Clarice Dall’Agnol

Música

A veia roqueira de Barry Adamson

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por Cassiano Rodka

Tendo iniciado sua carreira musical tocando baixo com os pais do pós-punk, a banda Magazine, Barry Adamson sempre carregou o espírito roqueiro dentro de si. Mas desde que lançou seus primeiros discos solo, o compositor mostrou que estava mais inclinado para o jazz e para trilhas de cinema, apesar de sempre mesclar diversos gêneros em seu som.

Em 2009, Adamson participou de uma turnê de reunião de sua primeira banda. Depois de elogiadíssimas apresentações pela Inglaterra, o músico voltou a focar em sua carreira solo. Mas algo daquele reencontro com o seu passado roqueiro veio junto. O resultado foram as canções de “I Will Set You Free”, um disco onde o rock e o pop se sobressaem nas composições.

A direção roqueira ficou clara desde o lançamento do primeiro single, “Destination”, uma das faixas mais pesadas do álbum, com muitas camadas de guitarras distorcidas acompanhando a voz grave de Adamson. “Turnaround” chama atenção por ter uma vibe bem Magazine, com uma introdução de tecladinhos viajandões que poderiam ter sido criados na época áurea da banda. A referência está ali, mas a faixa é definitivamente filha de Adamson, com seus vocais aveludados e violinos cinematográficos.

O disco também põe em evidência o lado pop do compositor. São possivelmente as canções mais acessíveis que o músico gravou em sua carreira. E Barry sabe realmente construir uma boa música pop, com um refrão memorável, melodias assobiáveis, mas sem ser óbvio. “The Power of Suggestion” é uma boa amostra dessa habilidade de Adamson, com seus metais alegres e um refrão gostoso de cantar.

O clima cinematográfico tão característico de sua sonoridade não ficou de fora. Em “The Trigger City Blues”, podemos imaginar facilmente um mini-filme em nossas mentes com cenas tensas e perseguições de carro. Algumas faixas namoram ainda com a música eletrônica, como “Stand In”, a última do disco.

Nos dois últimos álbuns (“Stranger on the Sofa” e “Back to the Cat”), Barry Adamson já parecia buscar uma sonoridade mais acessível, mas é com “I Will Set You Free” que ele consegue atingir o equilíbrio perfeito entre jazz, rock, pop, eletrônica e trilhas sonoras.

Literatura

Correspondências parte 9

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por Marcella Marx

João,
Recebi tua carta com o poema e confesso que fiquei tentado a fazer algumas modificações. Me contive apesar do “sinta-se chamado a interferir”. Resolvi fazer diferente, elaborar minha versão de “nossos dias de ócio”. Por isso demorei a responder-te, tentei inspiração, mas até agora só foi a transpiração que fez com que finalmente começasse. Além disso, estive às voltas com Ana nos últimos meses e o que posso dizer-te é que cheguei ao capítulo final. Sei que nesse momento, tu deves estar sorrindo e pensando que já não era sem tempo. Posso afirmar que para tirá-la definitivamente de minha vida será preciso mais do que um simples “The End”. Prometo que tu serás o primeiro a ler.
Termino esta breve carta prometendo-te o capítulo final e minha versão do poema.
Ps. Sei que te importas com essas festas feitas, então Feliz Natal! (seja lá o que isso signifique)
Nos encontramos…
Vinicius

Cinema

Cavalo de Guerra (War Horse, Steven Spielberg, 2011)

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por Pedro Cunha

Poucos diretores sabem lidar com a emoção tão bem como Steven Spielberg. Talvez nenhum consiga trabalhar com ela da maneira como ele faz, expondo-a e jogando-a na nossa cara. Admitamos, oquei, que ele já foi melhor. A primeira década do século XXI não foi boa, se considerarmos de quem estamos falando. Spielberg apareceu naquela turma que salvou Hollywood no final dos anos 70 e, juntamente com George Lucas, ajudou a definir um gênero novo no cinema, o filme de ação. Seu “Tubarão” (Jaws, 1975) tornou-se uma referência  nos filmes de suspense e “Os Caçadores da Arca Perdida”, em 1981 provou para os executivos do cinema que Spielberg era uma aposta confiável para fazer multiplicar os seus milhões. “Os Caçadores…” ainda criou um herói do calibre de Indiana Jones, que não existia em livro, seriado ou vídeo game. Ele nasceu no cinema e tornou-se uma marca do cinema, coisa que hoje em dia é muito difícil de acontecer.

