Clarice Dall’Agnol

Literatura

Entreatos

entreatos
imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

Primeiro veio aquele embaraço na garganta
como se deglutisse um caroço
– bem devagar
depois surge a ânsia por um pouco de ar
que entra em forma de sopro
– profundo
de pouco vai se fazendo grande e pesado
é expulso e ganha o mundo
o corpo todo parece em suspensão
– espera
de cima observam as sentinelas
as ondas chegando e subindo
até pararem, estanques
– sem piscar
livres jorram soltas as gotas de lágrima
escorrem pelas curvas das bochechas
entranham-se de volta na terra
– novo ato recomeça

Música

Ben Folds – The Best Imitation of Myself

Ben Folds - Best Imitation.png

por Cassiano Rodka

Ben Folds surgiu na cena musical no comando de um trio de rock ironicamente nomeado Ben Folds Five. O que chamava logo atenção na banda era a sua formação: em vez do power trio ser formado pela clássica tríade guitarra, baixo e bateria, o grupo substituía a guitarra por um piano de cauda tocado por Ben. Misturando uma sonoridade jazzística com um lado mais roqueiro e caótico, a banda emplacou alguns hits nas paradas alternativas, como “Underground”, “Song for the Dumped” e “Brick”. Depois de três discos, a banda decretou o seu fim. Ben Folds lançou-se em carreira solo, produzindo três álbums, vários EPs e colaborações com artistas como Rufus Wainwright, William Shatner, Amanda Palmer, Regina Spektor e até o escritor Nick Hornby.

Em “The Best Imitation of Myself: A Retrospective”, Ben Folds faz um resumo de sua jornada musical. Destacando as músicas que fizeram parte dos diferentes capítulos de sua história, o pianista mostra que, em 16 anos de carreira, já percorreu vários caminhos musicais distintos. O grande talento do compositor está em criar canções que casam o alternativo com o pop. As letras são ora bem humoradas, ora reflexivas, mas não dispensam alguns bons palavrões. Para dar um toque especial a essa coleção, o músico reuniu a formação do Ben Folds Five e gravou três novas canções: “House”, “Tell Me What I Did” e “Stumblin’ Home Winter Blues”.

Para quem ainda não conhece, a versão simples do CD traz os principais hits do compositor desde 1995. Para os que já são fãs, vale procurar a versão especial, que inclui mais dois CDs: um com versões ao vivo e outro com demos e b-sides.

Literatura

A quem interessar possa

imagem: Cassiano Rodka

Um dia ouvi um poeta dizer que o caminho se faz ao caminhar. Pois eu digo que os melhores caminhos são, sem sombra de dúvidas, os que fazemos ao caminhar.

Minhas crises me dão poemas, e as historinhas cotidianas (minhas e dos outros) me dão crônicas, fazendo com que essas historinhas deixem de ser apenas “inhas” para ser histórias. Faz um bom tempo que não me dão contos, porque os contos não podem ser-me dados. Os contos não vêm assim, como quem não quer nada. Os contos nunca me vieram tranquilos. Eles moram em mim, mas ficam adormecidos a maior parte do tempo. De vez em quando, os ouço murmurar, sussurrar-me coisas que me metem medo. Escolho não escutá-los. E ali ficam, até o dia em que eu criar coragem e pedir para que eles falem mais alto.

Os poemas. Há uma categoria de poemas vem se chegando de mansinho, assim, quietinhos, e vão se instalando aos poucos, dentro de mim. Lá ficam por dias, mais dias, por vezes semanas. Aparecem em sonhos, ou nas falas dos meus filhos, ou nas canções dos Beatles, ou nos filmes do Woody Allen, ou nos livros do Erico Verissimo, do Saramago, do Mario Quintana ou da Sylvia Plath; ou nas conversas com quem me rodeia, ou nas cartas de meu pai. E vão aos poucos pro papel, e ali se deitam da maneira que acharem mais confortável. E então eu lhes cutuco os versos, mexo-lhes nas letras e palavras. Alguns reclamam, mas eu não ligo. Sopro-lhes o desnecessário. Por vezes, coloco mais que o necessário. Contemplo o resultado, deixo-os dormir. Quando acordam, faço tudo de novo. Há alguns que dormem por dias. Há os que sei que ficaram prontos. E há aqueles que nunca ficarão. Ainda assim, resolvo que podem ir pro mundo.

