Clarice Dall’Agnol

Literatura

Telefone sem fio

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Adão gritava com seu filho da mesma maneira que seu pai fazia com sua mãe que descontava no moço da fruteira que brigava com a esposa que batia na filha que agredia a coleguinha da escola que berrava com a vó que reclamava do barulho do vizinho que culpava a namorada que o traía com o chefe que reclamava do atraso do escritor que se questionou se de fato era tão impossível assim dar um fim àquele telefone sem fio… O pensamento interrompeu a conexão como uma linha cruzada. Pôs-se a colher um punhado de margaridas que foram entregues à Esperança, que não tinha nada a ver com essa história até aquele preciso momento.

Música

The Asteroids Galaxy Tour em São Paulo

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por Cassiano Rodka

Durante a quarta edição do Rock in Rio, em meio aos diversos nomes célebres do line up, chamou-me atenção uma banda da qual eu nunca tinha ouvido falar: The Asteroids Galaxy Tour. Resolvi conferir o show da banda, que aconteceu no Palco Sunset, e tive uma grata surpresa. O som era uma mistura bacana de influências: um vocal feminino soul rocker, uma cozinha funk, metais jazzísticos e teclados psicodélicos. A vocalista Mette Lindberg comandou o show com muita simpatia e um parafuso a menos. A loirinha doida descarregou sua voz sexy por entre um sorriso cativante de quem realmente estava se divertindo muito interpretando aquelas canções.

A banda lançou seu primeiro álbum, “Fruit“, em 2009 e chamou atenção graças à inclusão de duas músicas do disco em dois comerciais de grandes empresas: a canção “Around the Bend” foi escolhida pela Apple para divulgar o novo iPod Touch e o single “The Golden Age” foi trilha de um comercial da Heineken. A partir daí, o grupo recebeu muitas propostas de shows e tem espalhado o seu som pelo mundo.

Neste sábado, 28/07, a banda dinamarquesa se apresenta novamente no Brasil. No palco intimista do Cine Joia em São Paulo, o Asteroids Galaxy Tour vai mostrar as músicas de seu novo álbum, “Out of Frequency“. Para quem não morar em Sampa ou não estiver na cidade, há uma boa alternativa, o show vai ser transmitido pelo YouTube do bar a partir das 23h: http://www.youtube.com/cinejoia

Vale conferir!

Literatura

Crônicas de uma ponte aérea: Bochechuda, eu?

cronicas
imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

CRÔNICAS DE UMA PONTE AÉREA
“Na vida tudo passa, na vida tudo é passageiro”.

