Clarice Dall’Agnol

Literatura

Nocaute

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Não sei quantas vezes
A vida me pôs a nocaute –
a sensação é cruel.
Nesse último e turbulento ano,
em que eu não soube mais quem eu era,
em que perdi minha avó,
em que presenciei pela primeira vez minha família chorar,
em que fui ao delírio ao ver e ouvir Paul McCartney ao vivo,
em que conheci o Oriente Médio e
arrepiei-me com o som de suas rezas ao nascer e ao pôr do sol,
em que estive de novo na Itália, minha pátria avó,
sentindo o perfume e as cores dos vales da Toscana –
Visitei-me inúmeras vezes, em um insana ciranda,
que parecia não ter fim.
Nesse ano que passou,
minha vida inteira
por mim passou.

Música

The King of Limbs: Muito barulho por nada

thekingoflimbs.jpg

por Cassiano Rodka

Dando uma driblada na pirataria, o Radiohead anunciou que lançaria seu novo álbum de uma hora para outra. Na véspera do lançamento, outra surpresa: decidiram iniciar a compra do disco em mp3 um dia antes. Moral da história: evitaram completamente qualquer leak do novo CD, o que é atualmente uma grande façanha.

“The King of Limbs” parece ter sido gravado no mesmo clima de correria que o lançamento. O fato de ter apenas 8 faixas já dá um certo estranhamento, parece mais um EP do que um CD completo. Mas, até aí, eu estava preparado para ser surpreendido pela banda. Fato é que algo parece estar faltando no disco. A seleção de músicas não soa como um conjunto e o sabor de mais do mesmo está lá o tempo inteiro.

A primeira faixa, “Bloom”, é mais uma empreitada eletrônica do Radiohead. Não adiciona nada ao catálogo, vai na mesma linha de “The Gloaming” e “Backdrifts”, e estaria melhor em um disco solo de Thom Yorke. Definitivamente não é um bom começo. A faixa seguinte, “Morning Mr Magpie”, dá uma boa luz à audição, com seu riff de guitarra suingado e insistente. A música tem um quê de Nina Simone, eu imagino perfeitamente uma versão na voz da cantora – o que, aliás, seria uma pérola, não? “Little by Little” é bacaninha, mas sinceramente quem precisa dela? “Feral” é uma instrumental que mais parece lado B de single da era Amnesiac. “Lotus Flower”, o single do disco, é certamente uma das melhores. Ela ficaria muito bem no álbum anterior, “In Rainbows”, pois traz a mesma sonoridade. O clipe, que traz Thom Yorke dançando, gerou diversas versões criadas por fãs (ou nem tão fãs assim) que trocaram a música por outras, incluindo o tema da mulata Globeleza – a melhor!

Depois de “Lotus Flower”, parece que a banda recorda que pode fazer belas canções e as coisas melhoram. “Codex” é uma balada de piano conduzida por Yorke e que deixa claro que essa banda pode viver (e muito) sem camadas e mais camadas de barulhinhos high-tech. Na simplicidade, o Radiohead encontra sua voz mais alta do que nunca. “Give Up the Ghost” começa com sons de pássaros e percussão – é outra faixa que poderia estar no “In Rainbows” – e vai ganhando vida com um violão e muitas vozes de Thom Yorke. “Separator” dá uma animada na calmaria e termina bem o disco com uma batidinha divertida e uma melodia assobiável. Mas um pouco tarde demais para salvá-lo.

Confesso que, durante a audição de “The King of Limbs”, mais de uma vez me peguei lembrando das épocas em que o Radiohead compunha canções sem muita frescura, resultando em uma obra como “The Bends”. Talvez esteja na hora de eles darem uma segurada nos eletronismos e melodias abstratas e simplesmente focarem em criar boas canções.