Há outros, porém, que vêm violentos, batendo portas e janelas, me sacudindo com força por dentro. São esses os meus preferidos. Escrevo-os como que tomada por um transe quase mediúnico. Não pedem muita licença para sair. Saem, apenas, desavergonhados, sem rótulos ou pudores. Não esperam e não me perguntam se estão “bonitos”. Precisam sair, e o fazem, de qualquer jeito. Estes, em geral, são os melhores. Podem não ser os mais bem talhados, esculpidos, trabalhados. São, entretanto, os mais verdadeiros.

Meus melhores caminhos, como eu dizia, são os que eu construo a cada passo, à medida em que ando. Os mais planejados são, de longe, os mais monótonos. A estrada menos percorrida acaba sempre sendo a melhor opção, porque invariavelmente traz fantásticas descobertas e desafios. E é por tudo isso que sigo caminhando, de preferência, sem rumo algum.

Cinema

Os Três Mosqueteiros

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por Pedro Cunha

E vocês já viram a coleção fantástica sobre cinema europeu que a Folha de São Paulo está disponibilizando? Se não viram ainda, deem uma olhadinha: http://cineeuropeu.folha.com.br/. A coleção é bem variada e pega desde Metropolis (1927), do Fritz Lang, até Volver (2006), do Almodóvar. Cada filme ainda é acompanhado por um livrinho muito bacana, que fala do diretor, do filme, dos atores principais, das trilhas sonoras… 25 filmes de 25 diretores diferentes, quase todos eles clássicos. Nem precisa perguntar, é claro que eu estou fazendo a coleção… e por que não comprei inteira? Ah, vai dizer que não é bem mais bacana comprar um filme por semana? Ficar esperando o lançamento, ir buscar, voltar para casa com o livrinho… as vezes já lendo o livrinho no ônibus. Enfim, fica a dica. Há dois anos a Folha tinha feito uma outra coleção, “Clássicos do Cinema”, que eu também fiz (https://secure.folha.com.br/folha/classicosdocinema/manutencao.asp). Posso garantir que valeu a pena.

Tentando correr atrás, pelo menos um pouco, dos lançamentos que eu andei deixando para trás, ontem fui assistir “Os Três Mosqueteiros” (The Three Musketeers, Paul S. W. Anderson, 2011). E era melhor, enfim, não ter ido. Eu tinha visto o trailer e tinha imaginado uma releitura do clássico nos mesmos moldes que Guy Pearce fez com Sherlock Holmes (Sherlock Holmes, 2010). E eu realmente acho que ele tentou isso. Não tinha como dar errado, certo? Quer dizer, o livro de Alexandre Dumas é fantástico e tem um ritmo alucinante, não dá para estragá-lo nem querendo, certo? Bom, ontem eu descobri que dá, sim. Tudo bem que eu não poderia esperar muita coisa de um diretor que é celebre pela série Resident Evil e por ter feito Alien VS Predador… mas ainda assim o resultado me surpreendeu de tão ruim.

O roteiro tem buracos. Muitos buracos. O encadeamento simplesmente não faz sentido, é forçado. Forçado até é elogio, porque isso pressupõe que ele existe, o que eu ainda não tenho certeza. Os personagens mais profundos do livro, Athos e Milady, são de uma simplicidade franciscana nesse filme. Nem mesmo a Mila Jovovich, que além de ser linda tem bons trabalhos, conseguiu salvar Milady de Winter. Já Matthew Macfadyen, o Athos, não consegue passar nada além de um… descornado. Dentre os atores salva-se (em parte) Christoph Waltz com um Cardeal Richillieu razoável (mas muito, muito parecido com o personagem de Waltz em Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, Tarantino, 2009). O pobre do menino (Logan Lerman) que escolheram para fazer o D´Artagnan não tem culpa se o personagem ficou ridículo com o corte que o roteiro fez. Nem dá para avaliá-lo. E o fim do filme… alguém entendeu? O que o Buckinghan está indo buscar? Os diamantes? Mas ele nem sabia deles… O Airship? Mas ele tem trocentos… enfim, teremos a sequência, o fim do filme já garante.

