Clarice Dall’Agnol

Literatura

Crônicas de uma ponte aérea: A menina do nome

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

CRÔNICAS DE UMA PONTE AÉREA

Capítulo de hoje: “A menina do nome”

Naquele tempo de Varig, meu passatempo favorito era minha coleção de nomes!
Eu os escrevia num caderninho escondido em baixo do balcão.
A cada dia me surpreendida com a criatividade das pessoas e com as combinações que incluíam começos de um nome e finais de um outro, gerando um terceiro inusitado. Minha lista crescia ao menos em um nome por dia.
Numa sexta-feira do mês de dezembro, ela atingiria seu ápice, dificilmente um outro nome superaria aquele.
Vi chegar uma pequena menina que tinha uns 8 anos. A mãe morava no Rio e o pai em São Paulo. Não bastasse a separação dos pais, a pequena ainda era quem ficava na ponte aérea para ir encontrá-los. Ia de uma cidade à outra, quase todas as sextas-feiras. O embarque de uma menor desacompanhada requer um procedimento demorado, documentos de consentimento de ambas as partes, nos quais seu nome se repetia várias vezes. Quando o li, fiquei perplexa, não poderia utilizar aquele nome na frente das outras pessoas ao redor, mas sabia que em algum momento precisaria chamá-la. Pensei então em algumas possibilidades: “A senhorita poderia me acompanhar…”: muito formal; “A menina linda gostaria de me acompanhar…”: exagerado demais; “Vamos!”: impessoal demais, quase rude. Depois do desespero, a raiva daqueles pais tomou conta de mim. Além de darem aquele nome à filha, se separaram e foram morar em cidades diferentes; assim a pobre tinha que passar por aquele vexame toda semana!
Terminei de preencher todos os documentos e calmamente disse:
– Posso te acompanhar até a entrada do avião? E ela consentiu com a cabeça.
Fomos de mãos dadas até a porta, e, baixinho em seu ouvido, eu me despedi:
– Boa viagem Coelha! Ela não disse nada, apenas me respondeu com um belo sorriso.

Literatura

PáginaDois celebra 7 anos

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

O PáginaDois começou como um site feito a quatro mãos por mim e minha irmã, Clarice Casado. Era literalmente uma “página a dois”. A ideia era criar um canal para expormos os textos que costumávamos escrever, ela em São Paulo, eu em Porto Alegre. Essa ideia foi expandindo e o site foi crescendo e ganhando mais e mais leitores. Abrimos a porta para mais escritores na equipe, criamos novas seções e chamamos ilustradores para produzirem imagens que pudessem refletir visualmente os textos. Atualmente, o PáginaDois está mais para PáginaDez, contando com uma equipe de 20 mãos atuantes. É uma grande felicidade completar 7 anos de um projeto que mantemos vivo de forma independente e ver que ele continua crescendo em aceitação. Por isso, aproveitamos esta data para agradecer a todos que fizeram e ainda fazem parte da maior história que escrevemos juntos: a própria história do PáginaDois, que segue sendo escrita sem a menor preocupação em pôr um ponto final

Literatura

Filho inválido

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

É o que dizia no topo do documento. “Filho inválido”. Duas palavras que não se complementam nunca unidas pelo carimbo de um tabelião. Que validade era essa, meu Deus, que o governo tratava de negar ao meu pequeno afirmando sua irrevogável inexistência? E pensei logo no meu filho, sempre fiel, que nunca fez mal a ninguém. Pelo contrário, mal compreende as razões da maldade. Dorme e acorda ao meu lado, sempre alegre em estar ali comigo. Que vê valor nas coisas mais simples da vida. O único que de fato me olha sem me julgar. Vive em um mundo só seu, que é de longe mais justo que este onde algumas pessoas aparentemente não têm valor. Um homem feito, uma eterna criança. É o meu filho. E peço desculpas se ele é uma ferramenta social que vocês não descobriram como usar.

Mas não se preocupe, sr. Tabelião, que os “itens descritos abaixo” serão todos entregues no prazo. A certidão de nascimento válida com cópia autenticada. O passaporte válido também com cópia autenticada. O RG, o certificado de dispensa do exército, o título de eleitor, o comprovante de residência, todos válidos. E a foto 3×4 que não capta o sorriso do meu filho, pois aparentemente não há espaço para a felicidade em documentos oficiais do governo.

Junto a todos eles, entrego esta carta. Para que, quem saiba, você entenda, sr. Tabelião, você e os seus, que a única coisa que perdeu a validade foi a sua visão de humanidade.

Cinema

O fim do Batman

por Pedro Cunha

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Montagem que circulou pela net com os posters dos três filmes de Nolan.

