Clarice Dall’Agnol

Cinema

O que há com o cinema nacional?

por Pedro Cunha

Os últimos dez anos foram sensacionais para o Brasil. A economia cresceu e o país tornou-se mais justo, com uma surpreendente redução da (ainda gigante) desigualdade social. O país cresceu em termos geopolíticos, deixando de ser apenas exportador de pés de obra para os campeonatos de futebol europeus e tornando-se protagonista em ações internacionais, sendo referência em campos tão distantes como sustentabilidade, redução da pobreza e exploração de petróleo. E tudo isso com imprensa livre, eleições regulares e tudo mais. A questão então é: porque o cinema nacional patina?

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Antes que me atirem pedras, eu sei que há boas produções. Ainda não consegui assistir, por exemplo, “Os Famosos e os Duendes da Morte” (Esmir Filho, 2010), que tem sido bastante elogiado por todo mundo que viu. E “Tropa de Elite 2” (José Padilha, 2010) é a exceção que confirma a regra. É um baita filme de ação. O meu ponto é que o cinema brasileiro mainstream tem usado muito, muito dinheiro para fazer filmes… ruins. Pelo menos os filmes que mais gastam dinheiro e também os que mais arrecadam.

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Esse eu não vi, mas é muito bom, já diria o Sílvio… 

Há uma vertente recentemente descoberta que tem rendido muito dinheiro e muito público no Brasil: o cinema espírita. Não quero entrar no mérito religioso da coisa, mas cinema espírita está para cinema como literatura espírita está para literatura: é um ramo a parte. Qualquer filme que for lançado com a temática vai fazer uma bilheteria estrondosa. “Bezerra de Menezes” (Bezerra Filho e Joe Pimentel, 2008), “Chico Xavier” (Daniel Filho, 2010), “Nosso Lar” (Wagner de Assis, 2010) e “As Mães de Chico Xavier” (Glauber Filho e Halder Gomes, 2011) fizeram, todos, boas bilheterias. Mas cinematograficamente são muito ruins! Antes que alguém argumente falando da mensagem, de ler os livros etc eu já aviso: eu não sou gabaritado para analisar essa parte. Falando sobre cinema, e só sobre cinema, os roteiros são fracos, as atuações são caricatas e o dinheiro gasto (no caso de Nosso Lar foram R$ 20 milhões!!) foi muito, mas muito mal gasto! A cidade futurista de “Nosso Lar” é uma das coisas mais bregas e cafonas da história do cinema.

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Colônia Espiritual, mas pode chamar de “Sala da Justiça”… 

O filme brasileiro mais comentado da temporada, e que com certeza está fazendo boa bilheteria, é “Bruna Surfistinha: O Doce Veneno do Escorpião” (Marcus Baldini, 2011). Eu não li o livro da moça, mas o roteiro do filme tem mais buracos que queijo suíço. Não se entende o começo do filme, o meio é confuso e o final sem sentido. “Fora isso”, diriam alguns… Deborah Secco não está ruim no papel, mas falta conteúdo ao personagem. Sem falar no personagem do seu namorado/marido, interpretado pelo Cássio Gabus Mendes. Mais bidimensional impossível… mas a culpa não é dos atores: com aquele roteiro nem a Meryl Streep e o John Malkovich conseguiriam se sobressair.

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Entendeu? Então me explica… 

Além dele o outro suposto blockbuster brasileiro da temporada seria “VIPs” (Toniko Melo, 2010). O filme conta a história real de um cara de classe média que se deu bem se passando por outras pessoas e dando uma série de golpes, começando se passando por piloto de avião. Sim, você já viu esse filme e a comparação com “Prenda-me se for capaz” (Catch me if you can, Steven Spielberg, 2002) é inevitável. Acontece que ambas as histórias são reais e sim, bastante parecidas. Por mais que Wagner Moura esteja bem, como sempre, é mais um filme que gasta uma boa grana para ir de nada a lugar algum. Perde-se muito tempo em alguns detalhes da trama que não se explicam, alguns outros ficam óbvios demais e o roteiro, apesar de ter a mão do competente Bráulio Mantovani, não leva a lugar algum.

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Nem Wagner Moura salva sempre… 

Fazendo a forçosa comparação, nossos hermanos argentinos e uruguaios tem nos dado um banho, em termos de produção cinematográfica. E eu só não sou categórico em por junto peruanos, colombianos e mexicanos porque conheço pouco, quase nada, de suas produções. O curioso é que o pessoal do Prata trabalha com orçamentos muito mais apertados e em condições muito mais difíceis de arrecadação de grana. Aqui no Brasil, ainda por cima, temos uma série de isenções e benefícios que são como coração de mãe: sempre cabe mais um independente da índole ou da qualidade…

