Nos dias 1º e 2 de setembro, Marcelo Camelo esteve em Porto Alegre para apresentar o show Voz e Violão, onde o músico faz um apanhado de sua carreira em versões intimistas. No repertório, foram incluídas canções do Los Hermanos, faixas dos dois discos solo do cantor e composições feitas para outros artistas. Marcelo aproveitou a beleza do Theatro São Pedro e a sua grande legião de fãs na cidade para fazer das duas apresentações o registro oficial do show em DVD.
A noite iniciou com a voz de Mallu Magalhães em off anunciando a gravação do show e pedindo que as fotos fossem tiradas sem flash. A presença da cantora fez com que muitos já esperassem uma participação da artista no show, o que não aconteceu na primeira noite. Marcelo Camelo entrou no palco sozinho e empunhou o seu violão para interpretar a inédita e belíssima “Luzes da Cidade”. Apesar de nova, algumas vozes na plateia já acompanhavam a letra aos sussurros.
O setlist não foi nada óbvio, dando preferência a músicas que funcionassem bem no formato voz e violão, e não necessariamente a hits do artista. O resultado foi ótimo, valorizando belas canções que nem sempre ganham destaque no repertório de Camelo. Além da faixa de abertura inédita, o cantor interpretou duas canções que compôs para outros artistas: “Dois em Um”, cantada originalmente por Milena Monteiro e “Cara Valente”, que ficou conhecida na voz de Maria Rita. Outra surpresa foi a marchinha “Porta de Cinema”, composição muito bacana do avô de Camelo.
imagem: Cassiano Rodka
Além do seu violão, o músico teve acompanhamento da rabeca de Thomas Rohrer em nove músicas. “Menina Bordada” e “Dois Barcos” ganharam arranjos bem diferentes. Enquanto a primeira foi relida em versão frevo, a segunda recebeu um sabor experimental com direito a efeitos sonoros criados por um batedor de ovos tocado com um arco por Thomas. O show encerrou com Marcelo tocando novamente a música de abertura, a inédita “Luzes da Cidade”, mas dessa vez com a adição do lindo choro da rabeca de Thomas Rohrer.
Um segundo bis trouxe os dois músicos de volta ao palco para uma versão de um dos clássicos do Los Hermanos, “Além do Que Se Vê”. Convidando os presentes a cantar a melodia do naipe de metais no final da canção, Camelo fechou a sua primeira noite no Theatro São Pedro.
imagem: Cassiano Rodka
No segundo show, duas canções foram tocadas no último bis antes de “Além do Que Se Vê”. Ao voltar ao palco, Marcelo falou aos câmeras, rindo: “Agora já acabou o DVD, hein?”. Para deleite dos presentes, ele chamou Mallu Magalhães ao palco e interpretaram a mais recente música de trabalho da cantora, “Sambinha Bom”. Dividindo os vocais com ela, Marcelo anunciou “Vou tocar do meu jeito, tá?” e alterou uma das frases da letra para “Meu coração já cansou de tanto choro derramar e pede volta pra gente casar“. Depois de Mallu deixar o palco, Marcelo atendeu a um pedido do público, tocando a canção “Vermelho”.
Dos dois shows, o segundo foi certamente o melhor. Camelo parecia mais tranquilo durante toda a apresentação (já tinha passado o nervosismo da primeira noite) e a interação musical dele com Thomas Rohrer estava afiadíssima! Felizmente, em breve teremos este lindo registro em DVD para ver, rever e dividir com os amigos.
imagem: Cassiano Rodka
SETLIST
Luzes da Cidade
Dois em Um
Pra Te Acalmar
Casa Pré-Fabricada
Samba a Dois
Doce Solidão
Pois É
Janta
Dois Barcos
Fez-se Mar
Porta de Cinema
Tudo Que Você Quiser
Menina Bordada
A Outra
Santa Chuva
Liberdade
Cara Valente
BIS 1
Saudade
Morena
Tá Bom
Luzes da Cidade
BIS 2 no sábado
Além do Que Se Vê
BIS 2 no domingo
Sambinha Bom
Vermelho
Além do Que Se Vê
Quando olho pelo retrovisor,
quem avisto ainda é um menino de três anos,
de óculos escuros, cantando e dando risadas.