Capítulo de hoje: “Bochechuda, eu?”
Mais um longo dia chegava ao fim na Ponte Aérea Rio – São Paulo de nossa querida e extinta “Varig, Varig, Varig”. O relógio do saguão marcava cinco minutos para às vinte e duas horas. Porém, aqueles dez últimos minutos deixavam mais do que clara a relatividade do tempo.
Todas nós, as atendentes de check-in, começávamos a nos desmontar, arrancando as chiquinhas do cabelo, descendo do salto, desabotoando os primeiros botões do colarinho e tirando a gravata. Apesar de exaustas, estávamos serenas, mais um dia de dever cumprido. Do último voo, aquele que deveria sair às 22 horas, restava apenas um último assento. Eis então que as duas portas do saguão se abrem ao mesmo tempo e delas surgem dois homens, um alto e magro, portando apenas uma maleta executiva e outro mais gordo, cabelos brancos, com uma mala de rodinhas. O páreo estava bem acirrado, mas o senhor esguio movia-se mais ligeiro e alcançou o balcão alguns segundos antes de seu oponente. Só restava agora eu e mais três colegas no balcão. Desprevenidas, nos locomovemos de uma extremidade à outra como baratas tontas, tentando, não ser a caça, tentando nos esquivar de nossos predadores… Quando vi que seria eu a presa, tive o instinto de me esconder em baixo do balcão, mas a sanidade humana me impediu. Nessas horas, a ignorância poderia salvar vidas!
Decido então jogar o jogo do contente; com sorriso de melancia por fora, enquanto por dentro, grito: “Já são cinco pras deeeeeeeeez!”
O senhor de cabelos brancos já chega dizendo:
– Janela, frente.
Eu, com toda a calma que gostaria de ter herdado, respondo:
– Boa noite, senhor.
E ele, ríspido solta um rápido:
– Boa noite!
Que mais parecia:
– Vamos logo ao assunto, menina!
Como estou jogando o jogo do contente, e nele tudo é perfeito, esqueço que resta apenas um assento no meio, e tropeço:
– O senhor gostaria de janela ou corre…dor?
Oops, mesmo tentando engolir a palavra “corredor”, enquanto olho a tela do monitor e lembro do único lugar vago, ela sai. Instintivamente levo minha mão ao mouse, e tudo ao meu redor passa a acontecer em câ-me-ra le-n-ta e sem foco. O senhor agora escolhe o número do assento de sua preferência e discorre sobre não gostar de se sentar próximo à saída de emergência. Naquela minha luta com o mouse, clico mas, neste exato momento, ele fica vermelho – sinal de ocupado. O que era aquilo? Uma conspiração para transformar meu pacato dia num filme de Hitchcock? O sistema sofre uma pane, os computadores se apagam e minhas preces são para que tudo continue apagado e que todos vão para suas casas dormir. Mas, poucos segundos depois, ouço a maquininha de impressão ligando. Estaria eu salva? Olho minha colega ao lado sorrindo aliviada para mim e entregando o bilhete de embarque com o último assento ao senhor esguio.
– E aí, minha janela na frente…
– Desculpe senhor, mas o voo está lotado.
– Como o voo está lotado?
– O último assento acabou de ser ocupado por aquele senhor e aponto na direção do agora saltitante senhor, cujo corpo ia quase levitando para o salão de embarque.
– Ah vai, me dá uma janela… pode ser qualquer uma, não precisa mais ser na frente.
Achei espantoso o fato de ele acreditar que tirando a opção “frente” seu pedido se tornaria facilmente realizado e mais espantoso ainda quando continuou:
– Está bem, pode ser um corredor!
– Senhor, não há mais assentos disponíveis.
– Está bem vai, pode ser no meio, em qualquer lugar do avião; pode ser até na saída de emergência!
Ele parecia…, não, ele realmente não compreendia o que eu falava e, portanto, precisava ser mais clara. Foi o que fiz:
– Hoje o senhor vai ter que dormir em São Paulo!
Dizer essas palavras para um carioca numa sexta-feira à noite pode ser fatal.
– Tá bom, vai menina, me arranja qualquer lugar aí, vai logo!
– Senhor, me desculpe, mas à essa hora o último voo para o Rio de Janeiro já está taxiando na pista, de maneira que o senhor não vai voar nele!
E com isto posto, esgotei minhas possibilidades dentro da língua portuguesa.
– Menina, me vê logo o meu lugar, se não eu vou dar uma mordida nessa sua bochecha.
– O senhor que experimente!
Respondi, sentindo minha sanidade sair pelos pés e descobrindo que não havia herdado serenidade suficiente.
Quando você não está preparado, uma força maior pode vir em sua salvação:
– Senhor, tente ir até o portão de embarque, quem sabe o senhor consegue (um lugar especial em uma das rodas).
Diz minha amável colega e eu completo em pensamentos impuros.
Sem titubear, ele parte, com seus cabelos brancos esvoaçantes saguão vazio adentro.

Cinema

Woody Allen visita Roma e os romanos

por Pedro Cunha

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Pôster minimalista norte-americano, na minha opinião mais bonito que a escolha do pôster nacional…

Cada vez que eu começo a escrever sobre um filme de Woody Allen eu me obrigo a ser repetitivo: eu sou fã de Woody Allen. Acho honesto dizer isso, até porque o narigudo nova-iorquino tem quase tantos haters quanto fãs espalhados por aí, então é bom que eu diga e repita: Allen é o meu cineasta favorito. Não é o melhor, na minha opinião (esse, para mim, é Kubrick), mas o que eu mais gosto, o que são coisas bem diferentes. Feito o esclarecimento de costume, vamos ao texto.