Literatura

Correspondências parte 6

correspondenciasparte6

por Marcella Marx

Vinícius,
Foram dias ensolarados aqueles passados em sua companhia em meu pequeno refúgio em São Vicente. Precisaríamos voltar lá mais vezes.
As caminhadas no final da tarde e nossas longas conversas foram para mim um antídoto à minha necessidade de isolamento e, como sempre, tua opinião e interesse pelo universo de meus textos me incentiva e instiga a criar.
No momento, dedico-me a um poema sobre nossa viagem, assim que estiver na versão final te enviarei.
Acho que ambos conseguimos enfrentar nossas sombras nestes dias em comum. Espero que tu já tenhas ligado para teu editor e solicitado com veemência e certa delicadeza uma extensão para teu prazo final.
Como passaste as últimas semanas? Como vai Ana?
Me despeço lembrando-te do canto dos sabiás ao amanhecer.
Nos encontramos…
João

Cinema

Oscar 2011: O dia seguinte

por Pedro Cunha

E o Kodak Theatre mais uma vez recebeu a cerimônia de entrega do Academy Awards, carinhosamente chamado de “Oscar”. Para quem gosta, a diversão começa cedo, a partir das 19h, quando a transmissão do tapete vermelho começa a mostrar quem errou e quem acertou na escolha dos vestidos. Segundo a minha especialista de moda de plantão (também conhecida como a minha namorada, a Brunna Stock) alguns dos melhores vestidos foram os de Reese Witherspoon, Mila Kunis, Scarlet Johanson e Hilary Swank. Ela adorou também o vestido da Natalie Portman, que destaca a barriguinha de grávida. Já entre as que não foram tão felizes assim, segundo nossa expert, podemos citar Penélope Cruz (parecia uma matrona), Gwyneth Paltrow (com um decote muito estranho), Sunrise Cogney, a esposa de Mark Rufalo, usou uma roupa que ninguém entendeu. Aliás, duvido que ela mesma tenha entendido. Helena Bonham Carter foi usando um figurino de Harry Potter, certamente. As decepções da noite, no quesito moda, foram as sempre elegantes (e lindas) Cate Blanchet e Nicole Kidman. A primeira pegou emprestada uma roupa de Lady Gaga, já a segunda usava na cintura um “paramento litúrgico”, daqueles de padre. Ah, nossa analista convidada achou a Jennifer Lawrence vulgar. Eu não.

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Reese Witherspoon, Mila Kunis, Scarlet Johansson e Hilary Swank: algumas das mais bem vestidas

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Penélope Cruz ganha desconto porque está com um bebê de um mês. Mas Paltrow, Coigney e Bellatrix, quer dizer, Bonhan Carter, deviam pensar melhor para o ano que vem…

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Blanchet pegou emprestado de Gaga. Kidman, do Padre Marcelo

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Portman estava linda e feliz. Jennifer Lawrence estava vulgar? Eu não achei…

Chegando na cerimônia em si, Anne Hathaway e James Franco estrearam na condução da cerimônia. Um tanto nervosos no começo eles foram se soltando (mais ela do que ele) durante a apresentação. Eu a convidaria novamente. Não a ele, enfim. O palco, montado com diferentes camadas de profundidade, foi uma grande bola dentro. Ficou muito legal e deu destaque às homenagens da Academia, que deu o tom da cerimônia escolhendo dois filmes grandiosos para homenagear: “… E o Vento Levou” (Gone With the Wind, Victor Fleming, 1939) e “Titanic” (James Cameron, 1997). Já nesse momento dava para perceber a tendência da premiação e o favoritism, já anunciado, de “O Discurso do Rei” (The Kings Speech, Tom Hooper, 2010). A noite foi de resgates históricos, com as participações inclusive dos dois apresentadores mais clássicos da história do Oscar, Billy Cristal e Bob Hope.