Hoje, não o reconheço mais,
porém sei que
em algum lugarzinho secreto de seu ser,
ainda se esconde o menininho.
Tão escondido, que nem ele deve saber onde.
Mas ali está, disso estou certa,
Porque aprendi a ler seu olhar.
Hoje, há momentos em que qualquer palavra minha
parece ferir-lhe de morte –
Escolho calar-me, então.
Ele também, de regra, recolhe-se em sua concha.
Sigo, obstinada, tentando ler seus silêncios.
E quase sempre consigo.
O deixo, assim, amadurecer.
O que me move
é saber que o meu menininho um dia vai voltar,
na pele de outro menino:
aquele que o meu menininho
um dia há de criar.
Christopher Nolan assumiu a franquia do homem morcego em um bom momento para fazê-lo. Os anos 90 não foram bacanas para o defensor de Gotham nas mãos de Joel Schumacher. O que dizer de um filme pelo qual o diretor teve de pedir desculpas aos fãs? (e isso pode ser visto aqui: http://www.youtube.com/watch?v=r6epsGrcuTs) E se alguém não lembra ou não viu “Batman & Robin” (1997), divirta-se (ou não) com esse “Top 15” dos momentos mais embaraçosos do filme: http://www.youtube.com/watch?v=Jj2KcFj1jbE.
Sim, você não está vendo errado: o Batman de Clooney/Schumacher tinha MAMILOS na armadura. Pois é.
Vamos combinar: depois disso era muito difícil fazer algo pior. E Nolan, em 2005, lançou “Batman Begins”. O título deixava muito claro a ideia de reboot, por mais que o termo ainda não fosse utilizado pela indústria cinematográfica. Vamos recomeçar do zero. Vamos esquecer os sofríveis filmes de Schumacher e os polêmicos filmes de Burton. Eu até gosto dos filmes do Burton, mas eles acabam sendo mais filmes do Burton do que filmes do Batman…
Batman Begins
Chris Nolan em 2005 era um nome em ascensão, vindo do cinema alternativo inglês. Tinha conseguido notoriedade com dois excelentes filmes, “Amnésia” (Memento, 2000) e “Insônia” (Insomnia, 2002). Ambos os filmes foram thrillers muito bem conduzidos e davam pistas da linha que Nolan adotaria para o seu Batman. Um Batman ultrarrealista como até então não tinha-se visto, para o qual Nolan escalou um excelente ator que também surgia naquele momento, Christian Bale, cujo trabalho mais conhecido era a ótima atuação em “Psicopata Americano” (American Psycho, Mary Harron, 2000). Bale conseguiu dar ao Batman uma profundidade e uma solidez que Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney não tinham conseguido nas décadas anteriores. Seu Bruce Wayne era ótimo e seu Batman, bastante convincente. Foi um dos pontos fundamentais sobre os quais Nolan começou a construir sua mitologia. Outro grande acerto de Nolan foi a escolha dos coadjuvantes. Para o mordomo Alfred, Michael Caine. Para o Comissário (então detetive) Gordon, Gary Oldman. Para Lucius Fox, Morgan Freeman. Caine, Oldman e Freeman são bons e experimentados atores, não requerem apresentação. Nolan entendeu que, para o Batman funcionar, o “entorno” era bastante importante.