Tentando responder a minha questão, eu vejo que o cinema brasileiro fica no meio do caminho entre tentar ser Hollywood e tentar ser latino-americano. A questão é que, enquanto tentar imitar as comédias românticas de Hollywood o cinema brasileiro vai SEMPRE sair prejudicado, porque para o bem e para o mal, ninguém consegue fazer Hollywood como Hollywood. Os cinemas argentino e uruguaio, até em função de limitações, tem de caprichar muito nos roteiros, nos diálogos e nas atuações. São filmes mais densos, muitas vezes mais pesados. Mas acabam tendo uma qualidade muito grande. De orelhada (e sem citar o ganhador do Oscar do ano passado…) eu lembro de “Abutres” (Caranchos, Pablo Trapero, 2010), XXY (Lúcia Puenzo, 2007), O Banheiro do Papa (El Baño del Papa, Cesar Charlone e Enrique Fernandez, 2007), Gigante (Adrián Biniez, 2009)… enfim, são vários. Todos com essas características comuns: bons diálogos, trabalhos interessantes de fotografia e enquadramento, atores (não modelos ou apresentadores, enfim) trabalhando bem. Será tão complicado assim.

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Para não dizer que eu só detonei… 

E para não dizer que não falei de flores, hoje eu vi um bom filme nacional. “Como Esquecer” (Malu de Martino, 2010). Mais parecido com os filmes argentinos do que tentando ser Hollywood, temos um filme sensível e um belo trabalho de Ana Paula Arósio como atriz. O filme fala sobre desilusões amorosas, finais, recomeços, partidas e chegadas. E sobre juntar os pedaços e como cada um lida com a perda, seja a perda da morte, a perda do abandono ou tantas outras perdas que possamos viver. Destaque para as atuações dos coadjuvantes: Murilo Rosa já ganhou inclusive algumas premiações internacionais pelo seu papel como Hugo, um dos amigos de Júlia, a personagem de Arósio. E Natália Lage… tá, deixa eu contar um segredo: eu meio que sou apaixonadinho por ela desde que ela fez a novela Perigosas Peruas, novela das 19h que foi ao ar no longínquo 1992. Ela tinha 14 anos, como eu, e eu a achava linda. Enfim, ela foi meu sonho de consumo durante muito tempo… e a “Pollyana hippie” (A definição é da Júlia, personagem do filme) que ela interpreta em “Como Esquecer” é bem meu tipinho, também. Natália Lage, um beijo para ti! Passado o momento stalker/confissões de adolescente, resta dizer que ela também está bem no filme. E resta também nos perguntar, porque o cinema brasileiro não pode ser mais brasileiro, como foi nesse filme.

Literatura

Quem é

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imagem: Anelise Schutz

por Clarice Casado

Se meu espelho falasse,
ele diria:
quem é essa mulher
que um dia vi menina
que me olhava assustada
perdida
envergonhada
quem é ela
quem é
que me olhava
sem dizer nada
(dizendo mil coisas)
quem é ela
quem é
que julgava não saber
não entender
não aproveitar
quem é ela
quem é
que costumava soprar segredos
costurar manhas
desenhar enredos
quem é ela
quem é
que de seu caminho pouco sabia
entristecia
olhava pra baixo
fugia
quem é ela
quem é
que hoje mira-me
altiva
decidida
envaidecida
quem é ela
quem é
que tece destinos
e que alegra vidas
que soluciona mistérios
e emenda feridas
quem é ela
quem é
que não mais chora antes –
porque descobriu que o antes
é apenas um pequeno detalhe
entre o espelho
e o que vem depois.

Cinema

Wes Craven fez de novo

por Pedro Cunha

Alguns diretores tornam-se referência dentro de um gênero em função de o terem modificado, renovado, inserido algo novo ou olhado para ele de outra maneira. E quando se fala do sempre subestimado gênero do horror, não há mais como não incluir Wes Craven nessa lista. Até porque ele não fez isso uma ou duas vezes. Com o lançamento de “Pânico 4” (Scream 4, Wes Craven, 2011) ele acaba de ter feito isso pela TERCEIRA vez.

Se por nenhum outro motivo, Craven merecia estar na galeria dos grandes diretores de horror em função de ter sido o roteirista e diretor de “A Hora do Pesadelo” (Nightmare on Elm Street, 1984). O filme criou uma série de paradigmas, regras e modelos que foram repetidos a exaustão nos dez anos seguintes. Sem falar no personagem Freddy Kruger: Seu chapéu coco, seu suéter listrado vermelho, seu rosto queimado e, principalmente, sua luva com lâminas se tornaram mais do que símbolos: foram ícones. Nos 10 anos seguintes a fórmula de Craven foi repetida a exaustão. Dezenas de filmes e sequências utilizavam-se do serial killer que, de uma maneira ou de outra, voltava para vingar-se. Além do Freddy Kruger de Craven também definiram as regras dos filmes de horror nos late 80s e nos early 90s Jason Vorhees, da série “Sexta-Feira 13” (Friday the 13th) e Michael Myers, da série “Halloween”. Jamie Lee Curtis, heroína de “Halloween”, tornou-se um dos símbolos daquelas mocinhas que corriam, corriam, corriam e acabavam sempre alcançadas pelos vilões que, invariavelmente, caminhavam lentamente. Alcançadas elas eram. Escoriações, obtinham várias. Mas pegas? Nunca. Elas sobreviviam. O que nós já sabíamos desde o início do filme…