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Em “Caçadores da Arca Perdida” Spielberg ajudou a definir o gênero “Ação”. Poucos sabem da participação especial de Daryl Hannah nessa cena. 

Spielberg sempre foi prolífico e trabalhou (bem) as diversas possibilidades do cinema, como a ficção científica e o drama de época. De “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (Close Encounters of the Third Kind, 1977) até “A Cor Púrpura” (The Color Purple, 1985), os variados filmes de Spielberg tinham em comum a capacidade de mexer com as emoções do espectador. Ainda nos anos 80 acabou ganhando uma pecha de fazer filmes “para as massas”, tendo assim o seu reconhecimento pela Academia se tornado mais complicado. Essa pecha, diga-se de passagem, é verdadeira: a assinatura de Spielberg passou a ser sinônimo de cifras astronômicas e sucesso inconteste de público. Já a crítica…

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Se você viu “A Cor Púrpura”, admita: você chorou. 

1993 foi um dos anos mais importantes da carreira de Spielberg, que lançou dois projetos naquele ano: o primeiro deles, Parque dos Dinossauros (Jurassic Park), comprovou a veia fazedora de verdinhas de Spielberg e foi, durante muito tempo, a maior bilheteria da história do cinema. A aventura do diretor com os répteis também serve para mostrar uma outra faceta de Spielberg: é um diretor que está sempre na vanguarda técnica. Ele, James Cameron e alguns outros são aqueles diretores que estão sempre exigindo que a tecnologia do cinema ande mais alguns passos. Mais um motivo para saudarmos Spielberg. Ah, e o segundo projeto dele em 1993? Foi filme que ele fez para a Academia. “A Lista de Schindler” (Schindler’s List) é um dos grandes filmes dos anos 90 e finalmente com ele veio o (tardio) reconhecimento da crítica e da Academia ao talento de Spielberg. É o melhor filme dele? Para mim, não está nem entre os cinco melhores. Mas foi com ele que o diretor conseguiu sair da festa da Academia com as estatuetas de Melhor Filme e Melhor Diretor. O reconhecimento da Academia rendeu-lhe mais uma estatueta de Melhor Diretor em 1998 por “O Resgate do Soldado Ryan”, que na disputa pelo Melhor Filme perdeu para um filme inferior, “Shakespeare Apaixonado” (Shakespeare in Love, John Madden).

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Spielberg e, enfim, suas estatuetas por A Lista de Schindler 

Depois do surgimento, nos anos 70, da afirmação, nos anos 80 e do reconhecimento, nos anos 90, veio talvez (não, com certeza) a pior década de Spielberg como diretor. Em 2001 Spielberg retomou um projeto do falecido Stanley Kubrick. “AI – Inteligência Artificial” (A.I., 2001) reconta, de certa maneira, a fábula do Pinocchio. O resultado final, para mim, é hediondamente desastroso. O final de AI é um dos 5 piores finais de filmes da história do cinema. Em 2002 Spielberg lançou “Minority Report – A Nova Lei” (Minority Report), thriller de ficção científica que teve uma recepção… xoxa. Estaria ele perdendo a mão? Se essa era uma especulação, começou a ficar mais forte com a desproposital refilmagem de “A Guerra dos Mundos” (War of the Worlds, 2005), onde Tom Cruise salvava o mundo em mais um filme desnecessário da biografia do diretor. Desnecessário, aliás, é a palavra que o acompanha nesses tempos. Qual outro adjetivo podemos usar para “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” (Indiana Jones and The Kingdom of The Cristal Skull, 2008) que não seja “desnecessário”? E isso está vindo de quem é fã de carteirinha do arqueólogo americano… Da filmografia de Spielberg nos anos 2000 salva-se, na minha opinião, “Prenda-me Se For Capaz” (Catch Me If You Can, 2002), e ainda assim principalmente pelas fantásticas atuações dos dois protagonistas, Tom Hanks e Leonardo DiCaprio.

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Precisava mesmo disso?

O que será de Spielberg nessa nova década? O diretor começa a tentar nos mostrar com Cavalo de Guerra (War Horse) que ainda não perdeu a mão. Cavalo de Guerra é um filme antigo de Spielberg. Ou ao menos se parece com um. A trajetória de um cavalo durante a Primeira Guerra Mundial, passando pelas mãos de ingleses, franceses e alemães é contada sob o ponto de vista do próprio cavalo. Os personagens “humanos”, em sua maioria, são passageiros no filme. Entram e saem, enquanto o cavalo fica. Spielberg acerta a mão no filme de guerra, como já havia feito em Império do Sol (Empire of the Sun, 1987). A Primeira Guerra mostrada por Spielberg deixou esse professor de história que vos vala encantado: a cena na qual a carga de cavalaria do exército britânico cai sobre o acampamento alemão é primorosa e linda: a cavalaria no trigal, a incidência da luz… tudo contribui ali para a criação de um espetáculo plástico. E o desfecho da cena mostra bem o significado da Primeira Guerra Mundial: o ocaso da guerra romântica, da guerra clássica e o surgimento de um novo tipo de guerra, marcado pelo aço, pela industrialização e pela máquina.