Lian Neeson é Ducard, um dos mentores do Batman
Outra novidade do filme de Nolan foi a preocupação em mostrar a origem e o treinamento do Batman. Nesse sentido a história lembra, em muitos pontos, o excelente “Batman: Ano Um” de Frank Miller. Os anos ausentes de Batman, o treinamento, a prisão e a busca por sentido na vida do herói são mostrados a todo momento, e é ali que aparece Ducard (Lian Nesson, outra boa figurinha carimbada), que se tornaria o mentor do Batman e o introduziria na Liga das Sombras, controlada pelo misterioso Ra’s al Ghul. Junte-se a isso um vilão que ainda não havia aparecido nos filmes (o Espantalho de Cillian Murphy) e ao interesse romântico de Batman (Katie Holmes, a única escolha questionável de Nolan…) e temos um bom filme. Um roteiro sólido com suas viradas e surpresas, cenas de ação bem dosadas e a tentativa constante de aprofundar os personagens, fugindo da bidimensionalidade tão comum nos filmes de heróis. “Batman Begins” introduz um universo ultrarrealista construído sem pressa e com cuidado pelo diretor, que coroa o processo com a excelente trilha sonora de Hans Zimmer e James Newton Howard. Conforme o título do filme, é um começo. O começo de uma grande ópera em três atos que modificaria a forma como o mundo via os filmes de super-heróis e, principalmente, o começo de um Batman tratado com dignidade e respeito como não havia sido feito até então.
O Cavaleiro das Trevas
Nolan, em 2008, já era um diretor mais afirmado, em função do próprio “Batman Begins” e também de “O Grande Truque”, seu ótimo filme de 2006 onde ele repetiu a parceria com Bale e teve críticas excelentes para ambos. Mas o que mostrar nesse filme? “Batman: O Cavaleiro das Trevas” seria mais do mesmo? Nolan apostou em manter o que funcionara no primeiro filme: Bale, principalmente. Mas fundamentalmente também Oldman, Caine e Freeman. Dentre esses, o personagem de Oldman, o Comissário Gordon, ganha mais destaque (e background, o que é sempre bacana também). A partir daí ele conta, então, outra história. As duas primeiras cenas são talvez as mais importantes do filme. Uma delas mostra o que o Batman se tornou: um herói e um ídolo, alguém que encoraja as pessoas. O que nem sempre é bom, já que ninguém tem o dinheiro, os gadgets e a preparação do senhor Wayne para ser o Batman. Os imitadores, o filme dá a entender, se tornaram uma constante e também uma preocupação para o herói. O Batman trabalha obstinadamente para que chegue o dia em que a cidade não precisará mais dele, mas esse dia não parece próximo.
O Cavaleiro das Trevas também é sobre o Batman. Também.
A grande sacada de Nolan foi que “O Cavaleiro das Trevas” não é um filme sobre o Batman. O protagonista desse filme é outro, como fica evidente logo no início. A primeira cena do filme, o assalto ao banco de Gotham, é uma construção primorosa e uma apresentação de personagem como poucas vezes já vimos. Ali ficamos sabendo que o protagonista do filme não é o Batman: é o Coringa. Assista a cena: http://www.youtube.com/watch?v=0OYBEquZ_j0. Os próprios personagens apresentam o Coringa: “dizem que ele usa maquiagem”, um comenta. “Dizem que ele é louco”, outro diz. E assim vamos tentando conhecê-lo. Se essa é a cena que o mostra como um meticuloso planejador, a sua cena seguinte, quando ele próprio se apresenta para os gângsters de Gotham: http://www.youtube.com/watch?v=QehZjjwb7-I. Dessa vez ele fala. Ele é objetivo, direto e quase cartesiano em sua loucura, na medida em que isso é possível. Como conquistar o respeito de mafiosos brutais? Deixando muito claro que se é bem mais brutal do que eles, quando necessário. E deixando claro também que ele não têm o que perder. Um homem sem esperança, sem ter o que perder é muito perigoso.
