhas medievais cercadas por muros e com ruazinhas estreitas e antigas.

Milano e Firenze, capitais, respectivamente, da Lombardia e da Toscana, impressionam pelos prédios e museus antigos, pelas galerias enfeitadas pelas luzes de Natal, pelos seus Duomos brancos e majestosos, pelas lojas de grife, pelos restaurantes impecáveis, pelos museus e igrejas datados de séculos e séculos atrás. Passear a pé sentindo o friozão no nariz e nas orelhas é uma das coisas mais gostosas de se fazer nessas cidades no inverno. Muita gente nas ruas, canções natalinas no ar, aromas maravilhosos de pastas, pizzas, gelattos e cafés em cada cantinho… Inesquecível!

Mas foi na nossa deliciosa road trip por Pisa e pelos deslumbrantes vales vinícolas da Toscana que mais nos divertimos. Começando por Pisa, localizada a mais ou menos uma hora de Firenze. Meus filhos estavam curiosíssimos para ver de pertinho a torre inclinada. Quando a cidade vai se aproximando dos visitantes, pode-se se ver ao longe a lendária torre de oito andares, que, por ter sido construída sobre solo arenoso por volta de 1300, começou a inclinar-se já durante os trabalhos de construção, que seguiram, mesmo assim. Em 1995, foi restaurada, para reduzir um pouco sua inclinação e torná-la segura para visitação. De segura, porém, não tem nada, de acordo com meu marido e meu filho, que subiram até o topo. Degraus de mármore tortos e desgastados pelo tempo, ausência de corrimão e corredores estreitíssimos levam os visitantes até o alto da famosa torre, com muito esforço e cuidado! A vista lá de cima, contaram-me eles, é de fato maravilhosa, de toda a cidade de Pisa e arredores. A descida, porém, era ainda mais perigosa, considerando-se que havia chovido e os degraus estavam escorregadios. Uma “aventura” das boas, sem dúvida, como meu filho gosta!

Nossas próximas paradas foram as cidades medievais de Monteriggioni e San Gimignano, situadas na região vinícola da Toscana. A estrada que leva até elas, partindo de Firenze, tem uma das paisagens mais lindas que conheço. Da outra vez em que lá estive, era primavera, e quase enlouqueci com as cores das árvores, flores e montanhas. Desta vez, mesmo sendo inverno, a coisa foi também de tirar o fôlego de um vivente! São uns cinzas e uns laranjas desmaiados, com aquele sol toscano iluminando e tornando lindão o que já é lindíssimo, enfim, é melhor eu parar de descrever para não tornar o texto piegas demais…! Afinal, quando se trata de paisagens, não há descrição que perfeitamente faça jus a elas. Só vendo.

Monteriggioni é uma das cidades medievais cercadas por muros da Itália, localizada na província de Siena, cidade rival de Firenze na Idade Média. Quando a avistamos, ao longe, meus filhos adoraram, porque mais parece um castelo de conto de fadas. As muralhas altas dão o tom. Entrar ali é ainda mais divertido. Uma pequenina cidade de 7.000 e poucos habitantes, com uma praça central, que fica logo na entrada da cidade, e tem uma capela charmosa e gelada, algumas lojinhas de produtos culinários locais e um simpático e minúsculo museu, com um pouco da história medieval da cidade. Ali, os visitantes podem ver maquetes com as batalhas medievais travadas na cidade (os muros serviam para a defesa da cidade contra os ataques inimigos), bem como apreciar, vestir e pegar armaduras e armas utilizadas na época. Sim, vestir e pegar: não preciso dizer que meus filhos curtiram muito esse museu!

