Clarice Dall’Agnol

Literatura

Menininha dos olhos negros

menininha
imagem: Lívia Dall’Agnol

por Isabel Dall’Agnol

Menininha dos olhos negros,
Por que te escondes embaixo da mesa?
Não há mal algum em chorar.
Não há do que se envergonhar.

Menininha dos olhos negros,
Para que tanta solidão?
És tão pequenina e já
sentes tantos temores…

Menininha dos olhos negros,
Tu não imaginas quão preciosa é
tua vidinha desocupada.
E quão poderosa é
a tua inocência.

Menininha dos olhos negros,
Não mentirei para ti.
A vida é dura, exatamente
como tu pensas.

Mas não te preocupes,
menininha dos olhos negros.
Guarda os teus sonhos na tua
cabecinha pura.
E preserva cada rosa,
que te acompanha.
E as ame, com infinita liberdade.

Assim, menininha dos olhos negros,
Ainda que penses ao contrário,
nunca estarás só.

Mas não te esqueças,
menininha dos olhos negros.
Procura desfazer-te desse
semblante aflito.
Eu sei que será difícil.

Literatura

O fogo

fogo
imagem: Lívia Dall’Agnol

por Isabel Dall’Agnol

Se o fogo,
que queima meus pés,
aquecesse meu coração…

Se o fogo,
que estala na madeira,
rompesse meu corpo…

Se o fogo,
que invade a lareira,
penetrasse em minha alma…

Talvez minha mente não estivesse corroendo
todos os ossos do meu esqueleto.
Porque, assim como o fogo faz da madeira,
faço de mim cinzas.
Um borralho, que perturba o ambiente
em que se queda.

Literatura

O poder da infância

o-poder-da-infa%cc%82ncia_p2
imagem: Cassiano Rodka; balão feito por Vito Dall’Agnol Casado

por Clarice Casado

Para Vito e Angelina, e seus fantásticos superpoderes.

Tenho lido muito, aqui e acolá, sobre a reinante “ditadura infantil”. De como as crianças andam dominando os pais a ponto de inverterem os tradicionais papéis. Tenho lido, e tenho também visto essa infância onipotente, mimada e cheia de vontades a ditar suas regrinhas por aí, como se pequenos Mussolinis e Hitlers fossem. Gritam com os pais e batem neles em público, dão chiliques em shoppings e supermercados, respondem para e desrespeitam os professores, não ouvem os adultos, mentem; enfim, um rol assustador de falta de educação e histeria coletiva!

Pois então eu, mãe de dois filhos, um menino de treze e uma menina de sete anos, resolvi vir a público para dizer, sim, de fato, nossa infância é ditadora. Porém, cheguei à conclusão de que não me incluo nesse grupo de pais total e completamente dominados por sua prole. E nele também não se inclui meu marido e companheiro de jornada. Sim, hoje posso dizer, sem medo de parecer convencida, “mãe coruja” ou cega para os problemas de seus filhos: somos pais diferentes, “ganhamos os filhos bons” (expressão que ouvi dia desses em uma série americana de TV: uma mãe orgulhosa suspira baixinho e, feliz, diz, “I got the good kid!”).

Somos certamente parte de uma porção privilegiada de pais que não foi dominada pelos filhos. Digo e reafirmo isso porque todas as pessoas ao nosso redor só têm elogios rasgados aos meus filhos: professores (na escola, nas aulas extra de inglês, tênis, natação, artes, não canso de ouvir o quão especiais eles são – outro dia, a professora de inglês do meu filho mais velho me parabenizou pelo nosso “trabalho” com ele como pais!), amigos (temos um casal de amigos que diz a todos que somos, para eles, modelos como pais), médicos especializados na infância e adolescência, família (meus pais, sogros, tios, irmãos e primos ficam sempre impressionados com a maturidade dos dois frente a vários assuntos).