A grande virada de Allen está fazendo já quase dez anos. Em 2005 o diretor vinha de uma série de filmes irregulares e parecidos e já era acusado, por alguns detratores de senilidade e de ter se esgotado. E aí ele marcou seu “Match Point” (desculpem pelo trocadilho, foi inevitável). Desde “O Que Há, Tigresa?” (What’s Up, Tiger Lily, 1966) Allen já tinha dirigido 39 filmes. E por mais que alguns deles como “Bananas” (1971) e “A Última Noite de Bóris Grushenko” (Love and Death, 1975) se passassem em outras locações, todos os filmes de Woody haviam sido rodados em Nova Iorque. A esmagadora maioria deles se passava em Nova Iorque e tinha a cidade como uma protagonista ou cúmplice do cineasta. E em 2005, aos 70 anos, Woody Allen foi filmar fora de Nova Iorque. Atravessou o oceano para gravar “Match Point” (2005) em Londres e fazer aqueles que muitos (inclusive ele próprio) consideram o ponto mais alto da sua filmografia. Londres deu ao cineasta um gás novo e uma nova musa (Scarlett Johansson). A partir daí Londres passou a ser uma nova casa para o cineasta, que já gravou mais três filmes lá: Scoop – O Grande Furo (Scoop, 2006), O Sonho de Cassandra (Cassandra’s Dream, 2007) e Você vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger, 2010). Talvez o último deles não seja genial, mas nesse meio tempo, livre das suas amarras nova-iorquinas, Allen pode ir à Barcelona fazer um filme que é, no mínimo, plasticamente lindo (Vicky Cristina Barcelona, 2008) e à Paris produzir um de seus raros sucessos de crítica e público, “Meia Noite em Paris” (Midnight in Paris, 2011), que embasbacou meio mundo com cenas nada óbvias de Paris e com a surpresa de que Owen Wilson pode ser um bom ator. Nesse meio tempo Allen inclusive voltou a Nova Iorque renovado, para fazer o no mínimo divertidíssimo “Tudo Pode Dar Certo” (Whatever Works, 2009), que para mim é um dos mais subestimados filmes do cineasta. Enfim, Allen nos mostrou que ainda tinha recados para nos dar no século XXI.

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Alison Pill vive o seu amor turístico romano com Flavio Parenti 

Allen chegou a Roma com convite e financiamento do governo da cidade, como havia sido em Barcelona. “Para Roma, Com Amor”, no entanto, é menos preso à essa obrigação de propaganda. Ela só aparece, na verdade, na última fala do filme, que escancara essa propaganda e é desnecessária mesmo. Mas fora isso, “Para Roma, Com Amor” é um filme que busca contar histórias sobre Roma, brincando com os estereótipos romanos. Nesse sentido o título original do filme (que eu imagino que tenha sido trocado por razões comerciais), “Bop Decameron” talvez fosse mais adequado: o Decameron é uma coletânea de contos de Giovani Bocaccio que fazem um retrato da Itália renascentista, da mesma forma que Allen tenta fazer com a Itália contemporânea. Há de tudo no filme: os paparazzi, as prostitutas de luxo, o estudante idealista, o romance na fontana di trevi, a tradicional família católica, os sindicatos e o movimento trabalhista, o cinema italiano, o camponês do interior tentando a vida na cidade grande, os cantores de ópera… enfim, tudo está no filme. Allen escolheu um clima leve e conduz as suas diversas histórias, que não se cruzam, com um humor de quem, aos 77 anos, parece estar de muito bem com a vida. Num elenco homogêneo, é difícil destacar atuações. Jesse Eissemberg (A Rede Social, 2010) como jovem estudante sonhador de arquitetura, fazendo par com Ellen Page (Juno, de 2007 e A Origem, de 2010) que é a jovem atriz deslumbrada e vivendo a vida em alta velocidade tem química desde o início. Um inspirado Alec Baldwin faz o papel de Grilo Falante, mostrando para Eisemberg (e para o público) o quão cheia de cliché aquela história de amor romana pode ser. Alison Pill faz mais um estereótipo, a turista americana vivendo uma história de amor em Roma, em mais um bom par com o ator italiano Flavio Parenti. Penélope Cruz é deliciosa no papel de prostituta de luxo e faz um par muito engraçado com o jovem ator italiano Alessandro Tiberi. Já Alessandra Mastronardi é a jovem italiana do interior que se encanta e literalmente se perde na Cidade Eterna, levada pelos embalos e os sonhos do cinema italiano, uma verdadeira paixão nacional nas terras da pizza. Woody Allen no papel de Woody Allen, para mim, é sempre bom de ver. Mas a grande surpresa positiva, para mim, foi Roberto Benigni. Naquela que é minha história preferida do longa, ele é um homem normal, de classe média, com um emprego comum. Que de repente, do nada, torna-se famoso e alvo dos paparazzi. Aí entra uma crítica bastante forte (e bem humorada) de Allen à atual indústria do entretenimento, criticando os famosos que tornam-se famosos simplesmente… por serem famosos.