Outra cidade medieval cercada por muros é a bela San Gimignano. O caminho de Monteriggioni a San Gimignano, uma subida sinuosa, era também de paralisar os sentidos, pela beleza. “San Gimi”, como eu comecei a chamá-la, foi uma das visitais mais legais que fizemos. A entrada da cidade é por uma porta (isso é uma coisa que chama a atenção em muitas cidades italianas, os portais ou portas gigantes mesmo), que conduz os visitantes à uma rua íngreme, de calçadas estreitas, cheia de lojinhas de louças, facas e presentes, produtos alimentícios (muito salame, carne de javali, queijos e vinhos), pequenas cantinas e trattorias, que desenbocam na praça central, com uma espécie de poço de desejos no meio, com a igreja e mais restaurantes e lojinhas. Foi lá que encontramos por acaso o que apelidamos de “o menor restaurante do mundo”, uma trattoria minúscula que ficava em um vicolo, um bequinho, e que tinha sido eleita por anos consecutivas o melhor lugar para comer em viagens pela Itália por uma revista de viagens. O lugar tinha apenas quatro mesas, para no máximo umas 15 pessoas. O dono do restaurante é o host, o chef, o garçom e o maitre, com apenas uma ajudante na cozinha, com portas abertas ao pequeno salão. Um atendimento impecável e uma das melhores refeições que fizemos na Itália: provamos a iguaria local, javali, como secondo piatto e uma bela pasta como primo piatto. Bravo! A única pena é que simplesmente não consigo me lembrar do nome do lugar. Preciso voltar para anotar.

E infelizmente nossa jornada à minha nonna Itália chegou ao fim, mais uma vez. O que me conforta é saber que mesmo que eu demore um pouco a voltar, quando eu chegar, ela vai me receber de braços abertos, com um sorrisão nos lábios e um monte de guloseimas fantásticas para me oferecer. Coisa de avó.

Cinema

“Biutiful” (Alejandro Iñárritu, 2010)

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por Pedro Cunha

Imagine um filme todo rodado em Barcelona. Imagine esse filme estrelado por Javier Bardem. Não. Não é o que você imaginou. Você não vai ver a fachada da Sagrada Família. Não vai ver cenas de pôr do sol em Port Vell. Não vai ver caminhadas na beira da praia em La Barceloneta. Sim, a rambla aparece, mas apenas uma vez. E tenha certeza que a ênfase, nessa cena, não é nos cafés, nos bares ou nas lojas de flores. Imagine Barcelona. Então tire Barcelona de Barcelona. E então você começa a ter “Biutiful”.

Iñárritu, o diretor de “Amores Brutos” (Amores Perros, 2000) é um diretor que gosta de trabalhar com a grande questão da miséria e da podridão humana, como já demonstrou em “Babel” (2006), filme que foi indicado ao Oscar de Melhor Filme e valeu para Iñárritu uma indicação como Melhor Diretor. Outros temas recorrentes na obra do diretor são a metafísica e a espiritualidade,  presentes por exemplo em “21 Gramas” (21 Grams, 2003). “Biutiful” trata dos dois temas. O roteiro todo gira em torno de Uxbal, o personagem de Javier Bardem. Uxbal é um meio vigarista, meio explorador que batalha para tentar sustentar seus dois filhos pequenos, não podendo para isso contar com a mãe das crianças, Marambra (Maricel Alvarez), uma massagista que sofre de um grave distúrbio bipolar. Uxbal sobrevive ora agenciando trabalhadores ilegais chineses e africanos (e extorquindo-os no processo), ora usando um dom que possui, de se comunicar com os mortos, cobrando dos vivos para transmitir “recados”. A vida pobre na sub-Barcelona segue seu rumo até que Uxbal descobre um câncer avançado e a perspectiva de ter que deixar os filhos pequenos sozinhos (ou ainda, com a mãe) o perturba.

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Javier Bardem tenta educar os filhos na Barcelona que não está nos guias turísticos 

A proximidade da morte faz com que Uxbal comece também a temer o acerto de contas final. Mesmo comunicando-se com os mortos há uma clara mudança no comportamento do personagem que busca aproximar-se da mãe dos seus filhos e, de certa forma, compensar as suas ações em relação aos imigrantes ilegais. Mas nem sempre nobres intenções são premiadas com bons resultados, como Iñárritu faz questão de nos mostrar. As pontas da vida de Uxbal vão se encontrando na sua relação tumultuada com o pai, que ele nunca conheceu mas está presente em ambas as pontas da sua vida. A relação de Uxbal com o pai e com o filho, aliás, é uma das linhas-mestras do filme.

