Clarice Dall’Agnol

Literatura

Acalanto

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Para Vito e Angelina, mais uma vez, como não poderia deixar de ser.

Repousem, amados filhos,
na morna tranquilidade
de seus casulos,
porque lugar melhor
neste mundo não há.
Pode vir o que vier –
Aí, estarão sempre protegidos,
enquanto a vida não lhes impuser tarefas,
impiedosa, sinalizando
regras e desmoronando ideias.
Deixem-se levar pelo sonho e pela imaginação,
enquanto a censura interior ainda não existe.
Aproveitem cada segundo de suas inocências,
preciosas (sim, elas são, mas vocês não o sabem).
Vivam sua infância do modo mais intenso possível,
porque o que o resto de suas vidas, saibam,
é apenas um detalhe insignificante,
frente à inigualável, insuperável, irrecuperável
experiência de ser
Criança.

Literatura

Crônicas de uma ponte aérea: Perna de pau

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Sempre soube da importância do conhecimento, aprendi com minha mãe, com meus avós e na escola. Também me considero uma pessoa curiosa, porém nunca pensei que pudesse possuir um tipo diferente de ignorância; mais um grande aprendizado dos tempos de ponte aérea! Vamos chamá-la de ignorância televisiva, ou ignorância do mundo da fama. Pois é, esse mesmo mundo que passava tão longe de mim, naquele ano começou a cruzar minha visão diariamente. A cada dia, minha falta de conhecimento a respeito daquele mundo se tornaria mais e mais gritante até que, em um sábado à noite, ela literalmente gritaria comigo. E foi assim que aconteceu…
– Bom dia, senhor. Gostaria de informá-lo que este guichê é reservado para pessoas portadoras de necessidades especiais, idosos e gestantes.
– Sim, eu gostaria de um assento na primeira fileira, no corredor.
– Senhor, conforme lhe informei não poderei atendê-lo. A primeira fileira é reservada para pessoas com necessidades especiais, gestantes e idosos. O senhor precisará entrar na fila ao lado.
– Menina, me arrume um lugar na primeira fileira, pode ser janela.
– Senhor, posso abrir uma exceção e atendê-lo aqui, porém infelizmente as primeiras fileiras já estão todas ocupadas.
– Ok, mas se eu chegar dentro do avião e a primeira fileira não estiver ocupada, vou mandar te chamar a bordo.
– Como quiser, senhor.
Entreguei a ele o bilhete de embarque e ele partiu. Nesse mesmo momento minhas companheiras de check-in me cercaram, e eu percebi que havia feito algo muito errado.
– Você está louca? Não sabe quem ele é? Ele trabalha na TV, naquele programa super famoso e ele tem uma perna de pau!!
– Ops… pensei, perna de pau, configura… tarde demais. Então, percebi que provavelmente ele tinha ficado muito mais nervoso comigo porque eu não o reconheci e porque não sabia de sua história trágica do que porque não lhe dei um assento na primeira fileira.
Primeiro, sai desesperadamente procurando um senhorzinho para ocupar a último lugar vago na primeira fileira: um corredor! E o mais engraçado é que não foi fácil achar, pois os velhinhos não são fãs desse lugar, têm medo do avião cair e serem os primeiros a morrer. Só depois de umas quatros tentativas em que tive que descrever os benefícios daquele assento, é que uma senhorinha tomou coragem e me salvou.
Depois, comecei a rir sozinha de minha ignorância e me transformei numa analfabeta da TV orgulhosa!
Até hoje não sei o nome do cidadão e muito menos do programa que ele fazia, faz ou fará.