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Freddy Krueger e a sua indefectível luvinha…

A fórmula tornou-se desgastada. Depois de muito sucesso Freddy, Jason e Cia já não assustavam mais ninguém. E então Craven apareceu e mudou as regras do jogo. “Pânico” (Scream, 1996) inaugurava novas regras, mas mais do que isso: começava o jogo dos metafilmes. Os filmes que falam dos filmes. “Pânico” falava, inclusive, das regras dos filmes de terror, inventadas por Craven. E nos apresentava um novo serial killer, um tanto quanto diferente: Ghostface, como acabou ficando conhecido em função de sua máscara. Ghostface não tem poderes sobrenaturais. Ele liga de um telefone e avisa para as pessoas que elas estão para morrer. E então ele as apunhala. Várias vezes. Mas no meio do caminho, Ghostface corre. E tropeça. E erra, várias vezes. E se bate, e se machuca e nos proporciona alguns momentos de humor bizarro e nervoso. Ghostface é, de certa forma, a antítese dos grandes vilões de filmes de horror. E mais ainda porque, como observamos nas sequências “Pânico 2” (Scream 2, 1997) e “Pânico 3” (Scream 3, 2000), Ghostface nunca é a mesma pessoa.

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Pânico mudou as regras dos filmes de horror e se tornou um clássico dos anos 90 

As duas sequências, aliás, brincam mais ainda com os clichês do cinema. “Pânico 2” usa e abusa, propositadamente, de todos os clichês das sequências de filmes de horror. Já “Pânico 3” lança ideias e teorias sobre o conceito de trilogias, e já se anuncia como o último da sequência. Os três filmes orbitam em torno de um núcleo de três personagens: Sidney Prescott (Neve Campbell) é a vítima. Gale Wheaters (Courtney Cox) é a jornalista inescrupulosa que cobre o evento dos assassinatos seriais e acaba se envolvendo com Dewey (David Arquette), o policial encarregado de resolver os crimes. Foi durante as gravações de “Pânico”, aliás, que Courtney Cox acabou tornando-se (e hoje não é mais) Courtney Cox-Arquette. Cambpell chegou a experimentar algum momento de estrelato, em função do sucesso da série, mas no começo dos anos 2000 caiu na vala das atrizes comuns com algumas escolhas erradas de trabalho.

A metalinguagem sobre os filmes de horror está ainda mais presente em “Pânico 2” e “Pânico 3”. As duas sequências, inclusive, faziam referências ao filme “Stab”, pretensa obra de ficção baseada nos crimes de Woodsboro, que ocorreram no primeiro pânico. É metalinguagem pura, inclusive porque o assassino de “Stab” é… Ghostface, ele mesmo! Quando as cenas dos filmes começam a se misturar, às vezes fica difícil entender se o que está rolando é o filme “real” ou o “filme do filme”. “Pânico 3” encerra a trilogia e não dá margem à sequência. O que deixa no ar a pergunta: por que fazer “Pânico 4”?

Eu tenho, sempre, ressalvas com sequências. Na maioria das vezes elas são descartáveis e desnecessárias, a não ser para o bolso dos produtores. Mas de vez em quando uma sequência se justifica. E é o caso de “Pânico 4”. O filme começa com uma cena forçada de Ghostface em ação. E logo descobrimos que se trata de uma cena de “Stab 6”. Que está incluída, aliás, no início de “Stab 7”. É o filme dentro do filme dentro do filme. “Pânico 4” traz o mesmo núcleo-base (Campbell, Arquette e Cox) e a trama é a mesma. Trazendo, porém, as referências do século XXI. No início do filme há uma referência (ácida e crítica) à série “Jogos Mortais” (Saw), que foi o que de mais inovador apareceu no cinema de horror nesse século. Há muitas, mas muitas referências a filmes e diretores: “Stab 1”, o “Pânico” dentro de “Pânico”, foi dirigido, por exemplo, por Robert Rodriguez. Um determinado policial se chama Perkins. Anthony Perkins, numa clara alusão ao ator do clássico “Psicose” (Psycho, Alfred Hitchcock, 1960). E há uma série de cenas onde aparecem nomes e cartazes de filmes antigos de horror, sem falar nos diálogos de alguns personagens fazendo jogos de perguntas e respostas sobre filmes de horror.