O filme todo é centrado em Uxbal, o personagem de Bardem. A atuação do espanhol é tão boa que lhe valeu uma indicação ao Oscar como melhor ator. Andei lendo que teria sido a primeira vez que uma atuação inteiramente em língua espanhola é indicada ao Oscar, mas não tenho certeza se a informação é verdadeira. Na verdade de memória eu lembro de Roberto Begnini indicado por uma atuação toda em italiano por “A Vida é Bela” (La Vita è Bella, Roberto Begnini, 1997) e Fernanda Montenegro indicada atuando o tempo todo em português em “Central do Brasil” (Walter Salles, 1998). Mas independente disso a atuação de Bardem conduz o filme e comprova que ele é um dos grandes atores da atualidade. A atuação correta de Maricel Alvaréz como a bipolar Marandra, comedidamente exagerada, se é que isso é possível, ajuda a conduzir o filme e dá para o personagem de Bardem, racional e quase calculista, um bom contraponto.

Tecnicamente o filme vence o desfio de mostrar Barcelona sem os clichês de Barcelona. Ambientes fechados, luzes noturnas e tons escuros poderiam contribuir para mais clichês, o que não aconteceu. O filme é bonito, dentro da ideia de que lixo, pobreza e miséria podem ser plasticamente bonitos. A montagem também foi extremamente feliz, sendo um elemento importante para que o filme funcione.

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Uxbal, sozinho. Completamente sozinho. 

“Biutiful” é um soco na boca do estômago. Um pisão na unha encravada do pé. Uma catarrada na cara. É um filme que mostra o que há de podre e de errado no mundo, sem apresentar uma perspectiva de solução. Não há um final feliz. No máximo, há descanso. E tranquilidade, que talvez fosse mais do que Uxbal pretendesse encontrar. O filme é bom, apesar de extremamente triste. E se perde um pouco para mim pela quantidade de assuntos complexos que Iñárritu tenta abraçar. Imigrantes chineses, imigrantes africanos, bipolaridade, câncer, morte, pós-morte, homossexualismo, corrupção policial, problemas com pai, problemas com filho, questões trabalhistas… a impressão que dá é que o filme podia ser um pouco mais sólido se o diretor tivesse restringido as questões. Abordar todas acaba não explorando devidamente nenhuma delas.

PS: “E o Oscar?”, você me pergunta. E com razão. Mas ele vem, calma. Eu tive que dar uma pausa porque são muitos filmes e eu estava ficando para trás… aguardem atualizações no decorrer da semana!

Literatura

Stranger

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imagem: Anelise Schutz

por Marcella Marx

“It was not until I had reached home that I realized the true meaning of exile.”
Azar Nafisi – from Reading Lolita in Tehran.

With my bare feet I opened the door
and felt the blindness taking over me
all my senses
numb and resigned
home was nowhere near me
I recognized the furniture although
it did not seem mine anymore
I unlocked the windows
did not see anything
apart from an overwhelming will
to find home again
out there

Cinema

Os Indicados ao Oscar (parte 2)

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por Pedro Cunha

Vamos então comentar as categorias mais técnicas. Vale aqui também colocar algumas explicações sobre elas. Muita gente confunde as categorias…

Melhor direção de arte

Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I
A Origem
O Discurso do Rei
Bravura Indômita

A direção de arte é responsável por ambientar uma história. Harmonia entre figurino, cenários, objetos e tudo que pode fazer parte de uma cena. Filmes de época e de fantasia sempre entram forte nessa categoria. O “Alice” de Tim Burton acabou sendo uma grande decepção mas teve uma direção de arte caprichadíssima. “Bravura Indômita” e “O Discurso do Rei”, nas suas ambientações (velho oeste e Inglaterra do século XIX), também estão sendo bastante elogiados (ainda não vi esses dois…). Premiar “Harry Potter”, um belo trabalho de direção de arte, seria uma forma de começar também a premiar a franquia mais rentável dos últimos anos no cinema. E “A Origem”, com todas as suas referências nas obras de M. C. Escher, talvez seja o trabalho mais ousado e original da categoria. Se eu tivesse que escolher, premiaria “A Origem”. Mas ainda quero assistir aos outros dois filmes para ter uma opinião mais definitiva.