Literatura

Sou

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Sou
índio vermelho com cocar empinado
a entoar melodias
e a cavar com as mãos
sou aquela chegando em caravela
mar adentro da saudade
eu sou aquele que avistou pau-brasil
que deixou as areias de Santos tragarem seus pés
vim assim, de outros portos
assoviando cantigas das terras de lá
eu sou aquela que chega só
aquele que embarca aos bandos
sou católica apostólica romana
eu sou a mãe judia a proteger seu filho
sou o que mostro e ainda mais o que escondo
eu sou curtido de sol
negra por dentro
por fora alvorada
sou do país da jabuticaba
eu sou cantando para meus orixás
rodando de branco pelo terreiro
sou eu o soldado erguendo a padiola
eu sou o caixeiro viajante a bater à porta
sou os que foram
os que são
os que estão por vir
sou eu
sou
eu

Literatura

Pássaros negros

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imagem: Cassiano Rodka

por Isabel Dall’Agnol

Aos meus pássaros negros, Gugu, Jorge, Luísa, Laura e Lívia,
com muito amor.

Um pedaço do teu ventre.
Uma pena das tuas asas.
Um ruído das tuas palmas.
Um motivo para tua gargalhada.
Uma desculpa para teus abraços.

Um castelo majestoso.
Um pingo de tinta no papel.
Um sorriso confortante.
Um perfume estonteante.
Uma estampa delicada.

Uma ambrosia saborosa.
Uma melodia para divagar.
Uma levada da breca.
Um misterioso cabelo negro.
Uma mão carregada de carinhos.

São, unidas,
Minhas razões para amar.
Meus estímulos para viver.
Meus desatinos apaixonantes.
Minhas preciosas recordações.
Os cinco pássaros negros,
que acompanham este
aprendiz de passarinho.

Literatura

Violeta Parra era chilena

 

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“Life is what happens to you
while you’re busy making other plans.”

(“Beautiful Boy”, John Lennon)

Poucos são os momentos em que temos a oportunidade de dar graças à vida por todas as coisas boas que nos trouxe e traz. Agora, leitores, vocês devem estar pensando, “A Clarice enlouqueceu! Ficou religiosa a esta altura do campeonato…?”. Não, leitores! As “graças” das quais estou falando são um sonoro “muito obrigada” à vida mesmo, compreendem? Não é um “ah, graças a algum deus por ter me dado a vida”, mas graças à vida por ter me dado um corpo sadio, uma alma igualmente sã (no meu caso, não tanto, ou eu não seria escritora!), bons momentos e experiência. Graças às “pequenas grandes coisas da vida”, como a visão, a audição, o tato, o olfato e o paladar; a capacidade de ler, escrever, amar, sentir, rir, chorar, trabalhar, apreciar a arte e a música; a possibilidade de se locomover, e assim conhecer lugares novos e diferentes; enfim, a oportunidade de estar vivendo e tendo a experiência única de ser. Nunca paramos para pensar nisso, pois de regra estamos ocupados com outras coisas que, muitas vezes, não têm a menor importância.

Esta doideira toda me surgiu quando minha filha Angelina, sete anos, veio me cantar para a belíssima canção “Gracias a la vida”, da cantora e compositora chilena Violeta Parra. Ouvir e sentir as palavras de Violeta na voz da minha pequena foram uma das mais maravilhosas experiências que já tive na vida. Simples assim? Muito simples assim: são dez horas da noite, você está exausto, já leu três histórias para sua filha, e ela, boêmia por excelência, quer lhe cantar uma das novas canções que aprendeu na escola. Estuda em uma escola espanhola, assim, fala um espanhol impecável, e canta belamente nesta língua, pois é afinadíssima (e isso não é papo de mãe: todo mundo acha!). Mas então ela começa, com sua vozinha delicada e fininha, no meio da escuridão,

“Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en el alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo…”

E eu fico perplexa, ouvindo-a entoar aquela melodia triste, e ao mesmo tempo muito profunda e bela, que parece lhe cortar o coração em mil pedaços por dentro. E ela parece que sente aquela dor da Violeta Parra, ela cresce e de repente se torna uma mulher na minha frente, uma mulher em um minúsculo corpo de menina… Como ela faz isso? Não sei. Mas é fantástico.

E naquele instante, pensei, “Gracias a la vida”, sim, obrigada, minha querida vida, por me dar momentos como esse com minha filha, momentos que não se repetem, mas que ficam marcados para sempre, e criam conexões muito peculiares entre as pessoas. Obrigada, vida minha, por instantes como esse, e também por vários outros que já passaram, e por aqueles que ainda estão por vir.