Poucas vezes ombros foram tão ameaçadores
Nolan e o seu roteirista (Jonathan Nolan, que é também seu irmão) acertaram integralmente numa aposta no mínimo arriscada: não se preocuparam nem por um momento em explicar o Coringa. Ele não tem origem, não tem história, não tem pais. Cada vez que fala do seu passado conta uma história diferente. Pode alguma delas ser real? Um pouco de cada, talvez? Pode. Mas a impressão que dá é que nem ele sabe. E isso pouco importa. Nesse sentido o próprio Coringa se define como uma força da natureza, fazendo as coisas acontecerem. A concepção do Coringa de Nolan é bastante diferente (e melhor) do que o Coringa de Burton em “Batman” (1989). O interessante é que a versão idealizada por Burton no final dos anos 80 foi muito bem recebida e magistralmente interpretada por nada menos que Jack Nicholson, um monstro sagrado do cinema que ficou milionário ao fazer um contrato diferenciado para aquele filme, recebendo porcentagem. Como fugir de uma inevitável comparação? Não fazendo parecido. E o psicótico Coringa de Nolan não é nada parecido com o gângster “palhaço do crime” de Burton. Além disso, claro, tivemos Heath Ledger. Ledger era um ator australiano em ascensão depois de uma atuação elogiadíssima em “O Segredo de Brokeback Mountain” (Brokeback Mountain, Ang Lee, 2005). O Coringa de Ledger talvez seja a maior autação da década de 00 no cinema e uma das maiores de todos os tempos. Ledger conseguiu compor o personagem louco sem ser histriônico ou gritão. Prestou atenção em cada detalhe e em cada tique nervoso. Compôs um psicótico cheio de manias como torcer a boca, lamber um lábio, virar o pescoço ou piscar um olho. Antes de ser cômico seu Coringa é assustador, como Nolan o concebeu. Heath Ledger recebeu um ótimo personagem em um roteiro maravilhoso e conseguiu transformá-lo, com sua atuação, em um personagem melhor ainda. O seu bordão “Why so serious?” foi imediatamente incorporado ao imaginário dos bordões do cinema ao lado de clássicos como “Hasta la vista, baby”, “Luke, I am your father”, “Dadinho o c******, meu nome é Zé Pequeno, p****!” e “Frankly, my dear, I don’t give a damn”. O Oscar póstumo de Melhor Ator Coadjuvante foi o reconhecimento da academia a uma atuação irretocável de um excelente ator que morreu aos 29 anos antes de ver o filme estrear. O filme foi, obviamente, dedicado a ele.
Eu realmente não sei qual o melhor pôster do Coringa…
O filme foi roubado por Ledger e seu Coringa, o psicopata de quem todos amamos ter medo, mas ainda assim há mais um personagem interessante e central: Harvey Dent, o promotor de justiça de Gotham. Idealista, ambicioso e honesto, ele reúne as características para ser um “Cavaleiro Branco”, um herói sem máscara que poderia tomar o lugar de Batman e permitir a Bruce Wayne viver a sua vida em paz. Pelo menos assim pensaram o Batman e seu aliado, o Comissário Gordon. A queda e corrupção de Dent, que torna-se o maníaco Duas-Caras, é mais uma vitória do Coringa. Provando que pode corromper até o mais puro dos mocinhos do filme, o palhaço estaria mostrando que lá no fundo todos são como ele. A queda de Dent é orquestrada pelo Coringa, que tem o controle das situações do filme mesmo quando parece não ter. Da sua deliberada prisão ao seu interrogatório conduzido pelo Batman, tudo estava planejado por ele. Ao final o Coringa só não consegue ser 100% vitorioso em função do altruísmo do Batman e da cumplicidade do Comissário Gordon: para evitar a desmoralização pública de Dent eles sacrificam a imagem do próprio Batman, que termina o filme caçado pela polícia como se fosse apenas mais um bandido.
“Batman: O Cavaleiro das Trevas” foi um daqueles raríssimos casos em que o sucesso (avassalador) das bilheterias coincidiu com as críticas quase que unanimemente positivas. Nolan provava que era possível fazer um blockbuster arrecadar mais de 1 bilhão de dólares nos cinemas sem abrir mão de fazer um filme de qualidade, sempre com um capricho primoroso na fotografia e com as ótimas trilhas sonoras de Hans Zimmer. “Batman: O Cavaleiro das Trevas” tornou-se um paradigma: é assim que os filmes de herói e de ação devem ser. E tornou-se também um desafio: será que Nolan conseguiria fechar a sua trilogia dignamente? Será que ele ainda tinha algo sobre o Batman para nos contar? Só saberíamos quatro anos depois, em “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, que será nosso assunto na próxima quinta-feira.