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Franco e Hathaway: tentativa de buscar o público jovem para a cerimônia não deu certo… 

Sobre a cerimônia, ainda: para mim os melhores momentos da festa foram as homenagens aos filmes antigos, a participação de Kirk Douglas e a entrada da orquestra, ao som de Star Wars Theme. As cenas de “… E O Vento Levou” mostram o arrojo de um filme que foi produzido em 1939 e o capricho da produção de Cameron nos lembraram que o cinema pode ser mágico e grandioso. Talvez a Academia estivesse buscando algum tipo de redenção depois de ter, em 2010, premiado “Guerra ao Terror” (The Hurt Locker, Kathryn Bigelow, 2009) ao invés do grandioso “Avatar” (James Cameron, 2009). Kirk Douglas, o eterno Espártaco, deu show no palco. Antes de anunciar o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante ele gracejou com Anne Hathaway e brincou com a ansiedade das indicadas. Além de ter, é claro, lembrado que foi indicado três vezes e nunca levou.

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Kirk Douglas, 94 anos, ataca Melissa Leo. O Filho Michael teve a quem puxar, pelo jeito… 

Entre os discursos, eu gostei do Christian Bale, que fez referência a Dicky Eklund, que foi vivido por ele em “O Vencedor” (The Fighter, David Russell, 2010). Wally Pfister, ganhador do prêmio de melhor fotografia por “A Origem” (Inception, Christopher Nolan, 2010) deu uma alfinetada na Academia. Lembrou que o filme só existia porque teve um excelente trabalho de direção. E ele tem razão: é inexplicável que Nolan não tenha sido ao menos indicado a Melhor Diretor. Colin Firth foi comovente agradecendo à mãe. Melissa Leo está tomando porrada de tudo quanto é lado pelo seu discurso, já que a acusam seu arroubo emocionado de ser fake e também de ter usado, como dizem os americanos, “the F-word”. Muito em função da polêmica pré-Oscar, quando Melissa Leo fez lobby em favor de sua atuação.

Falando sobre a premiação, ela foi pautada pela previsibilidade. Nas oito categorias “principais” tivemos apenas uma surpresa e meia, por assim dizer. “O Discurso do Rei” (Melhor Filme), Colin Firth (Melhor Ator), Natalie Portman (Melhor Atriz), Christian Bale (Melhor Ator Coadjuvante), Melissa Leo (Melhor Atriz Coadjuvante) e Aaron Sorkin (Melhor Roteiro Adaptado por “A Rede Social”) confirmaram premiações que todos já esperavam. A “meia-surpresa” da lista foi Tom Hooper (Melhor Diretor). Havia uma forte tendência desse prêmio acabar nas mãos de David Fincher não só por “A Rede Social” (The Social Network, 2010) mas também pelo conjunto da obra de Fincher. Hooper levou e a Academia manteve a tônica de premiar como Melhor Diretor o diretor do Melhor Filme. Por isso mesmo eu falo em “meia” surpresa. A surpresa inteira foi na categoria Melhor Roteiro Original. Todos achavam que esse seria o prêmio de consolação de Chris Nolan, injustamente (repito) não indicado como Melhor Diretor e autor de um roteiro complexo e elaborado. A vitória de “O Discurso do Rei”, um roteiro bem convencional, essa sim pode ser chamada de surpresa inteira. Note-se um detalhe: tivesse dado a lógica e “A Origem” levado o prêmio de Melhor Roteiro Original e o filme teria levado cinco óscares, contra os três que teria levado “O Discurso do Rei”. E como justificariam que o grande vencedor da noite não teve nem a indicação para Melhor Diretor?

Nas categorias mais técnicas “A Origem” (Inception, Christofer Nolan, 2010) levou seus prêmios, como era esperado. Prêmios justos de Efeitos Especiais, Edição de Som e Mixagem de Som. Foi meio estranho o prêmio de Fotografia, que na minha opinião tinha trabalhos melhores. “Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, 2010), um dos piores trabalhos de Tim Burton, levou duas estatuetas: Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino.