Assim, resolvi deixar a modéstia de lado e comecei a me perguntar, e também ao meu marido, após tanto ouvir elogios: “o que será que fizemos e fazemos de diferente dos outros pais, os “dominados”?”. A resposta nos veio fácil: demos poderes aos nossos filhos, sim, mas outros poderes, que não incluem o “poder ruim”, o poder autoritário. Demos aos nossos filhos o poder de serem eles mesmos, o poder de participar nas discussões da família, quaisquer sejam; o poder de perguntar, o poder de manifestar suas vontades religiosas, políticas e sociais livremente; o poder de serem crianças felizes, o poder de nos dizer o que lhes incomoda, o poder de nos contar o que lhes parece errado na sociedade e nos atos alheios; o poder de serem eles mesmos; o poder, principalmente, de contarem sempre conosco, não como “amiguinhos”, mas como pais de verdade, como protetores e guias. Desde o princípio, tratamos nossos filhos como se iguais à nós fossem; nunca os tratamos como bobinhos, nunca os subestimamos como seres pensantes e nunca conversamos com eles usando “linguagem de bebê” ou como se pudessem entender pouco do que dizíamos, mesmo porque é o contrário: a criança, desde cedo, entende muito mais do que o adulto pode imaginar. Esses poderes, caros leitores, nunca os tornarão ditadores: pelo contrário, os tornarão (já tornam), indivíduos com liberdade de expressão, indivíduos inteligentes, informados e honestos, indivíduos tranquilos e com a auto-estima elevada, porque sabem que terão sempre nosso apoio incondicional.

Todos esses poderes, no entanto, não teriam sido bem utilizados se as crianças não soubessem que atos errados precisam ser punidos. O equívoco dos pais dominados, creio eu, é não punir de maneira adequada e nos momentos certos. A criança precisa ter a certeza da punição, para que possa corrigir seus comportamentos inadequados. E essa punição, obviamente, não deve nunca se constituir em covardes violências físicas ou morais, que ainda ocorrem neste século, inacreditavelmente. Punir corretamente é saber impor limites. Sem limites, a criança fica perdida, e sente-se no direito de tentar dominar os pais, avós, professores, parentes, e quem mais estiver ao seu redor.

Hoje, com os poderes maravilhosos que nossos filhos têm, nos dão o prazer diário de ouvir suas mais profundas, iluminadas e inteligentes discussões (sim, todas elas muito melhores argumentadas do que as de muitos adultos, acreditem!), sobre política (meu filho quis outro dia ficar assistindo o debate presidencial norte-americano até o fim, enquanto a pequena chamou uma das revistas semanais brasileiras de “mentirosa”!); sobre religião (são capazes de argumentar um tempão sobre a existência ou não de Deus); sobre música (essa, uma das minhas preferidas – discutem acirradamente sobre o que é bom e o que não é hoje em dia, como se estivessem defendendo sua própria vida! O último debate se centrou na seguinte questão: a Diana Krall cantando e tocando músicas de Natal é jazz ou não?).

É… Enquanto alguns ficam com os choros e manhas, eu e meu marido ficamos com a inocente e bela erudição infantil! Este, para mim, é o verdadeiro poder da infância: a capacidade de debater com um adulto de igual para igual, com respeito e consideração.

Literatura

História de Maria: no princípio era o verbo

historia-de-maria-no-principio_p2
imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Além das asas na ponta dos dedos, Maria criou também profundos calos; se fosse hoje em dia, teria desenvolvido uma tendinite, mas aqueles eram outros tempos. Maria era uma menina que gostava de conversar com as pessoas, sempre escutava mais do que falava. A verdade é que passou a falar muito menos e, se Maria fosse uma flor, poderíamos dizer que ela era como as “onze horas”. Seus interlocutores favoritos eram os personagens dos livros e os escritores, entretanto Maria podia ouvir a voz de sua mãe ressoando: Maria, você precisa ter amigas… Era difícil para ela se colocar no centro das atenções; Maria estava sempre olhando de fora ou “de cima do pelo do coelho”, como explicaram naquele livro que ela leu. Maria sentia a dor das tragédias do mundo em sua pele e o peso das dificuldades eram imensas mochilas pesadas amarradas às costas. Maria porém vivia tentando mudar seu jeito de atuar no mundo e sempre dizia a si mesma: leve a vida com mais leveza, Maria. Era bem mais fácil falar.