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Eisemberg e Page se entregam ao amor romântico da viagem e Alec Baldwin observa: “eu avisei!”  Alessandra Mastronardi é a jovem do interior encantada pelas estrelas do cinema italiano.

Allen usa as locações históricas com moderação. O Coliseu aparece de relance. As termas aparecem durante a noite, mal iluminadas. A Fontana di Trevi, nunca em plano principal. Allen parece ter eleito como seu ponto principal, onde ele abre e fecha o filme, a Piazza di Spagna, que não deixa de ser o coração pulsante de Roma. A praça não é nada se lá não estiverem as pessoas. E as pessoas são o centro do filme.

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Roberto Begnini, surpreendentemente bem como “famoso” e Alessandro Tiberi, seduzido por Penélope Cruz 

“Para Roma, Com Amor” é Allen puro. Não é o melhor filme do diretor. E com certeza “o filme de Roma” é inferior, cinematograficamente falando, ao “filme de Paris”. Mas é divertido, inteligente e leve. É um passeio por Roma. E – por que não? – um convite, como se propõe.

Literatura

Promessa

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imagem: Lívia Dall’Agnol

por Isabel Dall’Agnol

Ao Bruno

Teus olhos vívidos
derramam pureza e inocência.
Tua pele firme revela
que, simultaneamente,
és o oposto da fragilidade
que escancaras no rosto.
És, claramente, mais complexo
do que pensas.

A areia e o mar implicam
no quadro perfeito da tua beleza.
Não foi à toa que escolheste
a praia como o teu refúgio.

Não resisto aos sinais
que cobrem os teus ombros morenos.
Não me canso de assistir
as tuas mãos dançarem no ar,
enquanto soltas tuas prosas.
Não me esqueço daquela noite,
em que sopraste as palavras certas
na minha boca.

Eu sei que é por amor
que queres podar as
minhas asas.
Mas, não te esqueças que
também é por amor que
quero libertar as tuas.

E se algum dia eu te perder,
sei que posso encontrar-te
em cada verso e nota,
eternizados por um Beatle.

Engana-te
pela minha trança,
meu caro.
O príncipe dos
contos de fadas és tu.
Promete-me que
jamais pensarás
o contrário.

Literatura

Sereníssima (Despretensiosa introdução)

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imagem: Clarice Casado

por Clarice Casado

“Sou um animal sentimental
Me apego facilmente ao que desperta meu desejo
Tente me obrigar a fazer o que não quero
E você vai logo ver o que acontece.
Acho que entendo o que você quis me dizer
Mas existem outras coisas.”

“Sereníssima”, Legião Urbana

Ouvindo pela milésima vez um show ao vivo da Legião Urbana em meu carro esta semana, aprendi uma coisa que me tocou e me inspirou para escrever esta crônica. O Renato Russo faz uma pausa entre as músicas para conversar com a plateia e explica, antes de iniciar a canção “Sereníssima”, que assim chamavam a cidade de Veneza (apesar disso não ter relação alguma com a música dele). Achei uma coisa tão linda, mas tão linda, que não tive coragem de conferir a informação no Google, ou de perguntar à minha professora de italiano. Não fui verificar porque fiquei com medo de não ser verdade e de eu estragar a bela imagem que se formou em minha mente: a da serenidade inegável e incomparável da mágica cidade de Veneza, onde estive pela primeira vez há pouco mais de um mês. “Sereníssima” é adjetivo que não poderia ser mais adequado. E eu vou agora lhes dizer por quê!