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“Pânico 4”: Nova década, novas regras… 

“Pânico 4” fala de internet, de live broadcast e faz uma crítica surpreendentemente forte à sociedade das subcelebridades virtuais e dos reality shows dos anos 2000. O diretor brinca, também, com a nova mania de Hollywood: os reboots. “Pânico 4” não deixa de ser um reboot do primeiro, e isso é tratado abertamente no próprio filme, inclusive com uma “nova” Sidney Prescott. É um filme que garante bons momentos de risadas e alguns sustos, no que Wes Craven continua muito bom. E, acima de tudo, Craven encerra um ciclo: se em 1996, com “Pânico”, ele mostrou o esgotamento da fórmula que ele mesmo inaugurara em 1984 com “A Hora do Pesadelo” agora em 2011, com “Pânico 4”, ele esgota a vertente que havia inaugurado em 1996. Resta ver o quanto ele servirá de modelo para os filmes de horror daqui para frente…

Literatura

Naquele dia de verão

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imagem: Anelise Schutz

por Marcella Marx

Acordei cedo, fiz todo ritual que uma mulher entrando nos trinta precisa começar a fazer  e fui trabalhar. Recebi um elogio sobre minha blusa verde e segui pelo pátio cantarolando Djavan: “Assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão….” Dei minhas aulas sentindo o suor escorrer-me por dentro até observar um solitário pingo evaporando-se no chão. Ouvi alguns desaforos (como costumeiro). Exercitei o que fui aconselhada: Presente ausente! É isso mesmo. Uma versão “cara de paisagem” para deixar “entrar por um ouvido e sair por outro”. Ganhei uma flor colhida do chão de meu aluno e um lindo desenho com dedicatória: “Você é a melhor professora do mundo!” Na saída da escola encontrei com o Sr. Zé que me ofereceu uma dúzia de laranjas: “Mais doces que mel!” Como ele diz. E me pergunta: “Tem banana em casa?” Sim, Sr. Zé. Quase com vergonha por ter comprado as minhas no Pão de Açúcar. Mesmo sem sair com as laranjas eu sempre levo uma lição do Sr. Zé. Naquele dia, foi algo sobre como devemos valorizar nosso trabalho. Ele também muito delicadamente me perguntou qual era minha idade e, quando contei, me encheu de elogios.
– Meu dia estava apenas começando, mas já prometia.
À tarde, depois de almoçar, peguei meu material e fui para a segunda longa parte de meu dia. Destino: Real Parque. Sentei e fiz um trato com meu aluno de 10 anos: dali em diante, apenas inglês na sala de aula e, quem descumprisse o acordo, pagaria sua pena ao final. Ouvimos e cantamos “Let it be” dos Beatles e ele me impressionou com sua bela pronúncia e afinação. (Só podia ser meu aluno!). Segui, para o Alto da Boa Vista. Numa linda casa gelada, cheia de muitos empregados e pernilongos que costumam me devorar. Não naquele dia. Lembrei de colocar meu Off na bolsa. Minha aluna estava mais preocupada com sua festa de quinze anos, a ser realizada num dos melhores e caros Buffets de São Paulo. Trocas de vestido, valsas, cerimônias e eu tentando fazê-la lembrar do “does” na terceira pessoa do singular presente interrogativo. Última parte do dia e as nuvens começam a se formar no céu anunciando uma tempestade daquelas que adoro, mas que me sinto mal em adorar… Cidade louca esta na qual temos um certo dever moral de detestar algo tão belo e intenso como uma tempestade. Imagina se digo que gosto e depois conheço alguém cuja casa, carro, ou parente foi engolido por um dos córregos. “Vou-me embora pra Pasárgada” ou “back to the woods” onde possa desejar minhas tempestades sem limite e censura. Moema: última parada. Estacionei o carro no lugar de sempre. O barulho dos trovões e aviões se misturava e eu precisei interromper a aula diversas vezes. A chuva rompeu sem dó. Insisto, adoro o prelúdio, o barulho, o cheiro e ainda mais seu desfecho, especialmente quando é um atrevido raio de sol. Como estávamos na varanda, tivemos que entrar e, num certo momento, perguntei se ela havia fechado as janelas. Em minha casa, adoro deixar para o último momento e sair correndo, lutando contra o vento para fechá-las. Ela me respondeu que achava que sim e me acompanhou até o térreo. O porteiro nos alertou que não era possível sair. Mal sabe ele que adoro andar na chuva ao final do dia, pensei. Infelizmente, “he really meant it!”

Música

O mundo muito particular de Harry Nilsson

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por Cassiano Rodka

“Nilsson é o meu favorito”. Essa foi a resposta de John Lennon, em 1968, quando indagado por um repórter sobre qual seria sua banda americana preferida. Logo em seguida, Paul McCartney ouvia a mesma pergunta. A resposta: “Nilsson”. Ninguém sabia de quem se tratava, mas no dia seguinte à entrevista, Harry Nilsson teve seu nome estampado em algumas das maiores revistas de música da época.

A verdade é que Harry Nilsson foi tão influente para os Beatles quanto eles foram para o compositor. O primeiro disco de Nilsson, “Pandemonium Shadow Show”, foi lançado em 1967 e trazia duas covers dos quatro rapazes de Liverpool: “She’s Leaving Home” e “You Can’t Do That”, em uma versão mais lenta e com backing vocals cantando frases de outras 20 músicas dos Beatles. A inusitada versão entrou no Top 10 das paradas canadenses.