Falando em previsões, elas foram tão previsíveis que até eu fui bem nos chutes: nas 20 categorias que eu me atrevi a chutar, acertei 15. E nas que errei, reconheço, nem deveria ter chutado em duas delas (Filme em Língua Estrangeira e Melhor Documentário em Longa). Só o fiz por questões afetivas, envolvendo “Biutiful” e a torcida por “Lixo Extraordinário”. E diga-se em minha defesa também que Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção são duas das categorias tradicionalmente mais complicadas de prever. Falando em Trilha Sonora, fiquei imaginando o colega Cassiano Rodka quando anunciaram o Oscar (merecido, enfim) para Trent Reznor. “Toy Story 3”, um dos melhores filmes do ano acabou levando Melhor Canção, além do óbvio prêmio de Melhor Longa de Animação.

Bom, sem mais delongas, vamos à lista completa dos vencedores:

Melhor direção de arte
– “Alice no País das Maravilhas”

Melhor fotografia
– “A origem”

Melhor atriz coadjuvante:
– Melissa Leo – “O vencedor”

Melhor curta-metragem de animação
– “The lost thing”, de Shaun Tan, Andrew Ruheman

Melhor longa-metragem de animação:
– “Toy story 3”

Melhor roteiro adaptado
– “A rede social”

Melhor roteiro original
– “O discurso do rei”

Melhor filme de língua estrangeira
– “Em um mundo melhor” (Dinamarca)

Melhor ator coadjuvante
– Christian Bale – “O vencedor”

Melhor trilha sonora original
– “A rede social” – Trent Reznor e Atticus Ross

Melhor mixagem de som
– “A origem”

Melhor edição de som
– “A origem”

Melhor maquiagem
– “O lobisomem”

Melhor figurino
– “Alice no País das Maravilhas”

Melhor documentário em curta-metragem
“Strangers no more”

Melhor curta-metragem
– “God of love”

Melhor documentário (longa-metragem)
– “Trabalho interno”

Melhores efeitos visuais
– “A origem”

Melhor edição
– “A rede social”

Melhor canção original
– “We belong together”, de “Toy story 3”

Melhor diretor
– Tom Hooper – “O discurso do rei”

Melhor atriz
– Natalie Portman – “Cisne negro”

Melhor ator
– Colin Firth – “O discurso do rei”

Melhor filme
– “O discurso do rei”

Literatura

Tardes da Arábia

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Passei semanas preparando-me para ir com minha família aos Emirados Árabes Unidos, mais especificamente à Abu Dahbi, sua capital. Pesquisei na Internet sobre o país; seus hábitos, costumes, vestimentas, economia. Revirei o Google do avesso para saber se eu poderia usar saias curtas. A recomendação sempre era a de uso de roupas discretas, nada de decotes ou ombros e pernas de fora. Confesso que fiquei bastante apavorada, pois eu teria que enfrentar o quente inverno deles (temperatura média de 27 graus) com saião comprido e ombros tapados! Comprar roupas para minha viagem ao Oriente Médio foi um verdadeiro desafio fashion! Mas o venci, e no dia nove de dezembro de 2010 eu estava embarcando com a mala cheia de roupas que não têm nada a ver comigo, rumo a um país muçulmano, com a família toda.

A escolha de Abu Dahbi foi proposital: fomos acompanhar os jogos do time do coração de meu marido, o Internacional de Porto Alegre, em sua jornada para conquistar o bicampeonato mundial interclubes da FIFA. De antemão já comento o que muitos leitores (os que acompanham futebol) devem saber: o nosso time não levou o título para casa. A decepção foi grande. Mas nós quatro levamos para casa uma experiência inesquecível, que talvez não tivéssemos nunca, não fosse o Inter. Estivemos no Oriente Médio. Uma terra rica em várias sentidos, muitos dos quais nós, ocidentais, não somos capazes de perceber.