Literatura

Te quiero

tequiero
imagem: Lívia Dall’Agnol

por Isabel Dall’Agnol

As espumas, que pintam teu céu,
fazem do teu verde arte.
É nas tuas estradas que descanso a alma.
É nas tuas estradas que escrevo para ti.

Tua gente simpática me encanta.
Escondem-se na chuva, mas sempre exibem
o seu mate para o sol.
E, em cada sorriso, carregam uma história.

Em Montevideo, voo como um pássaro.
Gosto de passear por aquelas ruas e
de assistir ao pôr do sol na Rambla.
Vago lento no tempo…

O Centro e a Ciudad Vieja arrastam-me para o passado.
Mulheres abrem as janelas compridas das casas antigas,
enquanto homens e carruagens deslizam
pelas margens do Teatro Solis.

Perdi o fôlego ao me deitar em tuas dunas.
Perdi a hora na tua Laguna Negra.
Perdi o medo nas tuas praias.

Amo Cabo Polonio, do mesmo jeito que venero
a Colonia Del Sacramento.
Subir naqueles faróis foi como subir aos céus.
Não existem palavras para descrever o que encontrei lá.

Tua paisagem me confunde.
Sinto-me em casa.
Quero viver, para te ver mais uma vez.
Te quiero, Uruguay.

Cinema

Cinquenta anos de Bond. James Bond.

cinquenta-anos-de-bond-01

por Pedro Cunha

                Em 1962, há 50 anos, entrou em cartaz “007 Contra o Satânico Dr. No” (Dr. No, Terence Young). Duvido que os produtores, diretores e todos os demais envolvidos soubessem que estavam lançando mais do que um filme, mas uma marca e até, podemos dizer, um novo gênero: “filme de James Bond”. Passaram-se 50 anos desde que Sean Connery viu Ursula Andress sair do mar cantando “Underneath the Mango Tree” e Joseph Wiseman sentava-se com o gato no colo contando todos os detalhes de seu plano vilanesco, sem perceberem que estavam fazendo história do cinema. De lá para cá são 23 filmes oficiais (existem alguns “extraoficiais”…) com o mais charmoso e conhecido agente secreto do cinema tendo sido interpretado seis vezes pelo escocês Sean Connery (entre 1962 e 1971), uma pelo australiano George Lazemby (em 1969), sete pelo inglês Roger Moore (entre 1971 e 1985), duas pelo inglês Timothy Dalton (entre 1987 e 1989), quatro pelo irlandês Pierce Brosnan (entre 1995 e 2002) e três pelo inglês Daniel Craig (entre 2006 e 2012). Todos eles já pediram seu Martini “batido, não mexido”. Todos eles já deram em cima de Miss Moneypenny. Todos já pegaram bugigangas com Q. Todos receberam ordens de M. E, é claro, todos já se apresentaram: “Bond. James Bond”.

Quando a MGM – Columbia decidiu fazer o vigésimo-terceiro filme “007 – Operação Skyfall” (Skyfall, 2012, Sam Mendes), decidiu também que ele seria uma grande homenagem aos 50 anos da série. Nesse sentido eu acho que houve com esse filme um cuidado, um capricho muito grande por parte de todos os envolvidos. Ao invés de fazer o que tradicionalmente é feito, convidar um diretor de segunda linha para o filme, foi chamado o ganhador do Oscar Sam Mendes (Beleza Americana, Foi Apenas um Sonho), conhecido não por filmes de ação e sim por filmes de uma grande densidade emocional. O roteiro ficou nas mãos de Neal Purvis e Robert Wade, que fazem os roteiros de Bond desde “007: O Mundo Não É O Bastante” (The World Is Not Enough, 1999, Michael Apted). Juntou-se a eles o reforço de peso de John Logan, responsável pelos roteiros de “Gladiador” (Gladiator, Ridley Scott, 2000), “O Aviador” (The Aviator, 2004, Martin Scorsese), “Sweeney Todd” (Tim Burton, 2007) e “A Invenção de Hugo Cabret” (Hugo, 2011, Martin Scorsese). Para compor e cantar a trilha sonora foi escolhida Adelle, a queridinha do momento. Tudo, enfim, demonstra o carinho com o qual o cinquentenário do personagem foi tratado. O Bond da vez, Craig, já estava escolhido pelo estrondoso sucesso financeiro dos filmes anteriores.