Em uma passagem pelos EUA, Derek Taylor, assessor de imprensa dos Beatles, escutou a faixa “1941” no rádio enquanto esperava a sua esposa no carro. Apaixonado pela música, foi atrás do disco e comprou cópias para vários amigos, incluindo John, Paul, George e Ringo. Lennon declarou que escutou o álbum ininterruptamente por 36 horas seguidas. Harry Nilsson recebeu telefonemas dos músicos parabenizando pela álbum e convidando para ele ir à Londres conhecê-los. O encontro eventualmente ocorreu durante as gravações do “White Album” dos Beatles em 1968. Harry desenvolveu uma duradoura (e turbulenta) amizade com John e, em especial, com Ringo, que se tornou um de seus melhores amigos.

Ao lançar seu segundo disco, “Aerial Ballet”, Harry Nilsson fez sua fama crescer, principalmente depois que o single “Everybody’s Talkin'” foi escolhido como tema do filme “Perdidos na Noite” (Midnight Cowboy). A emocionante cover de Fred Neil escalou as paradas musicais e garantiu um Grammy a Nilsson. O álbum ainda continha alguns dos singles mais conhecidos de Harry até hoje: “One” (com uma linha de piano baseada no som de ocupado do telefone), “Good Old Desk” (provando que uma letra sobre uma mesa pode ser belíssima) e “Daddy’s Song” (que foi gravada pelos Monkees).

Em 1969, Nilsson estreou no cinema fazendo aquela que seria a sua primeira de muitas trilhas. A comédia “Skidoo” não foi um grande sucesso, mas realçou a criatividade de Harry como compositor, em especial na divertida música de abertura do filme, “The Cast and Crew”, onde ele cantava os créditos da produção. No mesmo ano, Nilsson lançou “Harry”, um álbum que ia do folk ao rock ao jazz, sem se intimidar a assumir um rótulo específico. Essa seria uma das grandes marcas de Harry Nilsson, que sempre preferiu fazer o que bem entendia sem seguir tendências ou dar atenção ao que esperavam dele. No ano seguinte, quando todos aguardavam por mais composições próprias, Harry resolveu lançar um álbum inteiramente de covers: “Nilsson Sings Newman”, onde o cantor interpretava músicas de Randy Newman, um compositor desconhecido na época. Em 1971, ele resolveu criar uma fábula infantil. Escreveu a história de “The Point!” e produziu um desenho animado para a rede ABC com narração do amigo Ringo Starr. A encantadora trilha sonora foi composta inteiramente por Nilsson que a lançou em disco, rendendo o single “Me and My Arrow”.

Com o crescente sucesso do compositor, a gravadora RCA queria relançar os dois primeiros discos de Harry. Relançar era coisa muito sem graça para ele, então Nilsson decidiu fazer algo novo com as canções desses álbuns: mesclou as faixas dos dois LPs, alterando o andamento de algumas músicas, regravando instrumentos e vozes, e resultando naquele que é considerado um dos primeiros álbuns de remixes do mundo, “Aerial Pandemonium Ballet”.

Como se não bastasse o disco infantil e o álbum de remixes, Nilsson reservou outra grande surpresa para 1971: uma seleção de composições inéditas que resultaria no seu maior sucesso de vendas até hoje, o disco “Nilsson Schmilsson”.

Produzido por Richard Perry, o álbum mostra o compositor no auge da criatividade e rendeu três singles bastante distintos que se tornaram marcos em sua carreira. O primeiro é a cover de “Without You” da banda Badfinger, uma balada que ganhou uma interpretação tão emocionada na voz de Harry que transformou sua versão na referência definitiva para as covers que viriam desde então. A música ainda conferiu ao cantor mais um Grammy. O segundo single, “Coconut”, é uma música de um acorde só e chama atenção pelas três vozes que Nilsson usa para interpretar os diferentes personagens da letra. A canção foi escolhida para acompanhar os créditos finais de “Cães de Aluguel” (Reservoir Dogs) de Quentin Tarantino anos depois. O terceiro single, “Jump into the Fire”, é um rock progressivo gritado de quase 7 minutos de duração. A faixa também teve espaço no cinema, servindo de trilha para uma cena bem conhecida de “Os Bons Companheiros” (Goodfellas).

“Nilsson Schmilsson” tinha tudo para ser o primeiro de muitos discos de sucesso por parte do compositor. Mas tudo o que Harry menos queria era se repetir ou deixar de se surpreender com o que fazia. No ano seguinte, foi lançado “Son of Schmilsson”, que, apesar do título, não é exatamente uma cria do álbum anterior. Chutando o balde, Nilsson apresentou uma seleção de canções bem peculiares. Com palavrões, humor negro e muito deboche, o compositor surpreendeu quem esperava uma continuação de “Nilsson Schmilsson”. Alguns fãs consideram esse disco um deslize, mas eu confesso que acho ele uma pérola! Entre as minhas faixas preferidas estão “Joy” (um country falado e cheio de duplos sentidos), “You’re Breakin’ My Heart” (um soul-rock beijo-me-liga que certamente inspirou Cee-Lo a criar o seu hit “Fuck You”), “Spaceman” (um rock-pop espacial a la Bowie) e “I’d Rather Be Dead” (uma canção sobre as agruras de envelhecer cantada por… um coro de velhinhos!!).

