Clarice Dall’Agnol

Música

Marcelo Camelo e as samambaias da alegria

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Diferentemente do clima intimista da turnê de seu primeiro disco, as apresentações de Marcelo Camelo para divulgar “Toque Dela” têm sido repletas de interação, dancinhas e… samambaias! As músicas do novo álbum já deixam claro que o compositor está em uma fase alegre em sua vida. E esse sentimento ele carrega no palco e distribui para o público.

Se o primeiro disco versava sobre solidão, o segundo trabalho de Camelo é sobre a serenidade de encontrar um par. Em vez de tocar para uma plateia sentada em um teatro, o cantor escolheu apresentar suas novas canções para um público em pé. Entrou no palco do Opinião sorrindo em meio às muitas samambaias que estavam espalhadas ao seu redor e deu início a uma noite animada e emocionante. Caso alguém não tivesse entendido o recado, Marcelo mandou a dica ao microfone: “Show em pé é pra dançar”. E a galera dançou mesmo, desde o rock quebrado de “Ô ô” até o sambinha tropical de “Menina Bordada”.

Como não poderia deixar de ser, Marcelo também garantiu as lágrimas dos presentes com algumas de suas emocionantes baladas. Ao violão, ele cantou “Santa Chuva”, “Cara Valente” e as gratas surpresas do catálogo do Los Hermanos “Tá Bom”, “Casa Pré-Fabricada” e “Pois É”.

Com a banda de volta ao palco, Camelo voltou a saracotear e a galera respondia à altura. Em dado momento, o cantor resolveu distribuir as samambaias que estavam no palco e alguns fãs levaram o souvenir bem felizes para casa. Surreal! O espírito de brincadeira era contagiante e, depois de quase duas horas de show, Marcelo se despediu do Opinião com a certeza de que havia deixado Porto Alegre mais alegre do que nunca.

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imagem: Cassiano Rodka

O show rendeu até clipe para a música “Tudo Que Você Quiser”. Confere aí!

Literatura

Sinto

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

De livros antigos,
meu pai.
De grama molhada,
casa de praia do meu avô.
De colônia para bebês,
meus filhos bebês.
De cebola refogada,
jantares em família.
De pão caseiro,
minha avó alemã.
De café com leite,
minha avó portuguesa.
De cloro,
aulas de natação.
De mar,
inesquecíveis verões.
De chuva,
saída apertada da escola.
De creme hidratante de pera,
gravidez.
De vinhos e flores,
Toscana e a serra gaúcha.
De nó de pinho em brasa,
invernos do Rio Grande.
De panettone e peru,
conforto e recomeço.
De pão de queijo,
manhãs na faculdade.
De pão prensado na chapa,
recreio escolar.
De xampu de maçã verde,
adolescência.
De canela com açúcar,
maragatos.
De jasmim,
minha mãe.
De frio,
Porto Alegre, Nova York e Gramado.
De saudade,
saudade.

Música

Os desamores e a solidão de Chico Buarque

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

“Quem me vê, vê nem bagaço/Do que viu quem me enfrentou/Campeão do mundo/Em queda de braço/Vida veio e me levou”. Com a letra desiludida de “O Velho Francisco”, Chico Buarque deu início ao segundo show da turnê do disco “Chico” em Porto Alegre, dando as direções do tema dessa apresentação: desamores e solidão. Assim como na turnê anterior, do disco “Carioca”, o compositor decidiu o setlist baseado no clima das canções do novo álbum. Sendo assim, o show tomou um rumo calmo e intimista com muitos desencontros amorosos nas letras.