Fiquei sinceramente com saudades da versão de Stephen Herek, de 1993. O drama do Athos ali é muito mais bem explorado por um amargurado Kiefer Sutherland, que está ótimo no papel. Sim, você não vai conseguir ver o filme sem pensar no Jack Bauer. E se eu te disser que o mosqueteiro religioso, Aramis, aquele que quer ser padre, foi interpretado por Charlie “Harper” Sheen? Pois é, eu sei. Mas o filme é bom e Chris O’Donnel faz um D´Artagnan bacana assim como Rebecca de Mornay é Milady de Winter na medida certa.

“Os Três Mosqueteiros” (2011) é diversão rasa de Sessão da Tarde, no maior estilo “essa turminha endiabrada apronta mil e uma confusões num clima de muita azaração”. Tropeça em todos os clichês possíveis e inventa mais alguns, se é que isso é possível. “Ah, você está detonando demais o filme!”, você pode dizer. Acredite, é de menos. E eu nem falei em airships.

Fica também a dica de uma reflexão bem humorada sobre clichês de cinemão que eu achei no blog das Garotas Nerds, que foi tirado do Festival Internacional de Cinema Latino de Nova Iorque. Watch Films, not Movies: http://garotasnerds.com/cinema/cliches-do-cinema/

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Até o poster do filme não é original…

Literatura

As conchas de Ana

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imagem: Ana Nitzan

por Clarice Casado

Todos os teus segredos
estão nas conchas escondidos.
Passeias soberana
pelas imagens de ti mesma.
Desvenda-te nos teus próprios mistérios.
Fazes do simples, complexo.
Da realidade, imaginário.
Colores os dias da menina,
que sonha e cria sozinha,
bailando ao som da música das conchas.
Preenches o infinito,
seduzes com cores e traços.
Aqueces os corações.
Revelas a natureza,
e traduzes as naturezas de nós.

Literatura

O equilibrista

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imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

O equilibrista calça os sapatos e uma linda calça azul com flores vermelhas. Arruma a gola amarela de sua camisa. Passa as mãos pelo pote de gel e despeja uma camada generosa sobre os cabelos ainda molhados. Dá uma última conferida nos sapatos e aperta os cadarços. Está pronto para sair mais uma vez do chão. Ele começa se equilibrando no ônibus, preso à porta entreaberta, depois se joga com um pulo certeiro e alcança a guia. Sobre a mesma avança, com um rebolado típico desse passo elevado. Pula as poças d’água com grande elegância, mas não sem se molhar. Sobe as escadas de três em três degraus, mesmo assim a maioria não o vê: aprendeu a ser discreto desde pequeno. Sua mãe lhe ensinou a arte da delicadeza sem nem saber que essa seria mesmo a base para sua profissão. O equilibrista se esgueira por entre as máquinas da cidade e, às vezes, teima em não acreditar que elas são regidas por pessoas, como ele. Finalmente chega ao seu destino: centro da cidade. Estica seu fio, amarrando-o em dois postes. Gruda-se nele, braços, pernas e tronco. Ergue-se o homem sobre o fio e, lá de cima, ele sente medo.

Música

Mondo Cane en Santiago – 20/09

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Em um país onde o Faith No More é adorado em nível beatlemaníaco, a vinda de Mike Patton tem o peso da ressurreição de Cristo – ou, melhor ainda, de John Lennon. Os fãs do músico em Santiago não são apenas fãs, eles são fanáticos.