Já fui à Itália várias vezes. Já contei muito aos meus leitores sobre as minhas aventuras naquela que gosto de chamar de minha “pátria avó”. Amo aquilo lá! Moraria lá, ou iria todo mês, se pudesse. Meu amor pela Itália é tão grande, que voltei a estudar italiano, depois de dezessete anos. Bela língua, e um grande desafio de aprendizagem.

Pois bem, mesmo já tendo ido muitas vezes, Veneza eu ainda não conhecia. Desta vez, comemorando vinte anos de vida com meu marido, a escolhida foi – claro – Veneza. Antes de partir, as impressões sobre a cidade que eu ouvi da maior parte das pessoas que lá haviam estado não eram as melhores: mau cheiro, nada de muito interessante a fazer, cidade que dá para conhecer em apenas dois dias. Leitores, perdoem-me se concordam com essas opiniões, mas, tenho que dizer a vocês que, para mim, quem assim pensa, não conheceu a Veneza que eu conheci!

Viagem tem mesmo muito disso: há lugares que eu posso amar e o outro detestar, e vice-versa. Tudo depende do momento, da companhia, do tempo, do que se faz, onde se fica, enfim, de como se constrói sua própria viagem. Por exemplo, dica de viagem é algo que nunca dou e nunca peço: o que eu gostei pode desagradar o outro, e o que outros curtiram eu posso achar uma chatice. A única dica de viagem que dou é: crie a sua própria viagem, e a aproveite do seu jeito! A melhor viagem é a que você desenha sozinho.

Mas, chega de papo, e andiamo a Venezia! A “Sereníssima” nos beijou com carinho e intensidade logo que chegamos. Sim, logo que entrei no water taxi e aquele barquinho começou a se mover, bah, quanta emoção! Nunca pensei que sentiria o que senti. Nunca sonhara em conhecer Veneza. Mas me apaixonei (nos apaixonamos, porque meu marido também ficou maravilhado), à primeira vista! E vista, naquela terra linda, é o que não falta: em todos os cantos e recantos, há paisagens literalmente cinematográficas: o sujeito se sente em um filme em cada ponte, em cada pracinha, em cada largo, em cada café, em cada museu, em cada lojinha de artesanato, em cada correr de casas ou pequenos prédios, em cada calçada de séculos de existência… Pura poesia. Poesia na mais essencial essência! Eu ainda não fiz nenhum poema sobre Veneza, tenho que fazer. Veneza é serena, sereníssima. Não se ouvem ruídos horrorosos de carros e ônibus, e nem de brigas entre motoristas e pedestres, porque veículos não há! Ouve-se, isso sim, aquele barulhinho delicioso de água balançando, dançando ao vento e aos humores dos passantes. Essa, leitores, é a Veneza que eu desenhei.

Leitores, por hoje, era isto. Deixo-os com um gostinho de “quero mais”… Aguardem o próximo capítulo da minha deliciosa aventura veneziana, neste mesma “bat coluna”, daqui a exatas duas semanas!

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Literatura

O super-homem

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

O super-homem acorda cedo já em seu uniforme. A carcaça cansada que olha o espelho não é a mesma que espelha ele. Há um homem robusto e sempre preparado que ele preparou para sempre refletir ele. E é esse reflexo que ele estampa pelas ruas.

O super-homem é reverenciado por onde passa. Ninguém discorda da autoridade que ele criou para si. O que ele sente, o público consente. Sua opinião é acatada por todos – e ai de quem não! Não é respeito, é só peito mesmo.

O super-homem passa o dia inteiro relembrando aos outros por que ele é o super-homem. Seu carro é o mais veloz, seu relógio não atrasa, sua meia é a mais branca. O super-homem só não tem tudo quando não tem a sua atenção.

O super-homem, quando deita, custa a dormir. Sua mente voa longe em pensamentos de grandeza. É preciso sempre ir além para manter o emblema no peito, a capa alinhada e a imagem intacta.

É cansativo ser o super-homem.