O que fazer quando seu filme é considerado um dos melhores de todos os tempos no seu gênero (e, para muitos, o melhor) e arrecada mais de um bilhão de dólares na bilheteria? E quando você criou uma versão de um personagem clássico considerada, por muitos, como a definitiva? E quando, nesse filme, um dos seus atores “comete” talvez a maior atuação do século XXI que causou tanta comoção que fez com que a conservadoríssima Academia concedesse, pela primeira vez, um Oscar póstumo? Essas perguntas todas devem ter passado pela cabeça de Chris Nolan depois do sucesso estrondoso de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (Batman: The Dark Knight, Christopher Nolan, 2008). E depois de ver “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (Batman: The Dark Knight Rises) eu consigo imaginar perfeitamente Nolan respondendo: “Continuamos com o plano. Sem nenhum desvio de rota”.

Essa é a impressão que fica, pelo menos, ao assistirmos o fechamento da trilogia de Nolan. O que teve início com “Batman Begins” (2005) e embasbacou o mundo com “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (2008) chega ao seu final com “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (2012). A primeira impressão, logo após o filme, é que ele já estava pensado há bastante tempo. O roteiro (do próprio Nolan e de seu irmão e parceiro, Jonathan Nolan) retoma uma série de elementos e pontas soltas dos dois primeiros filmes, tentando resolvê-los e fechar a trilogia. A história começa oito anos depois do fim do filme anterior e a primeira coisa que descobrimos é que o sacrifício moral do Batman, assumindo as culpas do Duas-Caras e deixando que a memória de Harvey Dent continuasse imaculada e ele continuasse sendo o “Cavaleiro Branco” sem máscara do qual Gotham precisava. A vitória contra o crime foi construída em cima de uma mentira, o que faz com que o Comissário Gordon fique amargurado e envergonhado por saber que todos os mafiosos e criminosos presos em função da “Lei Dent” estão na prisão por causa de uma mentira.

Gordon é vivido pela terceira vez por Gary Oldman, que sente-se à vontade no papel assim como Michael Caine, pela terceira vez encarnando o mordomo Alfred. A relação de Alfred com Bruce Wayne, por sinal, é um dos pontos dramáticos em cima dos quais se apoia o filme. Alfred sempre serviu a Wayne na sua loucura doentia de ser o Batman porque Bruce afirmava que quando o Batman não fosse mais necessário ele aposentaria a capa e enfim poderia viver a sua vida. Não é Alfred, o mordomo, mas sim Alfred, o praticamente pai de Bruce Wayne que se torna cético e magoado quando Wayne enfim aposenta a capa. Mas não vive sua vida. Torna-se um ermitão recluso na Mansão Wayne reconstruída, isolado do mundo e simplesmente esperando o tempo passar. O conflito entre o mordomo/pai que não aceita mais os caprichos do filho mimado proporcionam alguns dos melhores momentos do filme.

Oldman como Gordon, Caine como Alfred. Morgan Freeman (numa participação menor do que nos filmes anteriores) como Lucius Fox e Christian Bale como Bruce Wayne/Batman. São os elementos que se repetem dos três filmes anteriores em função de terem funcionado muito bem. “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” é o melhor das três participações de Bale. Fundamentalmente, talvez, porque esse filme, diferente do anterior, é um filme sobre o Batman. Percorrer o caminho da queda à redenção é difícil e Bale dá credibilidade para a tortuosa via percorrida por Wayne.

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Batman, quebrado. Em todos os sentidos. 

Os elementos novos foram, os três, muito bem acertados. Jonathan Gordon-Levitt ((500) Dias Com Ela, A Origem) é um dos jovens atores em ascensão em Hollywood e lhe caiu como uma luva o papel de ser o espelho de Batman, de lembrá-lo do que ele era e do que ele deveria ser. O final do personagem é um tanto nebuloso, com duas possibilidades em aberto, mas acho que a intenção de Nolan era essa mesma. Anne Hathaway (O Diabo Veste Prada) encarna a ladra Selina Kyle, uma exímia acrobata que está, também, em busca de redenção. O personagem de Kyle em nenhum momento do filme é chamado de Mulher-Gato, dentro da lógica do realismo que Nolan construiu com sucesso no seu Bat-Universo. Quando foi anunciado que Hathaway iria “reviver” a personagem que havia sido consagrada por Michelle Pfeiffer em “Batman: O Retorno” (Batman Returns, 1992, Tim Burton), houve muxoxos e murmúrios. As primeiras imagens divulgadas de Hathaway no papel também fizeram muitos fãs de quadrinhos torcerem o nariz. Mas o personagem dela funcionou. É uma Mulher-Gato (sem ter o nome de Mulher-Gato) que apresenta com riqueza muitos dos detalhes dos quadrinhos dos quais os fãs tanto gostam, como o fato de Kyle ser uma ladra ao estilo Robin Hood e tomar conta de meninas abandonadas.