Uma samambaia, miudinha, ralinha e amarelada. Não gostava de viver ali, naquele quintal, cheio de paredes brancas de concreto. Ela lembrava sempre da linda floresta onde havia nascido. Um lugar raro para aquela época, cheio de outras flores e árvores. Pensava em sua fiel amiga e escudeira, uma bromélia vermelha:
– Será que ainda vivia por lá?
Uma jovem mulher, ativa e perfeccionista. Adorava plantas, cuidava delas com toda atenção, não media esforços. Havia se mudado para uma casa toda branquinha de azulejos cor de rosa. Seu jardim era cobiçado pelos vizinhos, não havia quem por ali passasse e não reparasse. Entretanto, há muito a jovem tentava de um tudo para que a samambaia vingasse, e nada. Até que um dia, a mulher teve uma ideia original:
– Guarde a água da carne! Vamos aguar a samambaia com ela!
E assim foi feito. A samambaia começou a ser tratada como gente. E dentro em pouco, vingou que era uma beleza. Viçosa como ela só, parecia piscar para as pessoas da rua. A jovem mulher era só alegria e orgulho. Gostava de chegar em casa e ver as folhas quase tocando o chão.
Um dia a família toda saiu, era domingo, dia de missa. Quando voltaram não viram mais a samambaia.
A mulher ficou tão triste e desolada que até chorou. Mas passado um tempo, ela preferiu acreditar que a samambaia havia realmente criado pernas, e assim foi, andando de volta para seu lar.
Quando escrevo, faço música. Não tenho como evitar. Solfejo as palavras como quem sobe uma escala e vario as notas até acertar o lugar. Minha folha em branco é uma partitura de onde eu parto à procura de algo que não está lá. Não precisa ter rima, tem que ter maciez no pronunciar. Não é, mas parece, poesia, pois tem um certo passo na entonação. Criando então essa melodia que, enquanto você lê, assobia.
João,
Meu amigo, como havia te prometido, aqui está minha versão sobre nossos dias de ócio.
Há coisas que surgem do suor.
“O sol nos estende sua mão
a brisa nos traz a certeza do mar
os sabiás nos despertam para o vir a ser
nossos corpos são postos em movimento
seguem livres na cadência das ondas que vem e vão
enquanto pescamos novas histórias
a água nos incorpora para si
exigindo mais e mais
até quando partir inteiro seja tarefa improvável
sem que ali perdure uma porção de nós.”
Desde que escutei pela primeira vez o single “How You Like Me Now?”, venho dizendo a todos que conheço que o The Heavy é a melhor banda do mundo na atualidade. Nesta terça-feira, os caras liberaram as faixas do seu novo álbum para audição no site da Billboard e eu só tive mais motivos para continuar afirmando: The Heavy é o que há!
“The Glorious Dead” é o terceiro disco dos ingleses e pode ser o trabalho que finalmente vai fazer o grupo cair nas graças do grande público – algo que, para mim, parece inevitável. As melodias soulrockers do vocal de Swaby complementam belamente os excelentes riffs de guitarra de Dan Taylor que cavalgam nos ritmos dançantes criados pela cozinha de Chris Ellul e Spencer Page. Rock, soul, funk, jazz, reggae, indie, hip hop, há de tudo um pouco no som da banda. Há certamente um sabor retrô nas composições, mas as referências antigas são relidas e trazidas para a contemporaneidade.
As novas músicas dão destaque ao funk, ao gospel e ao pop dos anos 60, deixando um pouco de lado o peso e a ampla variedade de gêneros musicais dos dois trabalhos anteriores. A guitarra não é o elemento principal nessas canções, dando maior evidência aos metais e às batidas. “The Glorious Dead” se mostra um álbum mais focado e com uma produção caprichada, mas não é necessariamente mais acessível que “Great Vengeance and Furious Fire” (de 2007) e “The House That Dirt Built” (de 2009).