 

Melhor fotografia

Cisne Negro
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social
Bravura Indômita

Fotografia é a categoria que premia o manejo da câmera. Enquadramento, escolha de planos, escolha de lentes, escolha de cores. Fotografia tem uma relação muito grande com a criação de uma atmosfera que favoreça a história que está sendo contada. Nesse sentido “Cisne Negro” vem sendo elogiadíssimo para essas categorias mais artísticas. A fotografia de “A Rede Social”, a cargo de Jeff Cronenweth, é muito boa em função de se tratar de um filme sem grandes efeitos especiais ou grandes cenas externas, que facilitam a criação de uma fotografia mais espetacular. A fotografia de “A Rede Social” é minimalista, discreta e detalhista, mas por isso mesmo trata-se de um ótimo trabalho. O bom trabalho de fotografia de “A Origem” fica um pouco ofuscado porque a fotografia do filme mescla-se e confunde-se com os efeitos visuais dele, tornando difícil fazer o julgamento de onde termina um e começa o outro.

 

Melhor figurino

Alice no País das Maravilhas
I am Love
O Discurso do Rei
The Tempest
Bravura Indômita

Outra categoria onde os filmes de época e fantasia usam e abusam da imaginação. Pode ser o prêmio de consolação para o filme de Burton, já que ele não conseguiu ser indicado em categorias mais importantes.

 

Melhor montagem

Cisne Negro
O Vencedor
O Discurso do Rei
A Rede Social
127 Horas

Raramente um filme é filmado de maneira linear e em ordem. O prêmio de montagem celebra aquele filme que mais harmoniosamente e originalmente “cola” os pedaços para contar a história. Uma boa montagem, na maioria das vezes, passa despercebida. Nesse sentido “A Rede Social” é um filme tecnicamente muito bem feito. A montagem ajuda um filme que não tem nenhuma ação a não tornar-se monótono. David Fincher optou por uma solução não linear, em termos de cronologia, e o resultado foi excelente.

 

Melhor trilha sonora

Alexandre Desplat – O Discurso do Rei
John Powell – Como Treinar o seu Dragão
A.R. Rahman – 127 Horas
Trent Reznor e Atticus Ross – A Rede Social
Hans Zimmer – A Origem

 

Já assisti três dos cinco filmes indicados, e não sei qual a melhor trilha sonora. Trent Reznor, mais conhecido pela sua banda Nine Inch Nails, é parceiro de longa data de Fincher e já fez outras trilhas para o autor (como em “Seven”) e para outros diretores (como em “Assassinos por Natureza”, de Oliver Stone). Sua trilha é orgânica e feita para ambientar a história, harmonizando com ela. Não é só um conjunto de canções jogado em cima de um filme. São sons e músicas que misturam-se com a imagem criando um organismo único. O mesmo pode ser dito, como elogio, para os trabalhos de Powell em “Como Treinar seu Dragão” e de Zimmer em “A Origem”. Mas aqui Zimmer desponta como favorito com o seu próprio currículo pesando em seu favor. Zimmer já venceu o Oscar em 1994, com “O Rei Leão”. E além disso já foi indicado outras sete vezes: “Rain Man” (1988), “Um Anjo em Minha Vida” (1996), “Melhor É Impossível” (1997), “O Príncipe do Egito” (1998), “Além da Linha Vermelha” (1998), “Gladiador” (2000) e “Sherlock Holmes” (2009). O trabalho dele em “A Origem” é sensacional quando percebemos, entre outras coisas, o trabalho de decomposição que ele faz no clássico de Edith Piaf, desacelerando-a e colocando-a na mesma ideia do filme, de tempos diferentes em cada uma das “camadas oníricas” do filme.

 

 

Melhor canção original

Melhor do que dar pitaco é deixar aqui as cinco canções, para que cada um escolha a sua preferida…

“Coming Home” – Country Strong

“I See the Light” – Enrolados

“If I Rise” – 127 Horas

“We Belong Together” – Toy Story 3

 

Melhor Edição de som

A Origem
Toy Story 3
Tron – O Legado
Bravura Indômita
Incontrolável

Edição de Som é a categoria que premia os efeitos sonoros incorporados ao filme depois da filmagem. Tudo aquilo que é criado, tudo aquilo que é inventado em termos sonoros é levado em conta aqui.