Mas os desencontros não surgiram apenas nas palavras de Chico. Alguns problemas técnicos atrapalharam a apresentação na primeira meia hora. Logo no primeiro acorde da música de abertura, uma queda de luz pegou de surpresa tanto a plateia quanto os músicos. O apagão aconteceu novamente no começo de outra canção, criando uma certa tensão durante o início do show. Os problemas acabaram interferindo nas caixas de retorno dos músicos, fazendo com que Chico interrompesse uma música para arrumarem o som. Talvez tenha sido esse clima tenso que fez o cantor entrar antecipadamente em “Choro Bandido”:

Passada a turbulência, a banda foi pegando ritmo ajudada pela emoção do público, que não deixou os problemas técnicos nem chegarem perto daquela conexão mágica com o belo cancioneiro do cantor. E isso que Chico não abriu concessões em suas escolhas musicais para o setlist do novo show, incluindo diversas canções mais obscuras, como “A Violeira” e “Sob Medida”, ambas feitas para filmes de Miguel Faria Jr. Dos seus discos mais antigos, Chico trouxe “Desalento” e “Sonho de um Carnaval”, garantindo a felicidade de muita gente. Os sucessos “Anos Dourados” e “Bastidores” garantiram chuvas de aplausos e uma cantoria baixinha acompanhando o músico.

Da peça de teatro Calabar, o compositor entoou a letra de “Ana de Amsterdam” com um sabor especial de vitória sobre a ditadura já que, na época do lançamento da música, a censura proibiu o texto do cantor, forçando Chico a incluir a canção no disco em versão instrumental. Da Ópera do Malandro, o cantor pescou três preciosidades: “O Meu Amor”, “Teresinha” e “Geni e o Zepelim”, que ganhou um arranjo espanholado insuperável. Chegou a ser injusto com a bossinha “Barafunda”, que foi escolhida para seguir a música e passou quietinha, com medo de ser cuspida.

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imagem: Cassiano Rodka

Para dividir os vocais em “Sou eu” e “Tereza da Praia”, Chico chamou seu baterista e parceiro musical de décadas, Wilson das Neves. Sempre simpático e sorridente, o sambista conquistou facilmente os seus merecidos aplausos. Quebrando um pouco a calmaria da apresentação, o compositor interpretou o baião/rock de “Baioque” para minha surpresa e grande alegria. Apesar de gostar da inclusão da música, confesso que achei que ela ficou devendo um pouco em termos de energia. Chico ainda arriscou um rap onde conta como conheceu o músico paulistano sensação do momento Criolo. No fim da música, ele canta o refrão alterado de “Cálice” que ficou conhecido na voz do rapper seguido do seu refrão original.

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imagem: Cassiano Rodka

Depois de terminar o show cantando os versos tristes de “A Felicidade” de Tom Jobim, o compositor voltou para o bis com as duas únicas músicas do setlist que haviam sido tocadas na turnê anterior: “Futuros Amantes” e “Na Carreira”. E a sensação que se tinha na plateia era exatamente aquela cantada por Chico no palco: “Hora de ir embora/Quando o corpo quer ficar”.

Literatura

Poema

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imagem: Anelise Schutz

por Marcella Marx

Vinícius,
Aí está, meu poema sobre nossos dias de ócio.
Sinta-se chamado a interferir!

“Sob o sol da manhã,
o cheiro do mar vai entrando e trazendo nossa libertação
o canto dos sabiás abre nossas portas e janelas
e ouvimos um sonoro: Bom dia!
partimos juntos em direção ao mar
e, já bem de longe, ouvimos seu grito de ira e aconchego
mas, nossos pés teimam em brincar demoradamente com a areia amolecida
e com a marola que vai e vem
entre um sorriso e uma palavra, vamos criando raízes
cada vez mais profundas,
até quando se torne quase impossível partir
não sem deixarmos ali uma parte de nós.”