O álbum não foi muito bem comercialmente, mas pouco importou para Harry. Fechando seus ouvidos para todos à sua volta, ele seguiu fazendo o que queria. Seu álbum seguinte? Um disco de standards acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Londres. O produtor Richard Perry considerou a ideia um suicídio comercial e largou de mão o projeto, deixando o cargo para Derek Taylor, o assessor de imprensa dos Beatles. Mas o lançamento de “A Little Touch of Schmilsson in the Night” era fichinha perto do que viria a seguir… o filme “Son of Dracula”! Produzido pela Apple Filmes e estrelado por Harry Nilsson (como o filho do Drácula) e Ringo Starr (como Merlin, o mágico), o filme foi considerado um dos piores de todos os tempos. O roteiro tosco e as más atuações são de doer, mas a faixa “Daybreak”, criada para a trilha e com participação de George Harrisson na percussão e Peter Frampton na guitarra, faz tudo ser perdoado!

Em 1974, John Lennon deu um tempo com Yoko Ono. Viajou para a Califórnia e lá bebeu todas com o amigo Harry. Da parceria, além de tragos homéricos, surgiu o disco “Pussy Cats”, produzido por John Lennon. Entre altos e baixos, o disco deixa claro que a gravação das músicas não era a prioridade e a voz de Harry mostra seus primeiros sinais de cansaço. Seguem três discos onde Nilsson sofre para cantar e compor: “Duit on Mon Dei”, “Sandman” e “… That’s the Way It Is”.

Cansado de deixar as drogas sufocarem seu talento, o cantor resolveu se concentrar em compor um grande disco em 1977. Quando terminado, “Knnillssonn” deixou Harry satisfeito com o que considerava ser suas melhores canções em muito tempo e a gravadora ficou confiante no material. Mas a morte de Elvis Presley desviou a atenção da RCA, abafando o que poderia ter sido uma grande volta para o artista. Frustrado, o compositor decidiu deixar a gravadora.

Em 1980, Harry compôs a trilha sonora do filme “Popeye” (de Robert Altman) e lançou o disco de inéditas “Flash Harry”, exclusivamente no Reino Unido. Mas o assassinato de John Lennon no final daquele ano fez com que ele decidisse largar de vez seu emprego como músico e o transformou em um ativista pelo controle de armas, filiando-se ao grupo Coalition to Stop Gun Violence.

Durante dez anos, Harry focou-se em sua luta contra as armas, ficando à margem do mercado musical. Em 1993, ele decidiu gravar um último álbum, mas uma parada cardíaca tirou a vida do compositor, fazendo com que o disco fosse engavetado e nunca fosse lançado até hoje.

Seja pela emoção de sua voz de muitas oitavas, pelos seus arranjos inteligentes ou pelas suas letras debochadas, há um mundo de motivos para conhecer as canções de Harry Nilsson. Então dá uma garimpada nos discos do cara e mergulhe fundo no universo de Schmilsson!

Uma boa dica para conhecer mais sobre o cara é o documentário “Who Is Harry Nilsson (And Why Is Everybody Talkin’ About Him)?”, dirigido por John Scheinfeld e lançado em 2010.

Literatura

127 Horas

127horas

por Clarice Casado

“What’s the use of worrying?
What’s the use of hurrying?
What’s the use of anything?”

(“Mrs. Vanderbilt”, Paul McCartney)

De vez em quando, os leitores sabem, eu dou de me meter a crítica de cinema, e tento roubar um pouco a cena do pessoal encarregado do assunto aqui no PáginaDois. Neste momento, o condutor da coluna de cinema é o Pedro Cunha, historiador e excelente entendedor e apreciador da sétima arte. Pedro, me perdoa, mas hoje a batuta cinematográfica é minha: vou falar de “127 Horas”, se me permites, porque eu não conseguiria continuar a viver tranquila se não o fizesse. Porém, leitores, como não sou crítica de cinema, o que faço é apenas jogar um olharzinho todo meu sobre as películas que me tocam… Assim, here we go!

Esqueçam tudo que vocês ouviram comentar ou falar sobre o filme. Guardem tudo em alguma gaveta bem trancada de suas mentes. Vá ao cinema com a certeza de que as informações ficaram lá, e de lá não vão sair. Mesmo que não dê para trancar tanto assim, não tem problema. Eu fui assistir sabendo tudo sobre o filme. Porque é baseado em uma história real, e eu fui pro Google pesquisar. Ainda assim, me surpreendi e fiquei sem ar durante toda a projeção, e caí em prantos quando os créditos finais começaram a rolar na tela. Um filme que faz isso com alguém não é um filme: é um marco. Para mim, daqueles que dividem águas na tua vida.