 

Melhor Mixagem de som

A Origem
Bravura Indômita
O Discurso do Rei
A Rede Social
Salt

Essa categoria avalia a relação do som com a imagem. A altura do som, sua sincronia com as imagens e sua clareza são os elementos mais importantes em jogo aqui. A grande surpresa foi a indicação da bomba “Salt”, com a Angelina Jolie…

 

Bom, quinta-feira que vem nós finalmente terminamos nossas análises!

Cinema

Indicados ao Oscar 2011 (parte 1)

Oscar 2011 parte 1.jpg

por Pedro Cunha

E então saíram os indicados ao Oscar 2011. Por mais polêmica, por mais clichê, por mais comercial e por mais cartas marcadas que seja a cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood mobiliza o mundo inteiro. Sem mais delongas vamos aos indicados 2011 e aos meus palpites:

Melhor filme

Cisne Negro
O Vencedor
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social
Minhas Mães e meu Pai
Toy Story 3
127 Horas
Bravura Indômita
Inverno da Alma

Desde o ano passado a Academia indica 10 e não mais 5 filmes ao prêmio de filme do ano. Nenhuma grande surpresa ou ausência nessa categoria. A Pixar conseguiu, pelo segundo ano consecutivo, emplacar uma animação entre os 10 mais do ano. “Toy Story 3” não tem chances reais de levar o prêmio de melhor filme mas, em compensação, deve sobrar na categoria Longa de Animação. “127 Horas” e “Bravura Indômita” são os filmes dos atuais queridinhos da Academia, Danny Boyle e os irmãos Coen. Boyle já venceu com o mediano “Quem Quer Ser Um Milionário”, em 2009, e os Coen por sua vez venceram em 2008 com “Onde Os Fracos Não Tem Vez” e tiveram nova indicação em 2009 por “Um Homem Sério”. As premiações que costumam ser a “prévia” do Oscar, como o Globo de Ouro, vinham apontando um caminho relativamente seguro para “A Rede Social”. O prêmio do Director´s Guild, no entanto, acabou com o elogiadíssimo “O Discurso do Rei”, que também ganha força para o Oscar. A crítica elogia bastante “Cisne Negro”, mas o filme é considerado “difícil” e “sério demais” (enfim, não sei o que querem dizer com isso…). Surpresas podem acontecer em função da maneira como a votação passou a ser feita, com cada votante ordenando os filmes de 1 a 10 e com todos recebendo pontuação. Algum filme que seja muito bem votado como segundo, terceiro ou quarto pode acabar pintando como azarão e levando a estatueta dourada do careca. Há fortes suspeitas que foi o que ocorreu ano passado com “Guerra ao Terror”. Meu palpite? Acho que fica entre “A Rede Social” e “O Discurso do Rei”. Para mim “A Origem” é melhor que “A Rede Social”, mas enfim… “Toy Story 3”, “Minhas Mães e Meu Pai” e “Inverno da Alma” seriam os azarões, e os outros todos seguem por fora…

Melhor diretor

Darren Aronovsky – Cisne Negro
David Fincher – A Rede Social
Tom Hooper – O Discurso do Rei
David O. Russell – O Vencedor
Joel e Ethan Coen – Bravura Indômita

O prêmio de melhor diretor costuma, logicamente, acompanhar o de melhor filme, apesar de já terem acontecido exceções. Essa categoria gerou passeatas, polêmicas, manifestações iradas e imolações de fãs indignados com a não indicação de Chris Nolan, o diretor de “A Origem”. Nolan é um diretor em ascensão e tem feito filme sólido atrás de filme sólido, e realmente foi surpreendente ele não ser indicado. Sinal de que “A Origem” dificilmente leva o prêmio de melhor filme. Tom Hooper ganhou o Director’s Guild e com isso também ganhou força para o Oscar, mas o favorito, na minha opinião, segue sendo David Fincher por “A Rede Social”, que nem de longe é o melhor trabalho do diretor de “Se7en”, “Clube da Luta” e “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Pairam sobre Fincher acusações de que estaria “simplificando” o seu trabalho para cair no gosto da academia, como também faria Boyle, cujos filmes do começo de carreira (“Cova Rasa”, “Trainspotting” e até “A Praia”) eram bem mais contundentes e menos comerciais do que os atuais. Mas, enfim, é o mundo dos negócios de Hollywood. A crítica se derrete em elogios a Aronovsky, mas ainda acho difícil dele levar dessa vez.