Lares de povos acolhedores, discretos e alegres, as cidades árabes de Abu Dahbi e Dubai têm sua população formada, em grande parte, por imigrantes vindos do mundo inteiro. Gente que vai em busca de vidas mais confortáveis. E consegue, pois por lá não sê vê miséria e pedintes nas ruas. Possuem um conjunto de regras peculiares sobre comportamento: afora as roupas específicas para as mulheres nativas, os árabes não podem beber e demonstrar carinhos em público, em razão de sua religião. Tais mandamentos também se aplicam aos turistas, com exceção das roupas da mulheres. Porém, como já mencionei, recomenda-se que as estrangeiras prefiram vestimentas discretas enquanto estiverem nos Emirados Árabes. Mas, ao contrário do que eu havia lido, eles aceitam muito bem todo tipo de roupa, pois presenciei mulheres até com mini-saias e shorts andando faceiras pelas ruas, sem serem importunadas ou advertidas.

As visões mais impressionantes, para mim, foram as das mulheres vestidas de negro da cabeça aos pés, com as chamadas abayas, e a do infinito deserto, a perder de vista. Movimentando-se com vagareza, as mulheres andavam sempre em bandos e falavam bastante. Olhos muito maquiados, bolsas e óculos de grife, sempre. E as tais abayas traziam diferenças nos cortes, modelos e pedrarias. Mesmo parecendo ser iguais, não são. Encontram um jeito de se diferenciar e chamar a atenção dos pretendentes.

Prédios ultra modernos e arquitetonicamente revolucionários são uma das marcas registradas das duas cidades que visitamos. O atual prédio mais alto do mundo está localizado em Dubai, e sua visão é de fato impressionante. O Burj Dubai tem 141 andares e 512 metros de altura.

Abu Dahbi é hoje importante centro econômico e turístico, e a escuderia Ferrari lá construiu recentemente um parque de diversões que agrada a adultos e crianças, que podem dirigir pequenas Ferraris ou brincar de dirigir grandes Ferraris em simuladores. O parque também abriga a maior montanha russa do mundo, que simula a velocidade de uma Ferrari.

Além disso, a parte cultural também não foi esquecida: em breve, serão inauguradas filiais do Museu do Louvre, de Paris e do Museu Guggenheim, de New York.

Praias maravilhosas banhadas pelo Mar Arábico, com águas extremamente calmas e de belíssima cor. Fins de tarde de tirar o fôlego, principalmente em Abu Dahbi, pois no horizonte se destaca com clareza a branquíssima e deslumbrante mesquita Sheik Zayed, a segunda maior do mundo, com capacidade para abrigar até 30.000 pessoas.

Em certos momentos do dia, ao amanhecer e ao entardecer, pode-se ouvir ao longe, de qualquer ponto das cidades, um canto melodioso vindo das mesquitas, uma reza que se propagava com suavidade, algo tão diferente para nós, que nem parecia real. Das arábias.

Cinema

Palpites para o Oscar 2011

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por Pedro Cunha

Então vamos lá! Minutos antes do red carpet começar, os meus palpites…

Melhor filme

Cisne Negro
O Vencedor
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social
Minhas Mães e meu Pai
Toy Story 3
127 Horas
Bravura Indômita
Inverno da Alma

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? “O Discurso do Rei”

QUEM EU ACHO QUE DEVIA GANHAR? “Cisne Negro”

 

Melhor diretor

Darren Aronovsky – Cisne Negro
David Fincher – A Rede Social
Tom Hooper – O Discurso do Rei
David O. Russell – O Vencedor
Joel e Ethan Coen – Bravura Indômita

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? Tom Hooper

QUEM EU ACHO QUE DEVIA GANHAR? Darren Aronovsky

 

Melhor ator

Jesse Eisenberg – A Rede Social
Colin Firth – O Discurso do Rei
James Franco – 127 Horas
Jeff Bridges – Bravura Indômita
Javier Bardem – Biutiful

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? Chuto Colin Firth (mas é a categoria mais imprevisível de todas…)

QUEM EU ACHO QUE DEVIA GANHAR? Eu daria o prêmio para James Franco. Mas qualquer um dos cinco que ganhar estará bem.