“127 Horas” não é apenas um filme sobre montanhismo, como vocês já devem ter ouvido por aí. Mas também não é simplesmente um filme sobre coragem. É um filme sobre coragem, sim, mas na sua mais pura essência. A coragem genuína, a verdadeira, aquela que surge nos momentos de verdadeiro desespero. É aquela bravura que poucos de nós conhecem. Achamos que a conhecemos, apenas. É sobre uma coragem que dorme em qualquer um de nós, e que acorda doida diante de situações muito inesperadas ou muito desconhecidas. É um filme sobre o que somos capazes de fazer para nos salvarmos de nós mesmos. É sobre superar problemas e superar-se, em todos os sentidos. É sobre a absoluta inutilidade do medo em nossas vidas. O medo é somente uma criação de nós mesmos. Não sabemos do que temos medo, até que o encaramos de verdade. Você tem medo de quê? De morrer? Não perca o seu tempo. Se tiver que morrer, irá morrer, da maneira mais boba ou da maneira mais horrorosa. E se tiver que permanecer vivo, por mil anos, assim será, mesmo que a vida te coloque à prova de um modo absolutamente inesperado. E é esta prova que irá resumir a sua existência: ou você veio para lutar, ou não.

É aí que “127 Horas” deixa o espectador de fato encurralado: ok, o destino de todos nós está traçado, não podendo ser mudado. Em tese. Mas e se você interferir? A ideia do filme é também a de que você pode interferir, e muito. Não há por que passar uma vida toda pensando no que poderá acontecer com você amanhã, porém, se algo que não estava em seus planos ocorrer, há como se fazer de tudo para mudar o que já estava escrito. Ou ao menos, há espaço para se reverter algo que parecia inevitável, dentro de determinadas circunstâncias.

127 Horas é de tirar o fôlego, literalmente. Porque, durante todo o filme, o espectador se questiona sobre o que faria naquela exata situação. E é essa terrível dúvida, é essa dilaceradora dúvida que faz com que o filme seja único, seja especial, seja a experiência de uma vida. Vá assistir, e me conte depois.

E aí, Pedro, ficou bom?

Cinema

Cisne Negro (Black Swan, Darren Aronofsky, 2010)

por Pedro Cunha

“Aquele que luta com monstros deve tomar cuidado para não tornar-se também um monstro. Quando você olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você”.

Friederich Nietzsche

 

A indústria cinematográfica de Hollywood passa por um momento de profunda crise. A criatividade parece ter se esgotado e as grandes bilheterias são, sem exceção, remakes, reboots, refilmagens e continuações. Quando não adaptações de quadrinhos, seriados ou de outras coisas, como brinquedos ou videogames. Fiquemos em 2010, por exemplo: o top 10 das bilheterias começa com “Toy Story 3” (Lee Unkrich), uma continuação, passa por “Alice no País das Maravilhas” (Tim Burton), uma re(re-re)filmagem, segue com “Harry Potter e As Relíquias da Morte – Parte 1” (Harry Potter and The Deathly Hollows – Part 1, David Yates), adaptação E sequência, continua com “A Origem” (Inception, Chris Nolan), único filme 100% original até aí, continua com “Eclipse” (David Slade), “Homem de Ferro 2”, “Meu Malvado Favorito” (Despicable Me, Pierre Coffin / Chris Renaud), “Como Treinar Seu Dragão” (How to Train Your Dragon, Dean DeBlois/Chris Sanders) e fecha com “Fúria de Titãs” (Clash of Titans, Louis Leterrier). São 10 filmes dos quais apenas três são roteiros originais. E dois deles são animações.

Já faz algum tempo que Hollywood tornou-se um banco de aplicações. Quando se faz um filme o que se calcula é o quanto ele pode potencializar o investimento: quantas sequências ele pode gerar, quando pode gerar em merchandising, qual o público alvo etc. Alguns desses filmes tem mais dinheiro investido em publicidade e divulgação do que no filme em si. Os produtores e muitos diretores, ao invés de pensar no filme que querem fazer, pensam em negócios. O cinema é menos arte do que já foi, bem menos.

Os atores e as atrizes, muitas vezes, tornaram-se personagens deles mesmos. Ao invés de trabalhos de interpretação nós temos os mesmos rostos fazendo as mesmas caras e bocas. Atores muito talentosos tem dificuldades para conseguir bons papeis enquanto outros, medianos ou ruins, recebem mais da metade do orçamento de um filme porque eles farão com que o filme seja visto, não importa se seja bom ou ruim.

Então, vem a pergunta, por que eu vou ao cinema?

Daria para responder essa pergunta de um monte de maneiras. Mas, de certa forma, é como um jogo de azar. Eu vou perder, na maioria das vezes.Vou ganhar poucas vezes. Mas uma única vitória dessas faz valer todas as outras derrotas. Até porque, dependendo do espírito, jogar e perder pode ser tão divertido quanto ganhar. Mas ainda assim, as vezes ganhamos.