O disco começa com o contagiante surf rock glam de “Can’t Play Dead”, com cordas e metais arranjados pelos Dap Kings, que já trabalharam com Sharon Jones, Amy Winehouse e Mark Ronson. “Curse Me Good” é uma balada acústica com um assobio memorável e um refrão bom de cantar, minha aposta para um próximo single. Falando em single, a próxima faixa é a primeira música de trabalho do disco, “What Makes a Good Man”, um funk rock com excelentes backing vocals gospel. Assim como o maior hit da banda, “How You Like Me Now?”, a canção também foi parar em um comercial. A música é trilha de uma propaganda da cerveja Miller, contando até com uma pequena participação dos integrantes da banda.
A faixa que segue é uma velha conhecida dos fãs, “Big Bad Wolf”. Ela costumava ser tocada ao vivo na última turnê e acabou sendo incluída em um EP em 2010. Mas a versão que aparece em “The Glorious Dead” é diferente. Os riffs de guitarra pesados a la Jimi Hendrix foram substituídos pelos metais dos Dap Kings, dando uma outra cara à canção. Apenas os vocais originais parecem ter ficado. Fiquei feliz em escutar uma nova (e bacana) versão para essa velha conhecida (meu toque de celular), mas confesso que prefiro a versão antiga. “Same Ol'” aparece em seguida com um ritmo funk lento e metais épicos no maior estilo Rocky.
“Be Mine” é uma das melhores, com orquestrações sensuais estilo James Bond, vocais suaves e uma batida hip hop meio Gorillaz. “Just My Luck” dá uma agitada no clima, carregada por um riff de guitarra bem Dan Taylor, trazendo um pouco do peso dos discos anteriores e culminando em uma caótica disputa de metais. A levada bêbada de “The Lonesome Road” tem ecos inegáveis de Tom Waits e o baixo de “Don’t Say Nothing” nos embala em uma deliciosa levada funk que deixaria James Brown e Stevie Wonder orgulhosos. Para fechar o disco, a banda capricha na faixa “Blood Dirt Love Stop”, um doo wop bacana com claras referências à Burt Bacharach – os backings no refrão remetem aos de “Walk On By”.
Se você ainda não se apaixonou pelo The Heavy, chegou a sua hora!
“Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade,
Tudo está perdido mas existem possibilidades.
Tínhamos a ideia, mas você mudou os planos
Tínhamos um plano, você mudou de ideia
Já passou, já passou – quem sabe outro dia.” (“Sereníssima”, LEGIÃO URBANA)
Buongiorno, leitores! E vamos em frente com o segundo capítulo de minha crônica veneziana. Procederei com o que julguei adequado chamar de “derrubada de mitos” sobre a fantástica cidade. Como mencionei na primeira parte, cansei de ouvir da maioria das pessoas que em Veneza estiveram diversas opiniões pouco agradáveis sobre a cidade. Assim, dou-me ao luxo de discordar solenemente agora, apresentando as minhas razões. Vamos lá!
Mau cheiro – ele não existe! A Sereníssima é banhada pelas águas verde-azuladas ou azuis-esverdeadas (sim: quem não acredita, vá lá conferir!) do Mar Adriático. Durante o tempo em que lá ficamos, somente sentimos um leve cheiro de algas (claro, é mar…) um dia, mas nada que não se sinta em qualquer praia. Assim, ao contrário do que muitos imaginam, Veneza não bóia em meio a um esgoto gigante a céu aberto! Em cada cantinho da cidade, pode-se ver as límpidas águas se espalhando e banhando casas, pontes e palazzos. Belíssimo!
Pouca coisa para se fazer: uma loucura! Como já disse, cada recanto da cidade é cinematográfico, desse modo, é possível fazer diversos tipos de passeios. Caminhadas longas, passeios de gôndola, water taxi ou Vaporetto, o transporte coletivo deles. O Vaporetto é de fato um meio de transporte muito interessante. Calmamente, aquele “metrô aquático”, como o apelidamos, desliza sem pressa, sereno. Os nativos devem ter uma vida muito tranquila lá, estresse zero.