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As costas de Selina Kyle. Costas. Bane. Batman. Hmmm… 

E, falando das novidades, há o Bane de Tom Hardy. Eu não vou falar do Bane do filme de Schumacher porque não há o que falar sobre ele. Tom Hardy (A Origem) é um ótimo ator que foi escolhido a dedo por Nolan para representar um vilão cuja expressão facial é fundamental mesmo que tenha mais da metade do rosto coberta durante todo o filme. Bane tem um plano e sabe o que quer. É o contraponto de um Batman que está, no início do filme, perdido. Bane sabe o que quer, por que o quer e quando o quer. O primeiro (e brutal) encontro dele com Batman recria uma das cenas mais clássicas dos quadrinhos dos anos 90 e consegue impressionar até quem já sabia que aquilo ia acontecer. O Espantalho de Cillian Murphy, em Batman Begins, era amedrontador. O Coringa de Heath Ledger, em “O Cavaleiro das Trevas”, era imprevisivelmente louco. O Bane de Tom Hardy é brutal. E metódico. E quando ele fala no tom metálico de sua voz (um trabalho de ator muito meticuloso de Hardy) faz com que paremos de respirar para ouvir o que ele vai dizer. E quem não fica com medo fica, no mínimo, bastante incomodado.

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Bane. Tenha medo 

Marion Cotillard (Piaf, A Origem) é uma das engrenagens que fazem o filme andar. Falar muito sobre o personagem dela pode comprometer toda a história e principalmente o último ato, onde Nolan faz aquilo que tem feito melhor, que é nos deixar sem fôlego e grudados na cadeira sem conseguir respirar por meia hora ou mais. Nesse sentido, Nolan amadureceu bastante tanto com a série toda do Batman quanto com “A Origem” (Inception, 2009). As cenas de ação de “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” são as melhores da série. E falar da trilha sonora de Hans Zimmer é repetitivo, já que a trilha complementa as geniais trilhas que ele compôs para os outros filmes.

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Eu sabia que vinha. Ainda assim chocou… 

O fim da série coroou um trabalho de sete anos de Nolan e conseguiu terminar sem deixar a bola cair. “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” não é um marco histórico como o filme anterior, mas também não arranhou o brilho da série como tantas outras vezes já vimos (CHUPA SAM RAIMI!!). Começar um trabalho e ter a certeza de onde se quer chegar é definitivamente um bom começo.

Fala-se em um novo reboot do Batman a partir de agora. Eu não queria estar na pele de quem vai assumi-lo…

Literatura

White tree

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imagem: Clarice Casado

por Clarice Casado

Não. Esta não é uma crônica natalina. Mas é uma mini crônica precocemente pré-natalina, e vou agora lhes dizer por quê.

A árvore que fica na rua paralela à minha acordou hoje toda florida. Toda branca.
Todo ano, no mesmo período, alguns dias antes da entrada da primavera, meus filhos e eu esperamos ansiosos para vê-la em seu momento mais esplendoroso. Ela começa preguiçosa; tímida, até, com poucas folhinhas, quando, da noite para o dia, surge total e brancamente frondosa, enchendo nossos olhos de admiração e nosso coração de uma imensa felicidade. É um verdadeiro espetáculo, que dura apenas poucos dias, já que as lindas folhas brancas mal brotam e logo começam a cair, proporcionando um segundo espetáculo: uma lenta chuva de pétalas branquinhas, que deixam o sempre sujo chão da rua mais alvo do que nunca.

São espetáculos singelos, porém muito peculiares e especiais, que mudam meu ano. A árvore branca no seu clímax inaugura, para mim, o melhor período do ano: traz os doces ventos da primavera, que sempre me remetem aos inesquecíveis dias de outubro e novembro em que nasceram meus dois filhos, e me coloca de modo imediato em intensos preparativos para seus aniversários, que trazem família, amigos e grandes comemorações. Faz com que comecem a brotar também os planos de férias, me levando a arquitetar com carinho e ansiedade os dias especiais em que fugiremos daqui e seremos, mais uma vez, uma família em busca de aventuras e descobertas em terras distantes. Me envolve, finalmente, nos afazeres pré-natalinos, que me enchem de absoluta alegria e excitação, e culminam justamente no que me levou  escrever hoje esta crônica: o Natal e a chegada do novo ano. Amo tudo isto.

Para mim, este, sim, é que representa o momento de renovação do ano: não é a Páscoa, e nem o 1o de janeiro. Minha sensação de frescor e o aroma de novidades iniciam-se no exato dia em que vejo a nossa árvore branca toda florida, nos prometendo mais, sempre mais.