Tenho que admitir: eu não gostei de Daniel Craig como James Bond. Especialmente em Casino Royale (2006) mas também em Quantum of Solace (2008) eu achei que o personagem ficou um tanto quanto descaracterizado, transformado mais num herói de ação do que no clássico, charmoso e fleumático James Bond com o qual eu estava acostumado. James Bond estava mais para Jason Bourne. Pelo menos para mim. E o povo, em geral, deve gostar, já que a arrecadação dos dois primeiros filmes com Craig no papel de Bond foi estupenda.

O que eu posso dizer? Fui surpreendido. Muito, mas muito positivamente surpreendido. Não sei se foi o roteiro, não sei se foi o diretor, não sei se foram os produtores, mas o filme deu uma limpada nas sequências de ação. Não é que elas não estejam lá (e veja bem, eu sei que essa é uma das marcas da série também…), mas elas foram postas em segundo plano. A primeira cena do filme, como tem que ser, tem uma sequência alucinante em Istambul (quem assistiu ao médio “Busca Implacável 2” recentemente vai reconhecer os cenários…), com direito a automóveis, motos, trem, país exótico, ponte, túnel, trator e cachoeira. A cena da ilha, quando Bond desarma seus captores e passa rapidamente de prisioneiro a captor, também é cheia de ação. Mas essas cenas não tomaram conta do filme. Há espaço para o Bond irônico, fleumático e querido de todos. Há, sobretudo, uma trama compreensível e fácil de acompanhar (o que nem sempre acontece nos filmes de 007). O roteiro permite que se destaque o papel de M, que recebe uma importância que nunca teve em nenhum filme da série até então. M é interpretada pela sempre ótima Judi Dench desde os tempos de Pierce Brosnam (em 1995 pareceu muito transgressor que M fosse uma mulher…) e em Operação Skyfall ela tem a chance de mostrar todo o seu talento num papel que é mais que uma mera ponta. O filme preocupa-se também em resgatar elementos clássicos da série que não haviam aparecido até então com Craig, como Q e Miss Moneypenny (ambos muito bem representados por Bem Whishaw e Naomie Harris, respectivamente). Quando começa a tocar uma das trilhas sonoras mais tradicionais (e geniais) da história do cinema e Bond está dirigindo o seu clássico Aston Martin… enfim, os fãs da série sentem-se contemplados. O próprio Craig, que é bom ator, parece sentir-se mais à vontade no papel. E isso faz com que seu Bond fique mais convincente.

cinquenta-anos-de-bond-02
Judi Dench é “M” e Ben Whishaw é “Q”: sem M e Q não há 007, convenhamos…

E, é claro, há um vilão. A galeria de Bond é ampla, mas o “Silva” de Javier Barden pega o melhor de vários deles. Só eu vi uma homenagem a “Jaws”, um dos inimigos mais clássicos de Bond? O plano maquiavélico de Silva pode tranquilamente colocá-lo ao lado de Goldfinger ou do “satânico” Dr. No como um dos grandes vilões de 007. Claro, a temática do antigo-espião-sentindo-se-traído-e-buscando-vingança já foi tratada antes, mas se não for um pouco clichê… também não é James Bond!

cinquenta-anos-de-bond-03
Um bom ator fazendo um bom vilão. E a loirice não é a única surpresa de Barden… 

“007: Operação Skyfall” está sendo considerado por alguns como “o melhor” filme dos vinte e três da série. Não sei se é o melhor. Sei que é o melhor em muito tempo, com certeza. E sei que, como nunca, houve um cuidado com a mitologia da série, revitalizando e resgatando elementos clássicos que apontam para uma ainda muito longa carreira do nosso preferido espião britânico, a serviço de sua majestade e com permissão para matar.