Melhor ator

Jesse Eisenberg – A Rede Social
Colin Firth – O Discurso do Rei
James Franco – 127 Horas
Jeff Bridges – Bravura Indômita
Javier Bardem – Biutiful

Categoria das mais difíceis de prever. Todas as cinco atuações foram elogiadíssimas pela crítica. O Globo de Ouro ficou com Firth, que faz tempo superou o trauma de ser o namoradinho de Bridget Jones e pode usar isso como uma credencial para o Oscar. Eisenberg é a revelação da temporada. Bardem é um dos atores mais requisitados da atualidade, aliando boa técnica e suspiros das moças. Bridges ganhou no ano passado e segue em ótima forma. Franco tem um filme que é quase um monólogo, todo para ele. Realmente não sei para que lado apontar…

Melhor atriz

Nicole Kidman – Reencontrando a Felicidade
Jennifer Lawrence – Inverno da Alma
Natalie Portman – Cisne Negro
Michelle Williams – Blue Valentine
Annette Bening – Minhas Mães e meu Pai

“Cisne Negro” é um dos melhores filmes do ano, mas não deve ganhar nenhum dos prêmios principais. Seu prêmio de consolação deve ser a estatueta para Portman, cuja atuação (assim como a de Mila Kunis) tem comovido a crítica. Como Kunis não foi nem indicada acho que Portman leva, sem surpresas.

Melhor ator coadjuvante

Christian Bale – O Vencedor
Jeremy Renner – Atração Perigosa
Geoffrey Rush – O Discurso do Rei
John Hawkes – Inverno da Alma
Mark Ruffalo – Minhas Mães e meu Pai

Achei bem legal a indicação de Renner, que já tinha ido muito bem em “Guerra ao Terror”. Deve levar o Bale, que vem ganhando os prêmios e levando a crítica não só por esse trabalho, mas por uma carreira bastante sólida que o atual Batman vem construindo.

Melhor atriz coadjuvante

Amy Adams – O Vencedor
Helena Bonham Carter – O Discurso do Rei
Jacki Weaver – Animal Kingdom
Melissa Leo – O Vencedor
Hailee Steinfeld – Bravura Indômita

Categoria difícil para eu opinar já que ainda não vi nenhum dos filmes indicados. Das atrizes citadas a minha preferida é a Bonham Carter, sem dúvida, e teve em 2010 um ano com ótimas atuações, voltando à maravilhosa Belatrix Lestrange em “Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 1” e sendo a Rainha Vermelha, talvez a única coisa que se salve em “Alice no País das Maravilhas” do Burton…

Melhor longa animado

Como Treinar o Seu Dragão
O Mágico
Toy Story 3

Não tem nem graça. Os três filmes são bons mas Toy Story… faz marmanjos chorarem. É um filme sensível, é um filme bonito, passa mensagens bacana sobre amizade e valores. Leva e leva com justiça. “O Mágico” é uma animação estilo antigo e um primor para os olhos, com seu retrato de Edinburgo do ponto de vista de um velho ilusionista francês e uma jovem caipira escocesa. “Como Treinar Seu Dragão” é divertido, mas inferior aos dois. Fez-se justiça à sua sensacional trilha sonora, indicada na categoria.

Melhor filme em língua estrangeira

Biutiful
Fora-da-Lei
Dente Canino
Incendies
Em um Mundo Melhor

Categoria mais difícil, mais diferente e, muitas vezes, mais interessante do Oscar. Quem vai ganhar? Até agora não faço a mínima ideia. Conselho? Assista todos. Em geral não há filmes ruins entre os cinco indicados a filme em língua estrangeira…

E as categorias mais técnicas? Aguarde, que na próxima quinta eu comento. Me dá um tempo, vá, para assistir no cinema esses filmes bons que estão saindo por aqui só agora…