Além das belezas naturais de Veneza, a cidade tem também muitos museus e galerias de arte. Estivemos em dois que valem muito a pena: a Collezione Peggy Guggenheim, que abriga, na casa que foi da própria Peggy, sua coleção particular de arte. Peggy Guggenheim foi uma importante mecenas e colecionadora de arte do século XX, tendo sido casada com o artista Max Ernst e patrocinado a primeira exposição do pintor norte-americano Jackson Pollock (que eu adoro). Entre as obras de sua coleção, Ernst, Pollock, Picasso, Braque, Léger, Kandinsky, Chagall, Klee. Simplezinha, não? A bela casa é um palazzo localizado à beira do Canal Grande. Lugar super agradável, onde, além de apreciar a arte, pode-se tomar um vinho com prosciutto no simpático café do museu. Outro museu super legal é o Punta Della Dogana. Localizado na antiga aduana de Veneza, o prédio do museu, que teve recentemente seu interior totalmente reformado pelo aclamado arquiteto Tadao Ando, abriga exposições de arte contemporânea. A loja do museu é ótima, com objetos de decoração, livros de arte e muito material para desenho e pintura. Vale tomar um legítimo espresso italiano no Dogana Café.
Caminhar por Veneza é uma verdadeira delícia. Há muito lugar bonito para se ver e fotografar. Nada como “ver a vida passar” quando se viaja, apenas sentar em um café e curtir o dolce far niente italiano… Acreditem, Veneza se encaixa perfeitamente no tal conceito de “doçura do ócio” que os italianos preconizam. Para experimentá-la na sua mais pura essência, sente-se em um dos cafés da Piazza San Marco, e curtam o momento e o vai-e-vem de turistas e locais. O Grand Caffé Quadri, aberto em 1638, é uma excelente escolha. Diversos tipos de café, drinks e sanduíches diferentes. Peça um legítimo capuccino italiano (que não leva chantilly, canela ou outras invenções brasileiras para a bebida) e um tramezzino Nonno Vitorio (feito com bacallà mantecato, uma deliciosa especialidade vêneta, com anchovas, alface, manjericão, tomate e cebolas ao vinagre balsâmico) ou um simples e gostoso toast quadri (presunto, queijo Emmental e molho Quadri, feito com manteiga e queijo parmiggiano). Na parte superior, funciona o Ristoranti Quadri, que possui uma estrela no aclamado guia Michelin.
A culinária vêneta é um espetáculo à parte. Quero destacar um restaurante em especial, também com uma estrela no Michelin, que é o Osteria da Fiore. Localizado no lindo bairro de San Polo, ao lado de uma graça de ponte pequenina, tem salão de jantar minúsculo, com não mais que quinze mesas, impecavelmente arrumadas em um ambiente super aconchegante. O atendimento é nota mil, o que faz jus à fama hospitaleira dos italianos. Com carta de vinhos impecável, decidimos pedir uma Don Perignon, já que era uma comemoração! Provamos como entrada o baccalà mantecato alla veneziana dos caras. Mantecato, amanteigado, pode sugerir algo gordo e enjoativo, mas, nada disso, o tal bacalhau é verdadeira iguaria, de sabor suave e delicado. Chamam-no também de baccalà alla vicentina. Experimentamos ainda o bigoli in salsa, uma massa integral longa e seca, parecida com spaghetti, com molho de sarde (sardinha) e cebolas, super típica e com um sabor muito peculiar. Para fechar com chave de ouro, provamos, como secondo piatto, a frittura de moleche con insalata d’arance e rucola. O moleche é uma espécie de mini caranguejo do Veneto, e neste prato ele é servido frito, acompanhado de uma saladinha de laranja vermelha e rúcola. Inesquecíveis iguarias! Gostamos tanto do Osteria da Fiore, que voltamos lá dois dias depois para almoçar. Compramos lá mesmo o livro de receitas de Mara, Maurizio e Damiano Martin, proprietários do local. O livro é ótimo, porque, além de trazer as receitas do restaurante ao lado de lindas fotos, também oferece uma panorama detalhado da história do Osteria, da região do Veneto e da culinária local.