Literatura

Correspondências parte 8

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por Marcella Marx

Vinícius,
Estou até agora tentando conter o riso. Caro amigo, tente pensar pelo lado bom: ao menos Ana teve o pudor de não andar desnuda pela casa! Só tu mesmo, para fazer-me rir numa segunda-feira nublada e chuvosa como hoje, bem sabes que sou o rei da melancolia em dias assim. Sim, tive que tolerar teu charuto, o que não aconteceu sem um certo penar, por não podermos desfrutar do perfume das orquídeas.
Terminei meu poema, mas gostaria que tu lesses e desses teus palpites sinceros, podes inclusive reescrever, se quiseres. Vamos terminá-lo juntos!
No mais, continuo o mesmo: com grande dificuldade de sair de um ritmo e entrar em outro. Sinto-me perdido e aflito após nossa tranquila viagem, tendo que me adaptar à vida frenética da cidade.
Mas, tenho que conseguir.
Nos encontramos…
João

Música

O amigo do João Pedro

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por Cassiano Rodka

Conheci o Filipe Catto através de um amigo em comum, o João Pedro Madureira. Ele devia ter uns 18 anos e era um rapaz simpático e um tanto tímido. O João Pedro me contou que ele tinha uma banda e que cantava muito bem e lá fui eu conferir o som deles. A banda se chamava Catto e Os Corujas e, logo na primeira vez que sentei para escutar as quatro faixas demo dos caras, fiquei impressionado com a voz daquele garoto. Era uma senhora voz, límpida e melodiosa, usada com muita emoção e domínio pelo seu dono. Logo que terminei de ouvir as canções, deixei um recado para o amigo do João Pedro em uma rede social: “Cara, tu és a nova Elis Regina”.

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imagem: Cassiano Rodka

De lá pra cá, muita coisa se passou. Acabamos trabalhando juntos em uma empresa de webdesign na mesma época em que ele gravou o primeiro EP, “Saga”, uma forte amostra do seu potencial musical. As composições próprias eram extremamente maduras, construídas em arranjos tangueiros e letras dramáticas. Decidindo focar sua atenção na carreira musical, ele se mudou para São Paulo e não demorou muito para seu talento ser descoberto. Em uma apresentação ao vivo, o diretor musical da Globo, Mário Rocha, escutou a canção “Saga” e convidou Filipe a integrar a trilha sonora da novela Cordel Encantado. Fez diversos shows, colecionou resenhas elogiosas, assinou contrato com a gravadora Universal e lança agora seu disco de estreia, intitulado “Fôlego”.

O show de lançamento aqui em Porto Alegre aconteceu no domingo, dia 6 de novembro, no Theatro São Pedro e eu fui lá conferir. E lá estava ele, o amigo do João Pedro, entrando no palco do principal teatro da cidade com segurança e tranquilidade, como quem chega em casa. E durante as duas horas de show, Filipe Catto comandou o espetáculo com muito carisma e desenvoltura, enfeitiçando o público com a sua voz, desde os afinadíssimos agudos até os charmosos sussurros. As 15 composições do disco foram intercaladas com interpretações de artistas que claramente influenciaram o cantor, desde um emocionado medley de PJ Harvey com Nina Simone até uma versão intimista de “Luz Negra”, de Jards Macalé.

A banda que acompanha o cantor trabalha muito bem a dinâmica das canções, dando espaço para a voz de Filipe Catto dançar conduzindo a melodia. As novas músicas misturam tango, MPB, jazz e rock, tendo um sabor ao mesmo tempo clássico e novo. Entre as minhas preferidas da noite, a bela e silenciosa “Redoma” foi perfeita para destacar a voz de Filipe enquanto “Juro por Deus” mostrou a sagacidade de Catto como letrista. O cantor entoou também canções em inglês, como a sua embriagada composição “Johnny, Jack & Jameson”, e em espanhol, como a cover de “Piensa en Mi”, da trilha sonora do filme “De Salto Alto” de Pedro Almodóvar. O hit da novela, “Saga”, fechou o show sob gritos de aprovação e foi cantado em coro pela plateia. No bis, a primeira faixa de “Fôlego”, “Adoração”, também estava na boca da galera, sendo entoada em jogral com o cantor.

O CD consegue captar muito bem o som do apresentação, pois foi gravado ao vivo no estúdio, mantendo a naturalidade da interação entre os músicos. É certamente um dos lançamentos do ano e merece ser escutado com toda atenção. E se o amigo do João Pedro aparecer na sua cidade, não tenha dúvidas: corra para lá que a noite vai ser pura poesia.

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imagem: Cassiano Rodka