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1º dia
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2º dia
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3º dia
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6º dia
Música

Adult Themes for Voice: os temas adultos (e incompreendidos) de Mike Patton

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por Cassiano Rodka

Quando foi anunciado que Mike Patton lançaria um disco solo, os fãs ficaram afoitos com o que viria pela frente. Choveram possibilidades de como o álbum soaria. Familiarizados com a imprevisibilidade do cantor, os fãs sentiam que estavam prontos para tudo. Mas ninguém estava preparado para o que veio.

Lançado em 1996, “Adult Themes for Voice” foi o primeiro disco solo de Mike Patton. O álbum conta com 34 faixas gravadas apenas com voz e microfone. As faixas não possuem estruturas bem definidas e são construídas com os mais diversos sons que a voz pode criar: sussurros, gritos, tosses, risos, etc. A gravação foi feita em um mesa de 4 canais em diversos quartos de hotel enquanto Patton estava em turnê com o Faith No More em 1995 (o quarto 602 do Maksoud, em São Paulo, é um deles).

Logo que saiu, o álbum gerou polêmica. As opiniões divergiam radicalmente. Alguns fãs viam o disco como um trabalho experimental, outros achavam o cúmulo algo assim ter sido lançado e muitos acreditavam que Patton estivesse apenas tirando um sarro. Mas a verdade é que a sua maneira de cantar nunca mais foi a mesma depois desse disco. E afirmo isso da maneira mais positiva possível. Eu creio que o álbum foi um divisor de águas na carreira do cantor.

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Em “Adult Themes for Voice”, Mike Patton fez um experimento consigo mesmo. Testou sua voz de diversas maneiras, aprendendo a lidar com o seu instrumento. Explorou os diferentes sons que podia produzir e descobriu os limites da sua voz. Na faixa “Guinea Pig 4”, por exemplo, ele berra em uma progressão que leva os seus agudos ao máximo que consegue até perder a voz. É um som agradável aos ouvidos? Não. É um estudo. Um experimento que foi documentado e é isso que escutamos nas faixas de “Adult Themes”. O disco é incompreendido justamente por não apresentar canções estruturadas de forma convencional. As faixas são essencialmente vinhetas, que funcionam como rascunhos produzidos por Patton para descobrir o que ele poderia criar com a sua voz.

O que ele aprendeu com esse estudo, ele implementou nos trabalhos que seguiram. “Disco Volante”, do Mr. Bungle, foi gravado logo depois e é fácil de perceber vários dos sons que Patton descobriu que podia fazer aplicados em músicas como “Chemical Marriage”, “The Bends” e “Ma Meeshka Mow Skwoz”. Em 1998, ele lançou o primeiro disco do Fantômas, um projeto que eu creio que não existiria se ele não tivesse passado pelos experimentos de “Adult Themes”. Essencialmente, o vocal do Fantômas é o trabalho desenvolvido naquele álbum aplicado em músicas, dessa vez, estruturadas com guitarra, baixo e bateria. Com “Adult Themes”, Patton criou um jeito só seu de cantar.

É uma audição para todo mundo? Não. É um disco para ouvir no carro indo pro trabalho? Definitivamente não. “Adult Themes for Voice” é uma incursão à mente subversiva de Mike Patton, onde podemos escutar o registro de um estudo com a voz sem pretensões acadêmicas e acompanhar o nascimento e a evolução das ideias de um cantor nada convencional.

Literatura

Dois quartos

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Dormiam lado a lado separados por 10 cm de concreto. Em um dos quartos, ecoavam diálogos de cinema. No outro, soavam notas musicais. Quando não havia uma parede entre eles, as falas eram de filme mudo e o dueto que entoavam era sem ritmo e atonal.

Mas não foi sempre assim. Antigamente, moravam separados e, portanto, viviam juntos. A distância tem lá os seus caprichos e nem a eles abriria exceção. Como poderiam calcular tal falta de consideração?

Divididos, foram diminuídos. Deixaram de perceber o elevado valor de sua soma. Sumiram.

Parece que um dia um deles vai deixar a casa. E nesse dia, não por acaso, ele vai receber uma visita.

Literatura

Medo

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imagem: Lívia Dall’Agnol

por Isabel Dall’Agnol

Um tumulto se fixa à minha cabeça.
Ideias atormentadas se prendem
em cada pedaço do meu cérebro.
Meus músculos doem.

Não há nada mais além da escuridão.
Impossível enxergar qualquer claridade
em meio ao caos, que inunda o meu corpo pesado.
Sensação inútil, que me prende a ti.

Meus pés descalços permanecem grudados ao chão.
Meu esqueleto imundo está estacionado em vão.
Estamos abraçados, porque somos covardes.

De todos os vilões do homem,
preguei-me ao pior.
Estou amarrada ao medo.
No unimos em um pacto rigoroso.
E não há prazo para o seu fim.