“Gracias”, minha vida, por este ano de 2012, e por todos os outros que me aguardam neste meu rico, ainda que breve, passeio por este mundo.


*Violeta Parra era chilena, nasceu no ano de 1917 e suicidou-se aos 50 anos. Foi responsável pela reinvenção da música folk chilena e latinoamericana. Sua canção “Gracias a la vida”, que foi por muitos considerada uma carta de despedida, a projetou no cenário musical mundial, tendo sido interpretada por grandes nomes como Mercedes Sosa, Joan Baez e Elis Regina. A aclamada melodia de Violeta permanece até hoje como a canção latinoamericana mais interpretada mundo afora.

Música

Madonna, uma piriguete em Porto Alegre

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

No domingo do dia 9 de dezembro, Madonna esteve em Porto Alegre apresentando o show da turnê mundial de divulgação de seu novo álbum, “MDNA”. Em sua primeira visita à cidade, a cantora trouxe um espetáculo de música, dança e tecnologia dividido em quatro atos: Transgression, Prophecy, Masculine/Feminine e Celebration.

Aparentemente algumas pessoas esperavam um show de hits de toda a carreira, algo que nunca foi prometido. Como toda turnê que procura divulgar um novo disco, a MDNA Tour se propõe a apresentar as novas canções salpicadas com alguns hits escolhidos a dedo por Madonna.

O show, marcado para às 19:30, acabou tendo um cansativo atraso de três horas e meia, aplacado apenas pela aparição da cantora e seus bailarinos para uma passagem de som que divertiu quem já estava na espera desde cedo. Pior do que o atraso em si, foi a inclusão de dois inadequados sets de DJs antes do espetáculo. O que deveria ser uma abertura para aquecer para o show de Madonna transformou-se em um pesadelo audiofônico de duas horas (!?).

Pelas 23h, as luzes se apagaram e o espetáculo começou. O início do show é um tanto dark, com monges balançando um enorme turíbulo por cima da galera do gargarejo em um cenário de igreja gótica. Ao som de sinos e cantos gregorianos, alguns bailarinos surgem ao fundo vestidos de gárgulas. Madonna aparece dentro de um confessionário e começa a entoar os versos do single “Girl Gone Wild”. As músicas que seguem são “Revolver” e “Gang Bang”, durante as quais a cantora empunha um revólver que eventualmente usa para “matar” alguns dançarinos. No telão, gigantescas manchas de sangue surgem a cada tiro. O efeito é bacana, mas um tanto violento para o começo do show.

Os acordes de teclado de “Papa Don’t Preach” soam e amaciam um pouco o clima, botando todo mundo para cantar. Em seguida, Madonna é arrastada por alguns bailarinos para o centro do palco onde longos elásticos estão esticados. Equilibrando-se por entre eles, a cantora e os dançarinos apresentam o hit “Hung Up”. Na sequência, os monges surgem novamente para cantar a faixa hip hop “I Don’t Give a” com Madonna tocando um acorde que outro na guitarra. A nova música, um dueto com Nicki Minaj (que surge no telão vestida de freira) funciona muito bem ao vivo e encerra o primeiro ato do espetáculo.

Depois de um interlúdio de dança ao som de um remix de “Best Friend” com “Heartbeat”, o segundo ato do show tem início. Ao som de “Express Yourself”, Madonna reaparece com seus bailarinos vestidos de soldadinhos. O apelo visual é impressionante, com uma coreografia divertida utilizando estruturas que sobem e descem, soldados suspensos tocando tambor e ilustrações a la Lichtenstein pipocando no telão. No final da música, a cantora encaixa o refrão de “Born This Way” da Lady Gaga, debochando da perceptível semelhança entre as duas canções. Não bastando isso, a cantora alfineta Gaga cantando um trecho de “She’s Not Me”. Um rufar de tambores faz a transição para a próxima música, o primeiro single de “MDNA”, “Give Me All Your Luvin'”. Um interlúdio segue, mostrando no telão imagens das várias fases de Madonna ao som de trechos de seus hits, como se alguém estivesse sintonizando uma rádio. Uma apropriada introdução para o single mais recente da cantora, “Turn Up the Radio”. Das músicas novas, essa foi certamente a mais bem recebida pela galera, que cantou em peso a letra.