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E foi mais ou menos essa a minha sensação ao sair do cinema depois de assistir “Cisne Negro” (Black Swan, Darren Aronofsky, 2010). Ganhei na Mega Sena, acertei o pleno na roleta, o jogo abriu e eu tenho um four de ases. Não me lembro quando foi a última vez (se é que houve outra, antes dessa) que eu passei arrepiado do início ao fim de um filme. A cena de abertura, com a bailarina Nina ensaiando num fundo preto e contando o seu sonho, dá o tom do filme. Vi algumas críticas tentando ser mais realistas que o rei e dizendo que “Cisne Negro não retrata o mundo real do ballet. Só que, na minha opinião, Aronofsky não passou nem perto de querer fazer isso.

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“Cisne Negro” é um daqueles filmes que temos uma dificuldade enorme de encaixar em algum gênero. É um drama? Suspense? Horror? Thriller? É tudo isso misturado. E mais um pouco. Um enorme pouco. Aronofsky fez um filme sobre humanidade, loucura, obsessão, compulsão e paranoia. E além disso foi muito feliz na sua viagem sinestésica em que roteiro, fotografia, figurino, trilha sonora e atuação são, organicamente, uma coisa só. O filme é lindo. Perturbadoramente lindo. Enquanto ele rola na tela grande não conseguimos parar de olhar, embora a sensação de mal-estar só vá crescendo e crescendo.

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Se o roteiro e a direção foram primorosos, o filme também só aconteceu por causa de Natalie Portman. Sabe aquelas felizes coincidências, da pessoa certa no lugar certo na hora certa? Essa é Natalie Portman em “Cisne Negro”. Uma jovem e talentosa atriz naquela atuação visceral pela qual ela será eternamente lembrada. A perturbada Nina e suas confusões (que o filme torna nossas também) entre realidade e fantasia não seria tão doentia se não fosse pela atuação de Portman e sua alquimia com o diretor. A câmera passa o tempo todo perseguindo Nina, nos tornando quase um stalker dela. A ideia, feliz, do diretor é que a confusão de Nina seja também a nossa confusão. Destaque-se também o ótimo trabalho da coadjuvante Mila Kunis, que alterna-se entre a companheira de dança de Nina e uma versão do subconsciente da própria bailarina.

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A essa altura do campeonato (eu sei, me atrasei para escrever sobre esse filme) resta muita pouca coisa a ser escrito sobre “Cisne Negro”. O que eu tenho para dizer? Assista. E assista novamente. E assista também os outros filmes de Aronofsky, em especial “O Lutador” (The Wrestler, 2008), o filme que buscou Mickey Rourke no ostracismo e que é, de certa forma, um estudo para “Cisne Negro”. Ambos os filmes falam sobre exigir do corpo mais que ele pode dar, ambos os filmes mostram narcisismo e perfeccionismo e ambos os filmes terminam num salto para a eternidade.

As premiações, como era de se esperar, quase ignoraram “Cisne Negro”. Com exceção do prêmio de Melhor Atriz para Portman (que simplesmente não poderia ser tirado dela) o filme perdeu em todas as categorias que estava indicado, mesmo que merecesse em algumas delas como Fotografia, Direção e Edição. Poderia ter sido, no mínimo, indicado na categoria figurino, também. As roupas de ballet estão lindas de morrer.

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PS: Desculpem-me, meus dois leitores, pela ausência prolongada. Passei por mudança de endereço e estou em Salvador, Bahia. Estava em regime de internato e agora que estou conseguindo reorganizar a minha vida. Prometo aquela regularidade constante daqui para a frente…

Literatura

A grey canvas

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imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

“You were engaged, as a writer should be, in transforming yourself. When I read your collected stories I was moved to see the transformation taking place on the printed page. There’s nothing that counts really except this transforming action of the soul…”

Saul Bellow’s Letters

What do you see when you look into a grey painting?
Some will say they get blue, some would just pass by
But a few would stay and spend time
Examine it deeply from side to side
and even from within
He is one of the few
He goes towards it and applies as many colors as he can think of
He dies the canvas thoroughly
And when he is done
There is no way he will leave the room unscathed

Literatura

Dia dos Bobos

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Bobo? Eu?
Bobo é você que acorda cedo e se veste pro chefe. Ele não vai notar. E corre pra lá e pra cá para cumprir as ordens em tempo recorde. Ele nem vai perceber. Depois devora o mesmo almoço de sempre sem sequer saborear. Bobo! É, você mesmo, que não experimentou a novidade do cardápio. É o medo de mudar. É o pavor da prova. É o receio do recheio. Então vai! Segue a ser bobo ao cruzar a cidade sem se perder. Olhando sempre pro mesmo lugar, com medo de cair. Mas mais bobo é aquele que não sabe se levantar. E ele vai e pega o carro e corre pra casa. Acelera sem sair do lugar. Sempre reto, sempre a voar. Com uma pressa boba de chegar ao aconchego do lar. Onde a norma que reina é ser o rei do normal. Depois, quando ele vê, já é tarde. Não fez, não foi, não viu. Taí, compadre, o seu show. Bobo? Eu? Você que bobeou!