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Albert Narracott assiste o nascimento do cavalo Joey como um cineasta que enquadra uma cena

Dentre as atuações humanas do filme temos vários bons atores fazendo bons trabalhos. Jeremy Irvine faz Albert Narracott o “dono” do cavalo no início do filme, é convincente no seu papel de jovem do interior da Inglaterra no início do século XX. Mas ele ali representa, ainda o romantismo e o passado, o século XIX. Tom Hiddleston,  o Loki de “Thor”, encarna um capitão da cavalaria inglesa que representa, também, a hombridade e a fibra moral de um soldado do século XIX. Emily Watson e Peter Mullan fazem os pais do jovem Albert e Mullan, especialmente, está muito bem no papel de velho amargurado.

Spielberg torna o filme ainda maior quando opta, acertadamente, por não escolher um lado na Primeira Guerra. Não há bonzinhos e malvados, há uma guerra onde todos são cruéis e todos perdem, como diz um soldado francês em determinado momento do filme. A cena na qual um soldado britânico e um soldado alemão arriscam-se na terra de ninguém entre as trincheiras para tirar o cavalo do meio dos arames farpados emociona é já é uma das grandes cenas do cinema em 2012.

Cavalo de Guerra entra com força na disputa pelo Oscar de melhor filme e ainda disputa mais cinco categorias: Direção de Arte, Mixagem de Som, Edição de Som, Fotografia e Trilha Sonora. Aí cabe um parêntese: a indicação de John Williams pela trilha de Cavalo de Guerra é a sua QUADRAGÉSIMA SÉTIMA indicação para a categoria. Não, você não leu errado. Em 2011 Williams compete com dois filmes, inclusive: além de Cavalo de Guerra, sua trilha sonora de Tintin e O Segredo do Unicorne também disputa o prêmio. Isso não é novidade para Williams, parceiro de longa data de Spielberg que já concorreu com dois filmes 10 vezes, tendo concorrido com TRÊS filmes em 1973 e 1995.

Literatura

Crônicas de uma sala de aula

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imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

“I do believe in fairies, I do, I do, I do!”
Peter Pan

Debates interessantes acontecem dentro das paredes de uma sala de aula. As crianças possuem uma maneira maravilhosa e intrigante de encontrar soluções e de demonstrar suas ideias mais íntimas. Elas se expressam com precisão e mostram como nos aproximar daquela criança que um dia fomos, e isso é absolutamente significativo no processo de nos tornarmos quem somos e seremos.
E foi assim que realmente aconteceu…
Professora: “Queridas crianças, este aqui é um lindo livro que conta a história de uma pequena sereia…”
Aluno: “É tudo mentira, fadas, sereias, gnomos, todos eles não existem!”
Aluna: “Eles existem sim!”
Aluna: “Sim, eles existem sim, eu acredito!”
Aluno: “Não existem! Todos eles foram inventados pelos nossos pais. Minha mãe me contou.”
Menina: “Não é que eles existem, Mrs. Marcella?”
Menina: “Existem, eu já vi!”
Professora: “Eu também.”

Cinema

Vai esquentando a temporada das premiações

por Pedro Cunha

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“O Artista” pinta como um dos favoritos ao Oscar. Pelo menos até agora…