Nesta terça-feira, 20/09, Mike Patton subiu ao palco do Teatro Caupolicán para apresentar o show de seu projeto Mondo Cane, onde o cantor interpreta clássicos da música italiana dos anos 50 e 60 com uma orquestra, um coral e uma banda. Entre os músicos, destacavam-se a presença do baixista Trevor Dunn e do percussionista William Winant, companheiros musicais de Patton em um dos melhores projetos do cantor, o Mr. Bungle, adicionando um sabor ainda mais especial para os fãs presentes.

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imagem: Cassiano Rodka

O enorme fanatismo chileno teve um efeito singular nas apresentações do Mondo Cane, que são costumeiramente mais calmas. As músicas eram cantadas em coro pelos presentes – lembrem que são canções em italiano! – e berros surgiam aqui e ali, em especial de garotas apaixonadas. Nos momentos mais agitados do show, como em “Urlo Negro” e ” Yeeeeeeh!”, esse efeito adicionava ao clima. Já nas canções mais silenciosas, foi um problema. No início da silenciosa “Scalinatella”, Patton fazia caretas em relação ao barulho e movimentava as mãos para a galera baixar o volume.

Acostumando-se ao clima da noite, era impossível não ficar hipnotizado pela voz de Patton e sua presença carismática. Mais solto que nas primeiras apresentações do Mondo Cane na Europa, o cantor andava pelo palco chegando mais perto do público e se permitindo algumas improvisações melódicas nas canções. A formação mais enxuta deixou o clima mais intimista também – na Europa, Patton tocava com uma orquestra com muito mais músicos.

A conexão entre o artista e o público era perceptível e os sorrisos do cantor e da banda deixavam claro que aquele foi um show único e memorável. O intérprete puxou gritos de “Chi-chi-chi! Le-le-le!” da plateia durante uma das canções e recebeu (meio sem jeito) rosas de uma fã. Na hora de despedir-se, Patton perguntou à plateia: “Nos vemos amanhã?”, referindo-se ao segundo concerto do Mondo Cane, que rola hoje. A resposta foi um sonoro “SÍÍÍ!”. Pois nos vemos hoje à noite, Sr. Patton.

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imagem: Cassiano Rodka
Cinema

Hiato

por Pedro Cunha

Deixa eu passar um pano úmido por aqui. Aliás, vou varrer também. Esse espaço estava todo abandonado e jogado às traças… Desculpem-me, por favor! Uma série de questões pessoais acabou fazendo com que eu não conseguisse cumprir meus compromissos com o Página Dois. Agora, com tudo resolvido, espero conseguir voltar à minha velha regularidade de postar todas as quintas-feiras. Sinto-me na obrigação de, nessa retomada, falar um pouco dos filmes que andei assistindo por esses tempos.

Eu vi “X-Men: Primeira Classe” (X-Men: First Class, Matthew Vaughn, 2011). O filme deixa de lado a trilogia cinematográfica já existente (o primeiro filme (bom) de Bryan Singer, o Segundo (ótimo) também dele e o terceiro (confuso) de Brett Ratner) e o filme avulso de Wolverine (X-Men Origins: Wolverine) e trabalha com coisas que teriam acontecido antes do primeiro filme, sem, entretanto, afirmar se há ou não uma conexão entre eles. Deixando de lado a confusa cronologia dos 50 anos de história dos X-Men o filme investe numa trama própria, redefinindo e reapresentando alguns personagens. Se o roteiro tem alguns furos o filme se sustenta numa produção caprichada e em duas excelentes atuações: James McAvoy e Michael Fassbender representam os protagonistas, os jovens Charles Xavier e Magneto, respectivamente. Se ambos conseguiram fazer valer os papeis Fassbender faz valer o filme. Isso que a missão dele era ingrata, viver na juventude um personagem que, em idade mais adulta, já foi interpretado por nada mais, nada menos que Sir Ian “Gandalf” McKellen. O ator alemão (que  já tinha sito ótimo em “Bastardos Inglórios) deu conta do recado e nos deixa, ao fim do filme, com vontade de quero mais. Não sei se haverá “X-Men: Segunda Classe” (até porque, vamos combinar, esse título não ajudaria…), mas ele teria que começar obrigatoriamente por Michael Fassbender.