Outro restaurante digno de nota, que havíamos visto no programa de TV do chef Anthony Bourdain, é o Al Covo. Fomos até lá somente para provar o fritto misto di verdure di stagione, uma seleção de legumes empanadinhos e fritos que é uma verdadeira maravilha. Um colosso, como dizia minha querida avó Zenyra!
A culinária do Veneto é caracterizada por ser autóctone, ou seja, utiliza frutos do mar, verduras, legumes e cogumelos da própria região. Seus pratos são totalmente diferentes das comidas italianas que estamos acostumados a degustar em restaurantes italianos no Brasil, que, em geral, servem pratos da Lombardia e Toscana. São típicos da culinária vêneta os risotos, como o de radicchio rosso, as polentas, que podem ser acompanhadas de cogumelos, bacalhau e coelho, e os frutos do mar.
Agora, passamos às comprinhas! O que não falta em Veneza são lojinhas de artesanato que vendem a arte local conhecida mundo afora: os artigos esculpidos em vidro de Murano, uma das ilhas próximas à Sereníssima. Vale a pena entrar em várias dessas lojinhas, para comparar preços e principalmente a qualidade das peças. Compramos copinhos e jarras muito bonitos na loja de um artesão de sobrenome Schiavon, que eram visivelmente de melhor qualidade, em meio às diversas outras lojas.
Além do artesanato local, em Veneza pode-se encontrar, para quem se interessa por moda, todas os grandes marcas, não só italianas, como também de outros países, dentre elas, Prada, Gucci, Armani, Dolce&Gabana, Fendi, Miu Miu, Chanel, Dior, Stella McCartney, Louis Vuitton, Hermès e por aí afora!
O que faltou, desta vez, para nós: Murano, Burano e Torcello. O que derruba o último mito, de que dois dias em Veneza são suficientes: não são! Lá ficamos por três dias, e não conseguimos visitar as três ilhas que cercam Veneza. Assim, não vimos os vidros sendo soprados pelos artesãos em Murano, e não comemos o famoso risoto de goh (um peixe da região) em Burano (que havia sido sugerido também pelo chef Bourdain em seu programa sobre Veneza). Fica para a próxima, porque, certamente, em breve voltaremos! De Veneza, seguimos para Gardone Riviera, pequena cidade localizada às margens do Lago di Garda, o maior da Itália. Um lugar maravilhoso, de onde se pode avistar as magníficas Dolomiti, os Alpes italianos, onde se localiza Fastro di Arsiè, povoado de origem dos meus antepassados italianos por parte de pai. Mas isto já é assunto para outra crônica…!
Para terminar, quero confessar aos leitores que não resisti e fui ao Dr. Google pesquisar sobre a alcunha de “Sereníssima” dada à Veneza e mencionada por Renato Russo em seu show. Pois bem, digníssimos que me leem, de fato, a “Sereníssima República de Veneza” (em dialeto vêneto, Serenìssima Repùblica Vèneta e em italiano, Serenissima Repubblica di Venezia) foi um Estado no nordeste da Itália, com capital na cidade de Veneza. Existiu do século IX ao século XVIII. É muitas vezes referida apenas como a Sereníssima. Assim, não exatamente a cidade, mas o dito estado que tinha Veneza como sua capital era daquele modo chamada.
Conversando com meu pai, que leu a primeira parte desta crônica, descobri que “sereníssimo” era título conferido a membros da realeza italiana. Buscando o termo em um dicionário italiano, encontrei o seguinte significado: “serenìssimo: titolo che si dava ai sovrani e ai principi di sangue reale”. E em um dicionário de língua portuguesa, “título que se dava a algumas altas personalidades e a certos Estados: Sereníssima Alteza; a Sereníssima República de Veneza”. Não era o que eu imaginava, ou seja, nada a ver com a palavra “serena” em português, mas o significado é belo mesmo assim, e também se molda totalmente à magnitude de Veneza. Ainda assim, vou ficar para sempre com a imagem da cidade tranquila e serena , e toda vez que eu voltar lá ou alguém mencionar Veneza, me lembrarei disso. Serena e doce lembrança.