 

Melhor atriz

Nicole Kidman – Reencontrando a Felicidade
Jennifer Lawrence – Inverno da Alma
Natalie Portman – Cisne Negro
Michelle Williams – Blue Valentine
Annette Bening – Minhas Mães e meu Pai

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? Natalie Portman (essa é a barbada da noite…)

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR? Natalie Portman

Melhor ator coadjuvante

Christian Bale – O Vencedor
Jeremy Renner – Atração Perigosa
Geoffrey Rush – O Discurso do Rei
John Hawkes – Inverno da Alma
Mark Ruffalo – Minhas Mães e meu Pai

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? Christian Bale

QUEM EU ACHO QUE DEVIA GANHAR? Christian Bale

 

Melhor atriz coadjuvante

Amy Adams – O Vencedor
Helena Bonham Carter – O Discurso do Rei
Jacki Weaver – Animal Kingdom
Melissa Leo – O Vencedor
Hailee Steinfeld – Bravura Indômita

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? Melissa Leo

QUEM EU ACHO QUE DEVIA GANHAR? Melissa Leo

 

Melhor longa animado

Como Treinar o Seu Dragão
O Mágico
Toy Story 3

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? Toy Story 3

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR? Toy Story 3

 

Melhor filme em língua estrangeira

Biutiful
Fora-da-Lei
Dente Canino
Incendies
Em um Mundo Melhor

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? “Biutuful”

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR? “Biutiful”

 

Melhor direção de arte

Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I
A Origem
O Discurso do Rei
Bravura Indômita

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? “Alice no País das Maravilhas”

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR? “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I”

 

Melhor fotografia

Cisne Negro
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social
Bravura Indômita

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? “Bravura Indômita”

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR? “Cisne Negro”

 

Melhor figurino

Alice no País das Maravilhas
I Am Love
O Discurso do Rei
The Tempest
Bravura Indômita

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? “Alice no País das Maravilhas”

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR? “O Discurso do Rei”

Melhor montagem

Cisne Negro
O Vencedor
O Discurso do Rei
A Rede Social
127 Horas

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? “A Rede Social”

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR? “127 Horas”

 

Melhor trilha sonora

Alexandre Desplat – O Discurso do Rei
John Powell – Como Treinar o seu Dragão
A.R. Rahman – 127 Horas
Trent Reznor e Atticus Ross – A Rede Social
Hans Zimmer – A Origem

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? John Powell ou Hans Zimmer

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR?Trent Reznor e Atticus Ross ou Hans Zimmer

Melhor canção original

“Coming Home” – Country Strong
“I See the Light” – Enrolados
“If I Rise” – 127 Horas
We Belong Together – Toy Story 3

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? “If I Rise”

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR? “If I Rise”

 

Melhor maquiagem

O Lobisomem
Caminho da Liberdade
Minha Versão para o Amor

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? “O Lobisomem”

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR? Qualquer um, menos “O Lobisomem”

 

Melhor edição de som

A Origem
Toy Story 3
Tron – O Legado
Bravura Indômita
Incontrolável

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? “A Origem”

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR? “A Origem”

 

Melhor mixagem de som

A Origem
Bravura Indômita
O Discurso do Rei
A Rede Social
Salt

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? “A Origem”

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR? “A Origem”

 

Melhor efeitos especiais

Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I
Além da Vida
A Origem
Homem de Ferro 2

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? “Alice no País das Maravilhas”

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR? “A Origem”

 

Melhor roteiro adaptado

A Rede Social
127 Horas
Toy Story 3
Bravura Indômita
Inverno da Alma

 

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? “A Rede Social”

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR? “A Rede Social”

 