Começo de ano é sempre a mesma coisa: um monte de lançamentos e as tentativas de adivinhações em cima das premiações. Saíram do Globo de Ouro, semana passada, com prêmios e esperançosos para as indicações do Oscar aqueles que já eram falados antes: a produção franco-belga O Artista (The Artist, Michel Hazanavicius, 2011, estreia no Brasil prevista para 10 de fevereiro) e sua homenagem ao cinema mudo faturou três prêmios (Melhor Filme – comédia ou musical – , Melhor Ator em Comédia ou Musical – Jean Dujardin e, suprema ironia, Melhor Trilha Sonora) e é definitivamente um dos filmes que eu estou mais ansioso para ver. Os Descendentes (The Descendants, Alexander Payne, 2011, já em cartaz no Brasil) ganhou o prêmio de Melhor Filme – Drama – e rendeu a George Clooney o prêmio de Melhor Ator em Drama. É a terceira vez que Clooney vence nessa categoria (as outras foram por Conduta de Risco (Michael Clayton, 2008) e Amor Sem Escalas (Up in the Air, Jason Reitman, Tony Gilroy, 2010). Ele já venceu também na categoria de Melhor Ator em Comédia ou Musical, por E aí, Meu Irmão, Cadê Você (O, Brother, Where Art Thou?, Joel e Ethan Coen, 2000). Será que é dessa vez que Clooney leva o Oscar de Melhor Ator? A Academia gosta bastante dele e ele faz o tipo da Academia… Meryl Streep e Martin Scorsese foram premiados nas categorias Melhor Atriz em Drama e Melhor Diretor. Surpresa alguma. Woody Allen levou o prêmio de Melhor Roteiro pelo excelente “Meia Noite em Paris”. Até aí, sem grandes novidades, também…

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Clooney e seu quarto Globo de Ouro: Será que ele leva o Oscar de Melhor Ator esse ano?

E para o Brasil a notícia chata da semana é que, de novo, estamos fora da disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ao contrário do ano passado, quando nosso concorrente foi indicado não pela qualidade mas por critérios políticos, em 2012 o indicado foi (e não poderia deixar de ser) Tropa de Elite 2, de José Padilha. A Academia divulgou nessa quinta a lista prévia dos concorrentes na categoria e, infelizmente, o filme de Padilha ficou de fora. Enfim, vamos ver depois os candidatos e ver se realmente há algum filme melhor que Tropa 2, que eu considero um baita filme…

Música

Os 11 melhores de 2011

por Cassiano Rodka

Mais um ano termina, mais uma lista surge. Yaaay!

Daan – Simple
O primeiro grande disco que escutei em 2011 foi, sem dúvida, “Simple”. Nele, o compositor belga Daan Stuyven revisita algumas das músicas preferidas de seu repertório, desde sua época no Dead Man Ray até sua carreira solo. Despindo as canções de toda as camadas de produção que normalmente dominam seus discos, o cantor deixa suas melodias brilharem em versões simplificadas.

Eddie Vedder – Ukulele Songs
Munido apenas de um ukulele, o vocalista do Pearl Jam lançou um dos discos mais gostosos de se escutar nos últimos tempos. Com a sonoridade simples e divertida do instrumento, Eddie Vedder construiu um lindo repertório de canções que vão desde rocks antigos até músicas novas compostas para o disco.

Filipe Catto – Fôlego
Se tem um nome que ecoou Brasil afora no ano passado foi o de Filipe Catto. O cantor gaúcho conquista facilmente com seu tom de voz único e melodioso. Não bastasse o excelente instrumento que a natureza lhe deu, Filipe mostra ainda um grande talento para a composição, criando músicas de estruturas interessantes e letras maduras.

The Rapture – In the Grace of Your Love
Depois de deixar a banda devido a uma forte depressão, o vocalista Luke Jenner voltou atrás e criou esse que é provavelmente o melhor álbum dos caras. O motivo da desilusão pessoal foi o suicídio de sua mãe e o cantor extravasou sua frustração em algumas das letras, como “Miss You”. Mas o nascimento de seu filho ajudou a passar os maus bocados, como ele conta em “How Deep Is Your Love?”. Aliás, uma das músicas do ano, facinho!

Marcelo Camelo – Toque Dela
Se o primeiro disco de Marcelo versava sobre solidão, o segundo trabalho é sobre a serenidade de encontrar um par. Com canções mais animadas, o compositor deixa a calmaria um pouco de lado para dançar e celebrar a alegria de estar apaixonado.

Beirut – The Rip Tide
Em seu terceiro trabalho de estúdio, o Beirut deixa claro que criou um som que é só seu. Reconhecível, mas sem ser repetitivo. Zach Condon mescla o tradicional e o contemporâneo com muita naturalidade, criando canções que trazem uma sonoridade fresquinha, mas com toques retrô que parecem estar no imaginário coletivo. Comfort music?

Tom Waits – Bad as Me
Depois de sete anos sem gravar um disco de inéditas, Tom Waits finalmente voltou ao estúdio para contar novas histórias de personagens incríveis. Sua inconfundível voz, ora urrada, ora sussurrada, costura palavras em deliciosas melodias que vão do jazz ao folk rock. Se você ainda não conhece o som do cara, esse é um bom disco para começar o inevitável vício.