hiato-01

“Meia Noite em Paris” (Midnight in Paris, 2011) é um filme de Woody Allen. Só essa frase já seria suficiente para saber a minha opinião sobre ele. Eu sou um fãzoca confesso do narigudo mais antissocial de Nova Iorque, então você sempre tem que levar isso em conta quando ler a minha opinião sobre ele ou qualquer filme dele. Tirando fora meus arroubos de fã, “Meia Noite em Paris” foi elogiadíssimo. E com razão. Allen saiu-se muito bem em fugir da armadilha cinematográfica que Paris representa mostrando a cidade e todos os seus pontos clássicos no primeiro minuto do filme, algo do tipo “oquei, aí está o que vocês queriam, agora me deixem contar a minha história”. O filme se passa em Paris mas não tem a Torre, o Arco e o Rio o tempo inteiro. Quando aparecem, é como pano de fundo mesmo. O discurso do filme volta a uma ideia que vem sendo recorrente nesses filmes da “terceira idade” de Allen: aproveite a vida, o aqui e o agora. Viva o hoje, não o amanhã e muito menos o ontem. Seja feliz. Pode parecer simples, mas os dilemas de Allen e de sua persona surpreendentemente bem encarnada por Owen Wilson nos fazem rir e pensar em situações e momentos vividos por nós mesmos. E, se não bastasse tudo isso, ainda tem a Carla Bruni. Já estou ansioso pelo próximo trabalho de Allen, uma homenagem a Fellini filmada na Itália. Espero que seja ótimo como “Meia Noite em Paris” ou “Tudo Pode dar Certo” (Whatever Works, 2009) e não meia-boca como “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos” (You Will Meet a Tall Dark Stranger, 2010), de longe o piorzinho dele desde a “guinada europeia” dele.

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Saindo fora um pouco do esquema “cinemão”, assisti um argentino chamado “Chuva” (Lluvia, Paula Hernández, 2008). Os argentinos e uruguaios, recentemente, andam com filmes excelentes. Já falei sobre isso, aliás, em alguns posts. Esse não foge à regra. “Chuva” é a história de uma mulher que busca fugir de si mesma e, no caminho, cruza com um homem que tenta desesperadamente se encontrar. É um filme sobre silêncios, sobre olhares e sobre pessoas. É um filme triste, e um filme bonito. E passa-se em Buenos Aires, que é uma bela moldura também.

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Outro bom filme (e muito triste também) que eu vi nesses tempos foi “A Vênus Negra” (Vénus Noire,  Abdellatif Kechiche, 2010). O diretor e roteirista, um tunisiano que vive na França, conta a história real de Saartje Baartman, uma sul-africana que, no início do século XIX foi para a Europa tentar ser uma estrela e acabou como estrela de um freak show como uma “selvagem” capturada na África. O filme tem cenas fortíssimas e abre portas para reflexões num momento em que discursos racistas e xenófobos cada vez mais ganham curso na Europa. A atriz cubana Yahima Torres está brilhante no papel principal, em sua estreia no cinema. É um filme imperdível. Mas não tenha nada de muito animado para fazer depois de assisti-lo.

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Ah, e eu também assisti “A Árvore da Vida” (The Tree of Life, Terrence Malick, 2011). O que dizer sobre o filme? Bom, é grandioso, pretensioso e beira a megalomania. Eu desisti de tentar entendê-lo. Mas gostei, e muito. E de quebra ele ainda tem Brad Pitt, que cada vez mais se afirma como o Marlon Brando da sua geração. Veja “A Árvore da Vida”. Mas não tente entendê-lo. Os debates entre fé e razão, graça e providência, evolucionismo e criacionismo, destino e niilismo estão todos ali. Malick é um diretor que não faz concessões. Deixe-se levar pela plasticidade das imagens, já que o diretor em alguns momentos chega nos limites do abstracionismo. Sinta o filme, sinestesicamente, e tenha certeza que ele vale pela experiência sensorial, no mínimo. Para mim valeu bem mais que isso. Mas, por favor, não me pergunte o porquê.

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