Melhor roteiro original

Minhas Mães e meu Pai
A Origem
O Discurso do Rei
O Vencedor
Another Year

QUEM EU ACHO QUE VAI GANHAR? “A Origem”

QUEM EU ACHO QUE DEVERIA GANHAR? “A Origem”

Cinema

O Discurso do Rei (The King’s Speech, Tom Hooper, 2010)

por Pedro Cunha

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Colin Firth, que se fez grande Rei, com apoio do seu terapeuta de fala, Lionel Logue

Indicado em 12 categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor (Tom Hooper), Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Roteiro Original, Melhor Ator (Colin Firth), Melhor Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush), Melhor Atriz Coadjuvante (Helena Bonham Carter), Melhor Trilha Sonora, Melhor Mixagem de Som

“O Discurso do Rei”, numa primeira análise poderia ser encaixado naquela grande categoria dos filmes de “superação”: histórias (muitas vezes reais) de pessoas com uma grande dificuldade que lutam contra ela e tem no filme, na maioria das vezes, a história do seu sucesso. De “Flashdance” (Adrian Lyne, 1983) até “Preciosa” (Precious, Lee Daniels, 2009), passando por “Uma Mente Brilhante” (A Beautyful Mind, Ron Howard, 2001), esse “pseudogênero” em geral rende boas histórias, apesar da forte tendência de acabar caindo no clichê.

O roteirista David Seidler adaptou a história do irmão menos famoso que tornou-se Rei da Inglaterra. O irmão mais famoso foi seu antecessor, Eduardo VIII, que tornou-se célebre por ter abdicado da coroa britânica para poder casar-se com a mulher que amava, uma americana duas vezes divorciadas. Em geral essa história é contada como o conto de fadas do homem que abriu mão do trono inglês por amor, mas o filme a conta sob o ponto de vista do irmão mais novo que via o irmão como um dândi irresponsável que colocava seus sentimentos e questões pessoais acima das questões de estado. “Bertie”, como era chamado pela família, tinha sérios problemas de insegurança e uma gagueira que o impedia de falar em público, numa época (final dos anos 1930) em que a Inglaterra rumava para uma guerra onde o seu adversário, Adolf Hitler, tinha na eloquência sua principal virtude.

O filme, que não teve um orçamento modesto, fez por merecer todas as indicações mais técnicas que recebeu. A produção é caprichadíssima, os figurinos muito cuidadosos e detalhistas e a fotografia é discretamente perfeita. O ponto forte do filme, no entanto, são as atuações. Em especial, o trabalho de Colin Firth. O eterno “namorado de Bridget Jones” já faz tempo que chama a atenção pelos trabalhos bacanas. O Rei Jorge VI, no entanto, é um papel diferente. E não só pela gagueira, magistralmente construída por Firth. Jorge VI parece, durante todo o filme, que está prestes a explodir, mas se controla. A figura do Duque de York que reluta para tornar-se Rei, imerso na própria insegurança é sustentada por dois sensacionais coadjuvantes. O primeiro deles é o experiente Geoffrey Rush, que interpreta o ator frustrado e terapeuta da fala Lionel Longue, um australiano que afronta e ajuda o Rei na sua busca por conseguir controlar a sua fala. A segunda é a sempre deslumbrante Helena Bonham Carter, como Elizabeth, a esposa do Duque de York. Sempre é bom ver Bonham Carter atuando, e é bom de vez em quando vê-la num papel que não é o de doida varrida. Essas três atuações e o a eficiência técnica conseguem fazer com que “O Discurso do Rei” fuja do clichê dos “filmes de superação” e torne-se um excelente filme. Provavelmente vencerá em várias categorias e é hoje o franco favorito para as duas principais estatuetas, a de Melhor Filme e a de Melhor Diretor, para Tom Hooper.

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Geoffrey Rush, Collin Firth e Helena Bonham Carter: bons atores, bom roteiro e ótimo filme