The Real Tuesday Weld – The Last Werewolf
Em 2003, Stephen Coates criou uma trilha sonora para o livro “I, Lucifer” de Glen Duncan, o que acabou resultando em um de seus melhores álbums. Oito anos depois, a dobradinha se repete em “The Last Werewolf”, uma trilha para o novo trabalho de Glen Duncan. O resultado? Provavelmente o melhor disco do The Real Tuesday Weld, onde Coates prova que ninguém como ele consegue casar o jazz dos anos 40 com os mais diversos ritmos da atualidade. Gênio!

R.E.M. – Collapse into Now
Com 30 anos de carreira e 15 álbuns lançados, o R.E.M. decidiu que era chegada a hora de contar o capítulo final da história da banda. Em seu último disco, Michael Stipe e companhia souberam fechar bem sua extensa discografia, oferecendo uma boa dose do que eles ensinaram a tantas bandas alternativas: um rock melodioso, orgânico e cheio de energia.

Foo Fighters – Wasting Light
Depois de deixar as baquetas do Nirvana, ninguém sabia ao certo que destino teria a empreitada de David Grohl na liderança de sua própria banda. Chegando ao 7º disco do Foo Fighters, acho que ninguém mais duvida do potencial de Dave no comando. Aliando peso à melodias pop, o guitarrista mais uma vez consegue criar grandes hits roqueiros para serem batucados no canto da mesa e cantados aos berros.

Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine – Enhanced Methods of Questioning
Depois de um ótimo disco de estreia em 2009, Jello Biafra não se segurou e lançou um novo EP ao lado de sua nova banda, a Guantanamo School of Medicine já em 2011. O resultado são 6 excelentes canções regidas pelo vocal endiabrado de um dos pais do punk. Quem precisa de 12 músicas?

Literatura

War

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imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

“There was truth and there was untruth, and if you clung to the truth even against the whole world, you were not mad.”
George Orwell, 1984.

There I was stunned by the cold arguments and empty speech. Hearing what I had never expected for I still though people could work together as equals. However, the words came relentlessly like silver bullets aiming straight to the left side of my chest and they sank and deepened, until I was almost obliged to quit, yet I remained – as a pretender.

Literatura

Nosso tempo

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por Marcella Marx

Intrigantes são aquelas memórias que nos perseguem por toda a vida, se estamos aqui ou ali, elas são nossa luz e sombra. Interessante também é o momento em que elas reaparecem, como se fossem chamadas. Ontem uma dessas me interrompeu no jantar, inspirada por um restaurante cheio de objetos antigos, dentre eles, moedores de carne. Lembrei da vovó na cozinha do sítio moendo a carne num daqueles e eu ajudando a encher as linguiças, muito entretida com o varal armado para secar as tripas. Um tempo outro, tão diferente que é até difícil de acreditar que um dia aconteceu. À tardinha no sítio, vovô chegava com uma lata de mangas, sentávamos todos na sacada em frente ao pé de caju e ele descascava uma a uma e ia nos passando. As mangas não eram cortadas, nós chupávamos até o caroço. Terminávamos e íamos direto pro chuveiro. Havia dias em que combinávamos de acordar bem cedinho, ainda escuro. Vovô levava o Nescau, nós descíamos juntos para ver o novo bezerro, e aproveitávamos para beber o leite espumante que o Sr. Olímpio tirava na hora. Nossas brincadeiras eram simplesmente subir nas jabuticabeiras, fingir que tirávamos água do poço, andar a cavalo, ir até o lago pegar argila, criar esculturas e nos lambuzar inteiros, colher abacate, laranja, limão, cheirar o fedido do jatobá (não sem antes olhar bem para o chão, pois o vovô sempre dizia que as cobras adoravam essa árvore). Também adorávamos brincar com os pintinhos da granja e colher penas coloridas para dar de presente para mamãe. Lá começaram as maiores aventuras de nossas vidas, quando, numa noite, vovó acendeu o fogo e a casa foi tomada por abelhas que haviam feito sua colmeia dentro de nosso fogão à lenha. Lá, também conhecemos nossos primeiros grandes heróis, vovô e vovó, que corajosamente lutaram contra as abelhas durante toda a noite para retomar nosso território. De tempos em tempos, para nossa alegria de sentir medo, aparecia uma cobra e elas inspiravam as histórias de terror contadas pelo vovô à noite, ao som dos morcegos que habitavam nosso telhado. Lá, nessa casinha vermelha e branca, de chão vermelho, envernizado pela vovó, com forro de madeira e banheiro cheio de pererecas é que um dia fomos crianças.