Chamando ao palco o trio basco Kalakan, Madonna cantou um arranjo percussivo minimalista bem bacana da clássica “Open Your Heart”, terminando em um trecho da canção “Sagarra Jo!” do próprio Kalakan. A performance contou também com uma aparição de Rocco, filho da cantora, que surgiu no palco fazendo passos de street dance. Dando uma pausa, Madonna interagiu com o público declarando que estava feliz por aquele ser o primeiro show dela no Brasil em que não estava chovendo. Contou que estava gripada devido à chuva que pegou nas outras cidades e confessou que não estava se sentindo bem para fazer o show em Porto Alegre, mas que decidiu fazê-lo depois de ver as carinhas sorridentes dos fãs. Arrã… Meio blablablá para justificar o atraso, né? Feito o mea culpa, falou alguns palavrões em português (“caralho”, “safada”, “piriguete”) e negou os pedidos dos fãs por “Holiday”, declarando que preferia tocar uma música em que pudesse sentar um pouco. A canção tocada foi a balada ganhadora do Globo de Ouro de Melhor Canção Original, “Masterpiece”, trilha do filme “W.E.”, escrito e dirigido pela cantora, mais uma vez com o ótimo acompanhamento do Kalakan.

O terceiro ato teve início com mais um interlúdio, dessa vez com os bailarinos vestidos de mímicos e dançando ao som de “Justify My Love”. O grande hit “Vogue” trouxe a cantora de volta ao palco em clima de fashion week. Acompanhada dos dançarinos, a cantora desfilou pelas passarelas e escadas em looks estilosos em preto e branco. “Candy Shop” e “Human Nature” vieram na sequência, com enormes espelhos deslizando pelo palco. Durante a música, a cantora foi fazendo um strip, revelando, ao final, uma palavra escrita nas costas: Safadinha. Madonna fez um discurso agradecendo a todas as mulheres que se sacrificam diariamente para defender seus direitos.

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imagem: Cassiano Rodka

Abrindo o quarto e último ato, mais um interlúdio. Eu sei que eles são necessários para a troca de roupas e cenários, mas podiam ter tentado fazer menos, eles quebram um pouco o ritmo do show. Ao som de “Nobody Knows Me”, vários rostos se misturavam no telão enquanto dançarinos vestidos de policiais e presidiários pulavam nos mesmos elásticos usados em “Hung Up”. Duas faixas dançantes do novo disco seguiram, o electro house “I’m Addicted”, com uma coreografia inspirada em kung fu, e “I’m a Sinner”, trazendo mais uma vez o trio Kalakan ao palco acompanhando Madonna na guitarra. Na sequência, um coro gospel começa a cantar a introdução de “Like a Prayer” e, talvez pela primeira vez, o estádio inteiro acompanha a cantoria em uma performance emocionante. No final da música, a cantora pegou da plateia uma bandeira do Brasil e girou com ela pelo palco. Depois agarrou uma camiseta verde e amarela e vestiu. Sinos de igreja soaram novamente, deixando claro que o ciclo do show estava se fechando. A última música do setlist foi “Celebration”, single retirado da coletânea homônima da cantora e que havia sido tocada na passagem de som previamente. No telão, vários cubos coloridos pulsavam, causando uma ilusão de ótica bem bacana enquanto Madonna e seus bailarinos dançavam com headphones coloridos pelas estruturas que subiam e desciam no palco.

No fim das contas, o show da MDNA Tour me pareceu menos interessante que o da turnê anterior. Tem pontos altos que te deixam boquiaberto, mas também possui alguns momentos que dão uma esfriada nos ânimos. A experiência em assistir um megashow da Madonna foi algo inédito para mim e posso afirmar que valeu a jornada. É um espetáculo audiovisual meticulosamente estruturado, que consegue unir diferentes formas de expressão artística para nos fazer viajar no universo pop muito particular desse inegável ícone da música.

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imagem: Cassiano Rodka